Comendo e aprendendo

Já escrevi uma ou outra vezes sobre diversificação alimentar por aqui. Momento esquisito, pois é mais um passo do seu bebê em direção ao mundo, que se diversifica, se amplia, aumenta. Nada fácil encontrar um modo de apresentar esse mundo dos sabores para uma criança sem impor, sem forçar a barra e querer enfiar a colher goela abaixo, sem medo da quantia consumida, sem se preocupar se o sujeitinho está bem alimentado ou não… Enfim, um mundo que se abre para o bebê e também para nós, mães, que saímos do conforto do peito ou da mamadeira para um sem número de decisões cotidianas sobre o quê, como, quando….

Tenho percebido que a diversificação alimentar não segue uma linha reta e ascendente. Ela parece cheia de altos e baixos, idas e vindas. No começo, por aqui, era uma grande brincadeira. Brincar com o brócoli era a mesma coisa que brincar com o mordedor ou com o bichinho de pelúcia. Com a diferença de que, no caso do brócoli, a mamãe deixava engolir, enquanto que os papéis e os pedaços de livro sempre tinham que sair da boca.

Depois veio um momento em que comida virou comida. Algo que aparecia nos momentos de fome. Mas, como entender quando o chororô e o pedido de mamar era fome, sede, sono, chamego? Pois é, a mamada que era fome foi sendo substituída pela comida, por vezes em um timing perfeito, noutras de maneira totalmente equivocada. Mas, de algum modo funcionou para a pequena perceber que haviam outras coisas que também enchiam a pancinha com sabores e cores.

Mas aí a porca torceu o rabo e entramos nesse momento ambíguo. Comer é bom, mas também é não mamar. E não mamar é ficar longe da mamãe. E isso não é fácil pra ninguém, né? Assim, somamos essa angústia existencial a uma bela virose e dois resfriados e entramos no período dos testes. Papinha, que nunca foi muito o forte do cardápio aqui em casa foi totalmente banida e a pequena decidiu que só iria comer se ela mesma pudesse controlar a coisa toda. Um baby led weaning meio tortuoso foi o que deu para fazer: comida em pedaços virou regra, comer com as mãos, escolher o que comeria daquilo que estava sendo oferecido, comer no seu ritmo, na sua quantidade. Angustiante, pois às vezes era apenas arroz, noutros dias só feijão, noutros apenas carne e noutros ainda apenas uma fruta ou outra. E quando eu vinha com o feijão que ela tinha gostado no dia anterior era dia de comer só pão. E quando eu fazia brócoli era dia de comer porpeta… putz!

Eventualmente fomos nos entendendo melhor – o que quer dizer que eu fui aprendendo melhor a decifrar suas comunicações e seus sinais em relação à comida. Agora, vivemos o momento em que por vezes é necessário mamar antes de comer. E por vezes é necessário apenas mamar ao invés de comer outras coisas. O que deixa a mamãe maluca achando que voltamos para a estaca zero. Isso até a pequena comer uma pratada de arroz com feijão descomunal. Sem passar mal depois. Tem dias em que ela come com as mãos, noutros quer ajuda para comer com o garfo ou com a colher, noutros eu mesma posso dar a comida na colher, desde que seja ela a me mostrar o que é para colocar ali dentro. E têm momentos em que é hora de jogar tudo no chão. Ou cuspir. Porque ainda não existem outros meios de dizer que não quer. Ou que chega.

Quando eu era pequena, iam enfiando comida na minha boca até eu vomitar. Isso porque era obrigatório dar uma quantidade específica, de uma comida específica. Tudo indicado pela autoridade no assunto, claro. Que nunca era eu, nem minha mãe. Para nós sobrava o assujeitamento a quem sabia o que e como eu deveria comer. O resultado foi que eu me tornei uma péssima “comedora” durante anos a fio. Anos em que eu não comi manga, nem figo e nem mais uma série de frutas que hoje acho deliciosas. E nem peixe cru. Ou frutos do mar. Ou espinafre. Ou seja, quanto tempo perdido por pressa de fazer comer muito e de tudo, não?

Tenho achado que essa diversificação alimentar é mais um teste de tolerância para os pais, um teste da nossa capacidade de respeitar nossos filhos e o ritmo deles para embarcar nesse mundo novo. Enquanto eles descobrem sabores, nós precisamos descobrir como aguentar nossas ansiedades com tudo aquilo que comida e comer significa para a gente. Para não pesarmos com todas essas expectativas sobre os nossos filhos.

Uma coisa me parece óbvia: toda criança vai comer. Porque criança é curiosa. E criança vê os adultos comendo, vê os pais em torno da mesa colocando coisas em suas bocas, conversando, rindo… As crianças testemunham esses momentos e querem participar. Muito antes dos seis meses, têm muita criança querendo roubar pedaços de comida dos pratos dos pais. Porque parece tão divertido. E é aí que a porca torce o rabo: para que a criança coma “saudável”, não existe jeito mais eficaz do que os pais terem uma dieta equilibrada e variada. Minha filha me vê comendo frutas o dia inteiro. E ela sempre quer experimentar. Claro, quando ela me vê comendo chocolate ela quer também. E como é que fica para explicar que algumas coisas podem e outras não? Uma boa alimentação é aquela em que toda família se alimenta bem. Não funciona você passar o dia comendo chocolate, bolacha recheada e refrigerante e querer que seu filho coma verduras porque ele basicamente vai fazer o que você fizer. Comida não é bom senso, nem é racional e sensata. Ela é aquilo que vivemos, os cheiros e gostos que nos marcam, os encontros com as pessoas. E se a hora das refeições for estressada, na frente da TV ou com gente discutindo, fica difícil querer que os pequenos tenham prazer nisso. Ou que eles comam de maneira diferente.

Existem homens que simplesmente não entendem.

Noutro dia, uma conversa acalorada com um amigo, pai de um adolescente, em que ele contava como, logo após o nascimento do filho, seu casamento passou por uma crise. Nas palavras dele, perdeu a esposa e não podia “ter o filho”, pois ela seria muito colada ao pequeno. Emendava a isso suas queixas sobre a falta de relação sexual nessa época e, ainda, todo um discurso sobre como o filho também era “dele”. Ou seja, reclamava do distanciamento da mulher, de não ser mais o centro das suas atenções e de nem ao menos ter o filho como uma espécie de consolo para tamanha frustração. Bom, por onde começar?

Talvez o que me pareça o mais chocante e triste dessa conversa seja a falta de empatia. Uma mulher tem um filho. Sua mulher tem o filho de vocês. E seu sentimento principal é o de passar a segundo plano. Nenhuma compreensão sobre a amplitude desse acontecimento, sobre o tumulto de mudanças que acaba da ocorrer para todos. Nenhuma consideração aos cuidados que essa mulher se dispõe a prestar a essa criança. Apenas a sensação chorosa de: “perdi alguma coisa, perdi meu lugar, perdi meu reinado”. E o ressentimento que segue.

Acho curioso como alguns homens vêem a dedicação de suas mulheres a seus filhos como algo problemático. Ao invés de orgulho e de admiração por alguém que trata daquele que também é sua cria com tanto amor e cuidado, apenas uma repulsa pela situação de dependência que isso cria. Dependência necessária e saudável nesse começo de vida. Mas que o sujeito vê como um obstáculo: a ligação intensa entre mãe e filho parece a esse pai como algo que o exclui. E que o faz perder a “posse” do corpo dessa mulher que nem ao menos transa mais com ele assim como a “posse” do corpo desse filho, para quem ele é menos importante.

Sua mulher não é sua “coisa”. Que ela não queira transar contigo depois de parir é dos acontecimentos mais corriqueiros. Pode ter razões hormonais, psicológicas e muitas outras. Talvez se você fosse capaz de se colocar no seu lugar, se batendo com cuidar do bebê, amamentar, não dormir e tudo o mais que a maternidade lhe trouxe, quem sabe se daria conta de que não sobra muita disponibilidade para o sexo. E que isso é temporário.

Seu filho também não é sua “coisa”. Ele é uma pessoa, com suas necessidades e seus sentimentos. Sua fragilidade é tão grande quanto menor ele seja e, se ele solicita intensamente, é porque sua vida depende de todos esses cuidados. Vocês não estão em condições de igualdade frente à vida e nem frente à sua mulher, a mãe dele. Você é um adulto que deveria ao menos ser capaz de dar conta de coisas que ele nem ao menos sonha que existem. Por que diabos o nascimento de um bebê se torna uma competição entre o pai e o filho por um lugar que nem ao menos é o mesmo?

Alguns homens vêem a dependência entre a mãe e seu filho como algo nocivo que deveria ser erradicado. Esse meu amigo conta como o grande feito da experiência dele de pai o dia em que tirou uma semana de férias, antes mesmo do seu filho ter um ano, e foi viajar sozinho com ele para algum lugar. Sim, no começo o menino estranhou. Sim, no começo ele chorou e foi difícil. Mas depois ficou ótimo, sorridente e feliz. Não dúvido. A capacidade de resiliência de uma criança, especialmente de um bebê pequeno, é enorme. Mas não entendo como é que um pai pensa que precisa reivindicar dessa maneira sua condição de pai.

Vejo frequentemente situações em que os pais acabam atravessando. Nessa busca por serem importantes, alguns entram em competição com suas esposas pelos cuidados com o bebê. A criança já está quase dormindo no colo da mãe e o pai vem e a pega. Ela chora copiosamente por muito tempo. O que importa para esse homem não é que sua filha durma. É que seja ele que a faça dormir. Sem prestar alguma atenção ao que está acontecendo, aos sinais, ao bebê que está ali ele simplesmente chega e interrompe algo. Não por ela. Não por sua mulher. Mas por ele. Porque ele precisa.

Esse amigo passou um bom tempo da discussão argumentando que tanto homens quanto mulheres podem se ocupar de um bebê muito bem. E que o amor é igual. E que os direitos são os mesmos. Não sem acrescentar muitas histórias sobre todas as vezes em que ele foi se ocupar de outra coisa enquanto sua mulher cuidava do filho deles. Acusando-a de se dedicar demais a esse filho. De sufocá-lo de tanta dedicação. E dela ser a única responsável por todos os graves problemas que o garoto teve ao longo da vida.

O que esse amigo parece não entender é que essa reivindicação ressentida de igualdade cai por terra no momento exato em que, na prática, as atitudes não são iguais. O amor é o mesmo, a capacidade é a mesma, os direitos são os mesmos. Mas existe alguém que está ali o dia inteiro, o tempo todo, fazendo o miúdo, o cuidado cotidiano. Existe alguém que prepara todo o terreno. E alguém que se gaba de uma semana de férias juntos. Mas que, no primeiro choro, na primeira dificuldade em colocar para dormir, na primeira virose sabe que pode passar o “abacaxi” para alguém. Que tem outro – ou melhor, uma outra – que vai fazer.

Essa é a diferença entre um pai e uma mãe. Ou entre as mentalidades do que se pensa que seja um pai e do que seja uma mãe. A mãe é aquela que é a última da linha de frente. Se “der merda”, ela não tem um outro a quem recorrer. Ela simplesmente tem que ficar ali e resolver. A mãe – quem quer que seja que esteja ali nessa função – é aquela que encarna a responsabilidade do cuidado, o que quer que isso implique. O pai é aquele que pode se dar ao luxo de estar disponível. Ou não. Assim, fica fácil reclamar do “excesso” de dedicação das mulheres, né?

Sei que existem homens que são os últimos da linha de frente. Sei que existem avós que exercem essa função. Mas na grande maioria das vezes, somos nós, mulheres e mães, que seguramos o rojão, por escolha, vontade, desejo, obrigação ou o que for. E ainda temos que ouvir que a relação de proximidade que estabelecemos com nossos filhos pequenos é que é um problema. Como se o problema não fosse muito maior para os bebês que – em nome de uma pretensa independência a ser conquistada desde sempre – acabam largados no mais total abandono. Gente rejeitada, abandonada e desamparada que, depois de adultos, se tornam paradoxalmente os maiores defensores de uma distância grande entre uma mãe e seu filho.

Existem uma pressa perversa nessa busca de uma separação precoce entre uma mãe e seu bebê. Pressa por vezes egoísta, em que muitos homens não admitem sair do centro nem em prol das próprias crias. Pressa que cria um discurso demonizador da relação que uma mãe estabelece com um filho. Pressa que solicita sem parar essa mulher para si, essa criança para si, qual um Cronos mitológico cuja preocupação é apenas a de devorar os próprios filhos para não arriscar seu reinado. E que se dispõe sempre a acusar e a culpabilizar essa mulher, dizendo que seu “excesso de zelo” ocorre por dificuldades dela, necessidades dela, impossibilidades dela. Sim, tudo isso comparece. Nunca estamos em nenhuma relação sem que algo ali reverta em nosso próprio benefício. Mas talvez aquilo que alguns desses homens acusem como excesso seja, tão somente, o que é necessário no início de uma vida. E eles não se dão conta porque, simplesmente, não conseguem olhar para além do próprio umbigo.

Texto interessante sobre a importância do pai na vida dos filhos: aqui.

Alguns pais que conseguem se colocar em um lugar diferente, sem menosprezar suas mulheres e seus filhos para tanto: aqui, aqui e aqui.

A mãe da mãe

Conheço pelo menos umas três mães recentes que enfrentam os maiores obstáculos com as suas próprias genitoras, as avós dos rebentos. Essas mulheres, que poderiam ser as maiores apoiadoras das suas filhas em um momento tão delicado e sensível que é esse do início da maternidade acabam se revelando críticas ferozes, desrespeitosas, destrutivas.

Gosto de pensar em um momento ideal que ficou lá no passado, ao menos para nós, mulheres ocidentais, em que engravidar, parir e maternar era coisa que não se vivia sozinha. A mãe recente estava apoiada por outras mulheres mais velhas que, com experiência e sabedoria, a acompanhavam de maneira solidária e cuidadosa. Cuidar das novas mães para que elas possam cuidar dos seus filhos, essa seria uma das tarefas dessas mulheres mais velhas, dessas avós, a fim de garantir a continuidade da vida.

Mas daí os séculos foram passando e chegamos em um período bem esquisito da nossa história em que família passou a ser apenas o núcleo familiar – pai, mãe e filhos. E ficou com esses poucos a imensa tarefa de criar as crianças. Sozinhos. Na maior parte das vezes, mães sozinhas com os seus bebês pequenos. Quase tão desamparadas quanto eles. Não consigo imaginar a que serviu esse arranjo, mas certamente desarticulou muito da vida e dos saberes comunitários, aqueles que passam de pais para filhos, desfazendo com isso uma rede de solidariedade que devia dar muito certo. E deixando tudo a cargo dos pais que, não tendo como suportar o fardo e tendo condições para isso, passaram a terceirizar os cuidados com as crianças. Enfim, pais abandonados, crianças abandonadas, todo mundo tento que aprender a se virar. Não me parece um bom jeito de cuidar e proteger a vida de quem quer que seja esse.

De todo modo, nesse jeito isolado de viver a maternidade sobrou ainda a figura dos avós e, principalmente, das avós que muitas vezes ainda comparecem para ajudar as filhas que se tornam mães. Mas é aí que, muitas vezes, a porca torce o rabo.

Laura Gutman já escreveu que não é possível tornar-se mãe sem revisitar o melhor e o pior da própria infância. É como um acerto de contas com o passado, que dura muito mais tempo que os nove meses de gestação e dá muito mais trabalho do que cuidar do pequeno rebento recém parido. É como a caixa de Pandora reaberta, ninguém sabe o que vai sair dali, quais fantasmas, quais dores, quais medos. E não sobra muita alternativa a não ser encarar. Porque quando você menos espera, já está reagindo como sua mãe, gritando os gritos, dando as respostas, refazendo a violência que viveu. Conclusão: ou você encara, ou sobra para o seu filho. Putz!

O pior é que, a meu ver, a mesma caixa de Pandora que abre para um lado abre para o outro. Não tem como uma mãe tornar-se avó sem passar por um confronto intenso com a mãe que foi para a sua filha. Quer dizer, tem, se for à distância. Mas desde que ela decida se envolver, estará fadada a ver retornar para si uma montanha de coisas do que foi sua experiência como mãe.

Existem mães que esperam ver nas filhas o espelho delas mesmas. Elas mal percebem que ali existe uma outra pessoa. E que o modo como criaram aquela outra pessoa como extensão delas, podendo dispor de seus corpos e de suas cabeças como bem entendessem, como se aquela menina fosse um direito adquirido delas, uma posse, não fez com que a criança em questão se tornasse um anexo. E essa filha cresceu e talvez tenha se tornado uma pessoa por si mesma. E então tornou-se mãe. E essa mulher torna-se avó.

De cara ela fica frente ao tempo. O tempo passou para ela, ela envelheceu. Aquela mulher soberana enfraqueceu-se e a menina tornou-se mulher. Há mães que não suportam isso… lembram da Branca de Neve? Pois é, é a história da mãe que não aguenta que a filha cresça porque vê nisso uma concorrência e uma ameaça. Então aquela menina que virou mulher e agora tornou-se mãe é uma ameaça terrível. Uma ameaça da passagem do tempo, do envelhecimento, da decadência, do ter que dar lugar à nova geração. Quantas mães massacram suas filhas logo que as mesmas para que elas não as ameacem?

E a gravidez e a maternidade tornam-se uma ameaça. Se essa filha se tornar mulher, que lugar sobra para ela, a avó? Eis que a solução para muitas delas é tentar engolir as filhas, suas subjetividades e suas experiências mais uma vez. Sabe aquelas críticas à aparência, ao jeito de ser, às companhias que aparecem de um jeito feroz durante a adolescência? Então, viram as críticas a respeito de tudo o que for relacionado à gravidez, ao parto e à criação dos filhos. Em nome da experiência que têm, dizem com tranquilidade e boca cheia que tudo o que você decide é uma porcaria, a não ser que seja igual ao que ela fez. E para algumas mães recentes, isso chega em um momento de tanta fragilidade que parece impossível se contrapor. E elas acabam se anulando, cedendo, não tendo forças para brigar, entregando os filhos às próprias mães que se perpetuam no lugar de adultas cuidadoras em detrimento das próprias filhas, que viram irmãs dos filhos.

Essa avó ameaçada por ser avó rouba para si a maternidade da filha, torna-se mãe dos netos e a dona da verdade sobre criação e educação ou… Ou ela encontra pela frente uma filha mais ou menos capaz de impor um limite e então a coisa pode ficar ainda mais complicada. Porque uma filha que consegue ser alguém e torna-se mãe será a mãe que ela quer e pode ser. E isso pode significar uma mãe bem diferente daquela que teve. O que, para as mulheres que estão acostumadas com filhas extensão delas mesmas pode querer dizer uma afronta terrível. Um espelho que não as reflete. Como na Branca de Neve…

Deve ser difícil para essas mulheres verem as filhas fazerem de outro jeito, porque a diferença soa para elas como um julgamento sobre aquilo que elas escolheram. É como se o simples fato da filha fazer diferente dela significasse que o que ela fez foi errado. A mãe vê as atitudes dessa filha como julgamento e ataque e ataca de volta com críticas e recriminações. Conclusão? A nova mãe ou fica esmagada, ou fica sozinha.

Já testemunhei muitas vezes esse tipo de crueldade. E que ela aconteça no momento em que a nova mãe mais precisa de apoio e cuidado, não deixa de ser uma tragédia. Por sorte e com um pouco de esforço, nós mulheres temos podido contar com outras mulheres mais generosas quando essa mãe falta: amigas, contatos de internet, doulas… Enfim, há esperança de entorno e de aconchego.

Como também há esperança para essas avós que cuidam ao menos um pouco de limpar o terreno dos restos e sobras da vida para receber esse novo membro da família. Ter avós é precioso para uma criança. A imensa distância de gerações pode garantir um amor e uma ternura de parte a parte, quando os julgamentos, as tensões e os conflitos deixam de fazer sentido. Uma das melhores coisas que uma mãe pode dar a um filho é essa convivência com os seus avós. Mas para isso é preciso que esses mais velhos também saibam mudar de lugar.

Tenho uma grande amiga muito mais velha do que eu que escreve histórias para a neta. Conheço outra que faz tricot, herança da própria mãe. Ser avó envolve uma grande dose de generosidade e um poder retirar-se para segundo plano. Aceitar a passagem do tempo. E saber que o melhor que pode dar é agora uma outra coisa.

Penso que nenhuma mãe recente precisa de sua mãe (ou sogra) concorrendo consigo para ver quem é a melhor mãe. Nenhuma mãe recente precisa de sua mãe dizendo o que fazer, a menos que pergunte. E muito menos o que não fazer. O que uma mãe recente precisa é de apoio, silêncio e compreensão. E paciência. Ah, e o principal, ser cuidada. Porque uma avó não vai cuidar melhor do neto do que uma mãe poderia fazer. E nem deveria ser essa a sua prioridade. Para que se oferecer para fazer no lugar da sua filha aquilo que ela pode fazer e, inclusive, precisa aprender a se sentir à vontade e confiante fazendo? Para que concorrer e podar? Por que não fazer uma comidinha, ajudar com a casa ou outras coisas tão banais que ela não vai dar conta logo que o rebento vier ao mundo? Por que não oferecer ajuda e não apoia-la naquilo que ela decidir para o bebê, mesmo que seja diferente? E, quem sabe, até ver nisso motivo de orgulho por ter criado alguém capaz de criar um outro, não?

Aqui um depoimento lindo de uma avó muito sábia encontrando o neto pela primeira vez. Em inglês.

Essa história da cama compartilhada

Aqui foi assim: desde o começo, pensei que o melhor seria a pequena dormir num bercinho ao lado da nossa cama. Facilitaria para mim, por conta da amamentação à noite, pois quem amamenta sabe o quanto pode ser exaustivo levantar-se e ir até um outro quarto, dar de mamar, colocar o bebê para dormir e voltar para a cama. Todo esse ritual consome tanto tempo que logo o rebento chora de novo e o ciclo recomeça. E seria bom para ela também, já que estaria ali do lado, sentindo cheiro de mãe e pai, ouvindo nossos barulhos (recém-nascido sai de uma barriga barulhenta e silêncio pode ser aterrador) e nós os dela. Nada mais tranquilizador para uma mãe do que saber que pode escutar qualquer barulhinho da filha bebê e acudir em caso de necessidade. Enfim, belos planos e tudo poderia ter sido lindo e sem complicações. Mas a vida teima em nos desobedecer, né?

O cara-metade, por questões pessoais e culturais, cismou que bebê tinha que dormir no quarto dela desde o primeiro dia. Dependesse dele, ela até choraria para aprender a se acalmar e dormir sozinha desde o início, tão convencido que estava de que isso não apenas era o certo, como também era possível de fazer com um recém-nascido sem gerar uma enorme violência para um bebê indefeso e que precisa, antes de mais nada, da presença, da proximidade e do aconchego dos pais o tempo todo, até se sentir em segurança. Nada poderia ser mais contrário às minhas concepções e a conclusão disso é que a bebê foi para o quarto dela e a babá eletrônica ficou ligada no último volume do lado da minha orelha. E que a cada suspiro eu acordava e ia ver, para que ela não chorasse abandonada. Tomei para mim a responsabilidade de tratar seus choros como penso que eles deveriam ser tratados: como pedidos de socorro que precisam ser atendidos e não ignorados para que ela aprenda a se virar sozinha. Deu certo e a pequena seguiu bem cuidada, bem atendida em suas necessidades e sentindo-se protegida. Mas deu também em uma mãe exausta, muito mais exausta do que ficaria se as coisas tivessem acontecido de modo a facilitar ao máximo a vida das duas nesse primeiro momento. Resumo da opéra: o vai e vem entre quartos durou o primeiro mês. Em seguida eu fui para o quarto dela e comecei a amamentar deitada durante a noite, descansando mais e dormindo melhor. Ela também pareceu poder ter um sono mais sereno. Após cerca de seis meses, o cara-metade entendeu que a prioridade ali não era adestrar nossa filha para que ela dormisse sozinha a noite inteira e se virasse sozinha caso acordasse durante a noite. Ele entendeu também que meu conforto e meu descanso eram essenciais para que tudo corresse bem, especialmente a amamentação. E a pequena veio para nossa cama. E assim está até o momento.

Acho muito complicado dizer que é perigoso e nocivo fazer cama compartilhada e que é importante que o bebê durma sozinho desde sempre para ser independente. Perigoso é algo que pode ser evitado tomando-se umas tantas precauções quando o bebê dorme na mesma cama com os pais. E há estudos que mostram que bebês dormindo em seus quartos sozinhos correm mais riscos do que aqueles que dormem em cama compartilhada. Portanto, perigos existem para ambos os lados e podem ser evitados.

Quanto à nocividade, me parece curiosa a idéia. O primeiro argumento é a vida sexual e a intimidade do casal, invadidas pela presença da criança. E a resposta sempre boa e válida é que sexo e intimidade não dependem apenas de uma cama pois, se fosse assim, a vida dos casais seria bem entediante, não? Além do mais, a realidade é que a vida sexual e a intimidade de um casal ficam seriamente afetados quando nasce uma criança, onde quer que ela durma. Ficam afetados porque a mulher se fecha em uma bolha com seu bebê no começo da maternidade e é necessário que ela faça isso. Disso depende esse bebê e sua sobrevivência, de alguém que possa se dedicar a ele. Ficam afetados porque se na maior parte do tempo estamos exaustas. E isso mesmo quando pai e mãe cuidam do bebê. E a dinâmica do casal muda. Até que os dois se reinventem enquanto casal, criem novas intimidades e descubram novos modos de fazer antigas coisas. Ou seja, partilhar uma cama é o menor dos problemas de um casal quando eles se tornam pais, acreditem.

Mas tem também a idéia de que a criança vai ficar dependente e nunca mais vai querer sair dali. Que é análoga à idéia de que a criança que mama fica dependente do peito e nunca vai querer desmamar. Quer dizer, são as suposições de que ninguém vai querer largar algo que é bom. Nem que seja por outra coisa que é boa também. Então. Todos os relatos que eu li até hoje de desmame natural, assim como relatos das crianças que começam a dormir em seus próprios quartos desmentem essa crendice (um exemplo). Porque, ao contrário das crianças que não têm aquilo de que elas precisam no momento em que elas precisam e que passam o resto da vida reivindicando o que elas não tiveram, crianças que têm o que precisam na hora em que precisam parecem muito mais seguras para seguir adiante e deixar essas coisas quando elas deixam de ser necessárias. Curioso? Para mim parece fazer sentido. E é o que vejo acontecer muitas vezes, com pacientes e amigos.

O fato é que crianças precisam ser cuidadas, protegidas, aconchegadas. Mas elas também gostam muito de adquirir autonomia e ficam visivelmente satisfeitas quando conquistam alguma nova possibilidade emocional, física, intelectual… Não precisamos nos preocupar tanto assim: do mesmo modo como elas vêm, elas vão, e vêm e vão naquilo que precisam. Basta lhes darmos ouvidos e estarmos atentos aos seus sinais. E respeitarmos suas necessidades e limites.

Bons textos sobre o tema: aqui, aqui, aqui e aqui.

Frio na barriga

E lá fomos nós ao parque. E lá se foi você, andando sozinha até os brinquedos. Da última vez que ali estivemos, você precisava se apoiar ou engatinhar. E eis que um ano e um mês apenas depois de nascida você sai do colo assim, andando, toda cheia de sorrisos e alegria de reencontrar seu parque. Olha para trás uma vez e sorri para mim.

Pela primeira vez você sobe no brinquedo que leva ao escorregador. Sobe e desce as rampas, apoiada nas grades laterais, grudada nelas. Cada vez que um pezinho procura um apoio meu coração gela. Tenho medo que você caia, que se machuque. Tenho medo por você. O mais difícil é não me precipitar em te proteger e deixar você descobrir as coisas. O mais estranho é essa ambivalente sensação de orgulho, alegria e tristeza em te ver superando obstáculos. Você é marruda e insiste, vai se agarrando e consegue percorrer o brinquedo todo. Chega no escorregador orgulhosa e me sorri. Te ajudo a escorregar. Você recomeça tudo novamente.

Cada criança que passa você abre um largo sorriso, nariz franzido, carinha aberta e iluminada, sua maneira de dizer olá. Alguns sorriem de volta e você fica nesse jogo dos sorrisos trocados. Outros não te olham, mas você insiste. A maior parte das crianças é mais velha, mas você não se inibe. Se intromete em brincar junto, se aproxima, não tem medo.

Um garoto pequeno vem com uma mamadeira em punho te dar um abraço. Você perde o equilíbrio e os dois caem no chão. Ele levanta e você fica ali deitada, carinha estupefata, não sabe se quer levantar de novo ou ficar por ali mesmo. Não ri, não chora, apenas fica ali deitada na grama. A vida é surpreendente.

Por que eu não faria uma cesariana

Começo com a ressalva, para evitar mal-entendidos: se você fez uma cesariana ou quer fazer e está bem com isso, esse texto não é para você. Se você fez uma cesariana ou quer fazer e não está bem com isso, ou está em dúvida, ou insegura, ou com a pulga atrás da orelha, talvez esse texto seja para você. Mas já adianto que não é um texto muito condescendente e talvez te irrite, te aborreça, te deixe com raiva. Em qualquer dos casos, desculpe-me de antemão. Minha intenção não é te agredir. Apenas pensar em voz alta, por escrito, segundo meus valores e minhas crenças…

Um dos textos mais lindos e delicados sobre parto que eu já li é de uma mulher que ainda não pariu, a Juliana. Ela explica por que quer um parto normal, natural e humanizado para trazer ao mundo seu bebê. E concordo integralmente com o que ela diz.

Tive a sorte de ter um parto humanizado. E não apenas a sorte, visto que só foi possível ser assim após muita reflexão, informação e trabalho. Mesmo aqui na França, os partos são normais mas nada humanizados. E pouca gente parece se preocupar com isso. Mas eu me preocupei e consegui entrar em umas brechas do sistema e ter o parto que considerava o mais respeitoso e cuidadoso para minha filha.

Quando qualquer um escreve defendendo o parto humanizado, imediatamente pipocam centenas de comentários, na maior parte das vezes de mulheres que são mães e tiveram seus filhos por cesariana, defendendo essa via de nascimento com unhas e dentes. Porque isso não as faz menos mães. Como se alguém tivesse dito o contrário. Mas essas mulheres, empurradas para um procedimento cirúrgico desnecessário, altamente invasivo e debilitante e não sem consequências para ela e para o bebê parecem ter a necessidade de acreditar que sua opção não foi tão ruim assim. Mas sempre fica uma pulga atrás da orelha cutucando e corroendo o coração e o pensamento, né? E isso dói muito, cada vez que alguém toca no assunto.

Conheço mulheres que passaram por cesarianas de emergência sob os mais diversos argumentos. Sempre bom lembrar que existem poucos reais argumentos para uma cesariana e centenas de falsos pretextos, frutos da ganância do sistema hospitalar, da conveniência e da incompetência dos médicos e – por que não? – da desinformação e dos valores de mães, pais e da sociedade em geral. Ainda assim, tem gente que passa por uma cesariana de emergência por algum real motivo. E gente que passa por isso sem motivo algum. E até mesmo gente que escolhe passar por isso. Por quê? Não faço idéia. Ou melhor, tenho algumas idéias a respeito.

Mas isso fica para outra hora. Aqui, apresento a minha lista de por que eu não faria uma cesariana, a não ser que fosse realmente necessário.

  • porque nós mulheres parimos desde que a espécie humana existe e nunca precisamos de nenhuma intervenção para garantir que continuaríamos existindo. Ou seja, sabemos parir e podemos fazê-lo há milhares de anos.
  • porque não vejo nenhum sentido em utilizar um recurso quando ele não é necessário: por que optar por uma cirurgia se o bebê tem todas as condições de nascer naturalmente?
  • porque detesto intervenções médicas. Não faço plástica, não faço nada que não seja preciso. Não tenho a menor vontade de dar chance para o azar de um erro médico.
  • porque os médicos erram e a medicina é falível. Embora nunca nos digam, os médicos erram e a medicina é uma ciência totalmente apoiada em acertos e erros. E eu não tenho nenhuma intenção de constatar essa falibilidade da medicina na hora de botar um filho no mundo.
  • porque, ao contrário do que se diz, existem mais mortes de mães e de bebês por conta da cesariana e de outras intervenções praticadas no hospital do que por conta de partos normais que deram errado. Quer dizer: há mais cesarianas que dão errado do que partos normais, que tal?
  • porque um hospital, mesmo uma maternidade, é um terreno fértil para vírus, bactérias e toda sorte de porcarias que podem acabar te dando de brinde, além da cirurgia, uma bela infecção hospitalar.
  • porque não tenho a menor vontade de passar por um cirurgia imensa, em que todas as camadas até o meu útero serão cortadas e depois costuradas. E não tenho nenhuma vontade de passar pela recuperação dessa cirurgia depois.
  • porque, ao contrário do que dizem, você passa os dias seguintes com dor, sem conseguir se mexer direito, correndo risco dos pontos abrirem, infeccionarem, entupida de remédios… é uma cirurgia, minha gente, sacou?
  • porque não tenho a menor vontade de passar os primeiros momentos com o meu bebê amarrada, sem poder mexer os braços, sem poder tocá-lo, acolhê-lo, confortá-lo. O bebê chorando ali desesperado, precisando de mim e eu ali, toda aberta, anestesiada, sem poder fazer nada, tendo que me contentar em dar um beijinho e vendo ele ser levado para longe de mim, para poder revê-lo apenas muitas e muitas horas depois? Se isso não é de uma crueldade sem tamanho, então não sei o que poderia ser.
  • porque não quero que a primeira experiência que o meu bebê tenha desse mundo seja ser arrancado da minha barriga sem prévio aviso, por mãos indiferentes, para uma sala gelada e super iluminada, cheia de rostos estranhos e sem nenhum acolhimento. E que ele seja furado, esticado e virado do avesso em procedimentos que não precisam acontecer nesse momento e que apenas aumentam a violência com que é recebido. Para finalizar indo para um berçário, sendo lavado, vestido e deixado ali com outros bebês a chorar, naquele ambiente totalmente inóspito. Quem em sã consciência quer apresentar o mundo a seu filho dessa maneira quando tem outra opção?
  • porque parto normal dói menos do que cesariana. A prova? Não existe cesariana sem anestesia, né? Enquanto que um parto normal pode dispensá-la e, ainda assim, ter muito pouca dor.
  • porque quero ser agente do meu parto. Quero poder decidir, quero poder seguir o meu ritmo e o ritmo do meu bebê. E não ser objeto e deixá-lo ser objeto nas mãos de uma terceira pessoa que vai decidir tudo por nós sem nos consultar e sem considerar quem somos e o que queremos, apenas baseado naquilo que julga que precisamos.

Imagens

Com a publicação do post como convidada do Confessionário do bebe.com.br veio o pedido de uma imagem que acompanhasse o texto, de preferência minha com a minha bebê. Depois de muito pensar, enviei uma de minhas favoritas, em que ambas aparecemos de costas. O carinho, a afeição, a ternura e o amor estão todos ali, mas nossas caras e, especialmente, a da minha filha, não.

Quem acompanha o blog há algum tempo já reparou que eu nunca coloco fotos nossas. Nem mesmo o nome da bebê eu menciono. Isso não ocorre apenas aqui. No facebook, em que tenho uma página pessoal, se publiquei quatro ou cinco fotos da minha filha desde que nasceu foi muito. Por quê?

Frequento a internet desde que ela surgiu. Sou do tempo em que existia máquina de escrever e que para se comunicar com as pessoas usávamos telefone (fixo) ou carta. As informações levavam séculos para chegar, se comparadas com os dias de hoje e uma boa pesquisa bibliográfica em uma boa biblioteca era um tesouro precioso, pois encontrar informações levava tempo e demandava muita paciência. É, sou velha e vi a internet nascer. Assim como todos os antepassados do skype. E os antepassados do facebook. E do instagram. E do twitter. E das clouds. E por aí vai. Você já entenderam, eu sou velha, experiente e blá blá blá. Mas não tem nenhuma lição de moral aqui, vão vendo.

Eu vi todas essas revoluções da web surgirem e posso dizer que participei de quase todas. Difícil nomear um site do qual não participei, uma rede social, um protocolo de trocas P2P. Porque sou curiosa e, mais ainda, porque vejo esse tal mundo virtual como algo interessante e cheio de potencialidades formidáveis, algo explosivo e revolucionário mas, também, capaz de gerar verdadeiras bolas de neve de catástrofes.

Pouco a pouco fui entendendo que, na web, nada morre. Tudo fica para sempre e isso pode ser uma mão na roda quando você está procurando alguma informação sobre uma música meio obscura que escutou uma vez na vida, num festival nos anos 2000. Mas pode ser um verdadeiro pesadelo quando se trata de algo que, com o passar do tempo, você preferia esquecer. Eis aí o problema da net: quanto mais ela se expande e quanto mais ela se aprofunda, mas ficamos impedidos dessa função tão necessária para todo o ser humano: esquecer, apagar, deixar para trás. A net não nos permite. Quando me dei conta disso, mesmo continuando ativamente nesse mundo virtual, comecei a pensar melhor naquilo que gostaria de ter publicado a meu respeito. Não, isso não quer dizer que tenho algo a esconder. Isso quer dizer que tenho necessidade – como todo mundo – de privacidade. E privacidade não rima com esse mundo público, explícito e escancarado aqui.

Quando fiquei grávida, a necessidade que tenho de escrever atravessou também essa experiência e o blog surgiu. E tem existido desde então com posts mais ou menos pessoais. Mas procuro sempre manter aquilo que julgo um limite razoável entre desvelar e refletir. Pois, até por vício de profissão, sei que muitas vezes falar de si – no caso, um terapeuta que fala de si durante a sessão com o paciente, ao invés de deixar que ele fale – pode ser mais por exibicionismo do que servir a algum propósito útil. Então, até onde ir?

Mais do que isso, no entanto, foi a preocupação que nasceu com o nascimento da minha filha de uma superexposição dela. Vejam bem: eu conheço uma centena de blogs de maternidade que são super pessoais, que narram o cotidiano de mães, bebês, famílias, com fotos, fatos e tudo o mais. Conheço e adoro alguns deles. São bonitos, são tocantes. Podem servir de exemplo, de consolo, de inspiração. Mas eu não tenho essa pegada porque, como disse, me preocupo com outras coisas. E na maior parte das vezes me interesso mais em discutir idéias do que fatos. Deve ser outro vício de profissão, de acadêmica, de pensadora. Enfim.

O que me preocupa é que as gerações que nasceram depois da internet têm uma relação totalmente visceral com ela e tudo parece tão natural e evidente como alguém como eu jamais poderá sentir. E se isso é interessante, talvez bom e cria pessoas novas, com novas subjetividades e novas possibilidades, também cria novos riscos e novos perigos. E a superexposição é um deles.

Nem vou entrar no mérito das muitas notícias que lemos todos os dias de informações coletadas na internet e que servem para sequestros, assaltos, pedofilia, bullying entre coleguinhas de escola, demissão de emprego por justa causa e tantas outras coisas desagradáveis ou até mesmo trágicas que podem acontecer como consequência de rastros que deixamos aqui e ali, coisas das quais esquecemos, mas que a web não deixou se apagarem.

Com uma filha pequena, sinto que tenho a responsabilidade não apenas de protegê-la como também de não contribuir para que, desde o começo da sua existência, ela seja super exposta em suas mil caras, humores e experiências, a ponto da sua vida virar um livro aberto para todo mundo que quiser saber. Porque pode ser perigoso e, mais ainda, simplesmente porque não me acho no direito de decidir isso por ela.

Não me acho no direito de decidir quem vai acompanhar a sua vida com riqueza de detalhes, nem tudo o que vai ser dito a respeito do que ela vive. Novamente, não se trata de uma crítica a quem o faz. Já disse que alguns de meus blogs favoritos e de minhas blogueiras mais queridas têm justamente esse perfil. Estou apenas dividindo uma impressão minha, que é ainda mais forte naquilo que vejo exposto nas redes sociais do que em blogs de maternidade, por estranho que pareça.

Vocês podem me dizer que, contraditoriamente, eu escrevo sobre maternidade e muitas vezes escrevo sobre minha filha. E é verdade. E cada qual nessa blogosfera materna tem que descobrir qual é a sua fronteira entre público e privado, entre o que pode ser dito e o que deve ser silenciado. No meu caso, mais do que as palavras, a imagem é aquilo com que mais me preocupo.

Temos uma relação interessante com a imagem na nossa época. Se a palavra desliza, pode ir e vir e ser tomada como interpretação, licença poética, meia verdade, a imagem tem para nós uma rigidez muito maior: acreditamos que as imagens não mentem, que são a tradução literal de alguma verdade. Isso não é por acaso: desde que a fotografia surgiu ocupou a função de transcrição fidedigna da realidade. Como se aquilo que aparece na foto fosse o real, a tradução de um fato. Não é isso que concluímos quando folheamos revistas de celebridades ou assistimos aos jornais televisivos, que aquilo que eles mostram é real? Se com a palavra temos alguma condescendência, com a imagem nos jogamos sem nos questionarmos no reino da verdade absoluta. Eis algo da mentalidade de nosso tempo que ainda não se modificou, mesmo que hoje em dia tenhamos acesso à informação de que imagens são manipuladas, são leituras e são interpretações parciais: nós acreditamos nelas. Mesmo com photoshop. Então, as imagens de família, a meu ver, expõem de maneira diferente e mais intensa do que as histórias de família porque, com elas, achamos que estamos diante da verdade daquelas pessoas. E isso, na internet, se congela e se eterniza para sempre, essa verdade. Será bom para nossos filhos que tantas verdades absolutas sobre eles já estejam congeladas em imagens antes mesmo que eles aprendam a falar?

É claro que mesmo fora da web nós, mães e pais, falamos, mostramos fotos, contamos as peripécias. Mas aqui as coisas podem atingir um alcance que dificilmente teriam do “lado de fora”, a menos que fôssemos celebridades perseguidas por paparazzis 24 horas por dia. Para todos os outros, a benção do anonimato, da privacidade e de passar incógnito. Não é um bálsamo em tempos de tanta exposição?

Não tenho ilusões: minha filha vive nesse tempo e vai se relacionar com esse mundo, dentro e fora da net. Mas não será mais justo deixar que ela como pretende fazer isso decida quando tiver condições?

E foi dada a largada!

Mal tivemos tempo de assoprar a velinha de um ano e comer um pedaço de bolo. A pequena mal teve tempo de começar a andar e explorar seus presentes de aniversário. E eis que surge a inevitável pergunta:

- Ainda mama?

- Mama.

- Vai mamar até quando?

- Até quando ela quiser.

- Mas então ela não vai parar nunca. Se a gente não desmama, o bebê não para sozinho.

Silêncio… Tentando imaginar de onde pode ter surgido uma idéia tão absurda que supõe que um bebê que é capaz de mamar quando precisa e não mamar quando não precisa, cotidianamente, persistiria mamando em nome de sei lá o quê até sei lá quando.

- Claro que vai.

- Sei. Mas desse jeito você vai ter que fazer uma plástica quando ela parar porque seus peitos vão ficar no chão.

Silêncio estupefato tentando imaginar um ser que vai mamar até a idade adulta em meus seios caídos varrendo o chão da sala.

Queria entender o que leva as pessoas a esse tipo de convicção. E mais ainda o que as leva a deixarem escorregar boca afora antes mesmo de pensar naquilo que vão dizer. Então um bebê não desmama sozinho, se respeitarmos seu tempo e seu ritmo, tão somente porque deixa de ser necessário, já que ele encontra outras formas de nutrição, de proteção e de afeto? Então temos que impor um fim numa data qualquer tirada da cartola e que nos parece ser a data em que bebês deveriam parar de mamar? Então somos nós que decidimos essa data?

Não vou entrar aqui na discussão a respeito das mães que decidem parar de amamentar em um determinado momento, por qualquer razão que seja. Não vou entrar no mérito das mães que acham que devem conduzir o desmame ou impor algum limite. O desmame, assim como a amamentação, é do bebê e da mãe e apenas aos dois cabe decidir. Ninguém tem nada com isso. Ou não deveria ter. Nem com peitos arrastando no chão pois, sejamos francas, não é esse o destino de todas nós? Ou quem não amamenta ou para de amamentar com medo dos peitos caírem acha que passou incólume pelas leis da gravidade? E, convenhamos, se isso é insuportável, cirurgia plástica existe e está aí para todo mundo que quiser consumir e puder pagar, né?

Por que é que a chegada do primeiro ano libera nas pessoas uma impressão de que, a partir dali, tudo é permitido? Parar de mamar? Demorou. Comer doces, chocolate, tudo o que for bem cheio de açúcar e não trouxer nenhum benefício para o bebê? Claro, porque, afinal, ele vai acabar comendo mesmo. Ver TV, vídeos no iPad, joguinhos no celular? Sim, afinal, é entretenimento de excelente qualidade e totalmente apropriado para uma criança, especialmente uma criança bem pequena que está formando todas as suas conexões cerebrais e constituindo seu modo de conhecer o mundo. Esses tapa-buraco eletrônicos estão realmente oferecendo tudo o que ela precisa nesse momento: contato, presença de outros, interação… Ah, mas ela gosta, olha só, ela fica olhando entretida. Claro, meu bem, quem não olharia entretido para algo que é feito para ser hipnotizante? Assumamos: é só um cala-a-boca, fica quieto aí, que faz as vezes de sossega-leão quando o que os adultos querem é ter sossego. E uma criança de um ano que começa a andar é tudo menos sossego. O mesmo vale para o açúcar e toda sorte de porcarias que as pessoas acreditam piamente que devem ser apresentadas à criança tão logo a primeira velinha se apague.

Funciona assim: até agora toleramos mais ou menos que você, mãe, cuide do seu filho como acredita ser o melhor. Mas agora ele não é mais um bebê e deve ser introduzido ao mundo real, aquele no qual vai viver para toda vida. E o mundo real é feito de decisões arbitrárias a seu respeito, onde a única coisa que não conta são suas necessidades e possibilidades. E muito açúcar, muita TV, muitos eletrônicos, muito consumo de coisas sem substância. Em todos os sentidos. Esse é o mundo real que aguardamos tão ansiosamente apresentar para nossos filhos que mal eles completam um ano já temos que enfiá-lo goela abaixo? Putz!

Foi dada a largada. Salve-se quem puder.

O preço que se paga

Logo que vim morar na França, em princípio por conta de uma bolsa-sanduíche de doutorado, muita gente vinha falar comigo de sua vontade imensa de fazer o mesmo. Morar fora, passar um tempo fora, ainda mais por conta de um projeto de pesquisa, ainda mais na França… que sonho! As pessoas vinham sondar: afinal, como é que você conseguiu isso? E quando ouviam minhas histórias sobre todo o trabalho que dá fazer uma pesquisa de pós-graduação e, mais ainda, sair do país por conta dela, murchavam um pouquinho. Conclusão: dessas tantas pessoas, apenas uma ou outra realmente foram atrás daquilo que diziam querer, ou seja, de morar fora, de estudar fora, de passar um tempo fora.

Não é segredo para ninguém que temos – nós, seres humanos em geral – esse hábito interessante de imaginar que sempre existe um lugar onde as coisas são muito melhores do que são para a gente. Esse lugar pode ser um outro país. Ou a vida de uma outra pessoa. Entre a inveja e a admiração, passamos mais ou menos tempo de nossas vidas olhando para os outros e nos indagando por que eles conseguem, por que para eles é assim, como é que na vida deles tudo parece acontecer tão facilmente?

Segredo: não é. Mas mesmo assim preferimos acreditar que existe o paraíso na terra e que ao menos algumas pessoas chegam naquele tal ideal que nos parece tão longe. Melhor sofrer por se achar incompetente, insuficiente ou menor do que sofrer por constatar que a vida é assim, meio errada, meio tortuosa, cheia de frustrações e desencontros e sem final feliz, não é mesmo?

Com a história da gravidez e da maternidade, o interesse que antes se concentrava em meu percurso profissional que culminou nessa estada fora do país se voltou, também, para minha vida pessoal. Eu já fui casada, já não tive filhos, já me separei, já cheguei perto da idade em que nada disso era mais prioridade e nem parecia possível de acontecer novamente em minha vida. E aconteceu. Então, as pessoas afluem curiosas: mas como foi? Como aconteceu? Como você encontrou alguém? Onde? De que jeito? Como fez?

Conheço muitas mulheres mais ou menos da minha idade com percursos parecidos com o que fiz. E, dentre elas, muitas que não se casaram ou não tiveram filhos. A menor parte delas por opção. Das que não optaram, são raríssimas as que parecem bem resolvidas com o rumo de suas vidas. A maior parte se queixa, muitas ainda esperam, todas lamentam o que não foi.

Tenho amigas brilhantes, poderosas e interessantes que passaram um tempo enorme investindo em suas carreiras e, quando foram se perguntar se por acaso queriam família e filhos, se desesperaram. Não sabiam o que responder. Essa inquietude, seria ela o tal relógio biológico soando em altos brados? Seria o desejo de encontrar alguém, de ter filhos, até então deixado de lado por conta do investimento estar todo em outro lugar? Seria a pressão social presente de maneira cruel em comentários, perguntas, filmes, situações que jogam na cara, constantemente, que mulheres que não se casam e não tem filhos são incompletas e infelizes?

Não sei, penso que para cada uma delas a resposta é um belo combo de todos esses fatores em diferentes proporções: desejo, pressão, medo, dúvida. O tempo passando e cada uma dessas mulheres sendo confrontada com a necessidade de dar uma resposta que aquiete seu coração e faça os outros pararem de aporrinhar. Tarefa difícil.

Conheço mulheres que, frente a esse dilema tentam responder como responderam a tudo aquilo que viveram até então: marido, filhos, família se tornam apenas outros itens banais de um planning em que seria possível estabelecer metas e cumpri-las. Como se bastasse, a qualquer momento da vida, apenas decidir que queremos encontrar alguém, que esse alguém seja legal, que decidamos viver junto e que queiramos ter filhos para que, como num passe de mágica, tudo isso se realize. Perfeitamente. Como em um script. Quanto mais essas mulheres foram acostumadas a dirigirem suas vidas e suas escolhas, a se traçarem objetivos e cumpri-los, a terem êxito em seus projetos e a concretizá-los com louvores mais chances de que inventem esse projeto relacionamento-casamento-maternidade nos mesmos moldes. E esperem que assim funcione.

Outro segredo: não funciona.

Lembro de uma paciente que atendi por muito tempo e que, em torno de seus 45 anos, decidiu que queria ter filhos. Era casada, tinha uma carreira bem sucedida, uma relação feliz e amorosa com seu companheiro e decidiu ter filhos. Porque queria, porque queria ser mãe, porque não queria deixar de viver isso e se arrepender no futuro… enfim, por muitas razões. A gravidez não aconteceu. E não aconteceu. E não aconteceu. E não aconteceu. E na hora em que não aconteceu saiu do esquema, escapou ao controle, não obedeceu ao seu projeto. E virou questão de honra. Virou obsessão. E ela que era alguém antes disso, que era mulher, que era profissional, que era interessante, interessada e tinha tantos interesses e planos virou apenas aquela que queria ter filhos. Ter filhos virou o único objetivo da vida, o único desejo, a única possibilidade. Será que era apenas porque não poderia ser? Não sei, mas virou.

Essa mulher fez tratamento e gastou tempo, dinheiro, investimento e dedicação a um sem número de inseminações artificiais. Que não funcionaram. A cada vez ela se animava de que poderia ser aquela. E a cada vez não era. E em meio ao desespero que tomou conta da sua vida ela tentava parecer cool, como se nem quisesse tanto assim, como se estivesse tranquila. Sabe aquela frase cruel que dizem: quando você desencanar acontece? Ela levava ao pé da letra e tentava forçar uma desencanação para ver se enganava à si mesma, ao destino, aos embriões implantados e a quem mais fosse necessário para que a frase se realizasse para ela. Fingia desencanar para ver se acontecia. E nem assim acontecia. O tal destino parece que não se deixa enganar.

Por que estou escrevendo tudo isso? Porque, bom, do mesmo jeito que as pessoas querem saber como é morar fora do país porque querem morar fora do país elas também ou querem saber como é encontrar alguém, ficar junto e ter filhos porque também querem encontrar alguém, ficar juntos e terem filhos… em todos esses casos em que olhamos a grama ou a vida do vizinho e vemos ali aquilo que queremos e que parece tão fácil para aquela pessoa ignoramos, ou preferimos ignorar, o trabalho que isso dá. O que ninguém quer saber porque pouca gente quer se comprometer é com o preço que se paga.

Nós mulheres pós revolução feminista crescemos ouvindo martelarem em nossos ouvidos que podemos tudo e que temos direito a tudo. Não existe limite algum para nosso querer e para o que podemos conseguir. O que era uma desigualdade de gênero que impunha restrições e precisava e precisa ainda ser desfeita e questionada tornou-se uma ladainha do podemos ter tudo o que quisermos nessa vida.

Mais um segredo: não podemos. Ninguém pode. E não é pelo fato de sermos mulheres em um mundo machista. É apenas a consequência do fato de sermos humanos, de fazermos escolhas e de vivermos no tempo.

Temos o direito e temos condições de viver nossas vidas com tanta liberdade quanto quisermos de construirmos os projetos que desejarmos para nós mesmas. Ou deveríamos ter. Mas o que ninguém nos conta nessa empolgação por tomar o mundo e torná-lo nosso é que faremos uma porção de coisas e teremos que deixar de lado outras tantas.

Muitas vezes nos investimos em nossa carreira, em nosso trabalho, em nossos interesses pessoais e a vida transcorre bem assim, cheia de potências, cheia de satisfações e de sucessos. E então chega um momento que as pessoas chamam de “relógio biológico” e que eu prefiro pensar que é apenas uma tomada de consciência do tempo. Sim, o tempo existe, o relógio existe e os limites existem. Qual o impacto dessa constatação para as mulheres que passaram a vida acreditando que poderiam fazer tudo? Posso dizer daquilo que já testemunhei muitas e muitas vezes: é devastador.

Ninguém precisa querer casar, querer ter filhos ou formar uma família. Passamos do tempo em que tínhamos obrigação de preservar a espécie e vivemos em um mundo superlotado e cheio de problemas por conta da espécie humana portanto, ninguém mais precisa se reproduzir. Mas pouca gente consegue assumir numa boa que fez escolhas que não priorizaram família, filhos, relacionamentos. E que essas escolhas os levaram a uma vida sem família, filhos e relacionamentos. A maior parte de nós se dá conta que o tempo passou e que as oportunidades ficaram para trás. E nos sentimos traídos por nossas escolhas, pelo mundo, pela vida, por Deus, por nossos desejos. E decidimos tornar isso uma questão de honra e desafiar nossa própria trajetória para provar, custe o que custe que, sim, podemos, sim, podemos o que quisermos quando quisermos. Sem limites.

Ah, mas hoje em dia não tem mais isso. Com a tecnologia a mulher pode engravidar até os 60 anos de idade. Pois é, mais uma balela que apazigua muita gente que acredita mesmo que a tecnologia vai garantir esse tempo indeterminado para nós. E que podemos continuar mais um pouco com o que estamos fazendo porque ali na frente uma intervenção qualquer dará conta disso.

Ainda mais um segredo: mesmo com todas as técnicas de reprodução assistida e com o avanço das mesmas, a grande maioria esmagadora dos casos é de… fracassos. Ou seja, na maior parte das vezes não funciona.

Então, quando me perguntam como é que eu fiz para encontrar alguém e ter filhos, o que tenho vontade de responder é: aceitei pagar o preço. Qual preço? O de não saber se é o melhor momento, o de não saber se é o cara certo, o de não saber se vai dar certo, o de não saber. Aceitei pagar o preço de não poder controlar algo que envolve outras pessoas, afetos e disponibilidades como poderia controlar uma pesquisa de pós-doutorado, um texto, um artigo, uma aula a ser dada ou o tempo de sessão de um paciente. Relações e filhos escapam. E talvez funcionem se aceitamos pagar o preço da angústia que é vê-los escaparem.

Hoje em dia demoramos muito mais tempo para começar a pensar em filhos porque muitas de nós temos outros interesses e prioridades e isso é legítimo. Mas não dá para negar que é uma escolha e que, como toda escolha, traz consequências. Uma delas é que na hora em que começarmos a pensar no assunto pode ser tarde demais. Acho complicada essa idéia de que podemos tudo e que podemos adiar todos os projetos indefinidamente porque a ciência ou o que quer que seja vão resolver os limites para a gente ali na frente. Isso é uma mentira na qual escolhemos acreditar porque nos conforta imaginarmos que, enquanto investimos em alguma coisa, tudo o mais vai ficar em standby esperando. Não fica. Os caras legais e os não legais vão chegar e partir, vão viver suas vidas, vão encontrar pessoas, vão viver com elas, ter filhos ou não, se separar ou permanecer solteiros… a vida das pessoas vai acontecer à nossa revelia. E mais para frente vamos encontrá-los com um monte de bagagem das histórias que viveram e, se quisermos uma relação, teremos que nos haver com isso.

Não dá para querer encontrar alguém depois dos 30 achando que vai ser o conto de fadas dos 20 porque, simplesmente, depois dos 30 a maioria das pessoas já passou por um monte de coisas, já está calejado, desconfiado, realista. Então, para as amigas que estão com o famigerado “relógio biológico apitando” e não encontram ninguém, a pergunta que eu faria é: mas quem vocês querem encontrar? Porque, a essa altura do campeonato, não vão encontrar os caras voluntariosos e inconsequentes dos seus 20 anos. E, se encontrarem, fujam correndo porque, depois dos 30, gente porra louca é neurose grave e não um grande achado. Ter uma família dá muito trabalho em qualquer tempo, então não adianta querer algo e não querer pagar o preço disso.