Essa história da cama compartilhada

Aqui foi assim: desde o começo, pensei que o melhor seria a pequena dormir num bercinho ao lado da nossa cama. Facilitaria para mim, por conta da amamentação à noite, pois quem amamenta sabe o quanto pode ser exaustivo levantar-se e ir até um outro quarto, dar de mamar, colocar o bebê para dormir e voltar para a cama. Todo esse ritual consome tanto tempo que logo o rebento chora de novo e o ciclo recomeça. E seria bom para ela também, já que estaria ali do lado, sentindo cheiro de mãe e pai, ouvindo nossos barulhos (recém-nascido sai de uma barriga barulhenta e silêncio pode ser aterrador) e nós os dela. Nada mais tranquilizador para uma mãe do que saber que pode escutar qualquer barulhinho da filha bebê e acudir em caso de necessidade. Enfim, belos planos e tudo poderia ter sido lindo e sem complicações. Mas a vida teima em nos desobedecer, né?

O cara-metade, por questões pessoais e culturais, cismou que bebê tinha que dormir no quarto dela desde o primeiro dia. Dependesse dele, ela até choraria para aprender a se acalmar e dormir sozinha desde o início, tão convencido que estava de que isso não apenas era o certo, como também era possível de fazer com um recém-nascido sem gerar uma enorme violência para um bebê indefeso e que precisa, antes de mais nada, da presença, da proximidade e do aconchego dos pais o tempo todo, até se sentir em segurança. Nada poderia ser mais contrário às minhas concepções e a conclusão disso é que a bebê foi para o quarto dela e a babá eletrônica ficou ligada no último volume do lado da minha orelha. E que a cada suspiro eu acordava e ia ver, para que ela não chorasse abandonada. Tomei para mim a responsabilidade de tratar seus choros como penso que eles deveriam ser tratados: como pedidos de socorro que precisam ser atendidos e não ignorados para que ela aprenda a se virar sozinha. Deu certo e a pequena seguiu bem cuidada, bem atendida em suas necessidades e sentindo-se protegida. Mas deu também em uma mãe exausta, muito mais exausta do que ficaria se as coisas tivessem acontecido de modo a facilitar ao máximo a vida das duas nesse primeiro momento. Resumo da opéra: o vai e vem entre quartos durou o primeiro mês. Em seguida eu fui para o quarto dela e comecei a amamentar deitada durante a noite, descansando mais e dormindo melhor. Ela também pareceu poder ter um sono mais sereno. Após cerca de seis meses, o cara-metade entendeu que a prioridade ali não era adestrar nossa filha para que ela dormisse sozinha a noite inteira e se virasse sozinha caso acordasse durante a noite. Ele entendeu também que meu conforto e meu descanso eram essenciais para que tudo corresse bem, especialmente a amamentação. E a pequena veio para nossa cama. E assim está até o momento.

Acho muito complicado dizer que é perigoso e nocivo fazer cama compartilhada e que é importante que o bebê durma sozinho desde sempre para ser independente. Perigoso é algo que pode ser evitado tomando-se umas tantas precauções quando o bebê dorme na mesma cama com os pais. E há estudos que mostram que bebês dormindo em seus quartos sozinhos correm mais riscos do que aqueles que dormem em cama compartilhada. Portanto, perigos existem para ambos os lados e podem ser evitados.

Quanto à nocividade, me parece curiosa a idéia. O primeiro argumento é a vida sexual e a intimidade do casal, invadidas pela presença da criança. E a resposta sempre boa e válida é que sexo e intimidade não dependem apenas de uma cama pois, se fosse assim, a vida dos casais seria bem entediante, não? Além do mais, a realidade é que a vida sexual e a intimidade de um casal ficam seriamente afetados quando nasce uma criança, onde quer que ela durma. Ficam afetados porque a mulher se fecha em uma bolha com seu bebê no começo da maternidade e é necessário que ela faça isso. Disso depende esse bebê e sua sobrevivência, de alguém que possa se dedicar a ele. Ficam afetados porque se na maior parte do tempo estamos exaustas. E isso mesmo quando pai e mãe cuidam do bebê. E a dinâmica do casal muda. Até que os dois se reinventem enquanto casal, criem novas intimidades e descubram novos modos de fazer antigas coisas. Ou seja, partilhar uma cama é o menor dos problemas de um casal quando eles se tornam pais, acreditem.

Mas tem também a idéia de que a criança vai ficar dependente e nunca mais vai querer sair dali. Que é análoga à idéia de que a criança que mama fica dependente do peito e nunca vai querer desmamar. Quer dizer, são as suposições de que ninguém vai querer largar algo que é bom. Nem que seja por outra coisa que é boa também. Então. Todos os relatos que eu li até hoje de desmame natural, assim como relatos das crianças que começam a dormir em seus próprios quartos desmentem essa crendice (um exemplo). Porque, ao contrário das crianças que não têm aquilo de que elas precisam no momento em que elas precisam e que passam o resto da vida reivindicando o que elas não tiveram, crianças que têm o que precisam na hora em que precisam parecem muito mais seguras para seguir adiante e deixar essas coisas quando elas deixam de ser necessárias. Curioso? Para mim parece fazer sentido. E é o que vejo acontecer muitas vezes, com pacientes e amigos.

O fato é que crianças precisam ser cuidadas, protegidas, aconchegadas. Mas elas também gostam muito de adquirir autonomia e ficam visivelmente satisfeitas quando conquistam alguma nova possibilidade emocional, física, intelectual… Não precisamos nos preocupar tanto assim: do mesmo modo como elas vêm, elas vão, e vêm e vão naquilo que precisam. Basta lhes darmos ouvidos e estarmos atentos aos seus sinais. E respeitarmos suas necessidades e limites.

Bons textos sobre o tema: aqui, aqui, aqui e aqui.

Frio na barriga

E lá fomos nós ao parque. E lá se foi você, andando sozinha até os brinquedos. Da última vez que ali estivemos, você precisava se apoiar ou engatinhar. E eis que um ano e um mês apenas depois de nascida você sai do colo assim, andando, toda cheia de sorrisos e alegria de reencontrar seu parque. Olha para trás uma vez e sorri para mim.

Pela primeira vez você sobe no brinquedo que leva ao escorregador. Sobe e desce as rampas, apoiada nas grades laterais, grudada nelas. Cada vez que um pezinho procura um apoio meu coração gela. Tenho medo que você caia, que se machuque. Tenho medo por você. O mais difícil é não me precipitar em te proteger e deixar você descobrir as coisas. O mais estranho é essa ambivalente sensação de orgulho, alegria e tristeza em te ver superando obstáculos. Você é marruda e insiste, vai se agarrando e consegue percorrer o brinquedo todo. Chega no escorregador orgulhosa e me sorri. Te ajudo a escorregar. Você recomeça tudo novamente.

Cada criança que passa você abre um largo sorriso, nariz franzido, carinha aberta e iluminada, sua maneira de dizer olá. Alguns sorriem de volta e você fica nesse jogo dos sorrisos trocados. Outros não te olham, mas você insiste. A maior parte das crianças é mais velha, mas você não se inibe. Se intromete em brincar junto, se aproxima, não tem medo.

Um garoto pequeno vem com uma mamadeira em punho te dar um abraço. Você perde o equilíbrio e os dois caem no chão. Ele levanta e você fica ali deitada, carinha estupefata, não sabe se quer levantar de novo ou ficar por ali mesmo. Não ri, não chora, apenas fica ali deitada na grama. A vida é surpreendente.

Por que eu não faria uma cesariana

Começo com a ressalva, para evitar mal-entendidos: se você fez uma cesariana ou quer fazer e está bem com isso, esse texto não é para você. Se você fez uma cesariana ou quer fazer e não está bem com isso, ou está em dúvida, ou insegura, ou com a pulga atrás da orelha, talvez esse texto seja para você. Mas já adianto que não é um texto muito condescendente e talvez te irrite, te aborreça, te deixe com raiva. Em qualquer dos casos, desculpe-me de antemão. Minha intenção não é te agredir. Apenas pensar em voz alta, por escrito, segundo meus valores e minhas crenças…

Um dos textos mais lindos e delicados sobre parto que eu já li é de uma mulher que ainda não pariu, a Juliana. Ela explica por que quer um parto normal, natural e humanizado para trazer ao mundo seu bebê. E concordo integralmente com o que ela diz.

Tive a sorte de ter um parto humanizado. E não apenas a sorte, visto que só foi possível ser assim após muita reflexão, informação e trabalho. Mesmo aqui na França, os partos são normais mas nada humanizados. E pouca gente parece se preocupar com isso. Mas eu me preocupei e consegui entrar em umas brechas do sistema e ter o parto que considerava o mais respeitoso e cuidadoso para minha filha.

Quando qualquer um escreve defendendo o parto humanizado, imediatamente pipocam centenas de comentários, na maior parte das vezes de mulheres que são mães e tiveram seus filhos por cesariana, defendendo essa via de nascimento com unhas e dentes. Porque isso não as faz menos mães. Como se alguém tivesse dito o contrário. Mas essas mulheres, empurradas para um procedimento cirúrgico desnecessário, altamente invasivo e debilitante e não sem consequências para ela e para o bebê parecem ter a necessidade de acreditar que sua opção não foi tão ruim assim. Mas sempre fica uma pulga atrás da orelha cutucando e corroendo o coração e o pensamento, né? E isso dói muito, cada vez que alguém toca no assunto.

Conheço mulheres que passaram por cesarianas de emergência sob os mais diversos argumentos. Sempre bom lembrar que existem poucos reais argumentos para uma cesariana e centenas de falsos pretextos, frutos da ganância do sistema hospitalar, da conveniência e da incompetência dos médicos e – por que não? – da desinformação e dos valores de mães, pais e da sociedade em geral. Ainda assim, tem gente que passa por uma cesariana de emergência por algum real motivo. E gente que passa por isso sem motivo algum. E até mesmo gente que escolhe passar por isso. Por quê? Não faço idéia. Ou melhor, tenho algumas idéias a respeito.

Mas isso fica para outra hora. Aqui, apresento a minha lista de por que eu não faria uma cesariana, a não ser que fosse realmente necessário.

  • porque nós mulheres parimos desde que a espécie humana existe e nunca precisamos de nenhuma intervenção para garantir que continuaríamos existindo. Ou seja, sabemos parir e podemos fazê-lo há milhares de anos.
  • porque não vejo nenhum sentido em utilizar um recurso quando ele não é necessário: por que optar por uma cirurgia se o bebê tem todas as condições de nascer naturalmente?
  • porque detesto intervenções médicas. Não faço plástica, não faço nada que não seja preciso. Não tenho a menor vontade de dar chance para o azar de um erro médico.
  • porque os médicos erram e a medicina é falível. Embora nunca nos digam, os médicos erram e a medicina é uma ciência totalmente apoiada em acertos e erros. E eu não tenho nenhuma intenção de constatar essa falibilidade da medicina na hora de botar um filho no mundo.
  • porque, ao contrário do que se diz, existem mais mortes de mães e de bebês por conta da cesariana e de outras intervenções praticadas no hospital do que por conta de partos normais que deram errado. Quer dizer: há mais cesarianas que dão errado do que partos normais, que tal?
  • porque um hospital, mesmo uma maternidade, é um terreno fértil para vírus, bactérias e toda sorte de porcarias que podem acabar te dando de brinde, além da cirurgia, uma bela infecção hospitalar.
  • porque não tenho a menor vontade de passar por um cirurgia imensa, em que todas as camadas até o meu útero serão cortadas e depois costuradas. E não tenho nenhuma vontade de passar pela recuperação dessa cirurgia depois.
  • porque, ao contrário do que dizem, você passa os dias seguintes com dor, sem conseguir se mexer direito, correndo risco dos pontos abrirem, infeccionarem, entupida de remédios… é uma cirurgia, minha gente, sacou?
  • porque não tenho a menor vontade de passar os primeiros momentos com o meu bebê amarrada, sem poder mexer os braços, sem poder tocá-lo, acolhê-lo, confortá-lo. O bebê chorando ali desesperado, precisando de mim e eu ali, toda aberta, anestesiada, sem poder fazer nada, tendo que me contentar em dar um beijinho e vendo ele ser levado para longe de mim, para poder revê-lo apenas muitas e muitas horas depois? Se isso não é de uma crueldade sem tamanho, então não sei o que poderia ser.
  • porque não quero que a primeira experiência que o meu bebê tenha desse mundo seja ser arrancado da minha barriga sem prévio aviso, por mãos indiferentes, para uma sala gelada e super iluminada, cheia de rostos estranhos e sem nenhum acolhimento. E que ele seja furado, esticado e virado do avesso em procedimentos que não precisam acontecer nesse momento e que apenas aumentam a violência com que é recebido. Para finalizar indo para um berçário, sendo lavado, vestido e deixado ali com outros bebês a chorar, naquele ambiente totalmente inóspito. Quem em sã consciência quer apresentar o mundo a seu filho dessa maneira quando tem outra opção?
  • porque parto normal dói menos do que cesariana. A prova? Não existe cesariana sem anestesia, né? Enquanto que um parto normal pode dispensá-la e, ainda assim, ter muito pouca dor.
  • porque quero ser agente do meu parto. Quero poder decidir, quero poder seguir o meu ritmo e o ritmo do meu bebê. E não ser objeto e deixá-lo ser objeto nas mãos de uma terceira pessoa que vai decidir tudo por nós sem nos consultar e sem considerar quem somos e o que queremos, apenas baseado naquilo que julga que precisamos.

Imagens

Com a publicação do post como convidada do Confessionário do bebe.com.br veio o pedido de uma imagem que acompanhasse o texto, de preferência minha com a minha bebê. Depois de muito pensar, enviei uma de minhas favoritas, em que ambas aparecemos de costas. O carinho, a afeição, a ternura e o amor estão todos ali, mas nossas caras e, especialmente, a da minha filha, não.

Quem acompanha o blog há algum tempo já reparou que eu nunca coloco fotos nossas. Nem mesmo o nome da bebê eu menciono. Isso não ocorre apenas aqui. No facebook, em que tenho uma página pessoal, se publiquei quatro ou cinco fotos da minha filha desde que nasceu foi muito. Por quê?

Frequento a internet desde que ela surgiu. Sou do tempo em que existia máquina de escrever e que para se comunicar com as pessoas usávamos telefone (fixo) ou carta. As informações levavam séculos para chegar, se comparadas com os dias de hoje e uma boa pesquisa bibliográfica em uma boa biblioteca era um tesouro precioso, pois encontrar informações levava tempo e demandava muita paciência. É, sou velha e vi a internet nascer. Assim como todos os antepassados do skype. E os antepassados do facebook. E do instagram. E do twitter. E das clouds. E por aí vai. Você já entenderam, eu sou velha, experiente e blá blá blá. Mas não tem nenhuma lição de moral aqui, vão vendo.

Eu vi todas essas revoluções da web surgirem e posso dizer que participei de quase todas. Difícil nomear um site do qual não participei, uma rede social, um protocolo de trocas P2P. Porque sou curiosa e, mais ainda, porque vejo esse tal mundo virtual como algo interessante e cheio de potencialidades formidáveis, algo explosivo e revolucionário mas, também, capaz de gerar verdadeiras bolas de neve de catástrofes.

Pouco a pouco fui entendendo que, na web, nada morre. Tudo fica para sempre e isso pode ser uma mão na roda quando você está procurando alguma informação sobre uma música meio obscura que escutou uma vez na vida, num festival nos anos 2000. Mas pode ser um verdadeiro pesadelo quando se trata de algo que, com o passar do tempo, você preferia esquecer. Eis aí o problema da net: quanto mais ela se expande e quanto mais ela se aprofunda, mas ficamos impedidos dessa função tão necessária para todo o ser humano: esquecer, apagar, deixar para trás. A net não nos permite. Quando me dei conta disso, mesmo continuando ativamente nesse mundo virtual, comecei a pensar melhor naquilo que gostaria de ter publicado a meu respeito. Não, isso não quer dizer que tenho algo a esconder. Isso quer dizer que tenho necessidade – como todo mundo – de privacidade. E privacidade não rima com esse mundo público, explícito e escancarado aqui.

Quando fiquei grávida, a necessidade que tenho de escrever atravessou também essa experiência e o blog surgiu. E tem existido desde então com posts mais ou menos pessoais. Mas procuro sempre manter aquilo que julgo um limite razoável entre desvelar e refletir. Pois, até por vício de profissão, sei que muitas vezes falar de si – no caso, um terapeuta que fala de si durante a sessão com o paciente, ao invés de deixar que ele fale – pode ser mais por exibicionismo do que servir a algum propósito útil. Então, até onde ir?

Mais do que isso, no entanto, foi a preocupação que nasceu com o nascimento da minha filha de uma superexposição dela. Vejam bem: eu conheço uma centena de blogs de maternidade que são super pessoais, que narram o cotidiano de mães, bebês, famílias, com fotos, fatos e tudo o mais. Conheço e adoro alguns deles. São bonitos, são tocantes. Podem servir de exemplo, de consolo, de inspiração. Mas eu não tenho essa pegada porque, como disse, me preocupo com outras coisas. E na maior parte das vezes me interesso mais em discutir idéias do que fatos. Deve ser outro vício de profissão, de acadêmica, de pensadora. Enfim.

O que me preocupa é que as gerações que nasceram depois da internet têm uma relação totalmente visceral com ela e tudo parece tão natural e evidente como alguém como eu jamais poderá sentir. E se isso é interessante, talvez bom e cria pessoas novas, com novas subjetividades e novas possibilidades, também cria novos riscos e novos perigos. E a superexposição é um deles.

Nem vou entrar no mérito das muitas notícias que lemos todos os dias de informações coletadas na internet e que servem para sequestros, assaltos, pedofilia, bullying entre coleguinhas de escola, demissão de emprego por justa causa e tantas outras coisas desagradáveis ou até mesmo trágicas que podem acontecer como consequência de rastros que deixamos aqui e ali, coisas das quais esquecemos, mas que a web não deixou se apagarem.

Com uma filha pequena, sinto que tenho a responsabilidade não apenas de protegê-la como também de não contribuir para que, desde o começo da sua existência, ela seja super exposta em suas mil caras, humores e experiências, a ponto da sua vida virar um livro aberto para todo mundo que quiser saber. Porque pode ser perigoso e, mais ainda, simplesmente porque não me acho no direito de decidir isso por ela.

Não me acho no direito de decidir quem vai acompanhar a sua vida com riqueza de detalhes, nem tudo o que vai ser dito a respeito do que ela vive. Novamente, não se trata de uma crítica a quem o faz. Já disse que alguns de meus blogs favoritos e de minhas blogueiras mais queridas têm justamente esse perfil. Estou apenas dividindo uma impressão minha, que é ainda mais forte naquilo que vejo exposto nas redes sociais do que em blogs de maternidade, por estranho que pareça.

Vocês podem me dizer que, contraditoriamente, eu escrevo sobre maternidade e muitas vezes escrevo sobre minha filha. E é verdade. E cada qual nessa blogosfera materna tem que descobrir qual é a sua fronteira entre público e privado, entre o que pode ser dito e o que deve ser silenciado. No meu caso, mais do que as palavras, a imagem é aquilo com que mais me preocupo.

Temos uma relação interessante com a imagem na nossa época. Se a palavra desliza, pode ir e vir e ser tomada como interpretação, licença poética, meia verdade, a imagem tem para nós uma rigidez muito maior: acreditamos que as imagens não mentem, que são a tradução literal de alguma verdade. Isso não é por acaso: desde que a fotografia surgiu ocupou a função de transcrição fidedigna da realidade. Como se aquilo que aparece na foto fosse o real, a tradução de um fato. Não é isso que concluímos quando folheamos revistas de celebridades ou assistimos aos jornais televisivos, que aquilo que eles mostram é real? Se com a palavra temos alguma condescendência, com a imagem nos jogamos sem nos questionarmos no reino da verdade absoluta. Eis algo da mentalidade de nosso tempo que ainda não se modificou, mesmo que hoje em dia tenhamos acesso à informação de que imagens são manipuladas, são leituras e são interpretações parciais: nós acreditamos nelas. Mesmo com photoshop. Então, as imagens de família, a meu ver, expõem de maneira diferente e mais intensa do que as histórias de família porque, com elas, achamos que estamos diante da verdade daquelas pessoas. E isso, na internet, se congela e se eterniza para sempre, essa verdade. Será bom para nossos filhos que tantas verdades absolutas sobre eles já estejam congeladas em imagens antes mesmo que eles aprendam a falar?

É claro que mesmo fora da web nós, mães e pais, falamos, mostramos fotos, contamos as peripécias. Mas aqui as coisas podem atingir um alcance que dificilmente teriam do “lado de fora”, a menos que fôssemos celebridades perseguidas por paparazzis 24 horas por dia. Para todos os outros, a benção do anonimato, da privacidade e de passar incógnito. Não é um bálsamo em tempos de tanta exposição?

Não tenho ilusões: minha filha vive nesse tempo e vai se relacionar com esse mundo, dentro e fora da net. Mas não será mais justo deixar que ela como pretende fazer isso decida quando tiver condições?

E foi dada a largada!

Mal tivemos tempo de assoprar a velinha de um ano e comer um pedaço de bolo. A pequena mal teve tempo de começar a andar e explorar seus presentes de aniversário. E eis que surge a inevitável pergunta:

- Ainda mama?

- Mama.

- Vai mamar até quando?

- Até quando ela quiser.

- Mas então ela não vai parar nunca. Se a gente não desmama, o bebê não para sozinho.

Silêncio… Tentando imaginar de onde pode ter surgido uma idéia tão absurda que supõe que um bebê que é capaz de mamar quando precisa e não mamar quando não precisa, cotidianamente, persistiria mamando em nome de sei lá o quê até sei lá quando.

- Claro que vai.

- Sei. Mas desse jeito você vai ter que fazer uma plástica quando ela parar porque seus peitos vão ficar no chão.

Silêncio estupefato tentando imaginar um ser que vai mamar até a idade adulta em meus seios caídos varrendo o chão da sala.

Queria entender o que leva as pessoas a esse tipo de convicção. E mais ainda o que as leva a deixarem escorregar boca afora antes mesmo de pensar naquilo que vão dizer. Então um bebê não desmama sozinho, se respeitarmos seu tempo e seu ritmo, tão somente porque deixa de ser necessário, já que ele encontra outras formas de nutrição, de proteção e de afeto? Então temos que impor um fim numa data qualquer tirada da cartola e que nos parece ser a data em que bebês deveriam parar de mamar? Então somos nós que decidimos essa data?

Não vou entrar aqui na discussão a respeito das mães que decidem parar de amamentar em um determinado momento, por qualquer razão que seja. Não vou entrar no mérito das mães que acham que devem conduzir o desmame ou impor algum limite. O desmame, assim como a amamentação, é do bebê e da mãe e apenas aos dois cabe decidir. Ninguém tem nada com isso. Ou não deveria ter. Nem com peitos arrastando no chão pois, sejamos francas, não é esse o destino de todas nós? Ou quem não amamenta ou para de amamentar com medo dos peitos caírem acha que passou incólume pelas leis da gravidade? E, convenhamos, se isso é insuportável, cirurgia plástica existe e está aí para todo mundo que quiser consumir e puder pagar, né?

Por que é que a chegada do primeiro ano libera nas pessoas uma impressão de que, a partir dali, tudo é permitido? Parar de mamar? Demorou. Comer doces, chocolate, tudo o que for bem cheio de açúcar e não trouxer nenhum benefício para o bebê? Claro, porque, afinal, ele vai acabar comendo mesmo. Ver TV, vídeos no iPad, joguinhos no celular? Sim, afinal, é entretenimento de excelente qualidade e totalmente apropriado para uma criança, especialmente uma criança bem pequena que está formando todas as suas conexões cerebrais e constituindo seu modo de conhecer o mundo. Esses tapa-buraco eletrônicos estão realmente oferecendo tudo o que ela precisa nesse momento: contato, presença de outros, interação… Ah, mas ela gosta, olha só, ela fica olhando entretida. Claro, meu bem, quem não olharia entretido para algo que é feito para ser hipnotizante? Assumamos: é só um cala-a-boca, fica quieto aí, que faz as vezes de sossega-leão quando o que os adultos querem é ter sossego. E uma criança de um ano que começa a andar é tudo menos sossego. O mesmo vale para o açúcar e toda sorte de porcarias que as pessoas acreditam piamente que devem ser apresentadas à criança tão logo a primeira velinha se apague.

Funciona assim: até agora toleramos mais ou menos que você, mãe, cuide do seu filho como acredita ser o melhor. Mas agora ele não é mais um bebê e deve ser introduzido ao mundo real, aquele no qual vai viver para toda vida. E o mundo real é feito de decisões arbitrárias a seu respeito, onde a única coisa que não conta são suas necessidades e possibilidades. E muito açúcar, muita TV, muitos eletrônicos, muito consumo de coisas sem substância. Em todos os sentidos. Esse é o mundo real que aguardamos tão ansiosamente apresentar para nossos filhos que mal eles completam um ano já temos que enfiá-lo goela abaixo? Putz!

Foi dada a largada. Salve-se quem puder.

O preço que se paga

Logo que vim morar na França, em princípio por conta de uma bolsa-sanduíche de doutorado, muita gente vinha falar comigo de sua vontade imensa de fazer o mesmo. Morar fora, passar um tempo fora, ainda mais por conta de um projeto de pesquisa, ainda mais na França… que sonho! As pessoas vinham sondar: afinal, como é que você conseguiu isso? E quando ouviam minhas histórias sobre todo o trabalho que dá fazer uma pesquisa de pós-graduação e, mais ainda, sair do país por conta dela, murchavam um pouquinho. Conclusão: dessas tantas pessoas, apenas uma ou outra realmente foram atrás daquilo que diziam querer, ou seja, de morar fora, de estudar fora, de passar um tempo fora.

Não é segredo para ninguém que temos – nós, seres humanos em geral – esse hábito interessante de imaginar que sempre existe um lugar onde as coisas são muito melhores do que são para a gente. Esse lugar pode ser um outro país. Ou a vida de uma outra pessoa. Entre a inveja e a admiração, passamos mais ou menos tempo de nossas vidas olhando para os outros e nos indagando por que eles conseguem, por que para eles é assim, como é que na vida deles tudo parece acontecer tão facilmente?

Segredo: não é. Mas mesmo assim preferimos acreditar que existe o paraíso na terra e que ao menos algumas pessoas chegam naquele tal ideal que nos parece tão longe. Melhor sofrer por se achar incompetente, insuficiente ou menor do que sofrer por constatar que a vida é assim, meio errada, meio tortuosa, cheia de frustrações e desencontros e sem final feliz, não é mesmo?

Com a história da gravidez e da maternidade, o interesse que antes se concentrava em meu percurso profissional que culminou nessa estada fora do país se voltou, também, para minha vida pessoal. Eu já fui casada, já não tive filhos, já me separei, já cheguei perto da idade em que nada disso era mais prioridade e nem parecia possível de acontecer novamente em minha vida. E aconteceu. Então, as pessoas afluem curiosas: mas como foi? Como aconteceu? Como você encontrou alguém? Onde? De que jeito? Como fez?

Conheço muitas mulheres mais ou menos da minha idade com percursos parecidos com o que fiz. E, dentre elas, muitas que não se casaram ou não tiveram filhos. A menor parte delas por opção. Das que não optaram, são raríssimas as que parecem bem resolvidas com o rumo de suas vidas. A maior parte se queixa, muitas ainda esperam, todas lamentam o que não foi.

Tenho amigas brilhantes, poderosas e interessantes que passaram um tempo enorme investindo em suas carreiras e, quando foram se perguntar se por acaso queriam família e filhos, se desesperaram. Não sabiam o que responder. Essa inquietude, seria ela o tal relógio biológico soando em altos brados? Seria o desejo de encontrar alguém, de ter filhos, até então deixado de lado por conta do investimento estar todo em outro lugar? Seria a pressão social presente de maneira cruel em comentários, perguntas, filmes, situações que jogam na cara, constantemente, que mulheres que não se casam e não tem filhos são incompletas e infelizes?

Não sei, penso que para cada uma delas a resposta é um belo combo de todos esses fatores em diferentes proporções: desejo, pressão, medo, dúvida. O tempo passando e cada uma dessas mulheres sendo confrontada com a necessidade de dar uma resposta que aquiete seu coração e faça os outros pararem de aporrinhar. Tarefa difícil.

Conheço mulheres que, frente a esse dilema tentam responder como responderam a tudo aquilo que viveram até então: marido, filhos, família se tornam apenas outros itens banais de um planning em que seria possível estabelecer metas e cumpri-las. Como se bastasse, a qualquer momento da vida, apenas decidir que queremos encontrar alguém, que esse alguém seja legal, que decidamos viver junto e que queiramos ter filhos para que, como num passe de mágica, tudo isso se realize. Perfeitamente. Como em um script. Quanto mais essas mulheres foram acostumadas a dirigirem suas vidas e suas escolhas, a se traçarem objetivos e cumpri-los, a terem êxito em seus projetos e a concretizá-los com louvores mais chances de que inventem esse projeto relacionamento-casamento-maternidade nos mesmos moldes. E esperem que assim funcione.

Outro segredo: não funciona.

Lembro de uma paciente que atendi por muito tempo e que, em torno de seus 45 anos, decidiu que queria ter filhos. Era casada, tinha uma carreira bem sucedida, uma relação feliz e amorosa com seu companheiro e decidiu ter filhos. Porque queria, porque queria ser mãe, porque não queria deixar de viver isso e se arrepender no futuro… enfim, por muitas razões. A gravidez não aconteceu. E não aconteceu. E não aconteceu. E não aconteceu. E na hora em que não aconteceu saiu do esquema, escapou ao controle, não obedeceu ao seu projeto. E virou questão de honra. Virou obsessão. E ela que era alguém antes disso, que era mulher, que era profissional, que era interessante, interessada e tinha tantos interesses e planos virou apenas aquela que queria ter filhos. Ter filhos virou o único objetivo da vida, o único desejo, a única possibilidade. Será que era apenas porque não poderia ser? Não sei, mas virou.

Essa mulher fez tratamento e gastou tempo, dinheiro, investimento e dedicação a um sem número de inseminações artificiais. Que não funcionaram. A cada vez ela se animava de que poderia ser aquela. E a cada vez não era. E em meio ao desespero que tomou conta da sua vida ela tentava parecer cool, como se nem quisesse tanto assim, como se estivesse tranquila. Sabe aquela frase cruel que dizem: quando você desencanar acontece? Ela levava ao pé da letra e tentava forçar uma desencanação para ver se enganava à si mesma, ao destino, aos embriões implantados e a quem mais fosse necessário para que a frase se realizasse para ela. Fingia desencanar para ver se acontecia. E nem assim acontecia. O tal destino parece que não se deixa enganar.

Por que estou escrevendo tudo isso? Porque, bom, do mesmo jeito que as pessoas querem saber como é morar fora do país porque querem morar fora do país elas também ou querem saber como é encontrar alguém, ficar junto e ter filhos porque também querem encontrar alguém, ficar juntos e terem filhos… em todos esses casos em que olhamos a grama ou a vida do vizinho e vemos ali aquilo que queremos e que parece tão fácil para aquela pessoa ignoramos, ou preferimos ignorar, o trabalho que isso dá. O que ninguém quer saber porque pouca gente quer se comprometer é com o preço que se paga.

Nós mulheres pós revolução feminista crescemos ouvindo martelarem em nossos ouvidos que podemos tudo e que temos direito a tudo. Não existe limite algum para nosso querer e para o que podemos conseguir. O que era uma desigualdade de gênero que impunha restrições e precisava e precisa ainda ser desfeita e questionada tornou-se uma ladainha do podemos ter tudo o que quisermos nessa vida.

Mais um segredo: não podemos. Ninguém pode. E não é pelo fato de sermos mulheres em um mundo machista. É apenas a consequência do fato de sermos humanos, de fazermos escolhas e de vivermos no tempo.

Temos o direito e temos condições de viver nossas vidas com tanta liberdade quanto quisermos de construirmos os projetos que desejarmos para nós mesmas. Ou deveríamos ter. Mas o que ninguém nos conta nessa empolgação por tomar o mundo e torná-lo nosso é que faremos uma porção de coisas e teremos que deixar de lado outras tantas.

Muitas vezes nos investimos em nossa carreira, em nosso trabalho, em nossos interesses pessoais e a vida transcorre bem assim, cheia de potências, cheia de satisfações e de sucessos. E então chega um momento que as pessoas chamam de “relógio biológico” e que eu prefiro pensar que é apenas uma tomada de consciência do tempo. Sim, o tempo existe, o relógio existe e os limites existem. Qual o impacto dessa constatação para as mulheres que passaram a vida acreditando que poderiam fazer tudo? Posso dizer daquilo que já testemunhei muitas e muitas vezes: é devastador.

Ninguém precisa querer casar, querer ter filhos ou formar uma família. Passamos do tempo em que tínhamos obrigação de preservar a espécie e vivemos em um mundo superlotado e cheio de problemas por conta da espécie humana portanto, ninguém mais precisa se reproduzir. Mas pouca gente consegue assumir numa boa que fez escolhas que não priorizaram família, filhos, relacionamentos. E que essas escolhas os levaram a uma vida sem família, filhos e relacionamentos. A maior parte de nós se dá conta que o tempo passou e que as oportunidades ficaram para trás. E nos sentimos traídos por nossas escolhas, pelo mundo, pela vida, por Deus, por nossos desejos. E decidimos tornar isso uma questão de honra e desafiar nossa própria trajetória para provar, custe o que custe que, sim, podemos, sim, podemos o que quisermos quando quisermos. Sem limites.

Ah, mas hoje em dia não tem mais isso. Com a tecnologia a mulher pode engravidar até os 60 anos de idade. Pois é, mais uma balela que apazigua muita gente que acredita mesmo que a tecnologia vai garantir esse tempo indeterminado para nós. E que podemos continuar mais um pouco com o que estamos fazendo porque ali na frente uma intervenção qualquer dará conta disso.

Ainda mais um segredo: mesmo com todas as técnicas de reprodução assistida e com o avanço das mesmas, a grande maioria esmagadora dos casos é de… fracassos. Ou seja, na maior parte das vezes não funciona.

Então, quando me perguntam como é que eu fiz para encontrar alguém e ter filhos, o que tenho vontade de responder é: aceitei pagar o preço. Qual preço? O de não saber se é o melhor momento, o de não saber se é o cara certo, o de não saber se vai dar certo, o de não saber. Aceitei pagar o preço de não poder controlar algo que envolve outras pessoas, afetos e disponibilidades como poderia controlar uma pesquisa de pós-doutorado, um texto, um artigo, uma aula a ser dada ou o tempo de sessão de um paciente. Relações e filhos escapam. E talvez funcionem se aceitamos pagar o preço da angústia que é vê-los escaparem.

Hoje em dia demoramos muito mais tempo para começar a pensar em filhos porque muitas de nós temos outros interesses e prioridades e isso é legítimo. Mas não dá para negar que é uma escolha e que, como toda escolha, traz consequências. Uma delas é que na hora em que começarmos a pensar no assunto pode ser tarde demais. Acho complicada essa idéia de que podemos tudo e que podemos adiar todos os projetos indefinidamente porque a ciência ou o que quer que seja vão resolver os limites para a gente ali na frente. Isso é uma mentira na qual escolhemos acreditar porque nos conforta imaginarmos que, enquanto investimos em alguma coisa, tudo o mais vai ficar em standby esperando. Não fica. Os caras legais e os não legais vão chegar e partir, vão viver suas vidas, vão encontrar pessoas, vão viver com elas, ter filhos ou não, se separar ou permanecer solteiros… a vida das pessoas vai acontecer à nossa revelia. E mais para frente vamos encontrá-los com um monte de bagagem das histórias que viveram e, se quisermos uma relação, teremos que nos haver com isso.

Não dá para querer encontrar alguém depois dos 30 achando que vai ser o conto de fadas dos 20 porque, simplesmente, depois dos 30 a maioria das pessoas já passou por um monte de coisas, já está calejado, desconfiado, realista. Então, para as amigas que estão com o famigerado “relógio biológico apitando” e não encontram ninguém, a pergunta que eu faria é: mas quem vocês querem encontrar? Porque, a essa altura do campeonato, não vão encontrar os caras voluntariosos e inconsequentes dos seus 20 anos. E, se encontrarem, fujam correndo porque, depois dos 30, gente porra louca é neurose grave e não um grande achado. Ter uma família dá muito trabalho em qualquer tempo, então não adianta querer algo e não querer pagar o preço disso.

Um ano

Um ano é um tempo no tempo. Um tempo curto, um tempo longo. Borboletas não duram nem um ano. Elefantes duram mais de uma centena. O universo nem se importa com um mísero ano. Mas você fez um ano. E um ano é uma vida inteira de alegrias, descobertas e invenções. Têm coisas que não se dizem. Em um ano, a maioria das coisas não há como dizer. Sentimos. Vivemos. Estávamos lá. Estamos aqui.

Poderíamos falar de um ano em um ano de acontecimentos. Daquela noite em que mamou pela primeira vez me olhando nos olhos. Dos momentos de paz e plenitude dormindo no sling. Do primeiro banho de mar com a vovó. Das histórias que o papai lê para você em português com sotaque. Das exposições de arte e dos piqueniques. Dos cuidados da Jurema. E das roupas de astronauta para esquentar no inverno. Do seu sorriso num dia de sol, chapeuzinho na cabeça, corada, na beira do mar. Do dia que engatinhou para frente pela primeira vez, depois de engatinhar de ré um tempão. Do primeiro mamãe, ao acordar, no Brasil. Do discurso que fez no avião, falando na sua língua bebezística, dedinho levantado, metade das pessoas encantadas. De sair no terraço e gritar pra todo mundo ouvir. Das sonecas deliciosas no colo do vovô ou da tatavó. Da titia te inventando apelidos. Das gatinhas que te encantam e que fizeram você falar “cat” (gato com chat) e “lolô”. Da carinha de sapeca sorridente. Da carinha de simpaticona séria. Do chorinho de diva, jogando a cabeça para trás. Você atenta descobrindo algo. A comedora de livros. A ouvidora de histórias. A contadora de histórias. O riso estampado no rosto, a gargalhada. O cheirinho, o beijo estalado. O abraço. Você engatinhando sem tocar os joelhos no chão. Ou com apenas três apoios. As idas ao parque e seu encontro com outras crianças. Sua alegria em descobrir outras crianças. Seu jeito divertido de dançar. Os pés descalços. Seu amor pela música. E pelo “parabéns pra você”. Sua surpresa ao ver formigas. A água que você gosta de beber no copo e que virou “apa”. Mamar fazendo alongamento. Mamar sorrindo. Rir das minhas palhaçadas. As descobertas culinárias. Seu gosto por mangas, bananas, melancia, morangos, cerejas, pêssegos, ameixas, abricots, abacaxis, laranjas… Sua cara lambuzada de iogurte. Seu amor bem francês por tudo quanto é queijo. E pelos pães. E por tomates, pimentões, peixe e espinafre. Os dentes coçando na boca. As gavetas abertas com tudo esparramado pelo chão. O dia em que você aprendeu a guardar, tirar e por. O dia em que aprendeu a apontar. Comer uma flor. Descobrir as folhas secas no chão. O vento batendo nos seus cabelos e você tranquila dormindo. Não. Um ano de acontecimentos não são tradução suficiente deste tempo.

Você pegou uma sacola de presente e saiu andando sozinha sem apoio nenhum pela primeira vez na sua festa de um ano. Festa em que estávamos todos presentes, ali. Sua família, os amigos-irmãos, os filhos dos amigos que, espero, amigos serão também. A Cecília e você batendo papo de bebê. Como sempre. A Bebel que te adora. O Davi, seu primeiro amor. A Luíza, miudinha, pequenina e olhando tudo bem atenta. O Marquinhos correndo para todo lado, montando e desmontando a festa, fazendo banda e brincando com os mais velhos. Você andando apoiada numa bicicletinha do seu primo, que te ajudou a abrir todos os presentes. Atenta, sorridente, séria, simpática. Feliz. Teve festa e festejamos. Festejamos esse seu tempo. Festejamos essa eternidade de um ano. O melhor tempo.

Te amo, minha filha. Parabéns!

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

Tem horas em que a gente simplesmente não sabe…

… o que fazer, o que dizer, para onde ir. Parece que é assim. Na maternidade e na vida, existem vários momentos em que simplesmente não sabemos.

Não que pudéssemos saber tudo, eis aí uma onipotência que é desconstruída dia a dia quando nos tornamos mães. Isso se ela já não havia sido desfeita antes pela própria vida. Não tem como saber, não tem como controlar. No final, o que podemos é muito pouco. E o cotidiano é o permanente jogo entre esse pouco que podemos e o que tentamos fazer com ele. Para ver se estica, se puxa e se chega até ali.

Escrevo com frequência sobre a saga da amamentação. Porque adoro amamentar. Porque acho importante. Porque percebo que um dos fatores que mais a dificultam é que não pensamos sobre ela, achando que é fácil, natural e que vai acontecer em um passe de mágica. Contando com essa naturalidade e mais um monte de informações desencontradas, quando não errôneas, eis uma boa receita para o bolo desandar na hora em que aparecer o primeiro grão de real nessa idealização cheia de facilidade. Enfim…

Por aqui e por aí, amamentar é um projeto de vida, daqueles que você precisa abraçar e se dedicar com afinco para que dê certo. Para aprender, para que seu filho aprenda, para que aprendam juntos, para que tudo se meta em andamento e funcione. E depois de uns dois meses você se descobre mais leve e apaziguada com a amamentação, alguma coisa entrou nos eixos e passa a caminhar por si. Bebê pede, bebê mama, tudo fica mais fácil. A meta são os seis meses, os seis meses de aleitamento exclusivo, que indicam que vocês venceram o grande desafio e podem celebrar tanta persistência e tanta dedicação. Podem mesmo. Mas não acaba aí.

Se podemos contar com a blogosfera e com uma série de referências e grupos que buscam informar e apoiar mães que querem amamentar sobre como fazer nesses primeiros meses, um silêncio enorme se faz depois disso, com a diversificação alimentar. Como é que fica amamentar depois que o bebê começa a comer outros alimentos?

No começo desses pós seis meses, fica tudo muito parecido com o que era antes, tendo em vista que o pequeno nem percebe que está comendo. Os alimentos vão para a boca como tudo o mais, numa espécie de brincadeira divertida com gostos, texturas e cores. Comida vai para a boca e é engolida eventualmente enquanto que outras coisas não. Ou espera-se que não, né? Porque tem pequenos que adoram engolir um papel aqui, uma folhinha acolá…

Mas passam-se novamente uns dois meses e comer outros alimentos entra em velocidade cruzeiro. E, como tudo mais nesse planeta maternália, basta que algo se estabilize e nos acostumemos a ele para que tudo mude novamente. Putz, não tem linha de chegada não?

Não.

Fato é que são praticamente inexistentes informações sobre como amamentar depois dos primeiros seis. Livre demanda? Continua. A menos que você queira começar a arbitrar sobre algo em que, até então, tinha optado por respeitar ritmo e necessidade do rebento. Mas e quando livre demanda significa bebê comer e mamar em seguida? E quando livre demanda significa bebê não querer comer e querer mamar? E quando significa bebê voltar a querer mamar duas ou três vezes por noite?

Pois é, você achando que quando algo engrena é sempre um movimento de progressão, onde o adquirido permanece e novos desafios surgem. Mas e se o movimento não é progressivo, evolutivo ou qualquer outro adjetivo desinvolvimentista para definir como os bebês deveriam ser? E se têm idas e vindas, retornos inesperados, isso quer dizer que há um problema? Ou é apenas assim, tão incerto como a vida?

Nesses dias, entre hipóteses de salto de desenvolvimento, dentes, angústia de separação ou fracasso na estratégia da diversificação alimentar, me dei conta do quão pouco sabemos sobre como se chega de um lugar a outro. Como é que um bebê come ou dorme a noite inteira sem o uso de técnicas de adestramento, sem imposições que desconsiderem o que ele precisa ou pode?