Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.

Estou ficando velha como meu avô

Filhota quebrou um abajur que ficava no seu quarto, puxando pelo fio. Quebrou apenas o pé, que era de cerâmica. Cúpula e lâmpada ficaram intactas. Cara-metade já ia jogando tudo no lixo. Guardei a cúpula e a lâmpada, para o caso de. Cara-metade ficou perplexo. Só não guardei o fio com a engenhoca toda porque me deu preguiça de ir procurar uma ferramenta para arrancar aquilo tudo dali da cerâmica em pedaços. Quem sabe possa quebrar mais a cerâmica e tentar salvar o fio? Bem, talvez não esteja tão velha quanto meu avô, que certamente teria uma solução para isso. E nenhuma preguiça. Do alto dos seus oitenta anos de idade. Consolo-me, tenho ainda uns quarenta pela frente para chegar no nível dele. E então precisarei de um depósito no fundo da casa, como ele tinha, recheado de tralhas que um dia seriam úteis e outras tralhas realmente úteis e ferramentas para todas as necessidades. O pesadelo da minha avó. O paraíso das netas, crianças, com essa caixa de Pandora de achados permanentes. Será que o cara-metade me aguenta salvando tralhas do lixo e com um depósito no fundo da casa? Quem sabe então saberei também consertar o pé do sofá com maestria de marceneiro. E aprenda a usar uma serra sem arriscar deixar para trás todos os dedos.

Filha, preciso te contar umas histórias do seu bisavô. Ele fazia aniversário dois dias depois de você. E aposto que estaria rindo à toa agora, vendo essa pequena leoazinha zanzar pela casa puxando fios e abrindo gavetas.

Ela não entende

Esse blog já tem mais de cem posts. Uns que gosto mais, outros que gosto menos. Não tiro os que gosto menos do ar simplesmente porque penso que aquilo que agente escreve de bom é uma construção para a qual também conta aquilo que escrevemos de mediano. Qualquer um que já tenha escrito um texto com mais de vinte páginas sabe disso. Há momentos de inspiração e há tudo o que você teve que transpirar e arrastar para chegar até ali. Uma idéia brilhante não vem do nada e é interessante poder traçar o percurso dela, saber tudo o que ficou remoendo até ela aparecer. Enfim… essa digressão tem um sentido, prometo.

Dos posts que já escrevi, um que sempre tem muitas leituras, todos os dias, é este aqui, sobre o que os bebês sentem dentro da barriga. Buscas com várias palavras-chave e frases trazem as pessoas ao post. Não sei se eles o lêem ou não, ou o que pensam a respeito, mas o fato de tanta gente procurar saber sobre o tema me intriga.

É possível entender o grande número de mães aflitas que querem saber se o fato de estarem tristes, frustradas, aflitas com a experiência da gravidez causaria danos ao seu bebê. Pensamentos e sentimentos, a gente não tem como evitar e antes mesmo de nos darmos conta eis que eles aparecem, ali, tal qual fumacinha negra saindo da cabeça, obscurecendo tudo e maculando aquela que pensamos que teria que ser a maravilhosa vivência da gravidez, em que estaríamos sempre contentes, satisfeitas, tranquilas e em estado de graça. Mas na vida real é um pouco diferente e nos vemos preocupadas, com medo, sozinhas, aflitas, tristes, apreensivas… às vezes até mesmo em dúvida e arrependidas. E, logo em seguida, pensamos no bebezinho que está ali dentro, numa espécie de ligação misteriosa e permanente conosco. Será que ele ouviu o que pensamos? Será que pode ler através dos nossos sentimentos? Será que percebeu nossa hesitação, nosso medo, nossa tristeza? Será que o que estamos pensando ou sentindo não está prejudicando nosso bebê de alguma maneira?

Não sei se tem algo mais apavorante para uma mãe do que pensar que ela pode ser responsável por algo de ruim que aconteça ao seu filho, que ela pode, de alguma maneira, prejudicá-lo. E isso inclui até mesmo seus pensamentos e sentimentos, como se eles também pudessem destruir aquele que buscamos amorosamente preservar e proteger. Pois para a pergunta sobre se o bebê na barriga sente aquilo que a mãe sente, ou se ele sabe o que ela pensa, a resposta que eu teria para dar, agora que minha bebê está fora da barriga é: não tenho a menor idéia.

Me explico: não tenho idéia se o bebê percebe o que sentimos ou pensamos enquanto está na barriga. Mas tenho uma boa dose de convicção de que ele percebe e sente alguma coisa. Do mesmo jeito que percebe e sente muitas outras coisas que experimenta dentro do útero. E a questão é como ele decodifica isso, que cores, que nome, que contornos isso ganha para ele. E, novamente, quanto ao que diz respeito à dentro da barriga, não faço a menor idéia. E não vemos nenhum de nós da espécie humana contando histórias da vida intrauterina como se fossem suas lembranças. Ou seja, o jeito que o bebê vive tudo aquilo que a mãe sente ou pensa, não sabemos. E talvez nem ele saiba. Fica para sempre ali nos recônditos longínquos dessas marcas às quais não temos acesso.

Mas existe o fora da barriga. E aí penso que a coisa muda muito de figura.

Uma de minhas lembranças de infância era de minha avó falando coisas a nosso respeito – a respeito de nós, as crianças pequenas, seus netos – na nossa frente, sem preocupação alguma com que aquilo pudesse nos ofender ou nos magoar. E quando era censurada por alguma outra pessoa da família, sua resposta era: “imagina, ela não entende.” A coisa era tão arraigada que virou motivo de piada da família toda. Isso depois que as crianças da família crescemos e conseguimos achar isso engraçado, ao invés de ofensivo, agressivo e desrespeitoso.

É curioso que tão logo o cordão umbilical seja cortado, parece que perdemos essa conexão mágica com o bebê e ele, de um poderoso sabichão leitor de pensamentos e sentimentos, torna-se aquele serzinho ignorante que não entende nada. Lamento ser eu a dar a má notícia a quem partilha dessa crença mas: sim, o bebê entende sim.

Minha filha era bem novinha e em uma noite mal dormida, depois da milionésima mamada, enquanto eu trocava sua fralda, exausta, disse a ela num tom áspero que estava cansada, que precisava dormir, que não dava para passar a noite acordada amamentando e tentando fazê-la dormir. Não sei o que ela percebeu, se foi o tom ríspido, a raiva, o cansaço, mas o rostinho dela ficou sério, ela me olhando e foi fazendo um bico e chorou. Chorou sentido, chorou doído. Chorou de algo que eu poderia dizer que foi tristeza, frustração, medo… Claro que eu chorei também, claro que me sentida péssima, claro que tudo isso que a gente vive e sente em acréscimo ao fato de termos pensado, sentido ou dito algo que julgamos ruim aos nossos filhos. Claro que tudo isso. Mas não é o que importa aqui. O que importa é que, visivelmente, o que dizemos, fazemos, o clima que criamos, a carga emocional nas nossas ações, no nosso olhar, nas nossas palavras… tudo isso afeta o bebê.

Não temos como saber até que ponto, o que fica disso tudo, com que cara fica, se será lembrado e como será lembrado. Mas podemos considerar que afeta. O que fazemos e como fazemos afeta nossos filhos. E contar com o “ela não entende”, ou o “ela esquece”, ou o “ela nem percebeu” como aliados para apagar aquilo que fazemos é ignorar que ali, na nossa frente, existe uma pessoa, dotada de sentidos e de sensibilidade, além de inteligência o suficiente para perceber de algum modo aquilo que se passa ao seu redor. Ou seja, se você pensa que seu filho não sente ou não percebe, você está supondo que ele é um imbecil, um tolo, ou algo bem longe do ser humano que ele é.

Mas eu estou escrevendo isso para aumentar a culpa, para pesar sobre cada uma de nós mães em relação a tudo que dizemos, fazemos e sentimos e que, muitas vezes, não é o melhor, não é tão bom, nem tão cor-de-rosa assim? Não, a intenção não é a de jogar mais um caminhão de culpa sobre ombros pesados, mas a de chamar para uma certa responsabilidade.

Depois que o bebê nasce é que começa – ou se acentua ainda mais – a grande responsabilidade que temos em relação a esse novo ser que ali está. Pensamentos e sentimentos nos atravessam, nem sempre como gostaríamos, e por vezes ações disparam na frente da reflexão e vamos buscá-las lá longe, quando o leite já foi derramado. É verdade.

É uma verdade difícil sobre nós mesmos essa de que escapamos. Aos nossos propósitos, às nossas intenções, à nossa consciência. Mas que algo nos escape, como bem anuncia a boa a velha psicanálise, isso não nos torna menos responsáveis. Não sabermos o que fazermos, isso não retira de nós o nosso feito. E nem dos outros as marcas criadas pelos nossos atos. “Ela não percebe” não fala do bebê que gostaríamos que não se desse conta de nossas idiossincrasias mais subterrâneas. “Ela não percebe” fala da mãe que não se dá conta que o tempo todo está agindo aquela pessoa que é, aquilo que sente e o que pensa. E tentar disfarçar para si, para os outros e para a criança “é brincadeirinha o que a mamãe disse, não precisa chorar” não desfaz o feito.

Talvez uma boa maneira de nos ocuparmos daquilo que o bebê sente ou percebe de nós seria cuidarmos de saber o que nós mesmas pensamos ou sentimos. Para não nos pegarmos na curva de alguma atitude cruel ou violenta, dessas que marcam com sofrimento a vida de tantas crianças por aí.

Para os amigos sem filhos

Eu já fui a amiga sem filhos por muito e muito tempo. E hoje, olhando para trás, vejo como eu era sem noção no tipo de exigência e de expectativa que tinha em relação aos amigos com filhos (desculpa aí, galera). A verdade é que dificilmente a gente faz idéia de como é algo que nunca viveu e costumamos julgar as situações a partir da nossa perspectiva, que é a única da qual dispomos. Colocar-se no lugar do outro não é tarefa simples e nunca é possível de se fazer totalmente. Assim, foi apenas quando minha filha nasceu que comecei a experimentar, do lado de cá, uma série de atitudes de alguns amigos que são tão ou mais sem noção do que eu. Felizmente, não são a maioria, que mesmo sem filhos possui uma tolerância e uma sensibilidade que eu, infelizmente, não tinha. Mas sempre tem aquele mais auto-centrado que não se dá conta de muita coisa ao redor de si, né? Ou aquele amigo querido do peito que está num péssimo dia e mete os pés pelas mãos contigo ou com o seu rebento. Mas que a gente ama mesmo assim. Então, eis aqui minha modesta contribuição para tentar traduzir para os “sem filhos” uma série de atitudes dos “com filhos” a fim de que vocês não sejam tão severos, mau humorados ou estabanados com a gente, tá?

  • quando vocês nos convidam para alguma coisa e nós aceitamos, isso quer dizer que queremos muito, muito, muito mesmo fazer aquele programa junto com vocês. E vamos tentar de verdade. Mas pode ser que a gente não consiga. E as chances são grandes. Por quê? Porque com bebês e crianças pequenas a verdade é que nunca dá para saber realmente como as coisas vão acontecer. Isso é algo que a gente descobre apenas na hora de fazer cada coisa. Vai dar? Não vai dar? Suspense até o último minuto. Pode ser que o bebê tenha cólica, ou esteja num péssimo dia, ou esteja com febre porque os dentes estão nascendo, ou tenha dormido pouco à noite e decida dormir bem naquela hora, ou tenha tido um dia atípico e tumultuado que nos deixou esgotadas e não temos mais forças para botar o pé para fora de casa. Pode ser por muitos motivos mas, te juro, todos são verdadeiros. E ficamos realmente chateadas quando temos que cancelar alguma coisa no último minuto. Mas acontece. Muitas vezes. E é tão frustrante para nós quanto para vocês. Então, não deixe de nos convidar por isso. Uma hora vai.
  • até por conta do que acabei de dizer, aquilo para o que se convida faz uma enorme diferença nas chances do programa acontecer. Sair para a balada à noite? Ir para um bar tomar alguma coisa? Restaurante descolado na hora do jantar com direito a duas horas de espera? Ou qualquer tipo de programa super cool que envolva noite, muita gente, bastante barulho, fumaça de cigarro e lugares cheios? Bom, lamento te dizer mas isso é um no – no sem escalas. Não sei se têm pais que aceitam um convite desses e vão com bebê a tiracolo. Acho que sim, me lembro de amigos que faziam isso. E entendo, porque tem horas em que a gente precisa muito tomar um ar e quer muito estar com os amigos e poder falar de outros assuntos que não fraldas, mamadas e cocô. Mas cada coisa a seu tempo. Eu já digo não logo de cara. Mesmo que seja o tipo de programa que eu adore. Mesmo que seja uma festa na sua casa. Mesmo que eu queira muito ir e que sempre tenha ido. Com um bebê, é pedir para se colocar numa situação onde as chances do sujeitinho se estressar, não dormir, chorar, se irritar são imensas. Uma situação em que muitos adultos ficarão em torno de uma criança, que vai passar de braço em braço e acabará ficando tão alucinada com tanto estímulo que depois vai te dar três vezes mais trabalho para acalmá-la. E, não, amigos queridos sem filhos, um bebê super ligadão, animado e hiper eufórico não é um bebê que está se divertindo pra caramba. As maiores chances são de que ele esteja em um nível de excitação do qual ele não é capaz de dar conta e que vai fazê-lo sofrer e chorar um bocado, porque é muito desagradável. Então, se o convite for para uma balada noturna, saiba de antemão que é extremamente simpático e que a gente se dói por dentro de não poder sair, beber e voltar com o dia nascendo e a cara amassada. Mas realmente não dá. E se a festa for na sua casa e a gente cair na asneira de acreditar que é uma boa idéia, por favor, arrume um lugar quietinho e sossegado para nos trancarmos com o rebentinho na hora em que a coisa ficar feia, tá? Ou deixe-nos irmos embora sem insistir muito para ficarmos e sem ficar chateado. Nós tentamos e, provavelmente, ultrapassamos uns bons limites para estar ali.
  • mas por que não vem sem a criança, então? Pois é, meu caro, essa é a pergunta que não quer calar, tão evidente, tão banal, como é que os pais não se tocam dessa obviedade? Bom, como explicar? Nem sempre temos com quem deixar o bebê ou a criança, nem sempre existem avós por perto, por exemplo. E nem sempre a criança está em um momento em que pode ser deixada, ou os pais – e especialmente a mãe – nem sempre estão em condição de deixar. Pode ser que o bebê seja amamentado, pode ser que os pais ainda não tenham encontrado uma pessoa de confiança, ou que o bebê ainda não tenha se acostumado com a babá a ponto de ficar muitas horas sem se estressar… pode ser muita coisa. Pode ser, inclusive, que para os pais a prioridade seja a de estar com o filho enquanto ele ainda é tão pequeno e precisa de tantos cuidados e que eles não queiram delegar esses cuidados nem para ir na sua festa. Entenda, novamente, não é por mal. É apenas uma questão de prioridades e do modo como aquela família está organizando sua rotina com o bebê. Assim, será o caso de decidir simplesmente não ir para não se colocar numa situação de caos total, com um bebê estressado. Ou de ir porque a festa é de casamento, aniversário, nós te amamos e estamos topando passar perrengue para estar ali. Então, quando a gente chegar com o rebentinho chorão, meio desarrumadas e ansiosas e tensas e aflitas com a coisa toda, dêem um desconto. Estamos realmente fazendo um baita de um esforço e inventando uma puta solução de compromisso entre cuidar do nosso filho e estar contigo, do mesmo jeito que sabemos que vocês estão fazendo um baita esforço em receber criança em festa de adulto, ter que fumar na janela, guardar o beque para mais tarde, tentar ajudar, puxar papo e nos deixar o mais confortável possível, correndo o risco de ter bebida espirrada na roupa descolada, junto com o patê dos canapés, bolo esfregado nas almofadas do sofá, vômito na camisa do peguete da amiga e gritaria que impede todo mundo de terminar uma conversa inteira em uma tacada só. De fato, estaremos em dois universos que destoam por um tempo e isso é doloroso. Mas acho que o mais importante é que, dos dois lados, cada qual faça um esforço para ir na direção do outro, né?
  • mas não pode dar uma mamadeira? Deixar com a babá? Botar na creche? Deixar dormindo ali no carrinho? Don’t. De verdade, não vá por esse caminho. Quanto mais próximo você for, mais vezes já terá ouvido seus amigos pais reclamarem da quantidade de sugestões que recebem todos os dias, vindas de todos os lados e sem jamais considerar o que eles pensam, suas dificuldades e o modo como acreditam que seja importante cuidar de seus filhos. Então, a menos que a gente esteja desabafando, pedindo ajuda, pedindo opinião ou algo do tipo, você não vai querer fazer parte das estatísticas, né? Pode acreditar, nós também já pensamos em todas essas opções que você está mencionando para irmos na maldita festa, já estamos frustrados o bastante porque não poderemos ir e elaborando o fato de que a vida mudou e as prioridades são outras. Pode ser uma fase, pode ser que logo ali adiante mude a nossa maneira de organizar e lidar com a rotina, pode ser que com os filhos crescendo a gente adquira mais mobilidade. Pode ser um monte de coisas, mas nesse exato momento é assim que as coisas são. E não sabemos quanto tempo esse exato momento vai durar. Então, por favor, leve na esportiva tanto quanto possível o fato de que pensamos em tudo e concluímos que não vai dar.
  • e… putz! A gente pode atrasar! Ou ligar no último segundo dizendo que não vai. Ou mais um monte de atitudes irritantes que te deixam com a impressão de que estamos zoando com a sua cara. Não costuma ser o caso. Nem é o bebê que está zoando com a nossa, embora às vezes pareça. Mas o negócio é que um bebê é um sujeitinho mais governado que a gente por suas próprias necessidades. Ele precisa e precisa imediatamente: mamar, matar a sede, fazer xixi, cocô, ficar limpo, dormir… Ele precisa e a gente precisa atender porque essa é justamente a época em que precisamos atender muitas demandas. Não é manha de bebê mimado, não é excesso de zelo. Bebê é um serzinho desamparado que precisa de cuidados e apenas o passar do tempo e os cuidados oferecidos podem fazer com que ele precise menos e menos imediatamente e desesperadamente das coisas. Então, bom, quando ele precisa mamar na hora em que estamos prontas, com sacola, tralha toda, bebê vestido, limpo, no sling, a gente na porta de casa precisando apenas trancar a dita cuja… bom… ele está com fome e precisa mamar. E a gente volta pra dentro, tira o bebê do embrulho, tira o sling, senta no sofá e deixa ele mamar sossegado até acabar. E daí tenta de novo. Vamos te mandar um SMS e, infelizmente, não teremos como dizer exatamente quanto tempo vamos atrasar. Pode ser 15 minutos, pode ser duas horas. É foda, eu sei. Eu também detesto atraso. Mas o que você prefere? Que a gente chegue duas horas depois, bebê sorridente, mamãe descabelada porém sossegada ou que a gente chegue na hora, bebê berrando, mamãe desesperada, desgrenhada, cogitando virar dois shots de tequila?
  • por essas e outras penso que o melhor lugar para um encontro garantido é em casa. Fazer uma visita é garantia de uma maior chance de que a gente realmente se veja e realmente consiga conversar. Sim, boa parte da conversa vai girar em torno do bebê e pode ser que você se interesse tanto por bebês quanto pela geopolítica do Timbuktu. E pode ser que você sinta saudades daqueles papos interessantíssimos sobre artes, viagens e tantas outras coisas exóticas e excitantes das quais costumávamos falar. Uma notícia: provavelmente nós também sentimos falta de outros assuntos. Mas a verdade é que nosso interesse está ultra focalizado e, especialmente no começo, as chances são grandes de que passemos o tempo quase todo por conta do rebento. O jornal? Não lemos. Conflitos no oriente médio? Não sabemos. Copa do Mundo? Hein? Por vezes é falta de tempo, noutras é falta de interesse e noutras ainda é porque estamos realmente interessadas no que estamos vivendo. O que, por sinal, é o mais usual sempre, não? Que estejamos focalizados naquilo que vivemos e querendo falar disso? Então, se você tem paciência e um tanto de tolerância, dê um desconto para nossos papos sobre fraldas, leite e cocôs. Sim, é escatológico. Sim, deve ser um tédio para quem escuta. Mas pense que daqui a alguns anos poderemos rir juntos desses papos estranhos e insanos. E, pode até ser que, depois de você nos escutar um bom tanto, fiquemos muito felizes de te escutar a respeito do filme do momento, da festa divertida ou do jogo do Uruguai.

Como a vida mudou!

Sinceramente, quando dizem que a maternidade muda a sua vida, eu posso te garantir que nem que você seja a pessoa mais criativa do mundo você dará conta de imaginar o quanto isso pode ser verdadeiro e radical. E muda de maneiras inesperadas, ainda por cima. Nada a ver com dormir menos ou coisa que o valha, porque disso todo mundo fala. Falo de mudanças nas entranhas, sabe? Aquelas com as quais você não contava. Senão, vejamos.

Sempre fui uma workaholic convicta, para quem o trabalho era a principal fonte de investimento prazer e inspiração. E agora desloquei tudo isso para a maternidade, certo? Não, cara pálida, errado. Agora estou há um ano sem trabalhar, o que quase me deixou maluca, mas também me fez pensar muito sobre o sentido em ter o trabalho como centro da vida.

Sim, é gratificante demais encontrar uma profissão que te encante, que te interesse diariamente e que te traga satisfação além do dinheiro em exercê-la. Ser independente, pagar as próprias contas e, ainda mais, fazendo algo que gosta soa como o auge da realização. Pois é, eu já vivi tudo isso, já estudei muito, já trabalhei feito maluca, já investi intensamente no meu trabalho, na minha carreira, nos meus projetos, com tudo o que isso sempre implicou, inclusive, em termos de vida pessoal: minha vida era o meu trabalho e, mesmo sem perceber, tiveram umas tantas coisas bem importantes que ficaram sacrificadas ao longo do caminho.

Tudo bem, não sou a primeira e nem serei a última mulher desse mundo que farão esse caminho. E ainda que muitas de nós pareçam estar satisfeitas com os resultados, vejo uma boa pitada de amargor em gente como eu que chega nesse mesmo ponto da vida e começa a se dar conta, por um ou outro acontecimentos marcantes, que nada faz muito sentido.

A questão não é trabalhar, ter uma carreira, valorizar e ser valorizada por isso. A questão é o momento em que atravessamos uma fronteira em que isso e torna o centro de nossas vidas e tudo o mais – e existe muito mais do que isso – fica pegando poeira ali do lado, definhando lentamente.

Nasci e vivi boa parte da minha vida em São Paulo. E enquanto estive por lá, o trabalho foi praticamente tudo na minha vida. Eu trabalhava umas 50 horas por semana, inclusive aos finais de semana. E adorava isso. Adorava o estresse, a correria, o desafio. A grande maioria dos meus amigos e conhecidos de lá faz o mesmo, não importa em que área trabalhem. E parecem satisfeitos.

Mas daí eu vim para a França e, na medida em que comecei a criar aqui uma rotina e a ter contato com outras pessoas, me deparei com um modo totalmente diferente de viver a vida e de encarar o trabalho. E esse modo diferente, em que existe espaço e condições para fazer outras coisas no seu cotidiano além de trabalhar me fez questionar até que ponto meu estilo centrada na carreira era escolha ou falta de opção.

Quero dizer: será que o fato de vivermos em uma cidade hostil como São Paulo, violenta, com poucos espaços públicos e sem nenhuma cultura de usufruir da cidade… Será que uma cidade onde mal se pode andar pela rua, onde boa parte das atividades de lazer se restringem ao consumo, onde programa com os amigos é fazer compras no shopping ou ir jantar em restaurante… Será que uma cidade em que se leva duas horas para chegar ao trabalho e duas horas para voltar dele, onde ninguém consegue terminar seu dia antes das dez horas da noite… Será que uma cidade cara, centrada no consumo, onde as atividades culturais custam, em sua maioria, os olhos da cara e onde as pessoas se sentem constrangidas em museus, galerias de arte e na Sala São Paulo… Será que uma cidade onde a educação “de qualidade” é paga e custa caro, onde a saúde “de qualidade” é paga e custa uma fortuna, onde todos os serviços essenciais são pagos, assim como o condomínio, todas as despesas de ter um carro… Será que uma cidade como essa, em que a vida é tão difícil, inóspita, violenta, complicada e segregada não nos empurra a acreditar que a vida é trabalho porque, no fim das contas, é só o que dá para fazer mesmo? Porque precisamos ganhar cada vez mais para bancar essa vida nessa cidade e nesse país e, no fim do mês, a conta quase não fecha?

Não discuto aqui que trabalhar pode ser projeto de vida de muitas pessoas e que pode ser um grande prazer e uma baita injeção de adrenalina. Nem discuto que existe saúde, educação, transporte e segurança públicos em São Paulo. E discuto ainda menos a qualidade dos mesmos, pois sei que existe muito serviço público de qualidade em meio a outros tantos bem ruins. O que estou discutindo é se não criamos ou embarcamos em uma mentalidade estressada, que vive correndo atrás de não sei qual prejuízo e que vive da vida muito pouco. E exige menos ainda. E ainda acha que essa vida é normal. Descobrir que pode ser muito diferente é um choque.

A primeira vez em que voltei de uma festa de madrugada, andando, sozinha, em pleno sabadão invernal parisiense percebi que alguma coisa havia mudado essencialmente nas minhas entranhas. Eu descobri que era possível viver diferente. E viver melhor. Andar nas ruas, que são de todos, poder circular, ocupar a cidade, usufruir daquilo que é de todos. E cuidar também, porque é de todos. E usar os serviços públicos, que são bons e funcionam. E poder contar com eles. E não precisar ter despesas astronômicas com saúde e educação. Nem com transporte.

Se tudo isso já bastou para me questionar sobre o porquê focalizei tanto da minha vida em torno do trabalho, engravidar veio reforçar e acentuar ainda mais essas indagações. Que sentido faz trabalhar tanto para ganhar tanto se o que se faz é passar a vida correndo atrás do próprio rabo dos próprios gastos? Que sentido faz nutrir toda essa maquinaria para começar a embarcar nela os próprios filhos, afastando-se deles para poder cuidar deles? Não parece um contra-senso? Para cuidar preciso estar longe, trabalhando de sol a sol a fim de garantir todas as coisas, todos os serviços, todas as necessidades que o pequeno rebento possa ter… com exceção de sua necessidade da minha presença. Trocamos presença por todas as outras coisas. Quando talvez devêssemos estar reivindicando o contrário: menos coisas, uma vida mais viável justamente para estarmos mais presentes.

Eis-me aqui então nesse ano sabático, constatando essa mudança de centro que jamais poderia suspeitar que um dia ocorreria comigo. Não estou trabalhando, mas estou trabalhando muito. Sem saber exatamente qual lugar o trabalho terá para mim em seguida. E bem contente em descobrir que a vida tem bem mais coisas a viver do que aquilo em torno do que a minha sempre girou. Por aqui, boa parte dos meus amigos tentam e conseguem se ver ou se falar ao menos uma vez por semana. E as pessoas saem juntas, se visitam, se encontram no final da tarde, batem papo, escolhem um entre milhares de programas, muitos dos quais de graça, viajam nas férias e nos finais de semana. Há tempo e lugar para muitas coisas além do trabalho mas, principalmente, há tempo e lugar para pessoas e relações.

E você? Quanto custa a vida que você escolheu viver por aí?

Aqueles que você não vai conhecer…

Já disse aqui e aqui que amor materno não é obrigação. Então não deve causar muito espanto que eu diga também que família é uma construção. E que nem sempre ela corresponde aos laços de sangue ou à herança genética. Conheço umas tantas boas histórias sobre isso, sobre pessoas que constituíram família entre amigos, com seus companheiros, em comunidade sem, necessariamente, terem tido essa experiência de família com aqueles com os quais diz o clichê que deveríamos nos sentir familiares. Pois é, nem sempre acontece. Como não escolhemos o contexto no qual nascemos, nem sempre nasce ali uma família e nem sempre experimentamos com essas pessoas uma troca de afeto, um amor incondicional, um poder contar, um sentimento de proteção. Por incompatibilidade, por violência, por negligência, por distância… Enfim, muitas razões que a razão desconhece.

Tenho a sorte de ter uma dessas famílias mistas. Mistura de laços de sangue que construíram belas histórias com outros laços que se embrenharam em nossa vida e se tornaram família no melhor sentido da palavra. Tenho gente que é minha família desde que me entendo por gente.

Isso já foi fonte de conflitos e risadas. Um grande problema de infância: eu tinha três avós. A avó materna, a avó paterna e a avó mãe de uma amiga da vida toda da minha mãe que, por sua vez, era minha tia, o que fazia da sua mãe… bem… minha avó. Uma avó deliciosa, a única ainda viva e serelepe, aos 99 anos. Presente na minha vida, afetuosa, carinhosa, excelente fazedora de doces. Então, quando me perguntavam na escola os nomes das minhas avós, eu respondia três. E as pessoas cismavam que eu não podia ter três avós, que isso não existia. Mas eu tinha três avós, o que eles queriam que eu fizesse? Que escolhesse uma delas e a destituísse do posto? Como eu poderia destituir uma avó, se as três eram avós de verdade? Pois bem, no fim quem saiu ganhando fui eu, que bati o pé com coleguinhas e professores de que tinha três avós.

E fiquei com elas mesmo. E segui com a minha vida de três avós, uma tia super amiga dos meus pais da faculdade, a filha dela, a tia Mac… Outra tia tão amiga deles quanto, com um tio e um primo de quebra para dar ainda mais graça à nossa convivência… Virava e mexia tinha alguém que dizia: “mas eles não são seus tios, sua avó, seu primo de verdade”. Acho que não entenderam: eles sim eram de verdade. De mentirinha eram muitos com os quais apenas partilhava o sobrenome. Mas que em nada faziam parte de nossa vida. E muitas vezes eu achava graça em buscar sobrenomes comuns a todos nós, que juntaríamos todos eles e ficaríamos com um nome tão comprido de fazer inveja à nobreza de outras épocas. Com todos os sobrenomes enfim reunidos, teríamos oficializada a família que éramos. E ninguém mais encheria o nosso saco com detalhes banais.

Com esses tios passamos boa parte das férias de verão de todos os anos de minha infância e adolescência. Passamos, eu e minha irmã, que crescemos com eles. Estavam todos os finais de semana na nossa casa. Por vezes até no Natal e no Ano Novo, essas coisas que se comemora em família. Soltavam rojão no 31, junto com meu pai e meu avô. Faziam pizza e macarronada. Churrasco. Botavam fogo na casa tentando acender a lareira. Jogavam buraco à noite, entre adultos, enquanto a gente olhava e aprendia. Corriam dos morcegos, uns para se esconder, outros para ajudar a tirar de dentro da casa, hora de terror, risos e pancadaria. Foi esse meu tio que, junto com o meu pai, me ensinou a dirigir. Foi minha tia, sua mulher, que passou uma noite em claro ouvindo minhas histórias de amor adolescente. Foi esse meu primo que eu levei no cinema um monte de vezes, quando orgulhosa tirei carta de motorista e podia ir sozinha com ele e com minha irmã, toda pimpona, adulta e responsável, passear no shopping no sábado. Estão nas fotos de todos os aniversários desde que me entendo por gente. E, na festa do meu primeiro casamento, sentaram todos na mesa da família. A minha família.

Minha tia Mac nos visitou a cada final de semana. De lá de cima, eu ouvia a voz dela e sentia o cheiro do perfume que ela usava e eu adorava. Logo em seguida, a voz da minha mãe que chamava para descermos e dizermos oi. Não era sábado sem essa visita.

Mesmo quando ela não visitou mais, porque mudamos, ela mudou, todo mundo envelheceu e a rotina ficou diferente, ela sempre ligava. Não sei se minha mãe passou uma semana sem ter notícias dela. E sem lhe dar notícias. A vó vinha sempre, trazia um sorvete que só ela fazia, toda elegante e sorridente, um ar de sapeca moleca como poucas vezes eu conheci. Poucas pessoas são tão delicadas nessa vida.

Tia Mac viajou conosco. Temos cenas de pés sujos que foram limpados com toalhas de linho em banheiro de restaurante chique. Temos frases em espanhol de quem não lembrava como se dizia “toalha”. Temos conversas e mais conversas por telefone. Temos um monte de livros lidos e histórias contadas. Ela sempre gostou de presentear e sempre deu presentes para lá de generosos. E quando agradecíamos, ela sempre ficava sem graça. Era como a mãe dela nisso: sapeca, senso de humor fino, mordaz, divertida, buscando ver tudo pelo melhor lado. Ou, ao menos, buscando sempre mostrar o melhor lado para a gente.

Minha tia Mac morreu ontem. Morreu em São Paulo, onde viveu a vida inteira. Viajou o mundo inteiro, teve uma vida toda diferente e rebelde, nunca se curvou a nenhum clichê e sempre se manteve leal a seus verdadeiros e poucos amigos. Foi amorosa além da conta e mais importante para mim do que jamais poderá saber.

Há pouco mais de um ano foi meu tio, marido dessa outra amiga de toda vida de meus pais. Ontem foi minha tia Mac. Em 2012 foi um dos meus melhores amigos, um amigo irmão, tão querido que minha família toda – sim, essa família – o incluíu desde sempre, junto com o seu marido, na nossa família. E eles passaram a fazer parte de aniversários, festas, finais de ano, jantares e visitas de final de semana, com direito a todo barulho, a toda maluquice, a toda risada e a todo choro que sempre permeiam os encontros de gente que se ama. Quando me tornei adulta, pude finalmente contribuir com meus amigos para nossa família, como meus pais fizeram há tanto tempo, formando uma gente engraçada, de tantos sobrenomes, mas que têm uns aos outros em comum.

Ontem, perdi minha tia Mac. Como meu tio Beto, o meu irmão Edson, meus avós maternos… toda essa gente que você não vai conhecer, minha filha. Gente que não está mais aqui para te dar o acalanto das experiências doces de um sábado à tarde, de um almoço de domingo, de umas férias de verão… Um sentimento de abrigo e de estar em casa, uma certeza de cuidado e de proteção. Umas experiências do que é realmente o amor…

Lamento demais que você não possa conhecê-los e ter o privilégio que eu tive de ter essa gente por perto, de ter essa família querida ligando e querendo notícias, de ter essa lista de nomes e sobrenomes para juntar em uma festa de aniversário, em uma mesa de casamento, em um sábado à tarde de sol que passa arrastado. Teremos as memórias, as minha memórias, para te contar em tom de história de fazer rir e esquentar o coração. Daquelas histórias que a gente sempre pede para ouvir de novo. E que a gente repete e repete, logo que aprende a falar. E entre amigos e parentes, você também terá sua família. Sua família construída com todos aqueles que valem à pena.

Um beijo, tia Mac. Obrigada pelo privilégio que fez seu caminho cruzar com o dos meus pais e você tornar-se minha tia.

Cada fase, uma dificuldade

Nas raras vezes em que as pessoas decidem abrir o jogo a respeito da maternidade e admitir que não é nada fácil, uma das poucas coisas que costumam admitir é que o começo é muito duro, mas que depois melhora. Eis aí uma meia verdade, como todas as meias verdades que tentam transformar experiências complexas em argumentos simples e definitivos como: é bom, é ruim.

O começo é difícil. Com um recém nascido nos braços, uma queda hormonal mais radical do que saltar de páraquedas e nenhuma experiência com aquele serzinho ali na sua frente que você acaba de conhecer fora de você, os desafios são muitos. Aprender sobre quem é essa pessoa, aprender a cuidar dela, a atender suas necessidades que são muitas, intensas e frequentes… Passar boa parte do seu tempo em torno disso, em torno desse alguém que precisa tanto, quando você mesma se sente também em um estado de grande carência e necessidade… Lidar com uma mudança de ritmo violenta, uma reorganização do tempo que não respeita relógio biológico, horas de sono, descanso e cansaço… Fora tudo o que passa pela cabeça, do estado de êxtase ao desespero, da felicidade e do sentimento de plenitude ao esgotamento… As próprias lembranças de infância, o modo como foi filha, a relação com os próprios pais, com a própria mãe… tudo volta em avalanche. Os pitacos, as informações desencontradas, as pessoas que passam, fazem tumulto e em nada ajudam… Enfim, é difícil, é duro, é delicado, é em carne viva.

Mas daí você olha aquele bebezinho pequeno mamando, olha as mãozinhas, olha o olhar dele, o modo como ele se aconchega em você, o sono tranquilo, a sensação de felicidade tranquila, respira fundo e segue em frente. O começo passa.

Uma das curiosas descobertas sobre a maternidade, para mim, foi justamente isso: que quando você começa a se acostumar ou a se encontrar em alguma rotina daquilo que se tornou sua vida depois da chegada do bebê, ele muda, as demandas mudam, as necessidades mudam e você precisa mudar novamente. Eis aí um intensivão sobre a vida: não dá para ficar parado congelado em uma posição, porque a vida é movimento.

Então o começo passa e você imagina que “o pior” já passou. Mas não é bem assim. Pois aquele bebezinho pequeno do começo cresce e vai despertando. Fica mais acordado e, com isso, quer saber mais das coisas que o cercam. Começa a enxergar melhor e quer olhar. Começa a pegar e quer tocar. Começa a se mover e quer deslocar-se. Cada conquista espantosa e maravilhosa desses primeiros tempos é, também, uma nova necessidade de que você o acompanhe, de que ofereça aquilo que ele precisa: coisas para ver, sentir, viver. Experiências. Já não dá mais para contar com as milhares de sonecas cotidianas para fazer alguma coisa, pois o bebê está ali, acordado e existe um mundo inteiro a ser apresentado para ele.

Tenho a impressão que é aí que “a porca torce o rabo”. Pois ninguém havia dito que haveriam dificuldades depois do começo difícil e, talvez, muitas mulheres tenham acreditado que era só aguentar os primeiros meses que o restante seria um navegar por águas calmas e aprazíveis. Não.

Um bebê demanda de nós presença. Que estejamos presentes, atentos e capazes de responder de algum modo. E essa resposta varia com cada mudança na demanda. Então, você que achou que o pior era ter que acordar mil vezes para amamentar vai se dar conta que agora precisa brincar com o seu bebê. Ou sair para passear com ele. Ou fazer comida e dar comida a ele. Ou ficar por perto enquanto ele tenta rolar ou sentar. Ou estar atenta quando ele começa a engatinhar e andar e chegar naquela tomada, naquela quina, naquela porta, naquele cesto de lixo. Você percebe que existem muitas coisas novas das quais ele precisa e que não vai dar para ficar sentada lendo um livro enquanto ele se vira sozinho. Bebês solicitam. Crianças solicitam. Filhos solicitam. Pode mudar o conteúdo dessas solicitações, mas elas estão ali, bem presentes. E você vai ter que fazer algo a respeito. Mesmo que seja tentar ignorar e deixar uma criança que quer se mexer amarrada numa cadeirinha ou colada em uma tela de TV, iPad e afins. Ou seja, mesmo que você escolha a opção que pareça a menos trabalhosa possível, terá que fazer uma escolha. E agir.

Quer dizer que ninguém havia dito que daria tanto trabalho, que seria tão difícil? Ninguém havia dito que seria assim sempre? Pois é, se tivessem dito, você faria diferente?

Penso que aquilo que a gente tenta jogar para debaixo do tapete é justamente que a maternidade, como tudo nessa vida, é uma experiência repleta de paradoxos. Não é difícil. Nem é um mar de rosas e uma benção sem fim. É as duas coisas, ao mesmo tempo, nos mesmos acontecimentos, todos os dias. E é essa ambiguidade que deixa muita gente perplexa consigo mesmo, como se irritar-se, cansar-se ou ter raiva de tanta demanda significasse que você é uma péssima mãe. Não é. É apenas uma mãe como outra qualquer que, quem sabe, tenha um mínimo de coragem para assumir que é ruim. Tanto quanto é bom. E que ser mãe é ambos. O que faz de nós boas ou más mães, a meu ver, não é sentirmos tantos sentimentos contraditórios, mas a culpa que temos pelo que sentimos e nossa ignorância da diferença entre sentir e agir. A ignorância de que podemos sentir tantas coisas, pois isso é do humano e é dessa experiência de ser mãe, a tentativa de dividir em bom e mau o que vivemos e de jogar o mau ali num canto em que não nos perturbe, a crença tola de que as outras mães são apenas boas e que temos um problema quando não atingimos esse nível de excelência… tudo isso que destrói as mães em seu respeito e em sua tolerância com elas mesmas. O que acaba fazendo com que sejamos igualmente exigentes com nossos filhos, igualmente intolerantes. Se nós devemos ser as mães maravilhosas em constante estado de realização com a maternidade, nada mais justo que eles sejam os filhos perfeitos, desenvolvidos, adaptados, bem comportados, limpinhos e felizes aos quais temos direito, não?

Não.

 

Deixem o gesto livre!

Noutro dia, na PMI, minha pequena decide se aproximar de um outro bebê dois meses mais velho do que ela. Eles se olham interessados, ele tenta tocar no rosto dela. O pai do menino diz a ele que não pode. Ele insiste, o pai insiste. Ele insiste, o pai bate na mão dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e diz que vai cortar os dedos dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e dá um tranco no menino, que chora.

Ah, mas é um pai. Os pais, esses eternos vilões…

Outra cena, mesmo dia, mesmo local. Minha filha vê um bebê da mesma idade que ela brincando com um brinquedo todo cheio de luzes, sons e movimentos. Ela chega perto dele. A mãe já fica em estado de alerta. Ela descobre que o cabelo dele é muito mais interessante do que o brinquedo e decide passar a mão nos cabelos do menino. A mãe tira a mão dela dizendo: assim não, machuca, meninas são terríveis! Minha filha fica perplexa e tenta outras vezes. Mesma reação da mãe, cujo filho estava todo interessado nesse contato. A pequena acaba desistindo e vai brincar de outra coisa.

Qual o problema nessas cenas?

Crianças pequenas conhecem o mundo experimentando o mundo. E quando encontram um igual – outro bebê – querem entender como é que é. Chegam sorrindo, estendendo o braço e querendo fazer um carinho, toque, puxão de cabelo, tapa que são as formas desajeitadas de um gesto que ainda não está tão apurado a ponto de acariciar quando quer e bater quando deseja. Então, evidentemente, os movimentos saem meio desajeitados. Mas nunca vi nenhum bebê sair gravemente ferido por conta disso.

Corta para outra cena, dessa vez no Brasil.

Nos dois encontros com bebês de amigas queridas que tivemos, minha filha ficou ali do lado do rebento de cada uma e eles se entenderam e se descobriram como quiseram. Lógico, nada de dedada no olho nem mordida. Mas teve carinho no rosto, troca de brinquedo, puxar brinquedo, lambida no braço, chegar perto, se afastar, reclamar, rir, chorar. Lembro da alegria da pequena com esses encontros.

Podemos pensar que é diferente quando você conhece a mãe do coleguinha e quando se trata de um completo estranho. Você não sabe a medida de tolerância daquela pessoa e não sabe até onde pode ir ou deixar seu bebê ir, para não causar desconforto. Mas daí vem minha perplexidade: quando foi que as experiências de descobertas de nossos bebês passaram a ser reguladas por nossa vontade, enquanto adultos, de não incomodar ninguém?

Não sei se é coincidência ou se é realmente uma diferença, mas aqui temos tido esse mesmo tipo de experiência nos mais diversos contextos. Até com conhecidos que têm filhos pequenos. Basta um bebê chegar perto de outro e lá vem os adultos ficar em cima, marcação cerrada, segurando mãos e dizendo com voz suave: “doucement”, “com cuidado”. Resultado disso? Na maior parte das vezes, os bebês e crianças acabam desistindo e tenho visto muitos deles brincando sozinhos com seus brinquedos. Ou com os adultos. Em um lugar repleto de crianças, muitas delas brincam sozinhas e não umas com as outras. E basta se aproximarem para que um adulto chegue para mediar o “conflito”.

De onde foi que tiramos a idéia de que crianças quando se encontram vão acabar invariavelmente ferindo umas às outras? Que coisa estranha é essa de esperar violência e agressividade de crianças que não possuem nem ainda coordenação motora para isso? Ou de decodificar todo e qualquer gesto delas como agressão?

Claro, crianças maiores. Claro, crianças menores com maiores. Pode ser que seja. Mas também pode ser que não. E o que acontece numa situação dessas? Acontece que boa parte dos bebês ficam no colo das suas mães, brincando com elas e com seus brinquedinhos. Que desperdício em um lugar cuja riqueza seria justamente a de poderem se encontrar com outros bebês, não?

Outra cena, agora em um parque para crianças. Uma menina que deve ter uns 2 ou 3 anos tenta puxar a bicicleta da outra, que chora. A mãe da primeira vem gritando de longe, com um bebê no braço. Berra com a filha, consola a outra garota. A mãe dessa chega, elas conversam, ela oferece algo para a menina, cheia de sorrisos e mimos. Enquanto isso sua filha fica ali, esquecida. A mãe está visivelmente mais preocupada em agradar a filha da outra e, por tabela, essa outra mãe do que dizer algo para sua filha, que continua por ali distribuindo pancada para todo lado.

Corta para daqui três ou quatro anos, quando essas crianças vão para a escola.

Já escutei mais de uma pessoa contando histórias de como as crianças são agressivas na escola. Só brincam de tapas, meninos e meninas. Se estapeiam, voltam arrebentados para casa, mães reclamam, professores e diretores não sabem o que fazer com tanta violência entre pares, desde o começo de sua escolarização. Tenho uma amiga que contou que quando mudaram para a Austrália, sua filha continuava no registro francês de brincar de bater em todo mundo, o que causou muitos problemas na escola até ela descobrir que poderia brincar de outra coisa.

O que eu quero dizer com tudo isso?

Quero dizer que não me parece um mero acaso que as crianças maiores sejam tão agressivas com seus pares, uma vez que elas parecem estar sendo ensinadas desde bebês que todos os seus gestos devem ser contidos pois eles são sinônimos de agressão. Tolhidas em seus movimentos, muitas delas nem olham mais para as outras, contentando-se com objetos que não respondem da maneira que um outro humano é capaz de responder: surpreendentemente, tal qual um outro. E daí, essas crianças que já começam tolhidas, contidas e isoladas vão vendo os adultos em torno delas traduzirem o que elas fazem como agressão. E vão vendo esses mesmos adultos reagirem a essas pretensas agressões tomando sempre o partido do outro, enquanto elas ficam desamparadas com aquilo que sentiram e que fizeram, sem ninguém que as ajude a entender ou nomear. Então vão para a escola e explodem em pancadarias mútuas todos aqueles gestos que não podem ser diferentes, que não podem ter outros nomes, que não podem acontecer em outros lugares, que não podem ser acolhidos como bons, interessantes, belos ou curiosos.

Não quero, com isso,estabelecer uma relação rasa de causa e efeito entre os bebês que não podem tocar e a agressividade das crianças maiores. Mas estou dizendo que uma coisa me parece ter muito a ver com a outra.

Não sei exatamente porque adquirimos a convicção de que um bebê é uma “besta fera” que tem que ser educada. E educada aqui funciona como sinônimo de domesticada. Um bebê tem que ser adestrado em seus atos, gestos, movimentos, comportamentos, reações para se comportar tal qual se espera dele. Brincamos com nossos filhos querendo mostrar o que eles devem fazer com as coisas, qual o jeito certo de jogar, como é que se deve comer ou o que quer que seja. Somos normatizadores e temos pouca ou nenhuma tolerância para qualquer ato que fuja do esperado. Queremos gestos precisos, específicos. Queremos comportamentos “adaptados”. Queremos filhos “educados”, limpos, amáveis, sorridentes, bons alunos e que não nos causem problemas com os outros adultos pais. Não queremos constrangimentos. Nem queremos incomodar.

Queremos que nossos filhos sejam tão discretos que eles nem existam.

Cada vez sinto mais admiração por algumas mães que remam contra a corrente e permitem que seus filhos existam. Que inventem mil e uma coisas para se fazer com um pedaço de papel, que possam passar muitos minutos olhando uma simples folha seca, ou que consigam descobrir a infinidade em cada um de seus gestos. É algo bonito de acompanhar e sinto uma profunda tristeza de ver bebês e crianças tão tolhidos e de constatar que eles são a maioria desinteressante e deprimente com a qual minha filha terá contato. O que isso vai significar para ela? Será que ela também passará a acreditar que seus gestos são maus e perigosos? Será que ela vai acabar desistindo? Será que eu ficarei com medo de desagradar as pessoas e vou acabar pressionando-a para que ela se “comporte”?

Nossos filhos vão para o mundo. Começam cedo a mostrar uma necessidade de fazê-lo. E a gente começa a olhar esse mundo e a se inquietar muito com as experiências que estão ali para eles. E com o que elas possam significar em suas vidas.

 

 

It takes a village…

… to raise a child. É o que diz o provérbio africano. Ou muitos provérbios africanos que levam a essa mesma conclusão: para criar  uma criança é necessário toda uma comunidade.

Não, isso não quer dizer que criança dá trabalho demais, embora dê. Quer dizer que cada criança precisa de todo um entorno que se ocupe dela e que lhe garanta os cuidados, a proteção e a atenção das quais ela necessita. Cuidando diretamente de cada criança ou dando aos pais todas as condições e toda a atenção para que eles se sintam cuidados e apoiados no cuidado que prestam aos filhos, o que uma comunidade faz – ou deveria fazer – é direcionar muito do seu investimento às suas crianças.

Sempre me surpreendo com o paradoxo escandaloso em nossa sociedade atual, que cuida mal do seu futuro e de sua própria preservação e perpetuação: uma sociedade em que crianças são deixadas sozinhas desde muito cedo, largadas à própria sorte diante de telas, mamadeiras e brinquedos ultra sofisticados, e onde tudo aquilo que lhes é mais peculiar e natural causa incômodo e deve ser eliminado o mais rapidamente possível. Sociedade essa que abandona as crianças e seus pais para se virarem logo que elas nascem: sem apoio para cuidar, sem orientação para amamentar, sem incentivo para estar junto. Que cada pai e mãe, ou que cada mãe sozinha, com seu bebê, resolvam-se por si mesmos na intimidade de seu lar. De preferência silenciosamente. E sem dar muitas notícias de suas dificuldades e de seu sofrimento. Afinal, não podemos ser incomodados com essas pequenezas, não é mesmo?

Nos anos 70, a psicanalista Françoise Dolto criou, junto com uma equipe, um dispositivo chamado Maison Verte. Trata-se de um espaço de acolhimento de bebês e crianças pequenas, junto com seus pais ou cuidadores. Um lugar em que as pessoas podem ir com suas crianças para passar um tempo juntos, conversar entre pais e com a equipe que acompanha esse momento, trocar idéias e experiências. E onde os pequenos podem brincar, encontrar outras crianças e se deparar com esse instigante mundo do outro que se oferece ali, a eles, para sua exploração e para sua curiosidade, em um ambiente seguro e na companhia de seus pais. Dolto entendeu perfeitamente aquilo de que carecia a sociedade extremamente individualista e distante de sua época, especialmente os pais e seus recém-nascidos: precisavam de um lugar para falar, respirar, trocar, se relacionar, ouvir… A coisa deu tão certo que a Maison Verte se espalhou por toda França e por muitos outros lugares do mundo. E, ainda na França, deu origem a muitas outras iniciativas semelhantes, dentre as quais os espaços de acolhimento das PMIs, os serviços de Proteção Materno Infantil que, entre outras coisas, oferece justamente um espaço de acompanhamento e de troca, cuidado por alguns membros de sua equipe e frequentado por quem quer que assim o deseje. Trata-se de um serviço público, gratuito e espalhado por toda a França, no qual para realizar sua inscrição é necessário apenas morar na região abrangida por sua PMI de referência.

Por inúmeros motivos, não fui com minha filha à PMI logo que ela nasceu, especialmente porque eles têm a conduta de pesar semanalmente os recém-nascidos, o que acho desnecessário e estressante, visto que baseia toda a avaliação do bebê no ganho de peso. Mas há cerca de dois meses, começamos a frequentar o serviço para o acompanhamento médico de rotina da minha filha. E, mais recentemente ainda, decidi levá-la nesses dias livres, em que as crianças vão apenas para brincar umas com as outras.

Vinha percebendo que minha pequena ficava muito melhor nos dias em que saíamos para dar uma volta e muito mais irritada quando passávamos muito tempo em casa, mesmo com atenção, brinquedos e entretenimento. E com a chegada do verão, finalmente pudemos invadir parques e praças especialmente montadas para crianças. Tem sido uma experiência e tanto. Além do deleite de poder tomar um ar e sentir o sol batendo no rosto (de chapéu, claro), ela mostrou-se muito interessada em tudo a seu redor, folhas, flores, grama e… gente. Todas as gentes e em particular as mini gentes como ela. Não vou colocá-la em uma creche tão cedo e menos ainda na escola. Então, o serviço de acolhimento da PMI me pareceu uma boa opção.

Que agradável surpresa. Tudo cuidado, pensado para receber as crianças e oferecer atividades adequadas a cada idade. Mães (pois na maioria das vezes são as mães e apenas elas que acompanham seus filhos) ficam ali com as crianças, brincam junto, conversam entre si. Funciona. Claro, como em toda comunidade, as tensões e conflitos do lado de fora não deixam de estar presentes: os preconceitos, os racismos, as intolerâncias. Mas não apenas isso, como também uma certa amabilidade, uma boa dose de abertura e bons momentos de troca. E a pequena está encantada em descobrir outras crianças e seus feitos.

Aqui tem gente preocupada em criar comunidades. Embora saibamos muito pouco sobre como é viver em uma.

O estranho patriotismo dos expatriados

Em tempos de Copa do Mundo, a primeira morando longe de casa, tenho visto exacerbado algo que já me chamava a atenção em muitas situações cotidianas por aqui: o patriotismo exacerbado, quase fanático, de quem está longe de suas origens.

Há pessoas que saem de seus países por conta de guerras ou de conflitos violentos ou perseguições políticas. Há pessoas que saem em busca de melhores condições de vida ali onde acreditam que seja possível aquilo que não é no lugar onde nasceram. E há aquelas que saem por oportunidades de trabalho, de estudo, por um investimento profissional. Qualquer que seja o motivo que tenhamos para transitar, me parece evidente que a humanidade é essencialmente nômade. E que as fronteiras e os empecilhos a essa livre circulação não são apenas de uma violência contra esse ser do humano quanto, também, de uma ignorância descarada acerca daquilo que contribui para a riqueza de um país ou de uma região.

Enfim…

O negócio é que as pessoas partem e chegam. E, cheias de esperanças e de ideais, constatam no dia-a-dia dessa nova vida nesse novo lugar que as coisas não são assim tão simples. Sonhar com a vida em um outro país é bem mais divertido do que vivê-la. Porque no sonho não existe a burocracia, as papeladas, as dificuldades de comunicação, tudo aquilo que você não sabe como funciona, os desencontros culturais… No sonho não existe o racismo e o preconceito com o qual o estrangeiro é olhado em qualquer lugar do mundo, sempre o primeiro a ser apontado como causa de todos os problemas de qualquer ordem, em qualquer lugar.

Então, o que acontece? Acontece que, expatriados, vivemos cotidianamente esses pequenos preconceitos, essas pequenas discriminações. E, mais ainda do que isso, essas milhares de pequenas dificuldades que atribuímos ao preconceito e à discriminação e que muitas vezes não são. São apenas o modo como as coisas são. E que não entendemos. E nessa experiência dura e oprimente de tentar se integrar versus a oposição para que isso aconteça, o que vemos é muitas vezes uma reação de total inadaptação. Uma recusa mesmo em se inserir, em fazer parte.

Me explico. E juro que isso tem a ver com a maternidade, ou ao menos com a maternidade fora de seu país de origem, tá?

Quantas vezes nos deparamos no Brasil mesmo com imigrantes de primeira geração que não falam português? Não aqueles que falam com sotaque carregado, mas aqueles que simplesmente não falam uma palavra? E quantas vezes nos deparamos com comunidades inteiras que ocupam bairros inteiros que passam a ter letreiros inteiros em outra língua, produtos vendidos em supermercados totalmente estranhos, gente que não se mistura e que te olha com desconfiança se você insiste em passar por ali? Não sei vocês mas eu, vivendo em São Paulo, tive essa experiência várias vezes de me deparar com pessoas ou com comunidades tão fechadas que ficava claro que não havia brecha alguma para entrar.

Pois é, o mesmo acontece por aqui. E o mesmo acontece conosco, os brasileiros. Nós, que parecemos um povo tão aberto ao estrangeiro, que parecemos sempre tão dispostos a recebê-los bem em nossa casa, que parecemos até subservientes, encantados com a estrangeirice alheia e invejando tudo de todos como se quiséssemos ser tudo menos aquilo que somos… Bem, nós, os brasileiros, somos acometidos muitas vezes de um curioso fechamento quando vamos viver fora de nosso país.

Vejo por aqui, quase cotidianamente, situações em que brasileiros simplesmente não se misturam. Pude conviver com pessoas que vieram para a França para seus estudos e que passaram todo o período de sua estadia convivendo apenas com outros estudantes brasileiros, frequentando bares e restaurantes brasileiros, comendo comida brasileira e… reclamando de tudo o que é tão diferente do Brasil. O tempo todo. Gente que terminou a bolsa sanduíche ou o que quer que seja praguejando que os franceses são chatos, mal educados, fechados. Gente que voltou sem falar uma palavra de francês, sem nenhuma experiência de abertura, sem nenhum momento em que tenham sido tocados por essa diferença para guardar na lembrança. Nada. Foram e voltaram sem sair do lugar.

Mais do que isso, vejo outros brasileiros que estão aqui há anos, quase décadas e que não falam a língua, frequentam apenas médicos e outros tipos de prestadores de serviço que sejam brasileiros ou que falem português, saem para fazer programas brasileiros, entre brasileiros. Pedem para quem vem do Brasil trazer remédio brasileiro, comida brasileira. Esmalte brasileiro, tintura de cabelo. E só. Não. Ainda reclamam da França e dos franceses. O tempo todo.

Vocês podem me dizer: ah, mas é o “mal do país”. Ou é saudades. Sim, pode ser mesmo. Como pode ser a reação meio paranóica ao que vivemos e identificamos como uma perseguição. Nos maltratam, não nos querem aqui? Ok, então ficamos por aqui sem olhar para eles.

Tenho uma colega argentina com quem convivi por um bom tempo e que vivia falando mal do Brasil. Detalhe: ela vivia no Brasil desde bem jovem, era casada com um brasileiro, tinha filhos brasileiros, fez seus estudos ali, tinha seu trabalho, ganhava seu sustento, tudo no Brasil. Sempre achei o fim da picada, uma falta de educação, de respeito e de gratidão pelo país que a acolheu sempre e bem. Mas vendo como são as coisas por aqui, posso compreender como acontece esse inevitável desencontro em qualquer país, com qualquer estrangeiro que viva fora de casa. E como tomamos esse desencontro como algo contra nós. E como temos que viver em constante defesa contra esse país que nos acolhe e nos maltrata ao mesmo tempo. Como se não fosse assim também em nosso país de origem, que se transforma então no lugar ideal onde tudo seria mais acolhedor, simpático, saboroso e fácil. Continuo achando falta de educação, de respeito e de gratidão. Mas muitas vezes faço o mesmo.

Penso que uma das maiores dificuldades de viver em outro país é manter um espírito de abertura e conseguir distinguir entre aquilo que é preconceito, racismo e xenofobia – dos quais a França está infelizmente infestada – daquilo que é apenas a estupidez cotidiana de um país que funciona mal em muitas coisas. Mas não apenas com os estrangeiros, com todo mundo. Um bom exemplo disso por aqui: a burocracia. Tente conseguir renovar seu visto uma vez por ano e você terá a forte impressão de que fazem de tudo para que você desista. Sim, deve ser verdade. Mas pergunte para o seu marido, amigo, colega, conhecido francês como é que é cada vez que ele precisa ir resolver uma coisa na prefeitura, buscar um papel em algum lugar, resolver algo simples como mudar um endereço para a entrega de uma conta… Hahahahaha, meus caros, é uma novela. De mau gosto.

Mas, ao mesmo tempo, tem tudo aquilo que funciona e que te fez vir / ficar por aqui, não? Existem muitas situações e muitos lugares em que esse país te acolheu e cuida de você e de seus interesses, não? Pois é, prós e contras. A vida está cheia disso e não importa muito aonde você viva.

Talvez o que seja difícil de lidar mesmo seja justamente essa constatação de que “a França não quer você”. Essa descoberta de que você está ali não porque é desejado, mas porque deseja. E tem que sustentar sua estadia apenas no seu desejo. E fazer um baita esforço por ele. Sem a apaziguadora idéia de que o outro faz a maior questão da sua presença. Não suportamos muito bem essa situação de não poder dizer que é por causa do outro que fazemos isso ou aquilo, mas apenas e tão somente por nossa vontade. E viver em outro país, qualquer que seja ele, te joga na cara essa verdade inabalável: você está ali porque você quer. Então, o esforço vai ter que ser seu.

Putz.

Não estou defendendo que os países recebam mal seus imigrantes, até mesmo porque eles precisam tantos da gente quanto precisamos deles. Mas são poucos os países que lançam campanhas para você vir se instalar, a demanda é quase sempre de quem vem, não? Então, como não assumi-la e aceitar o esforço que ela implica?

Mas o que isso tem a ver com o patriotismo? E com a maternidade?

Muito, porque nesse embate entre o nosso desejo de estar em um lugar para o qual não fomos convidados e a constatação de que não somos desejados e de que temos que construir nosso lugar ali por nós mesmos, vejo acontecer muitas e muitas vezes esse fechamento, essa recusa, essa idealização do país de origem e esse ódio do lugar em que se vive, que é negado de todas as formas possíveis, a começar pela recusa da língua. “No Brasil é que é bom”. Mesmo? Tem certeza? Não vou fazer aqui o discurso inverso de que no Brasil tudo é uma porcaria, mas o Brasil também tem lá suas mazelas, não? Não é flor que se cheire, como aqui, como nenhum outro lugar. E quem disse que haveria o lugar perfeito? E por que acreditamos nisso?

O mais curioso, engraçado, paradoxal nisso, contudo, é que esse fechamento nesse patriotismo meio xiita que vejo por aqui ignora totalmente que nada disso faz sentido para os próprios filhos. E aí entra a questão da maternidade, com algo que constatei noutro dia e que me deixou perplexa: para nossos filhos, os filhos dos expatriados, quer sejam eles brasileiros ou estrangeiros ou ambos, esse patriotismo não significa nada. Por quê? Porque a pátria deles é outra.

Vocês já pararam para pensar nisso, que para nossos filhos, o lugar de origem deles é e sempre vai ser esse onde nasceram e onde vivem? Que eles terão como referência uma língua outra que será a língua deles, mesmo que falemos português em casa e que eles também falem? Que eles terão outros sabores na boca, outras paisagens na retina, outros sons, outras impressões na memória? Que nossos filhos são os estrangeiros que recusamos ao recusar o país no qual eles nasceram e vivem e com o qual possivelmente terão a mesma relação afetiva de amor e ódio que temos com o Brasil?

Pois é, me dei conta disso noutro dia. Minha filha é francesa e brasileira. Mas enquanto vivermos aqui e quanto mais vivermos aqui, mais ela será francesa, marcada pela cultura, pelos hábitos, pelos costumes, pela língua desse país em que vivemos. E, claro, ela terá traços de Brasil nela. Mas mesmo que eu me torne uma patriota xiita e que ela se vista de verde e amarelo em dia de Copa, isso corre o risco de soar nela mais como exotismo do que como a defesa de uma certa identidade. Porque não é o que ela é. Porque eu escolhi estar e ficar aqui. E isso tem como consequência que ela seja outra coisa do que eu fui nascendo e vivendo no Brasil por anos e décadas.

Então, minha gente, acho que esse patriotismo exacerbado é meio que um tiro no pé. No nosso e no de nossos filhos. É não assumir que eles são outros e não deixá-los serem quem são, mesmo que isso signifique, dolorosamente, não-brasileiros. Então é fazer o contrário, se integrar e recusar totalmente nossas origens, nossa língua, nossa cultura? Claro que não. Isso apenas refaz o problema pelo seu avesso. Mas talvez se pudermos considerar que aquilo que somos não é o que nossos filhos são também nesse ponto, o das origens ou o do sentimento de pertencer a uma ou outra pátria… talvez isso nos ajude a sermos mais abertos e tolerantes com esse estrangeiro que nos acolhe e que, em certo ponto, são nossos próprios filhos.