Um ano

Um ano é um tempo no tempo. Um tempo curto, um tempo longo. Borboletas não duram nem um ano. Elefantes duram mais de uma centena. O universo nem se importa com um mísero ano. Mas você fez um ano. E um ano é uma vida inteira de alegrias, descobertas e invenções. Têm coisas que não se dizem. Em um ano, a maioria das coisas não há como dizer. Sentimos. Vivemos. Estávamos lá. Estamos aqui.

Poderíamos falar de um ano em um ano de acontecimentos. Daquela noite em que mamou pela primeira vez me olhando nos olhos. Dos momentos de paz e plenitude dormindo no sling. Do primeiro banho de mar com a vovó. Das histórias que o papai lê para você em português com sotaque. Das exposições de arte e dos piqueniques. Dos cuidados da Jurema. E das roupas de astronauta para esquentar no inverno. Do seu sorriso num dia de sol, chapeuzinho na cabeça, corada, na beira do mar. Do dia que engatinhou para frente pela primeira vez, depois de engatinhar de ré um tempão. Do primeiro mamãe, ao acordar, no Brasil. Do discurso que fez no avião, falando na sua língua bebezística, dedinho levantado, metade das pessoas encantadas. De sair no terraço e gritar pra todo mundo ouvir. Das sonecas deliciosas no colo do vovô ou da tatavó. Da titia te inventando apelidos. Das gatinhas que te encantam e que fizeram você falar “cat” (gato com chat) e “lolô”. Da carinha de sapeca sorridente. Da carinha de simpaticona séria. Do chorinho de diva, jogando a cabeça para trás. Você atenta descobrindo algo. A comedora de livros. A ouvidora de histórias. A contadora de histórias. O riso estampado no rosto, a gargalhada. O cheirinho, o beijo estalado. O abraço. Você engatinhando sem tocar os joelhos no chão. Ou com apenas três apoios. As idas ao parque e seu encontro com outras crianças. Sua alegria em descobrir outras crianças. Seu jeito divertido de dançar. Os pés descalços. Seu amor pela música. E pelo “parabéns pra você”. Sua surpresa ao ver formigas. A água que você gosta de beber no copo e que virou “apa”. Mamar fazendo alongamento. Mamar sorrindo. Rir das minhas palhaçadas. As descobertas culinárias. Seu gosto por mangas, bananas, melancia, morangos, cerejas, pêssegos, ameixas, abricots, abacaxis, laranjas… Sua cara lambuzada de iogurte. Seu amor bem francês por tudo quanto é queijo. E pelos pães. E por tomates, pimentões, peixe e espinafre. Os dentes coçando na boca. As gavetas abertas com tudo esparramado pelo chão. O dia em que você aprendeu a guardar, tirar e por. O dia em que aprendeu a apontar. Comer uma flor. Descobrir as folhas secas no chão. O vento batendo nos seus cabelos e você tranquila dormindo. Não. Um ano de acontecimentos não são tradução suficiente deste tempo.

Você pegou uma sacola de presente e saiu andando sozinha sem apoio nenhum pela primeira vez na sua festa de um ano. Festa em que estávamos todos presentes, ali. Sua família, os amigos-irmãos, os filhos dos amigos que, espero, amigos serão também. A Cecília e você batendo papo de bebê. Como sempre. A Bebel que te adora. O Davi, seu primeiro amor. A Luíza, miudinha, pequenina e olhando tudo bem atenta. O Marquinhos correndo para todo lado, montando e desmontando a festa, fazendo banda e brincando com os mais velhos. Você andando apoiada numa bicicletinha do seu primo, que te ajudou a abrir todos os presentes. Atenta, sorridente, séria, simpática. Feliz. Teve festa e festejamos. Festejamos esse seu tempo. Festejamos essa eternidade de um ano. O melhor tempo.

Te amo, minha filha. Parabéns!

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

Tem horas em que a gente simplesmente não sabe…

… o que fazer, o que dizer, para onde ir. Parece que é assim. Na maternidade e na vida, existem vários momentos em que simplesmente não sabemos.

Não que pudéssemos saber tudo, eis aí uma onipotência que é desconstruída dia a dia quando nos tornamos mães. Isso se ela já não havia sido desfeita antes pela própria vida. Não tem como saber, não tem como controlar. No final, o que podemos é muito pouco. E o cotidiano é o permanente jogo entre esse pouco que podemos e o que tentamos fazer com ele. Para ver se estica, se puxa e se chega até ali.

Escrevo com frequência sobre a saga da amamentação. Porque adoro amamentar. Porque acho importante. Porque percebo que um dos fatores que mais a dificultam é que não pensamos sobre ela, achando que é fácil, natural e que vai acontecer em um passe de mágica. Contando com essa naturalidade e mais um monte de informações desencontradas, quando não errôneas, eis uma boa receita para o bolo desandar na hora em que aparecer o primeiro grão de real nessa idealização cheia de facilidade. Enfim…

Por aqui e por aí, amamentar é um projeto de vida, daqueles que você precisa abraçar e se dedicar com afinco para que dê certo. Para aprender, para que seu filho aprenda, para que aprendam juntos, para que tudo se meta em andamento e funcione. E depois de uns dois meses você se descobre mais leve e apaziguada com a amamentação, alguma coisa entrou nos eixos e passa a caminhar por si. Bebê pede, bebê mama, tudo fica mais fácil. A meta são os seis meses, os seis meses de aleitamento exclusivo, que indicam que vocês venceram o grande desafio e podem celebrar tanta persistência e tanta dedicação. Podem mesmo. Mas não acaba aí.

Se podemos contar com a blogosfera e com uma série de referências e grupos que buscam informar e apoiar mães que querem amamentar sobre como fazer nesses primeiros meses, um silêncio enorme se faz depois disso, com a diversificação alimentar. Como é que fica amamentar depois que o bebê começa a comer outros alimentos?

No começo desses pós seis meses, fica tudo muito parecido com o que era antes, tendo em vista que o pequeno nem percebe que está comendo. Os alimentos vão para a boca como tudo o mais, numa espécie de brincadeira divertida com gostos, texturas e cores. Comida vai para a boca e é engolida eventualmente enquanto que outras coisas não. Ou espera-se que não, né? Porque tem pequenos que adoram engolir um papel aqui, uma folhinha acolá…

Mas passam-se novamente uns dois meses e comer outros alimentos entra em velocidade cruzeiro. E, como tudo mais nesse planeta maternália, basta que algo se estabilize e nos acostumemos a ele para que tudo mude novamente. Putz, não tem linha de chegada não?

Não.

Fato é que são praticamente inexistentes informações sobre como amamentar depois dos primeiros seis. Livre demanda? Continua. A menos que você queira começar a arbitrar sobre algo em que, até então, tinha optado por respeitar ritmo e necessidade do rebento. Mas e quando livre demanda significa bebê comer e mamar em seguida? E quando livre demanda significa bebê não querer comer e querer mamar? E quando significa bebê voltar a querer mamar duas ou três vezes por noite?

Pois é, você achando que quando algo engrena é sempre um movimento de progressão, onde o adquirido permanece e novos desafios surgem. Mas e se o movimento não é progressivo, evolutivo ou qualquer outro adjetivo desinvolvimentista para definir como os bebês deveriam ser? E se têm idas e vindas, retornos inesperados, isso quer dizer que há um problema? Ou é apenas assim, tão incerto como a vida?

Nesses dias, entre hipóteses de salto de desenvolvimento, dentes, angústia de separação ou fracasso na estratégia da diversificação alimentar, me dei conta do quão pouco sabemos sobre como se chega de um lugar a outro. Como é que um bebê come ou dorme a noite inteira sem o uso de técnicas de adestramento, sem imposições que desconsiderem o que ele precisa ou pode?

Os pais

Verdade seja dita, a imensa maioria da blogosfera materna é, como o nome mesmo diz, feminina. Assim como a imensa maioria das pessoas que encontro no parquinho, na praia, na praça cuidando dos filhos em um dia qualquer. Vemos menos pais por aqui nas consultas médicas ou na saída dos filhos da escola. Estranho arranjo que perdura e insiste em parecer normal.

Eles são mais comuns nas situações de lazer, nos finais de semana, junto com as mães ou, cada vez mais, sozinhos. Pais divorciados talvez, que encaram a tarefa de se ocupar dos pequenos por um período de tempo por conta própria e risco. Já vi pais trocando fraldas de forma estranha e desajeitada, já os vi brincando com os filhos enquanto falam no celular e toda sorte de esquisitice de um olhar desacostumado. E de pais também desacostumados de terem que se haver com as crias. Mas também já vi cenas bonitas de brincadeiras, de risos, de carinho e de proteção.

Hoje em dia exigimos um pai novo, um homem que participe ativamente da criação dos filhos desde o início, que troque fraldas, dê banho, alimente, entretenha, faça dormir, cuide, se ocupe, se preocupe… E que faça tudo isso como quem não faz mais do que a obrigação, como nós mães fazemos, sem esperar uma medalha no fim do dia ou um destaque na capa do jornal. Pai participativo é notícia, mãe que cuida dos filhos é lugar comum. Estranha divisão de tarefas.

Verdade seja dita, hoje em dia temos cada vez menos pessoas em torno de cada criança que nasce. E todas as exigência recaem sobre uma família cada vez menos e mais pressionada: uma mulher que se dedique, um homem que se envolva. O pai vira o único depositário de todas as exigências de ajuda da mãe que, por sua vez, fica totalmente isolada nos cuidados com seu bebê. A ela se demanda muita coisa, e ela despenca uma parte sobre esse homem. Pouca gente em volta, poucas redes de solidariedade, apenas duas pessoas para lidar com a chegada de um bebê e tudo de revolução que isso provoca. Não é justo para ninguém. E tem muito homem que enlouquece nesse ponto e cai fora, literalmente ou de maneiras mais subterrâneas e perversas, se enfiando no trabalho, se enchendo de compromissos e de indisponibilidade.

Ajudar já não é mais benvindo, é apenas obrigação. E o que bomba na blogosfera são aqueles pais inéditos, super engajados, por vezes tão participativos que chegam ao cúmulo de tirarem foto de gestante no lugar da mulher, tornando-se caricatura. Ou então aqueles pais tão incapazes que não sabem que ações geram consequências e que deixam o filho enfiar o braço na jaula de um tigre, sem considerar que isso pode causar um dano real. Vivemos em uma época em que muitas pessoas perderam a noção do peso de suas ações e de suas escolhas. E as crianças pagam no corpo esse desconhecimento perverso. Enquanto uns se divertem com filhos brincando com animais selvagens, outros brincam de serem pais magníficos na blogosfera, não pelo real e profundo questionamento do seu lugar e função mas pela mímica infantil daquilo que pensam que as mulheres querem, almejando o lugar de queridinhos da classe. Pouca gente com coragem e empenho para atuar fora do mundo da imagem, onde tudo marca e têm consequências. Triste.

Tenho gostado mais desses pais mais ou menos, esses cotidianos, que se surpreendem sendo pais e se descobrem amando seus filhos. Esses pais que se emocionam com os feitos do rebento e que não sabem o que fazer quando choram, que perdem noites de sono pensando em como educar as crianças e em como lhes garantir alguma proteção que os poupe do sofrimento e da precariedade no futuro.

Hoje é dia dos pais no Brasil, essa data tão besta quanto o dia das mães e que a gente insiste em lembrar. Uma data vazia de sentido em uma época em que os pais são tão diversos que talvez nem pudessem ser agrupados sob a mesma categoria. Data tola de celebração em um mundo em que o que se faz necessário é ainda demarcar o lugar das mulheres. E onde esse lugar muitas vezes é de oposição e de inimizade aos homens, pois parece não poder ser diferente. Um mundo em que os homens, quando não são omissos ou caricatos, se revelam machistas, violentos, desumanos. Um mundo em que homens matam mulheres e crianças. Ainda. Como se fosse possível.

Não há nada para ser comemorado na generalidade dessa categoria dos pais a não ser algo tão pequeno e singular quanto alguns poucos homens específicos, gente de carne osso, que são pais de carne e osso, de crianças de carne e osso. E que fazem no pequeno, no dia-a-dia, gesto contínuos e cotidianos de cuidado, de respeito e de amor.

 

Isso atrapalha!

Continuando a conversa sobre amamentação nessa semana mundial do aleitamento materno, uma lista dos conselhos e orientações que, na minha experiência, mais atrapalham do que ajudam nesse projeto de amamentar nossos bebês. Porque adoramos uma lista de vez em quando, né?

  • tomar nota: dos horários em que o bebê mama, em qual peito, por quanto tempo. Traz uma falsa sensação de controle, como se conseguíssemos garantir com isso que sabemos o que está acontecendo quando, na verdade, não. Anotar para contar para o pediatra, a enfermeira, a família ou afins para que eles digam se está tudo bem cria muita confusão, porque cada qual vai ter uma opinião diferente sobre o que está escrito ali. O bebê mama muitas vezes, poucas, por tempo demais, por tempo de menos… Tudo isso se baseia sobre a idéia de que haveria um ritmo ideal de mamadas o que, por sua vez, ignora que cada bebê é um e o ritmo ideal é aquele que melhor se adapta ao que ele precisa. Passei os primeiros meses feito doida anotando tudo e tentando achar um padrão. Sinceramente, é muito estresse e sofrimento até você finalmente se dar conta de que o melhor a fazer é justamente o inverso: se deixar guiar pela livre demanda e pelas solicitações do bebê.
  • controlar peso: aqui as pessoas têm uma obsessão ainda maior que no Brasil com o ganho de peso do bebê, a ponto de sugerirem que as mães aluguem balanças para controlar o peso em casa. Já cheguei a ver mãe, na PMI, que pedia para pesarem seu filho de poucos dias antes e depois da mamada, para ver se ele tinha se alimentado bem. Novamente, o que isso garante? Claro que é tranquilizador saber que seu bebê está ganhando peso, pois ficou instituído nas nossas cabeças e nos nossos corações que esse seria um indício de que tudo vai bem. Pode realmente ser, quando somado a uma série de outros indícios, pois ganho de peso em si não garante boa saúde nem para os bebês, nem para ninguém. Se fosse o caso, todos os obesos desse mundo estariam em ótimas condições, né?
  • impor intervalos: quaisquer que sejam, tentar guiar a alimentação do bebê pelo relógio me parece um projeto fadado ao fracasso. Sim, existem bebês que se adaptam a isso e mamam a cada três horas e isso fica parecendo novamente um bom sinal de que eles estão alimentados e de que a amamentação vai bem. Mas você come com hora marcada, mesmo sem fome? Então por que aplicar essa lógica ao seu bebê? Deveria ser a fome a guiar os momentos das refeições e o quanto se come, já que ela é a fonte mais confiável de informação sobre o que se passa ali, dentro de nós, não? Ou aprendemos a ouvir e respeitar nossos corpos também quando o assunto é alimentação – e transmitimos isso a nossos filhos respeitando-os também – ou abrimos caminho para maneiras desconectadas e arbitrárias de comer.
  • substituir mamadas por refeições: no momento da introdução alimentar, quando acreditamos que o fato do bebê comer outras coisas fará com que ele mame menos ou diminua o ritmo. Sim, isso eventualmente acontece, mas não no início. No começo o bebê nem percebe muito bem que aquela brincadeira e que aquelas coisas que coloca na boca também alimentam além de divertir. Ele não associa necessariamente as refeições com alimentar-se. Por isso, não adianta dar a papinha na hora em que o pequeno chora pedindo peito porque há grandes chances de que ele continue chorando e não coma nada. Demora até que comer se torne comer e, nesse meio tempo, esteja preparada para intercalar mamadas e refeições, às vezes ao mesmo tempo.

Penso que todas essas orientações servem para nos dar uma sensação de controle, de que sabemos e governamos aquilo que acontece ali com nossos bebês, em seus corpos, em seus estômagos. Temos a impressão de que precisamos controlar para que tudo fique bem e que eles fiquem saudáveis. Acreditamos que controlar = cuidar. Nos parece muito misterioso e insondável esse modo opaco como a amamentação funciona. Peito não é mamadeira, não é transparente, não tem colher de medida, nem indicação de mililitros. Não sabemos muito bem o que está acontecendo ali, enquanto o bebê mama. Temos dúvidas instiladas perversamente há décadas de que nossos corpos sejam capazes de alimentar e de dar conta das necessidades de nossos bebês. Acreditamos mais nas orientações externas, nas medidas externas, nas propagandas e naquilo tudo que dizem que funciona muito melhor do que nós mesmos e do que nossos filhos. Então seguimos essas orientações e fazemos da alimentação um processo penoso, em que ninguém escuta o outro, em que ficamos surdos aos nossos bebês e tentamos todo tipo de violência e de imposição para garantir o que estaria garantido se simplesmente os respeitássemos e nos respeitássemos.

O mais difícil em amamentar é que sempre estamos prontas a seguir o que quer que digam que devemos fazer, morrendo de medo que nossos filhos passem fome. E ao invés de olharmos para eles para tentarmos perceber a fome, a saciedade, as necessidades e os ritmos, pegamos emprestado essas orientações furadas, como se elas fossem regras de conduta, infalíveis. Quem sabe se tentarmos o mais difícil, que é aprender a escutarmos nossos bebês, isso nos traga alguma convicção íntima e profunda de que eles estão alimentados e bem?

Outros textos sobre o tema: aqui.

O peito e o peito

Conheço ao menos três pessoas que detestaram amamentar. Quero dizer, ao menos três pessoas que detestaram amamentar e assumiram isso em voz alta. Uma delas dizia que aguentou até seis meses porque era importante e parou em seguida. Outra teve vários problemas, como ingurgitamentos, feridas e mastite e dizia que só conseguiu começar a ter uma boa relação com a filha quando abandonou a amamentação. E a terceira dizia que se sentia sugada, vampirizada pela filha, começou com a mamadeira à noite e acabou parando de amamentar pouco depois.

Estamos na Semana Mundial do Aleitamento Materno e, como em todos os anos anteriores, vejo uma série de propagandas e de ações buscando incentivar o aleitamento, apoiar as mulheres que o fazem, além de auxiliar com as dificuldades que possam encontrar as que queiram fazê-lo. Tudo extremamente pertinente e necessário se considerarmos que, no Brasil, as mulheres amamentam pouquíssimo tempo (uma média de 54 dias apenas), que são mal orientadas por médicos e profissionais de saúde, tendo informações desencontradas sobre como proceder caso encontrem dificuldades (muitas vezes a solução para qualquer problema é a sugestão do uso da mamadeira e do leite artificial) e, ainda, tendo em vista a falta de apoio que encontram nas pessoas próximas, na família, nos amigos e na sociedade em geral (mulheres sendo impedidas de amamentar em espaços públicos é apenas um dos péssimos exemplos dessa falta de suporte e acolhimento).

Na França, a coisa é ainda pior e esse é um dos países mais fracassados em termos de aleitamento materno. Nessa semana mundial do aleitamento, eles estão procurando depoimentos de mães que amamentaram mais do que uns poucos dias, para dar uma idéia da precariedade da coisa. As mulheres simplesmente não amamentam e isso não parece ser uma questão para ninguém. Os bebês saem da maternidade com chupeta, mamadeira e leite em pó, os pediatras e outros profissionais de saúde prescrevem o uso do leite artificial a qualquer época e frente a qualquer dificuldade das mães. Leite em pó que, por sua vez, fica na vitrine de qualquer farmácia e em lugar de destaque nos supermercados. Mesmo durante a gravidez, as mulheres aqui se mostram mais preocupadas em saber qual leite comprar e como preparar uma mamadeira nos cursos de preparação para o parto do que em saber como poderiam amamentar. A situação é tão precária que, apenas como exemplo, nesses onze meses de maternidade, frequentando outras mães e lugares repletos de mães e de bebês, deparei-me com apenas 5 outras mulheres amamentando. 5. Em um ano. Eles não têm problema com mulheres amamentando nos espaços públicos porque, simplesmente, ninguém amamenta. Noutro dia, em uma loja, uma mãe com um bebezinho de dois meses ficou extremamente emocionada de me ver amamentando minha filha e comentou com o pai dela. Depois veio falar comigo e me parabenizar e dizer o quanto estava feliz de encontrar outra mulher que, como ela, amamentava seu filho. Quase chorei. Entendo muito bem esse estado de solidão e de isolamento do qual ela falava, onde não se encontra nenhum semelhante, nenhum modelo, nenhuma companhia para trocar experiências. Triste.

A questão é que nesse mundo do aleitamento materno nunca ouço ninguém falar ou escrever sobre as dificuldades “psicológicas” em amamentar. As mulheres podem encontrar muitos obstáculos nessa experiência, vindo dos outros, do meio em que vivem, da relação com o bebê, da pega… enfim, obstáculos físicos, fisiológicos, sociais, interpessoais. Mas ninguém fala dos obstáculos dentro dela mesma e de tudo aquilo que temos que elaborar em nossas cabeças fumegantes para amamentar nossos filhos.

Primeiro: amamentar não é natural. Ou melhor, não é normal. No sentido de norma, daquilo que é entendido como norma, como regra, como o modo das coisas serem. Já foi assim, mas não é mais há umas boas décadas, desde que inventaram que dar mamadeira com um outro leite que não o nosso seria melhor ou, no mínimo, igual a amamentar. Bela balela fácil de ser desconstruída porque se trata disso mesmo, de uma construção, de uma invenção que atende aos interesses de muitas pessoas, dos fabricantes das mamadeiras à indústria do leite em pó. Mas que desconsideram descaradamente as necessidades do bebê, levando um monte de mulheres de várias gerações e lugares a acreditarem que “não faz diferença” e que “podem escolher”. Sim, podemos escolher. Mas, sim, faz diferença. Escolher amamentar ou dar mamadeira são opções diferentes. Não levam ao mesmo.

A amamentação desnaturalizada e equiparada a todas essas soluções outras foi se tornando optativa, desaparecendo da vista das pessoas, do campo social. Ao mesmo tempo que os discursos que falam da liberdade da mulher em relação ao seu próprio corpo chegaram para dizer que essa liberdade envolvia também seus peitos e o uso que faria deles. Nada mais justo, não?

Pois é, mas aí é que eu penso que existe uma pegadinha nessa história ou – como diria o bom e velho Freud – um ato falho, uma negação, quem sabe até uma recusa radical. Nessa construção recente sobre o amamentar e a sua anormalidade, o que ficou de fora foi o seu caráter erótico, sexual, ligado ao prazer. Ou seja: não é natural e é sexual. Putz!

Não, não precisa arrepiar os cabelos. Sexual, para Freud e para a psicanálise, é basicamente tudo o que move em direção à vida e não tem necessariamente como finalidade o ato sexual em si. Aliás, o ato sexual em si é uma mínima parcela do que seja a sexualidade humana, sem a qual não haveriam invenções, arte, ciência, civilização… Recomendo mesmo o velho Freud, é esclarecedor sobre o que seja a sexualidade que move o humano. Enfim. O que penso que fica negado nesse modo como a amamentação é percebida por nós nos tempos de hoje é justamente isso: que ela é um ato de prazer. Para a mãe e para o bebê.

O próprio Freud já dizia – sim, ele, de novo – que para o ser humano, nem o mais simples e básico ato de alimentar-se era executado apenas como uma necessidade. Bastava o humano estar cercado de outros humanos para que esse ato fosse envolvido de toda uma carga para além da necessidade pura e simples. Mesmo o bebezinho mamando vive muito mais do que saciar o incômodo que seu estômago vazio provoca. Ele vive o calor do corpo da mãe, os cheiros, o aconchego, a sensação de conforto e de proteção. Tantas outras sutilezas que vão junto com o leite para a boca e que fazem com que esse ato tão simples de alimentar-se torne-se um ato humano por natureza, complexo e ligado à experiência do prazer. Sexual, portanto.

Do outro lado desse encontro está a mãe, uma mulher que, a essa altura, já traz consigo uma infinidade de marcas do que seja para ela a experiência do prazer. Seu corpo e sua mente guardam a memória do que viveu, do que sentiu, das realizações e dos sofrimentos que deram a ela um sentido pessoal e intransferível para aquilo que vive como prazeroso, sexual. Em algum ponto de sua experiência, seus peitos foram investidos de algum modo como fonte de prazer: ou pelo social que coloca nas mulheres essa marca dos seios como atrativo ao olhar masculino, ou como zona erógena geradora de sensações prazerosas… enfim… Essa mulher que se torna mãe tem alguma história anterior à maternidade com seus peitos e eles ocupam algum lugar em seu imaginário como mulher, como zona erógena, como fonte de prazer e por aí vai.

Então o bebê nasce e essa mulher se vê, subitamente, arrancada de todos esses sentidos e de todas essas marcas que seus peitos tinham para ela e para os outros e lançada em uma via única, restritiva e oprimente: peito = leite, mulher = mamífera. E essa desvinculação do peito com o prazer é feita de forma tão abrupta e violenta e esse sentido único do peito como alimento é tão aprisionador que não é de se espantar que muitas mulheres – a maioria mesmo – reaja a tal imposição com uma recusa ainda mais violenta. Detestam amamentar, adoecem, os peitos adoecem, se ferem, sangram, elas ficam sugadas, despossuídas de si. A amamentação fracassa, elas partem para outra, os peitos retornam ao seu “devido lugar” e todos respiram aliviados. Será?

Quando digo que maternidade é tsunami e que revira a vida da gente do avesso, penso que isso se dá repetidas vezes, frente a inúmeras facetas do ser mãe. Amamentar pode ser uma delas e pode ser extremamente perturbador. E talvez esse fator, esse espanto, esse incômodo profundo, essa despossessão de si que pode ser vivida como terror quando se amamenta seja uma fonte importante de muitas dificuldades na amamentação que vem sendo negligenciada.

E aí é que está o mais profundo dessa pegadinha, a meu ver: ninguém fala disso, dessas dificuldades, desse terror porque ninguém quer mexer no vespeiro de ter que assumir que quando nos tornamos mães, não nos tornamos um bicho outro que aquele que já éramos. Ao contrário do que impõe nossa moral judaico-cristã, segundo a qual a maternidade só pode se dar em meio ao sofrimento e à dor, não é toda a verdade que as experiências da maternidade sejam apenas devoção sacrifício e entrega. Não é toda a verdade que nos tornamos mãe e nos deixamos de nós mesmas e nos doamos ao outro, nosso bebê. Não é verdade que nossos corpos erógenos e eróticos se tornam insensíveis com o parto e a maternidade. Somos jogadas na obrigação do natural – que nem existe – como se ele fosse sinônimo de a-sexual e de insensível, somos lançadas na obrigação de ter peitos que alimentam e apenas alimentam, somos empurradas para a equivalência mãe = sofrimento = sacrifício. E no dia-a-dia com nossos bebês, vemos que não é bem isso. Nem para eles, nem para nós. Nossos peitos, por exemplo: eles continuam erógenos e eróticos. E o que parece que perturba demais uma grande parte de nós, mulheres, é justamente nos darmos conta disso.

Penso que é justamente quando nos damos conta de que o parto não foi apenas sofrimento, mas foi bom. Ou que amamentar não é apenas doação e superação de obstáculos, mas que é gostoso. Talvez seja exatamente nessa constatação do prazer que muitas de nós encontremos tanta dificuldade, associando esse prazer com algo impróprio e ilegítimo. Como nos fizeram acreditar há um bom tempo. Acreditamos que ser mãe é sacrifício e que só é legítimo quando sofremos um bocado com cada aspecto da maternidade. Estamos aqui o tempo todo a falar disso, de tudo o que é difícil. Mas será que essa insistência no sofrimento e na dificuldade não servem, também, para mascarar isso que percebemos a cada vez que nossos bebês mamam, ou seja, que é um ato de prazer? Ou que é, no mínimo, ambíguo? Amor é prazer. Ou não?

Nós humanos temos uma série de tabus em relação ao prazer e penso que um dos mais intocáveis é este que envolve aquilo que podemos experimentar de bom naquilo que doamos de nós aos nossos filhos. Amamentar pode ser também prazeroso para a mãe e para o bebê. E isso é legítimo.

Outros textos sobre o tema: aqui.

Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.

Estou ficando velha como meu avô

Filhota quebrou um abajur que ficava no seu quarto, puxando pelo fio. Quebrou apenas o pé, que era de cerâmica. Cúpula e lâmpada ficaram intactas. Cara-metade já ia jogando tudo no lixo. Guardei a cúpula e a lâmpada, para o caso de. Cara-metade ficou perplexo. Só não guardei o fio com a engenhoca toda porque me deu preguiça de ir procurar uma ferramenta para arrancar aquilo tudo dali da cerâmica em pedaços. Quem sabe possa quebrar mais a cerâmica e tentar salvar o fio? Bem, talvez não esteja tão velha quanto meu avô, que certamente teria uma solução para isso. E nenhuma preguiça. Do alto dos seus oitenta anos de idade. Consolo-me, tenho ainda uns quarenta pela frente para chegar no nível dele. E então precisarei de um depósito no fundo da casa, como ele tinha, recheado de tralhas que um dia seriam úteis e outras tralhas realmente úteis e ferramentas para todas as necessidades. O pesadelo da minha avó. O paraíso das netas, crianças, com essa caixa de Pandora de achados permanentes. Será que o cara-metade me aguenta salvando tralhas do lixo e com um depósito no fundo da casa? Quem sabe então saberei também consertar o pé do sofá com maestria de marceneiro. E aprenda a usar uma serra sem arriscar deixar para trás todos os dedos.

Filha, preciso te contar umas histórias do seu bisavô. Ele fazia aniversário dois dias depois de você. E aposto que estaria rindo à toa agora, vendo essa pequena leoazinha zanzar pela casa puxando fios e abrindo gavetas.

Ela não entende

Esse blog já tem mais de cem posts. Uns que gosto mais, outros que gosto menos. Não tiro os que gosto menos do ar simplesmente porque penso que aquilo que agente escreve de bom é uma construção para a qual também conta aquilo que escrevemos de mediano. Qualquer um que já tenha escrito um texto com mais de vinte páginas sabe disso. Há momentos de inspiração e há tudo o que você teve que transpirar e arrastar para chegar até ali. Uma idéia brilhante não vem do nada e é interessante poder traçar o percurso dela, saber tudo o que ficou remoendo até ela aparecer. Enfim… essa digressão tem um sentido, prometo.

Dos posts que já escrevi, um que sempre tem muitas leituras, todos os dias, é este aqui, sobre o que os bebês sentem dentro da barriga. Buscas com várias palavras-chave e frases trazem as pessoas ao post. Não sei se eles o lêem ou não, ou o que pensam a respeito, mas o fato de tanta gente procurar saber sobre o tema me intriga.

É possível entender o grande número de mães aflitas que querem saber se o fato de estarem tristes, frustradas, aflitas com a experiência da gravidez causaria danos ao seu bebê. Pensamentos e sentimentos, a gente não tem como evitar e antes mesmo de nos darmos conta eis que eles aparecem, ali, tal qual fumacinha negra saindo da cabeça, obscurecendo tudo e maculando aquela que pensamos que teria que ser a maravilhosa vivência da gravidez, em que estaríamos sempre contentes, satisfeitas, tranquilas e em estado de graça. Mas na vida real é um pouco diferente e nos vemos preocupadas, com medo, sozinhas, aflitas, tristes, apreensivas… às vezes até mesmo em dúvida e arrependidas. E, logo em seguida, pensamos no bebezinho que está ali dentro, numa espécie de ligação misteriosa e permanente conosco. Será que ele ouviu o que pensamos? Será que pode ler através dos nossos sentimentos? Será que percebeu nossa hesitação, nosso medo, nossa tristeza? Será que o que estamos pensando ou sentindo não está prejudicando nosso bebê de alguma maneira?

Não sei se tem algo mais apavorante para uma mãe do que pensar que ela pode ser responsável por algo de ruim que aconteça ao seu filho, que ela pode, de alguma maneira, prejudicá-lo. E isso inclui até mesmo seus pensamentos e sentimentos, como se eles também pudessem destruir aquele que buscamos amorosamente preservar e proteger. Pois para a pergunta sobre se o bebê na barriga sente aquilo que a mãe sente, ou se ele sabe o que ela pensa, a resposta que eu teria para dar, agora que minha bebê está fora da barriga é: não tenho a menor idéia.

Me explico: não tenho idéia se o bebê percebe o que sentimos ou pensamos enquanto está na barriga. Mas tenho uma boa dose de convicção de que ele percebe e sente alguma coisa. Do mesmo jeito que percebe e sente muitas outras coisas que experimenta dentro do útero. E a questão é como ele decodifica isso, que cores, que nome, que contornos isso ganha para ele. E, novamente, quanto ao que diz respeito à dentro da barriga, não faço a menor idéia. E não vemos nenhum de nós da espécie humana contando histórias da vida intrauterina como se fossem suas lembranças. Ou seja, o jeito que o bebê vive tudo aquilo que a mãe sente ou pensa, não sabemos. E talvez nem ele saiba. Fica para sempre ali nos recônditos longínquos dessas marcas às quais não temos acesso.

Mas existe o fora da barriga. E aí penso que a coisa muda muito de figura.

Uma de minhas lembranças de infância era de minha avó falando coisas a nosso respeito – a respeito de nós, as crianças pequenas, seus netos – na nossa frente, sem preocupação alguma com que aquilo pudesse nos ofender ou nos magoar. E quando era censurada por alguma outra pessoa da família, sua resposta era: “imagina, ela não entende.” A coisa era tão arraigada que virou motivo de piada da família toda. Isso depois que as crianças da família crescemos e conseguimos achar isso engraçado, ao invés de ofensivo, agressivo e desrespeitoso.

É curioso que tão logo o cordão umbilical seja cortado, parece que perdemos essa conexão mágica com o bebê e ele, de um poderoso sabichão leitor de pensamentos e sentimentos, torna-se aquele serzinho ignorante que não entende nada. Lamento ser eu a dar a má notícia a quem partilha dessa crença mas: sim, o bebê entende sim.

Minha filha era bem novinha e em uma noite mal dormida, depois da milionésima mamada, enquanto eu trocava sua fralda, exausta, disse a ela num tom áspero que estava cansada, que precisava dormir, que não dava para passar a noite acordada amamentando e tentando fazê-la dormir. Não sei o que ela percebeu, se foi o tom ríspido, a raiva, o cansaço, mas o rostinho dela ficou sério, ela me olhando e foi fazendo um bico e chorou. Chorou sentido, chorou doído. Chorou de algo que eu poderia dizer que foi tristeza, frustração, medo… Claro que eu chorei também, claro que me sentida péssima, claro que tudo isso que a gente vive e sente em acréscimo ao fato de termos pensado, sentido ou dito algo que julgamos ruim aos nossos filhos. Claro que tudo isso. Mas não é o que importa aqui. O que importa é que, visivelmente, o que dizemos, fazemos, o clima que criamos, a carga emocional nas nossas ações, no nosso olhar, nas nossas palavras… tudo isso afeta o bebê.

Não temos como saber até que ponto, o que fica disso tudo, com que cara fica, se será lembrado e como será lembrado. Mas podemos considerar que afeta. O que fazemos e como fazemos afeta nossos filhos. E contar com o “ela não entende”, ou o “ela esquece”, ou o “ela nem percebeu” como aliados para apagar aquilo que fazemos é ignorar que ali, na nossa frente, existe uma pessoa, dotada de sentidos e de sensibilidade, além de inteligência o suficiente para perceber de algum modo aquilo que se passa ao seu redor. Ou seja, se você pensa que seu filho não sente ou não percebe, você está supondo que ele é um imbecil, um tolo, ou algo bem longe do ser humano que ele é.

Mas eu estou escrevendo isso para aumentar a culpa, para pesar sobre cada uma de nós mães em relação a tudo que dizemos, fazemos e sentimos e que, muitas vezes, não é o melhor, não é tão bom, nem tão cor-de-rosa assim? Não, a intenção não é a de jogar mais um caminhão de culpa sobre ombros pesados, mas a de chamar para uma certa responsabilidade.

Depois que o bebê nasce é que começa – ou se acentua ainda mais – a grande responsabilidade que temos em relação a esse novo ser que ali está. Pensamentos e sentimentos nos atravessam, nem sempre como gostaríamos, e por vezes ações disparam na frente da reflexão e vamos buscá-las lá longe, quando o leite já foi derramado. É verdade.

É uma verdade difícil sobre nós mesmos essa de que escapamos. Aos nossos propósitos, às nossas intenções, à nossa consciência. Mas que algo nos escape, como bem anuncia a boa a velha psicanálise, isso não nos torna menos responsáveis. Não sabermos o que fazermos, isso não retira de nós o nosso feito. E nem dos outros as marcas criadas pelos nossos atos. “Ela não percebe” não fala do bebê que gostaríamos que não se desse conta de nossas idiossincrasias mais subterrâneas. “Ela não percebe” fala da mãe que não se dá conta que o tempo todo está agindo aquela pessoa que é, aquilo que sente e o que pensa. E tentar disfarçar para si, para os outros e para a criança “é brincadeirinha o que a mamãe disse, não precisa chorar” não desfaz o feito.

Talvez uma boa maneira de nos ocuparmos daquilo que o bebê sente ou percebe de nós seria cuidarmos de saber o que nós mesmas pensamos ou sentimos. Para não nos pegarmos na curva de alguma atitude cruel ou violenta, dessas que marcam com sofrimento a vida de tantas crianças por aí.

Para os amigos sem filhos

Eu já fui a amiga sem filhos por muito e muito tempo. E hoje, olhando para trás, vejo como eu era sem noção no tipo de exigência e de expectativa que tinha em relação aos amigos com filhos (desculpa aí, galera). A verdade é que dificilmente a gente faz idéia de como é algo que nunca viveu e costumamos julgar as situações a partir da nossa perspectiva, que é a única da qual dispomos. Colocar-se no lugar do outro não é tarefa simples e nunca é possível de se fazer totalmente. Assim, foi apenas quando minha filha nasceu que comecei a experimentar, do lado de cá, uma série de atitudes de alguns amigos que são tão ou mais sem noção do que eu. Felizmente, não são a maioria, que mesmo sem filhos possui uma tolerância e uma sensibilidade que eu, infelizmente, não tinha. Mas sempre tem aquele mais auto-centrado que não se dá conta de muita coisa ao redor de si, né? Ou aquele amigo querido do peito que está num péssimo dia e mete os pés pelas mãos contigo ou com o seu rebento. Mas que a gente ama mesmo assim. Então, eis aqui minha modesta contribuição para tentar traduzir para os “sem filhos” uma série de atitudes dos “com filhos” a fim de que vocês não sejam tão severos, mau humorados ou estabanados com a gente, tá?

  • quando vocês nos convidam para alguma coisa e nós aceitamos, isso quer dizer que queremos muito, muito, muito mesmo fazer aquele programa junto com vocês. E vamos tentar de verdade. Mas pode ser que a gente não consiga. E as chances são grandes. Por quê? Porque com bebês e crianças pequenas a verdade é que nunca dá para saber realmente como as coisas vão acontecer. Isso é algo que a gente descobre apenas na hora de fazer cada coisa. Vai dar? Não vai dar? Suspense até o último minuto. Pode ser que o bebê tenha cólica, ou esteja num péssimo dia, ou esteja com febre porque os dentes estão nascendo, ou tenha dormido pouco à noite e decida dormir bem naquela hora, ou tenha tido um dia atípico e tumultuado que nos deixou esgotadas e não temos mais forças para botar o pé para fora de casa. Pode ser por muitos motivos mas, te juro, todos são verdadeiros. E ficamos realmente chateadas quando temos que cancelar alguma coisa no último minuto. Mas acontece. Muitas vezes. E é tão frustrante para nós quanto para vocês. Então, não deixe de nos convidar por isso. Uma hora vai.
  • até por conta do que acabei de dizer, aquilo para o que se convida faz uma enorme diferença nas chances do programa acontecer. Sair para a balada à noite? Ir para um bar tomar alguma coisa? Restaurante descolado na hora do jantar com direito a duas horas de espera? Ou qualquer tipo de programa super cool que envolva noite, muita gente, bastante barulho, fumaça de cigarro e lugares cheios? Bom, lamento te dizer mas isso é um no – no sem escalas. Não sei se têm pais que aceitam um convite desses e vão com bebê a tiracolo. Acho que sim, me lembro de amigos que faziam isso. E entendo, porque tem horas em que a gente precisa muito tomar um ar e quer muito estar com os amigos e poder falar de outros assuntos que não fraldas, mamadas e cocô. Mas cada coisa a seu tempo. Eu já digo não logo de cara. Mesmo que seja o tipo de programa que eu adore. Mesmo que seja uma festa na sua casa. Mesmo que eu queira muito ir e que sempre tenha ido. Com um bebê, é pedir para se colocar numa situação onde as chances do sujeitinho se estressar, não dormir, chorar, se irritar são imensas. Uma situação em que muitos adultos ficarão em torno de uma criança, que vai passar de braço em braço e acabará ficando tão alucinada com tanto estímulo que depois vai te dar três vezes mais trabalho para acalmá-la. E, não, amigos queridos sem filhos, um bebê super ligadão, animado e hiper eufórico não é um bebê que está se divertindo pra caramba. As maiores chances são de que ele esteja em um nível de excitação do qual ele não é capaz de dar conta e que vai fazê-lo sofrer e chorar um bocado, porque é muito desagradável. Então, se o convite for para uma balada noturna, saiba de antemão que é extremamente simpático e que a gente se dói por dentro de não poder sair, beber e voltar com o dia nascendo e a cara amassada. Mas realmente não dá. E se a festa for na sua casa e a gente cair na asneira de acreditar que é uma boa idéia, por favor, arrume um lugar quietinho e sossegado para nos trancarmos com o rebentinho na hora em que a coisa ficar feia, tá? Ou deixe-nos irmos embora sem insistir muito para ficarmos e sem ficar chateado. Nós tentamos e, provavelmente, ultrapassamos uns bons limites para estar ali.
  • mas por que não vem sem a criança, então? Pois é, meu caro, essa é a pergunta que não quer calar, tão evidente, tão banal, como é que os pais não se tocam dessa obviedade? Bom, como explicar? Nem sempre temos com quem deixar o bebê ou a criança, nem sempre existem avós por perto, por exemplo. E nem sempre a criança está em um momento em que pode ser deixada, ou os pais – e especialmente a mãe – nem sempre estão em condição de deixar. Pode ser que o bebê seja amamentado, pode ser que os pais ainda não tenham encontrado uma pessoa de confiança, ou que o bebê ainda não tenha se acostumado com a babá a ponto de ficar muitas horas sem se estressar… pode ser muita coisa. Pode ser, inclusive, que para os pais a prioridade seja a de estar com o filho enquanto ele ainda é tão pequeno e precisa de tantos cuidados e que eles não queiram delegar esses cuidados nem para ir na sua festa. Entenda, novamente, não é por mal. É apenas uma questão de prioridades e do modo como aquela família está organizando sua rotina com o bebê. Assim, será o caso de decidir simplesmente não ir para não se colocar numa situação de caos total, com um bebê estressado. Ou de ir porque a festa é de casamento, aniversário, nós te amamos e estamos topando passar perrengue para estar ali. Então, quando a gente chegar com o rebentinho chorão, meio desarrumadas e ansiosas e tensas e aflitas com a coisa toda, dêem um desconto. Estamos realmente fazendo um baita de um esforço e inventando uma puta solução de compromisso entre cuidar do nosso filho e estar contigo, do mesmo jeito que sabemos que vocês estão fazendo um baita esforço em receber criança em festa de adulto, ter que fumar na janela, guardar o beque para mais tarde, tentar ajudar, puxar papo e nos deixar o mais confortável possível, correndo o risco de ter bebida espirrada na roupa descolada, junto com o patê dos canapés, bolo esfregado nas almofadas do sofá, vômito na camisa do peguete da amiga e gritaria que impede todo mundo de terminar uma conversa inteira em uma tacada só. De fato, estaremos em dois universos que destoam por um tempo e isso é doloroso. Mas acho que o mais importante é que, dos dois lados, cada qual faça um esforço para ir na direção do outro, né?
  • mas não pode dar uma mamadeira? Deixar com a babá? Botar na creche? Deixar dormindo ali no carrinho? Don’t. De verdade, não vá por esse caminho. Quanto mais próximo você for, mais vezes já terá ouvido seus amigos pais reclamarem da quantidade de sugestões que recebem todos os dias, vindas de todos os lados e sem jamais considerar o que eles pensam, suas dificuldades e o modo como acreditam que seja importante cuidar de seus filhos. Então, a menos que a gente esteja desabafando, pedindo ajuda, pedindo opinião ou algo do tipo, você não vai querer fazer parte das estatísticas, né? Pode acreditar, nós também já pensamos em todas essas opções que você está mencionando para irmos na maldita festa, já estamos frustrados o bastante porque não poderemos ir e elaborando o fato de que a vida mudou e as prioridades são outras. Pode ser uma fase, pode ser que logo ali adiante mude a nossa maneira de organizar e lidar com a rotina, pode ser que com os filhos crescendo a gente adquira mais mobilidade. Pode ser um monte de coisas, mas nesse exato momento é assim que as coisas são. E não sabemos quanto tempo esse exato momento vai durar. Então, por favor, leve na esportiva tanto quanto possível o fato de que pensamos em tudo e concluímos que não vai dar.
  • e… putz! A gente pode atrasar! Ou ligar no último segundo dizendo que não vai. Ou mais um monte de atitudes irritantes que te deixam com a impressão de que estamos zoando com a sua cara. Não costuma ser o caso. Nem é o bebê que está zoando com a nossa, embora às vezes pareça. Mas o negócio é que um bebê é um sujeitinho mais governado que a gente por suas próprias necessidades. Ele precisa e precisa imediatamente: mamar, matar a sede, fazer xixi, cocô, ficar limpo, dormir… Ele precisa e a gente precisa atender porque essa é justamente a época em que precisamos atender muitas demandas. Não é manha de bebê mimado, não é excesso de zelo. Bebê é um serzinho desamparado que precisa de cuidados e apenas o passar do tempo e os cuidados oferecidos podem fazer com que ele precise menos e menos imediatamente e desesperadamente das coisas. Então, bom, quando ele precisa mamar na hora em que estamos prontas, com sacola, tralha toda, bebê vestido, limpo, no sling, a gente na porta de casa precisando apenas trancar a dita cuja… bom… ele está com fome e precisa mamar. E a gente volta pra dentro, tira o bebê do embrulho, tira o sling, senta no sofá e deixa ele mamar sossegado até acabar. E daí tenta de novo. Vamos te mandar um SMS e, infelizmente, não teremos como dizer exatamente quanto tempo vamos atrasar. Pode ser 15 minutos, pode ser duas horas. É foda, eu sei. Eu também detesto atraso. Mas o que você prefere? Que a gente chegue duas horas depois, bebê sorridente, mamãe descabelada porém sossegada ou que a gente chegue na hora, bebê berrando, mamãe desesperada, desgrenhada, cogitando virar dois shots de tequila?
  • por essas e outras penso que o melhor lugar para um encontro garantido é em casa. Fazer uma visita é garantia de uma maior chance de que a gente realmente se veja e realmente consiga conversar. Sim, boa parte da conversa vai girar em torno do bebê e pode ser que você se interesse tanto por bebês quanto pela geopolítica do Timbuktu. E pode ser que você sinta saudades daqueles papos interessantíssimos sobre artes, viagens e tantas outras coisas exóticas e excitantes das quais costumávamos falar. Uma notícia: provavelmente nós também sentimos falta de outros assuntos. Mas a verdade é que nosso interesse está ultra focalizado e, especialmente no começo, as chances são grandes de que passemos o tempo quase todo por conta do rebento. O jornal? Não lemos. Conflitos no oriente médio? Não sabemos. Copa do Mundo? Hein? Por vezes é falta de tempo, noutras é falta de interesse e noutras ainda é porque estamos realmente interessadas no que estamos vivendo. O que, por sinal, é o mais usual sempre, não? Que estejamos focalizados naquilo que vivemos e querendo falar disso? Então, se você tem paciência e um tanto de tolerância, dê um desconto para nossos papos sobre fraldas, leite e cocôs. Sim, é escatológico. Sim, deve ser um tédio para quem escuta. Mas pense que daqui a alguns anos poderemos rir juntos desses papos estranhos e insanos. E, pode até ser que, depois de você nos escutar um bom tanto, fiquemos muito felizes de te escutar a respeito do filme do momento, da festa divertida ou do jogo do Uruguai.