Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

Coisas curiosas e outras tantas incompreensíveis

Acho que um dos motivos que me fez querer ser psicóloga é que não entendo as pessoas. Não apenas não entendo a mim mesma, o que já seria motivo suficiente para uma grande perplexidade, mas não para querer ser psicóloga e sim para ir buscar análise. Não entendo os outros também, de maneira geral e quase irrestrita. Tudo bem que o outro é, por definição, opaco. Tendo em vista que nós só podemos olhar para os outros e para o mundo de nossa própria perspectiva, sempre teremos uma idéia muito parcial e tendenciosa do que seja estar na pele ou na vida de outro alguém. É por isso que existe a idéia e a experiência da empatia, que seria tentar se colocar no lugar do outro e olhar por sua perspectiva. Tentar. Tentar imaginar como o outro vive, como se sente e por que é como é. Difícil ter empatia, ainda mais em tempos tão áridos para as relações humanas. Por vezes não conseguimos nem ter empatia com os próprios filhos, que dirá com desconhecidos.

Daquilo que não entendo nas pessoas de maneira geral, uma das coisas que me deixa mais perplexa é essa característica de deixar nas mãos de um outro algo acerca da própria vida. Deixar que decidam, que digam, que saibam no seu lugar enquanto você não sabe nada, ignora, nem quer saber, se envolver, escolher ou decidir… eis um modo de ser que me deixa completamente estupefata. Quem em sã consciência pode preferir que outra pessoa decida no seu lugar sobre qualquer coisa? E quando essa coisa sobre a qual se decide tem imensa importância, então fico ainda mais perplexa.

Ok que alguém decida por você qual a cor do papel higiênico que terá no seu banheiro. Afinal, desde que nos tornamos adultos somos bombardeados com uma tal quantidade de escolhas a fazer que é sempre um alento não precisar pensar em tudo. Mas, e quando a decisão é algo um pouquinho mais importante do que isso, E quando é, por exemplo, algo que envolve sua vida e sua saúde? E quando envolve a vida e a saúde do seu filho?

Talvez nossa primeira tendência seria responder: ah, não! Claro que eu não deixaria alguém decidir no meu lugar sobre coisas tão fundamentais como a minha saúde ou a do meu filho. Eu quero o melhor para mim e para ele, quero o melhor para minha família e para aqueles que eu amo. Então, é claro, sou eu que vou escolher e vou escolher o melhor. E então, desse lugar de quem vai fazer uma escolha essa pessoa, muitas vezes, escolhe deixar sua saúde, sua vida e a do seu filho nas mãos de um outro. Entrega a si e aos seus a uma outra pessoa. Essa é a sua escolha. Essa é sua decisão. Aquilo que La Boétie chamou de servidão voluntária: eu, do alto da minha liberdade de escolha decido ser escravo do outro.

Não vou discutir aqui por que razões uma pessoa faz essa opção. Não vou discutir se é alienação, ignorância ou apenas a vontade de não ter que decidir sobre si para não ter nenhuma responsabilidade sobre o que acontecer depois. Não vou discutir sobre o conforto de ter sempre um outro a quem atribuir a culpa e nem sobre a falsa tranquilidade em poder dizer “não fui eu que fiz”. Muitos podem ser os motivos e todos eles podem ser compreensíveis e compreendidos. E que haja um motivo e que seja humano, isso não diminui minha perplexidade em nada. Será que a responsabilidade de falar em nome próprio é tão grande, tão pesada, tão oprimente que se largar na mão do outro parece uma melhor opção? Será que é tanta a angústia por essa impossibilidade de termos certeza absoluta sobre o que é a melhor escolha o que nos impede de decidirmos? Por medo do erro, de mudar de idéia, da culpa ou da impossibilidade de voltarmos atrás preferimos abdicar da decisão?

Vira e mexe leio alguns comentários que dizem: Deus decide, deixo nas mãos de Deus. Ou outros que dizem: o médico sabe, o médico decide. A mesma lógica de deixar para um outro uma decisão que seria de sua inteira responsabilidade. Sim, muita coisa nos escapa nessa vida e não conseguimos controlar quase nada, mas daí a colocar nas mãos de Deus uma decisão sobre sua vida e a do seu filho… como assim? E nas mãos dos médicos então? Então não é preciso fazer nada, informar-se sobre nada, tentar conseguir o melhor, lutar por algo que pareça humano porque Deus e seu emissário, o médico, cuidam de tudo?

Não, realmente não consigo entender.

Das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil…

… ou como a comida é cultura.

Sabe quando você está grávida e um monte de gente vem te dizer o que pode ou não comer durante a gravidez? Então, o fato de viver na França e manter contato com o Brasil durante esse período me fez perceber que a grande maioria das indicações e restrições alimentares nesse período são culturais, questão de tradição, hábito. Mas nada se compara ao peso que tem a cultura na alimentação depois que o bebê nasce e quando, finalmente, ele começa a comer outras coisas além do leite materno. Lendo apenas as indicações sobre diversificação alimentar fornecidas em documentos oficiais de um país e do outro, além das orientações dadas pelos médicos dos dois lugares, já dá para ficar de cabelo em pé, sem saber o que fazer. Conclusão? Sei lá, vai vendo:

  • pão: o pão aqui na França é uma coisa sagrada. Franceses não acreditam que pão engorda e vão brigar feio contigo se tentar convencê-los que boa parte das dietas pelo mundo afora tira o pão da alimentação cotidiana. Pão, para eles, é como nosso arroz com feijão, acompanha tudo. Eles comem macarrão com pão, pizza com pão e até feijoada já tentaram comer com pão mas daí eu subi nas tamancas porque era demais! Enfim, pão é a base da alimentação e, mais do que isso, eles fazem pães deliciosos. Portanto, sua criança, desde que começar a comer, vai sempre ganhar um naco de pão para ficar mordendo. Vai ganhar pão quando coçar os dentes. E vai ganhar pão quando estiver resmungando na mesa por qualquer motivo, que seja fome ou não. Pão, meus queridos, muito pão.
  • frutas exóticas, vulgo, manga, banana, melancia… (oi?). Então, nossas frutas são exóticas e então os franceses vão te aconselhar a não dar nada disso pro bebê. Por que arriscar uma reação alérgica por causa de uma fruta que ele quase nunca vai comer, né? É nada, cara pálida, que minha filha come banana, manga e melancia como se não houvesse amanhã e nunca teve reação alérgica nenhuma. A única reação dela foi ficar deprimida porque as bananas aqui não têm gosto de nada e a melancia é mais sem graça do que água. Mas, falando sério, até faz sentido como recomendação, né? É como no Brasil, que te orientam a não dar kiwi pro bebê porque pode dar alergia. Kiwi, essa frutinha esquisita que lembra uma parte pouco atraente do corpo masculino. Pois bem, aqui kiwi é tão comum que antes de eu poder falar “dá alergia, não pode dar pra menina ainda” ela já tinha mastigado, engolido e ainda estava achando graça.
  • maçãs: todo mundo ama. Todo mundo come compota de maçã nesse país, todo mundo faz compota de maçã. Maçã é a banana dos franceses, sabe? Então, lá foi o cara-metade todo pimpão oferecer uma maçãzinha pra nossa filhota. Hehehe, ela prefere banana.
  • queijos: putz! Tenho um sobrinho de quatro anos que mal come queijo branco. Os filhos de algumas amigas não comem queijo. O pediatra no Brasil me falou que queijo era nem pensar nunca em tempo algum só lá pela adolescência porque queijo pode dar um monte de alergias. Hahahahaha, meu querido, estamos na França, o universo paralelo onde cada metro quadrado de terra tem seu queijo específico feito com o leite específico da sua vaca específica. Aqui tem mais de 500 tipos diferentes de queijo. Eu não conheço os 500, mas conheço uma centena pelo menos e posso garantir que é de matar. Conclusão: depois do pão, a primeira coisa que vão botar na mão da sua filha é um pedacinho de queijo. E não vai ser um queijinho branco, não, nem uma mozzarella. Vai ser um queijo de verdade, daqueles com gosto de queijo. E a família vai ficar toda orgulhosa olhando a pimpolha mandar aquele queijinho pra dentro da goela. E o cara-metade vai ficar todo pimpão porque a filhota ama os queijos da região dele. E o vovô também. Assim como a vovó. E até você, mamãe, que é brasileira mas é queijeira vai sorrir assim com o peito empinado, sorridente porque sua filha não toma leite de vaca mas, dos laticínios existentes, escolheu o queijo para chamar de seu. E queijo a gente pode, né? Até o dia em que ela abocanha um camembert e você espera uma tragédia nas fraldas. Nada. Nadica de nada. É uma francesa, o pai decreta. As amigas brasileiras ficam aterrorizadas.
  • carne crua: não pode, não pode, não pode. A menos que você more em São Paulo, maior colônia japonesa fora do Japão. A filha de uma grande amiga começou a comer peixe cru aos oito meses. Aqui, as amigas francesas ficariam apavoradas. Putz, minha filha está atrasada! O duro é achar restaurante japonês bom por aqui.
  • grãos: depois dos dois anos de idade. Como é? E o arroz? E o feijão? A pequena não nega a brasilidade e os grãos estão todos aí. E ela se esbalda. Se colocar uma farinha de mandioca em cima do feijão preto então… Putz!

Ontem e hoje…

… você saiu andando e foi olhar pela janela. Uma menina feita. Suas expressões, seus sorrisos, sua ânsia em comunicar… tudo aponta para a menina que você é, outra que a mamãe, outra que qualquer outro, tornando-se uma pessoa única e surpreendente. Tão novinha e já é gente, minha avó diria. É gente, é gente, é uma boa gente.

… você pega um dos livros do seu pai e senta na beira da cama. Durante muitos minutos, em silêncio, folheia o livro, olhando os desenhos cuidadosamente, como se eles te contassem uma história. Que história te contam que você escuta assim, tão concentrada?

… andar não é mais suficiente. É preciso tentar correr. Mesmo caindo, é preciso tentar correr. Ou ao menos andar depressa. Especialmente quando você pega alguma coisa que a mamãe pede que devolva. Daí é andar rapidinho, segurando firme, até chegar em algum canto sem saída e ficar dando voltas, como se pudesse fazer um helicóptero e levantar vôo.

… aliás, quantos nãos! E quantos olhares sapecas e sorrisos marotos para tentar transformá-los em sins.

… agora levanta do berço, desce, pega os sapatos e vêm andando me procurar. E, por vezes, decide que quer outros sapatos, especialmente os vermelhos. Meninas e seus sapatos vermelhos.

… e os livros? Ah, os livros! Podemos passar uma manhã toda lendo. Um atrás do outro, você busca na estante e senta ao meu lado para lermos a história. A vaca faz mu, o gato faz miau, o pato diz quaquá, a galinha diz cocoricó, o cachorro diz au-au. O leão faz grrrr. E a ovelha faz bá. E noutro dia, quando um mar de ovelhas estava na beira da estrada, você foi ali ver. E ficou ali no meio delas, meio assustada, meio fascinada, as bichinhas chegaram até a lamber sua mão. Imagino o coração batendo acelerado nesse mundo imenso de ovelhas gigantes e você ali no meio, tão pequenina e tão desamparada e tão curiosa e tão corajosa…

… pegou uma boneca e abraçou delicadamente, balançando de um lado para o outro. Falou: nana, neném, nana. E desde então coloca todas as bonecas pra dormir. Até mesmo o curupira que tem as pernas ao contrário, o cabelo cor de fogo e a boca gigante. Até mesmo o curupira nana neném.

… a cada vez que escuta o barulho da porta embaixo no térreo abrindo, pergunta: “papa?”. Papai está trabalhando. Faz tchau com a mão, tchau, papai. Bom trabalho.

… aponta o canguru quando quer passear. E noutro dia pegou um copo de plástico, chegou no meu lado, me cutucou e disse “ága”, mostrando o dito cujo. Mais clara, impossível.

… aprendeu a dizer “aqui”. Da maneira mais doce e sorridente do mundo. Como se o sorriso tivesse o som do aqui. Mas ainda não entendeu para que serve. A palavra, pois o sorriso que se derrete em aqui serve para fazer a vida feliz.

… como o “não”, que anda servindo para quando não quer mais comer como, também, para quando está aguardando a próxima colherada. Ou quando não quer água. Ou quando quer água.

… parece que você decidiu que todas as roupas se vestem pela cabeça. E assim calças, meias e até fios de lã viram cachecóis, todos em torno do pescoço. E os algodões viram algodão doce. Só que com gosto ruim. E o pente vira um excelente mordedor. Como a pasta de dente. E a cabeça da boneca.

… noutro dia teve mais um encontro com um cachorrinho, dessa vez um filhote. Acarinhou, abraçou, deitou na barriga dele. Os animais te cativam. As plantas e as flores também. Basta estar ao ar livre para estar feliz. E sorri quando o vento chacoalha os seus cabelos.

… ainda faz a simpaticona séria e a simpaticona sorridente. Mas não faz mais a sapinha no colo, só quando dorme na cama. E quando dorme, é a paz encarnada.

… escovar os dentes é um dos highlights do dia. Como o banho. De chuveiro. Tipo menina grande. Essa menina que parece gente, e que é uma gente tão boa, tão divertida, tão curiosa e tão amada.

… sua carinha de choro e seu olhar de desespero arrebentam o coração da mamãe. E seu sorriso ilumina uma vida toda.

… aprendeu a mandar beijo, a dar abraço e a fazer tchau. Tudo com um delay de alguns minutos. Assim, os amigos sempre perdem a melhor parte.

… na praia, quis botar os pés na água fria do mar. E estranhou a textura da areia. Pegou conchinhas. E pedrinhas. Tudo serve como presente, que você nos oferece. Ou às crianças do parquinho, que nem sempre percebem o valor da sua oferta e te deixam falando sozinha, perplexa. Mas alguns aceitam teu sorriso e sorriem de volta. E agora que você virou craque em subir nos brinquedos e descer no escorregador, então… quem te segura, cheia de confiança, toda pequena entre os grandes, andando agarrada às grades para chegar no alto dos brinquedos. Do alto de seu ano e dois meses.

Comendo e aprendendo

Já escrevi uma ou outra vezes sobre diversificação alimentar por aqui. Momento esquisito, pois é mais um passo do seu bebê em direção ao mundo, que se diversifica, se amplia, aumenta. Nada fácil encontrar um modo de apresentar esse mundo dos sabores para uma criança sem impor, sem forçar a barra e querer enfiar a colher goela abaixo, sem medo da quantia consumida, sem se preocupar se o sujeitinho está bem alimentado ou não… Enfim, um mundo que se abre para o bebê e também para nós, mães, que saímos do conforto do peito ou da mamadeira para um sem número de decisões cotidianas sobre o quê, como, quando….

Tenho percebido que a diversificação alimentar não segue uma linha reta e ascendente. Ela parece cheia de altos e baixos, idas e vindas. No começo, por aqui, era uma grande brincadeira. Brincar com o brócoli era a mesma coisa que brincar com o mordedor ou com o bichinho de pelúcia. Com a diferença de que, no caso do brócoli, a mamãe deixava engolir, enquanto que os papéis e os pedaços de livro sempre tinham que sair da boca.

Depois veio um momento em que comida virou comida. Algo que aparecia nos momentos de fome. Mas, como entender quando o chororô e o pedido de mamar era fome, sede, sono, chamego? Pois é, a mamada que era fome foi sendo substituída pela comida, por vezes em um timing perfeito, noutras de maneira totalmente equivocada. Mas, de algum modo funcionou para a pequena perceber que haviam outras coisas que também enchiam a pancinha com sabores e cores.

Mas aí a porca torceu o rabo e entramos nesse momento ambíguo. Comer é bom, mas também é não mamar. E não mamar é ficar longe da mamãe. E isso não é fácil pra ninguém, né? Assim, somamos essa angústia existencial a uma bela virose e dois resfriados e entramos no período dos testes. Papinha, que nunca foi muito o forte do cardápio aqui em casa foi totalmente banida e a pequena decidiu que só iria comer se ela mesma pudesse controlar a coisa toda. Um baby led weaning meio tortuoso foi o que deu para fazer: comida em pedaços virou regra, comer com as mãos, escolher o que comeria daquilo que estava sendo oferecido, comer no seu ritmo, na sua quantidade. Angustiante, pois às vezes era apenas arroz, noutros dias só feijão, noutros apenas carne e noutros ainda apenas uma fruta ou outra. E quando eu vinha com o feijão que ela tinha gostado no dia anterior era dia de comer só pão. E quando eu fazia brócoli era dia de comer porpeta… putz!

Eventualmente fomos nos entendendo melhor – o que quer dizer que eu fui aprendendo melhor a decifrar suas comunicações e seus sinais em relação à comida. Agora, vivemos o momento em que por vezes é necessário mamar antes de comer. E por vezes é necessário apenas mamar ao invés de comer outras coisas. O que deixa a mamãe maluca achando que voltamos para a estaca zero. Isso até a pequena comer uma pratada de arroz com feijão descomunal. Sem passar mal depois. Tem dias em que ela come com as mãos, noutros quer ajuda para comer com o garfo ou com a colher, noutros eu mesma posso dar a comida na colher, desde que seja ela a me mostrar o que é para colocar ali dentro. E têm momentos em que é hora de jogar tudo no chão. Ou cuspir. Porque ainda não existem outros meios de dizer que não quer. Ou que chega.

Quando eu era pequena, iam enfiando comida na minha boca até eu vomitar. Isso porque era obrigatório dar uma quantidade específica, de uma comida específica. Tudo indicado pela autoridade no assunto, claro. Que nunca era eu, nem minha mãe. Para nós sobrava o assujeitamento a quem sabia o que e como eu deveria comer. O resultado foi que eu me tornei uma péssima “comedora” durante anos a fio. Anos em que eu não comi manga, nem figo e nem mais uma série de frutas que hoje acho deliciosas. E nem peixe cru. Ou frutos do mar. Ou espinafre. Ou seja, quanto tempo perdido por pressa de fazer comer muito e de tudo, não?

Tenho achado que essa diversificação alimentar é mais um teste de tolerância para os pais, um teste da nossa capacidade de respeitar nossos filhos e o ritmo deles para embarcar nesse mundo novo. Enquanto eles descobrem sabores, nós precisamos descobrir como aguentar nossas ansiedades com tudo aquilo que comida e comer significa para a gente. Para não pesarmos com todas essas expectativas sobre os nossos filhos.

Uma coisa me parece óbvia: toda criança vai comer. Porque criança é curiosa. E criança vê os adultos comendo, vê os pais em torno da mesa colocando coisas em suas bocas, conversando, rindo… As crianças testemunham esses momentos e querem participar. Muito antes dos seis meses, têm muita criança querendo roubar pedaços de comida dos pratos dos pais. Porque parece tão divertido. E é aí que a porca torce o rabo: para que a criança coma “saudável”, não existe jeito mais eficaz do que os pais terem uma dieta equilibrada e variada. Minha filha me vê comendo frutas o dia inteiro. E ela sempre quer experimentar. Claro, quando ela me vê comendo chocolate ela quer também. E como é que fica para explicar que algumas coisas podem e outras não? Uma boa alimentação é aquela em que toda família se alimenta bem. Não funciona você passar o dia comendo chocolate, bolacha recheada e refrigerante e querer que seu filho coma verduras porque ele basicamente vai fazer o que você fizer. Comida não é bom senso, nem é racional e sensata. Ela é aquilo que vivemos, os cheiros e gostos que nos marcam, os encontros com as pessoas. E se a hora das refeições for estressada, na frente da TV ou com gente discutindo, fica difícil querer que os pequenos tenham prazer nisso. Ou que eles comam de maneira diferente.

Existem homens que simplesmente não entendem.

Noutro dia, uma conversa acalorada com um amigo, pai de um adolescente, em que ele contava como, logo após o nascimento do filho, seu casamento passou por uma crise. Nas palavras dele, perdeu a esposa e não podia “ter o filho”, pois ela seria muito colada ao pequeno. Emendava a isso suas queixas sobre a falta de relação sexual nessa época e, ainda, todo um discurso sobre como o filho também era “dele”. Ou seja, reclamava do distanciamento da mulher, de não ser mais o centro das suas atenções e de nem ao menos ter o filho como uma espécie de consolo para tamanha frustração. Bom, por onde começar?

Talvez o que me pareça o mais chocante e triste dessa conversa seja a falta de empatia. Uma mulher tem um filho. Sua mulher tem o filho de vocês. E seu sentimento principal é o de passar a segundo plano. Nenhuma compreensão sobre a amplitude desse acontecimento, sobre o tumulto de mudanças que acaba da ocorrer para todos. Nenhuma consideração aos cuidados que essa mulher se dispõe a prestar a essa criança. Apenas a sensação chorosa de: “perdi alguma coisa, perdi meu lugar, perdi meu reinado”. E o ressentimento que segue.

Acho curioso como alguns homens vêem a dedicação de suas mulheres a seus filhos como algo problemático. Ao invés de orgulho e de admiração por alguém que trata daquele que também é sua cria com tanto amor e cuidado, apenas uma repulsa pela situação de dependência que isso cria. Dependência necessária e saudável nesse começo de vida. Mas que o sujeito vê como um obstáculo: a ligação intensa entre mãe e filho parece a esse pai como algo que o exclui. E que o faz perder a “posse” do corpo dessa mulher que nem ao menos transa mais com ele assim como a “posse” do corpo desse filho, para quem ele é menos importante.

Sua mulher não é sua “coisa”. Que ela não queira transar contigo depois de parir é dos acontecimentos mais corriqueiros. Pode ter razões hormonais, psicológicas e muitas outras. Talvez se você fosse capaz de se colocar no seu lugar, se batendo com cuidar do bebê, amamentar, não dormir e tudo o mais que a maternidade lhe trouxe, quem sabe se daria conta de que não sobra muita disponibilidade para o sexo. E que isso é temporário.

Seu filho também não é sua “coisa”. Ele é uma pessoa, com suas necessidades e seus sentimentos. Sua fragilidade é tão grande quanto menor ele seja e, se ele solicita intensamente, é porque sua vida depende de todos esses cuidados. Vocês não estão em condições de igualdade frente à vida e nem frente à sua mulher, a mãe dele. Você é um adulto que deveria ao menos ser capaz de dar conta de coisas que ele nem ao menos sonha que existem. Por que diabos o nascimento de um bebê se torna uma competição entre o pai e o filho por um lugar que nem ao menos é o mesmo?

Alguns homens vêem a dependência entre a mãe e seu filho como algo nocivo que deveria ser erradicado. Esse meu amigo conta como o grande feito da experiência dele de pai o dia em que tirou uma semana de férias, antes mesmo do seu filho ter um ano, e foi viajar sozinho com ele para algum lugar. Sim, no começo o menino estranhou. Sim, no começo ele chorou e foi difícil. Mas depois ficou ótimo, sorridente e feliz. Não dúvido. A capacidade de resiliência de uma criança, especialmente de um bebê pequeno, é enorme. Mas não entendo como é que um pai pensa que precisa reivindicar dessa maneira sua condição de pai.

Vejo frequentemente situações em que os pais acabam atravessando. Nessa busca por serem importantes, alguns entram em competição com suas esposas pelos cuidados com o bebê. A criança já está quase dormindo no colo da mãe e o pai vem e a pega. Ela chora copiosamente por muito tempo. O que importa para esse homem não é que sua filha durma. É que seja ele que a faça dormir. Sem prestar alguma atenção ao que está acontecendo, aos sinais, ao bebê que está ali ele simplesmente chega e interrompe algo. Não por ela. Não por sua mulher. Mas por ele. Porque ele precisa.

Esse amigo passou um bom tempo da discussão argumentando que tanto homens quanto mulheres podem se ocupar de um bebê muito bem. E que o amor é igual. E que os direitos são os mesmos. Não sem acrescentar muitas histórias sobre todas as vezes em que ele foi se ocupar de outra coisa enquanto sua mulher cuidava do filho deles. Acusando-a de se dedicar demais a esse filho. De sufocá-lo de tanta dedicação. E dela ser a única responsável por todos os graves problemas que o garoto teve ao longo da vida.

O que esse amigo parece não entender é que essa reivindicação ressentida de igualdade cai por terra no momento exato em que, na prática, as atitudes não são iguais. O amor é o mesmo, a capacidade é a mesma, os direitos são os mesmos. Mas existe alguém que está ali o dia inteiro, o tempo todo, fazendo o miúdo, o cuidado cotidiano. Existe alguém que prepara todo o terreno. E alguém que se gaba de uma semana de férias juntos. Mas que, no primeiro choro, na primeira dificuldade em colocar para dormir, na primeira virose sabe que pode passar o “abacaxi” para alguém. Que tem outro – ou melhor, uma outra – que vai fazer.

Essa é a diferença entre um pai e uma mãe. Ou entre as mentalidades do que se pensa que seja um pai e do que seja uma mãe. A mãe é aquela que é a última da linha de frente. Se “der merda”, ela não tem um outro a quem recorrer. Ela simplesmente tem que ficar ali e resolver. A mãe – quem quer que seja que esteja ali nessa função – é aquela que encarna a responsabilidade do cuidado, o que quer que isso implique. O pai é aquele que pode se dar ao luxo de estar disponível. Ou não. Assim, fica fácil reclamar do “excesso” de dedicação das mulheres, né?

Sei que existem homens que são os últimos da linha de frente. Sei que existem avós que exercem essa função. Mas na grande maioria das vezes, somos nós, mulheres e mães, que seguramos o rojão, por escolha, vontade, desejo, obrigação ou o que for. E ainda temos que ouvir que a relação de proximidade que estabelecemos com nossos filhos pequenos é que é um problema. Como se o problema não fosse muito maior para os bebês que – em nome de uma pretensa independência a ser conquistada desde sempre – acabam largados no mais total abandono. Gente rejeitada, abandonada e desamparada que, depois de adultos, se tornam paradoxalmente os maiores defensores de uma distância grande entre uma mãe e seu filho.

Existem uma pressa perversa nessa busca de uma separação precoce entre uma mãe e seu bebê. Pressa por vezes egoísta, em que muitos homens não admitem sair do centro nem em prol das próprias crias. Pressa que cria um discurso demonizador da relação que uma mãe estabelece com um filho. Pressa que solicita sem parar essa mulher para si, essa criança para si, qual um Cronos mitológico cuja preocupação é apenas a de devorar os próprios filhos para não arriscar seu reinado. E que se dispõe sempre a acusar e a culpabilizar essa mulher, dizendo que seu “excesso de zelo” ocorre por dificuldades dela, necessidades dela, impossibilidades dela. Sim, tudo isso comparece. Nunca estamos em nenhuma relação sem que algo ali reverta em nosso próprio benefício. Mas talvez aquilo que alguns desses homens acusem como excesso seja, tão somente, o que é necessário no início de uma vida. E eles não se dão conta porque, simplesmente, não conseguem olhar para além do próprio umbigo.

Texto interessante sobre a importância do pai na vida dos filhos: aqui.

Alguns pais que conseguem se colocar em um lugar diferente, sem menosprezar suas mulheres e seus filhos para tanto: aqui, aqui e aqui.

A mãe da mãe

Conheço pelo menos umas três mães recentes que enfrentam os maiores obstáculos com as suas próprias genitoras, as avós dos rebentos. Essas mulheres, que poderiam ser as maiores apoiadoras das suas filhas em um momento tão delicado e sensível que é esse do início da maternidade acabam se revelando críticas ferozes, desrespeitosas, destrutivas.

Gosto de pensar em um momento ideal que ficou lá no passado, ao menos para nós, mulheres ocidentais, em que engravidar, parir e maternar era coisa que não se vivia sozinha. A mãe recente estava apoiada por outras mulheres mais velhas que, com experiência e sabedoria, a acompanhavam de maneira solidária e cuidadosa. Cuidar das novas mães para que elas possam cuidar dos seus filhos, essa seria uma das tarefas dessas mulheres mais velhas, dessas avós, a fim de garantir a continuidade da vida.

Mas daí os séculos foram passando e chegamos em um período bem esquisito da nossa história em que família passou a ser apenas o núcleo familiar – pai, mãe e filhos. E ficou com esses poucos a imensa tarefa de criar as crianças. Sozinhos. Na maior parte das vezes, mães sozinhas com os seus bebês pequenos. Quase tão desamparadas quanto eles. Não consigo imaginar a que serviu esse arranjo, mas certamente desarticulou muito da vida e dos saberes comunitários, aqueles que passam de pais para filhos, desfazendo com isso uma rede de solidariedade que devia dar muito certo. E deixando tudo a cargo dos pais que, não tendo como suportar o fardo e tendo condições para isso, passaram a terceirizar os cuidados com as crianças. Enfim, pais abandonados, crianças abandonadas, todo mundo tento que aprender a se virar. Não me parece um bom jeito de cuidar e proteger a vida de quem quer que seja esse.

De todo modo, nesse jeito isolado de viver a maternidade sobrou ainda a figura dos avós e, principalmente, das avós que muitas vezes ainda comparecem para ajudar as filhas que se tornam mães. Mas é aí que, muitas vezes, a porca torce o rabo.

Laura Gutman já escreveu que não é possível tornar-se mãe sem revisitar o melhor e o pior da própria infância. É como um acerto de contas com o passado, que dura muito mais tempo que os nove meses de gestação e dá muito mais trabalho do que cuidar do pequeno rebento recém parido. É como a caixa de Pandora reaberta, ninguém sabe o que vai sair dali, quais fantasmas, quais dores, quais medos. E não sobra muita alternativa a não ser encarar. Porque quando você menos espera, já está reagindo como sua mãe, gritando os gritos, dando as respostas, refazendo a violência que viveu. Conclusão: ou você encara, ou sobra para o seu filho. Putz!

O pior é que, a meu ver, a mesma caixa de Pandora que abre para um lado abre para o outro. Não tem como uma mãe tornar-se avó sem passar por um confronto intenso com a mãe que foi para a sua filha. Quer dizer, tem, se for à distância. Mas desde que ela decida se envolver, estará fadada a ver retornar para si uma montanha de coisas do que foi sua experiência como mãe.

Existem mães que esperam ver nas filhas o espelho delas mesmas. Elas mal percebem que ali existe uma outra pessoa. E que o modo como criaram aquela outra pessoa como extensão delas, podendo dispor de seus corpos e de suas cabeças como bem entendessem, como se aquela menina fosse um direito adquirido delas, uma posse, não fez com que a criança em questão se tornasse um anexo. E essa filha cresceu e talvez tenha se tornado uma pessoa por si mesma. E então tornou-se mãe. E essa mulher torna-se avó.

De cara ela fica frente ao tempo. O tempo passou para ela, ela envelheceu. Aquela mulher soberana enfraqueceu-se e a menina tornou-se mulher. Há mães que não suportam isso… lembram da Branca de Neve? Pois é, é a história da mãe que não aguenta que a filha cresça porque vê nisso uma concorrência e uma ameaça. Então aquela menina que virou mulher e agora tornou-se mãe é uma ameaça terrível. Uma ameaça da passagem do tempo, do envelhecimento, da decadência, do ter que dar lugar à nova geração. Quantas mães massacram suas filhas logo que as mesmas para que elas não as ameacem?

E a gravidez e a maternidade tornam-se uma ameaça. Se essa filha se tornar mulher, que lugar sobra para ela, a avó? Eis que a solução para muitas delas é tentar engolir as filhas, suas subjetividades e suas experiências mais uma vez. Sabe aquelas críticas à aparência, ao jeito de ser, às companhias que aparecem de um jeito feroz durante a adolescência? Então, viram as críticas a respeito de tudo o que for relacionado à gravidez, ao parto e à criação dos filhos. Em nome da experiência que têm, dizem com tranquilidade e boca cheia que tudo o que você decide é uma porcaria, a não ser que seja igual ao que ela fez. E para algumas mães recentes, isso chega em um momento de tanta fragilidade que parece impossível se contrapor. E elas acabam se anulando, cedendo, não tendo forças para brigar, entregando os filhos às próprias mães que se perpetuam no lugar de adultas cuidadoras em detrimento das próprias filhas, que viram irmãs dos filhos.

Essa avó ameaçada por ser avó rouba para si a maternidade da filha, torna-se mãe dos netos e a dona da verdade sobre criação e educação ou… Ou ela encontra pela frente uma filha mais ou menos capaz de impor um limite e então a coisa pode ficar ainda mais complicada. Porque uma filha que consegue ser alguém e torna-se mãe será a mãe que ela quer e pode ser. E isso pode significar uma mãe bem diferente daquela que teve. O que, para as mulheres que estão acostumadas com filhas extensão delas mesmas pode querer dizer uma afronta terrível. Um espelho que não as reflete. Como na Branca de Neve…

Deve ser difícil para essas mulheres verem as filhas fazerem de outro jeito, porque a diferença soa para elas como um julgamento sobre aquilo que elas escolheram. É como se o simples fato da filha fazer diferente dela significasse que o que ela fez foi errado. A mãe vê as atitudes dessa filha como julgamento e ataque e ataca de volta com críticas e recriminações. Conclusão? A nova mãe ou fica esmagada, ou fica sozinha.

Já testemunhei muitas vezes esse tipo de crueldade. E que ela aconteça no momento em que a nova mãe mais precisa de apoio e cuidado, não deixa de ser uma tragédia. Por sorte e com um pouco de esforço, nós mulheres temos podido contar com outras mulheres mais generosas quando essa mãe falta: amigas, contatos de internet, doulas… Enfim, há esperança de entorno e de aconchego.

Como também há esperança para essas avós que cuidam ao menos um pouco de limpar o terreno dos restos e sobras da vida para receber esse novo membro da família. Ter avós é precioso para uma criança. A imensa distância de gerações pode garantir um amor e uma ternura de parte a parte, quando os julgamentos, as tensões e os conflitos deixam de fazer sentido. Uma das melhores coisas que uma mãe pode dar a um filho é essa convivência com os seus avós. Mas para isso é preciso que esses mais velhos também saibam mudar de lugar.

Tenho uma grande amiga muito mais velha do que eu que escreve histórias para a neta. Conheço outra que faz tricot, herança da própria mãe. Ser avó envolve uma grande dose de generosidade e um poder retirar-se para segundo plano. Aceitar a passagem do tempo. E saber que o melhor que pode dar é agora uma outra coisa.

Penso que nenhuma mãe recente precisa de sua mãe (ou sogra) concorrendo consigo para ver quem é a melhor mãe. Nenhuma mãe recente precisa de sua mãe dizendo o que fazer, a menos que pergunte. E muito menos o que não fazer. O que uma mãe recente precisa é de apoio, silêncio e compreensão. E paciência. Ah, e o principal, ser cuidada. Porque uma avó não vai cuidar melhor do neto do que uma mãe poderia fazer. E nem deveria ser essa a sua prioridade. Para que se oferecer para fazer no lugar da sua filha aquilo que ela pode fazer e, inclusive, precisa aprender a se sentir à vontade e confiante fazendo? Para que concorrer e podar? Por que não fazer uma comidinha, ajudar com a casa ou outras coisas tão banais que ela não vai dar conta logo que o rebento vier ao mundo? Por que não oferecer ajuda e não apoia-la naquilo que ela decidir para o bebê, mesmo que seja diferente? E, quem sabe, até ver nisso motivo de orgulho por ter criado alguém capaz de criar um outro, não?

Aqui um depoimento lindo de uma avó muito sábia encontrando o neto pela primeira vez. Em inglês.

Essa história da cama compartilhada

Aqui foi assim: desde o começo, pensei que o melhor seria a pequena dormir num bercinho ao lado da nossa cama. Facilitaria para mim, por conta da amamentação à noite, pois quem amamenta sabe o quanto pode ser exaustivo levantar-se e ir até um outro quarto, dar de mamar, colocar o bebê para dormir e voltar para a cama. Todo esse ritual consome tanto tempo que logo o rebento chora de novo e o ciclo recomeça. E seria bom para ela também, já que estaria ali do lado, sentindo cheiro de mãe e pai, ouvindo nossos barulhos (recém-nascido sai de uma barriga barulhenta e silêncio pode ser aterrador) e nós os dela. Nada mais tranquilizador para uma mãe do que saber que pode escutar qualquer barulhinho da filha bebê e acudir em caso de necessidade. Enfim, belos planos e tudo poderia ter sido lindo e sem complicações. Mas a vida teima em nos desobedecer, né?

O cara-metade, por questões pessoais e culturais, cismou que bebê tinha que dormir no quarto dela desde o primeiro dia. Dependesse dele, ela até choraria para aprender a se acalmar e dormir sozinha desde o início, tão convencido que estava de que isso não apenas era o certo, como também era possível de fazer com um recém-nascido sem gerar uma enorme violência para um bebê indefeso e que precisa, antes de mais nada, da presença, da proximidade e do aconchego dos pais o tempo todo, até se sentir em segurança. Nada poderia ser mais contrário às minhas concepções e a conclusão disso é que a bebê foi para o quarto dela e a babá eletrônica ficou ligada no último volume do lado da minha orelha. E que a cada suspiro eu acordava e ia ver, para que ela não chorasse abandonada. Tomei para mim a responsabilidade de tratar seus choros como penso que eles deveriam ser tratados: como pedidos de socorro que precisam ser atendidos e não ignorados para que ela aprenda a se virar sozinha. Deu certo e a pequena seguiu bem cuidada, bem atendida em suas necessidades e sentindo-se protegida. Mas deu também em uma mãe exausta, muito mais exausta do que ficaria se as coisas tivessem acontecido de modo a facilitar ao máximo a vida das duas nesse primeiro momento. Resumo da opéra: o vai e vem entre quartos durou o primeiro mês. Em seguida eu fui para o quarto dela e comecei a amamentar deitada durante a noite, descansando mais e dormindo melhor. Ela também pareceu poder ter um sono mais sereno. Após cerca de seis meses, o cara-metade entendeu que a prioridade ali não era adestrar nossa filha para que ela dormisse sozinha a noite inteira e se virasse sozinha caso acordasse durante a noite. Ele entendeu também que meu conforto e meu descanso eram essenciais para que tudo corresse bem, especialmente a amamentação. E a pequena veio para nossa cama. E assim está até o momento.

Acho muito complicado dizer que é perigoso e nocivo fazer cama compartilhada e que é importante que o bebê durma sozinho desde sempre para ser independente. Perigoso é algo que pode ser evitado tomando-se umas tantas precauções quando o bebê dorme na mesma cama com os pais. E há estudos que mostram que bebês dormindo em seus quartos sozinhos correm mais riscos do que aqueles que dormem em cama compartilhada. Portanto, perigos existem para ambos os lados e podem ser evitados.

Quanto à nocividade, me parece curiosa a idéia. O primeiro argumento é a vida sexual e a intimidade do casal, invadidas pela presença da criança. E a resposta sempre boa e válida é que sexo e intimidade não dependem apenas de uma cama pois, se fosse assim, a vida dos casais seria bem entediante, não? Além do mais, a realidade é que a vida sexual e a intimidade de um casal ficam seriamente afetados quando nasce uma criança, onde quer que ela durma. Ficam afetados porque a mulher se fecha em uma bolha com seu bebê no começo da maternidade e é necessário que ela faça isso. Disso depende esse bebê e sua sobrevivência, de alguém que possa se dedicar a ele. Ficam afetados porque se na maior parte do tempo estamos exaustas. E isso mesmo quando pai e mãe cuidam do bebê. E a dinâmica do casal muda. Até que os dois se reinventem enquanto casal, criem novas intimidades e descubram novos modos de fazer antigas coisas. Ou seja, partilhar uma cama é o menor dos problemas de um casal quando eles se tornam pais, acreditem.

Mas tem também a idéia de que a criança vai ficar dependente e nunca mais vai querer sair dali. Que é análoga à idéia de que a criança que mama fica dependente do peito e nunca vai querer desmamar. Quer dizer, são as suposições de que ninguém vai querer largar algo que é bom. Nem que seja por outra coisa que é boa também. Então. Todos os relatos que eu li até hoje de desmame natural, assim como relatos das crianças que começam a dormir em seus próprios quartos desmentem essa crendice (um exemplo). Porque, ao contrário das crianças que não têm aquilo de que elas precisam no momento em que elas precisam e que passam o resto da vida reivindicando o que elas não tiveram, crianças que têm o que precisam na hora em que precisam parecem muito mais seguras para seguir adiante e deixar essas coisas quando elas deixam de ser necessárias. Curioso? Para mim parece fazer sentido. E é o que vejo acontecer muitas vezes, com pacientes e amigos.

O fato é que crianças precisam ser cuidadas, protegidas, aconchegadas. Mas elas também gostam muito de adquirir autonomia e ficam visivelmente satisfeitas quando conquistam alguma nova possibilidade emocional, física, intelectual… Não precisamos nos preocupar tanto assim: do mesmo modo como elas vêm, elas vão, e vêm e vão naquilo que precisam. Basta lhes darmos ouvidos e estarmos atentos aos seus sinais. E respeitarmos suas necessidades e limites.

Bons textos sobre o tema: aqui, aqui, aqui e aqui.

Frio na barriga

E lá fomos nós ao parque. E lá se foi você, andando sozinha até os brinquedos. Da última vez que ali estivemos, você precisava se apoiar ou engatinhar. E eis que um ano e um mês apenas depois de nascida você sai do colo assim, andando, toda cheia de sorrisos e alegria de reencontrar seu parque. Olha para trás uma vez e sorri para mim.

Pela primeira vez você sobe no brinquedo que leva ao escorregador. Sobe e desce as rampas, apoiada nas grades laterais, grudada nelas. Cada vez que um pezinho procura um apoio meu coração gela. Tenho medo que você caia, que se machuque. Tenho medo por você. O mais difícil é não me precipitar em te proteger e deixar você descobrir as coisas. O mais estranho é essa ambivalente sensação de orgulho, alegria e tristeza em te ver superando obstáculos. Você é marruda e insiste, vai se agarrando e consegue percorrer o brinquedo todo. Chega no escorregador orgulhosa e me sorri. Te ajudo a escorregar. Você recomeça tudo novamente.

Cada criança que passa você abre um largo sorriso, nariz franzido, carinha aberta e iluminada, sua maneira de dizer olá. Alguns sorriem de volta e você fica nesse jogo dos sorrisos trocados. Outros não te olham, mas você insiste. A maior parte das crianças é mais velha, mas você não se inibe. Se intromete em brincar junto, se aproxima, não tem medo.

Um garoto pequeno vem com uma mamadeira em punho te dar um abraço. Você perde o equilíbrio e os dois caem no chão. Ele levanta e você fica ali deitada, carinha estupefata, não sabe se quer levantar de novo ou ficar por ali mesmo. Não ri, não chora, apenas fica ali deitada na grama. A vida é surpreendente.

Por que eu não faria uma cesariana

Começo com a ressalva, para evitar mal-entendidos: se você fez uma cesariana ou quer fazer e está bem com isso, esse texto não é para você. Se você fez uma cesariana ou quer fazer e não está bem com isso, ou está em dúvida, ou insegura, ou com a pulga atrás da orelha, talvez esse texto seja para você. Mas já adianto que não é um texto muito condescendente e talvez te irrite, te aborreça, te deixe com raiva. Em qualquer dos casos, desculpe-me de antemão. Minha intenção não é te agredir. Apenas pensar em voz alta, por escrito, segundo meus valores e minhas crenças…

Um dos textos mais lindos e delicados sobre parto que eu já li é de uma mulher que ainda não pariu, a Juliana. Ela explica por que quer um parto normal, natural e humanizado para trazer ao mundo seu bebê. E concordo integralmente com o que ela diz.

Tive a sorte de ter um parto humanizado. E não apenas a sorte, visto que só foi possível ser assim após muita reflexão, informação e trabalho. Mesmo aqui na França, os partos são normais mas nada humanizados. E pouca gente parece se preocupar com isso. Mas eu me preocupei e consegui entrar em umas brechas do sistema e ter o parto que considerava o mais respeitoso e cuidadoso para minha filha.

Quando qualquer um escreve defendendo o parto humanizado, imediatamente pipocam centenas de comentários, na maior parte das vezes de mulheres que são mães e tiveram seus filhos por cesariana, defendendo essa via de nascimento com unhas e dentes. Porque isso não as faz menos mães. Como se alguém tivesse dito o contrário. Mas essas mulheres, empurradas para um procedimento cirúrgico desnecessário, altamente invasivo e debilitante e não sem consequências para ela e para o bebê parecem ter a necessidade de acreditar que sua opção não foi tão ruim assim. Mas sempre fica uma pulga atrás da orelha cutucando e corroendo o coração e o pensamento, né? E isso dói muito, cada vez que alguém toca no assunto.

Conheço mulheres que passaram por cesarianas de emergência sob os mais diversos argumentos. Sempre bom lembrar que existem poucos reais argumentos para uma cesariana e centenas de falsos pretextos, frutos da ganância do sistema hospitalar, da conveniência e da incompetência dos médicos e – por que não? – da desinformação e dos valores de mães, pais e da sociedade em geral. Ainda assim, tem gente que passa por uma cesariana de emergência por algum real motivo. E gente que passa por isso sem motivo algum. E até mesmo gente que escolhe passar por isso. Por quê? Não faço idéia. Ou melhor, tenho algumas idéias a respeito.

Mas isso fica para outra hora. Aqui, apresento a minha lista de por que eu não faria uma cesariana, a não ser que fosse realmente necessário.

  • porque nós mulheres parimos desde que a espécie humana existe e nunca precisamos de nenhuma intervenção para garantir que continuaríamos existindo. Ou seja, sabemos parir e podemos fazê-lo há milhares de anos.
  • porque não vejo nenhum sentido em utilizar um recurso quando ele não é necessário: por que optar por uma cirurgia se o bebê tem todas as condições de nascer naturalmente?
  • porque detesto intervenções médicas. Não faço plástica, não faço nada que não seja preciso. Não tenho a menor vontade de dar chance para o azar de um erro médico.
  • porque os médicos erram e a medicina é falível. Embora nunca nos digam, os médicos erram e a medicina é uma ciência totalmente apoiada em acertos e erros. E eu não tenho nenhuma intenção de constatar essa falibilidade da medicina na hora de botar um filho no mundo.
  • porque, ao contrário do que se diz, existem mais mortes de mães e de bebês por conta da cesariana e de outras intervenções praticadas no hospital do que por conta de partos normais que deram errado. Quer dizer: há mais cesarianas que dão errado do que partos normais, que tal?
  • porque um hospital, mesmo uma maternidade, é um terreno fértil para vírus, bactérias e toda sorte de porcarias que podem acabar te dando de brinde, além da cirurgia, uma bela infecção hospitalar.
  • porque não tenho a menor vontade de passar por um cirurgia imensa, em que todas as camadas até o meu útero serão cortadas e depois costuradas. E não tenho nenhuma vontade de passar pela recuperação dessa cirurgia depois.
  • porque, ao contrário do que dizem, você passa os dias seguintes com dor, sem conseguir se mexer direito, correndo risco dos pontos abrirem, infeccionarem, entupida de remédios… é uma cirurgia, minha gente, sacou?
  • porque não tenho a menor vontade de passar os primeiros momentos com o meu bebê amarrada, sem poder mexer os braços, sem poder tocá-lo, acolhê-lo, confortá-lo. O bebê chorando ali desesperado, precisando de mim e eu ali, toda aberta, anestesiada, sem poder fazer nada, tendo que me contentar em dar um beijinho e vendo ele ser levado para longe de mim, para poder revê-lo apenas muitas e muitas horas depois? Se isso não é de uma crueldade sem tamanho, então não sei o que poderia ser.
  • porque não quero que a primeira experiência que o meu bebê tenha desse mundo seja ser arrancado da minha barriga sem prévio aviso, por mãos indiferentes, para uma sala gelada e super iluminada, cheia de rostos estranhos e sem nenhum acolhimento. E que ele seja furado, esticado e virado do avesso em procedimentos que não precisam acontecer nesse momento e que apenas aumentam a violência com que é recebido. Para finalizar indo para um berçário, sendo lavado, vestido e deixado ali com outros bebês a chorar, naquele ambiente totalmente inóspito. Quem em sã consciência quer apresentar o mundo a seu filho dessa maneira quando tem outra opção?
  • porque parto normal dói menos do que cesariana. A prova? Não existe cesariana sem anestesia, né? Enquanto que um parto normal pode dispensá-la e, ainda assim, ter muito pouca dor.
  • porque quero ser agente do meu parto. Quero poder decidir, quero poder seguir o meu ritmo e o ritmo do meu bebê. E não ser objeto e deixá-lo ser objeto nas mãos de uma terceira pessoa que vai decidir tudo por nós sem nos consultar e sem considerar quem somos e o que queremos, apenas baseado naquilo que julga que precisamos.