O marido gringo (BC – Papo de mãe)

O marido gringo é um artigo que provoca fascínio e inveja. Não sei se por conta de nossa mentalidade de colonizados que olham gulosos para tudo aquilo que vem de fora como se fosse melhor e mais interessante, temos essa idéia fixa de que quem vive fora do país leva uma vida hollywoodiana. Se a pessoa se casa com um gringo, então, é motivo para alvoroço e histeria generalizados. E muito falatório pelas costas depois.

Pouca gente tem noção dos percalços de uma vida fora do país de origem. A maioria nem sequer imagina como é viver fora da própria cidade onde nasceu. Olhando com olhos de turista tudo parece bonito, agradável e glamouroso. Os relacionamentos com estrangeiros, então, parecem a chave do paraíso. Não são. Relacionamentos são bons e são ruins sem exceção e nenhum é o ideal, mesmo que passemos a vida pensando que alguém consegue ter aquela vida de casal de propaganda de margarina que fizeram com que acreditássemos que é possível. Não é. E contos de fadas não existem. E o príncipe encantado não salva a donzela no final. O que o relacionamento com um gringo faz é escancarar mais explicitamente essas impossibilidades, mostrando no dia-a-dia que amor e vida conjunta são decisão constante, acordos, conversa, trabalho e muita, muita paciência. O estrangeiro te coloca de cara com as diferenças e te obriga a encará-las. Se ele é teu marido, a provocação é cotidiana.

Putz!

Como é que é o marido gringo, então, esse sonho de consumo de tantas brasileiras?

Ele é um sujeito, um outro, muito mais diferente do que parecido, mesmo que em princípio hajam pontos em comum que os unam e distâncias atraentes, com o qual você se propõe a partilhar sua vida e que, além de todas as diferenças que qualquer outro teria, carrega consigo o fato de ser de outro país. Outra língua, outra cultura, outros costumes. Tudo o que pode ser extremamente charmoso no jogo de sedução, mas com o que você precisa lidar com muita abertura de espírito no dia-a-dia de uma vida a dois.

E quando ele se torna pai da sua filha, então? Minha nossa senhora, fujam para as montanhas!

Exemplos?

O marido gringo não vê necessidade de te acompanhar nas consultas do pré-natal. Nem nos exames de ultrasom. Ficar contigo na maternidade? Por quê? (Ouvi muitas histórias de maridos franceses que não ficaram com as esposas no período em que as mesmas estavam na maternidade, simplesmente porque não vêem nenhum sentido em ficar ali se elas não estão doentes e se eles podem muito bem seguir com a vida normal).

O marido gringo pensa que parto normal é aquele em que uma anestesia é obrigatória, pois não vê sentido algum em que alguém sinta dor em uma situação em que isso poderia ser evitado. Intervenções médicas são bem vindas e saudadas com alegria, pois elas servem para melhorar a vida de todos. ( A França é uma das campeãs em intervenções médicas, por conta do seu sistema de saúde em que as pessoas podem ter suas consultas, exames e intervenções pagas pela seguridade social. Isso criou uma perversão bastante bizarra que faz com que as pessoas vão ao médico o tempo todo, sem razão alguma. E o critério para decidir se um exame será feito ou não é se ele é reembolsado, não se ele é necessário).

O marido gringo acredita que bebês dormem no seu quarto desde a primeira noite. De preferência, a noite inteira. Pois precisam aprender a dormir. E a se acalmarem sozinhos. (O método nana nenê poderia perfeitamente ter sido inventado na França, onde os pais franceses costumam ser bem disciplinadores com seus filhos. Não é à toa que temos agora aquela avalanche de livros de americanos deslumbrados porque crianças francesas comem de tudo, não fazem manha e mais uma porção de coisas que as pessoas acham que sinalizam que as crianças francesas são educadíssimas. Esquecem apenas de se perguntar se elas são felizes. Ou seja, pais franceses disciplinadores não apenas no bom sentido, pois muitas vezes a criação envolve um modo frio e pouco afetivo de lidar com as crianças. Não é à toa que a França é uma das campeãs no uso de antidepressivos no mundo).

O marido gringo está convencido de que peito e mamadeira são a mesma coisa. E que uma chupeta não faz mal à ninguém e ainda ajuda o bebê a dormir e ficar calminho. (Na França, o aleitamento materno é uma tragédia, as mulheres amamentam pouquíssimo e por pouco tempo e algumas maternidades fazem muito esforço e até uma grande pressão para que as mulheres amamentem. Já ouvi de boca de pediatra que não é obrigatório amamentar e não importa qual deles te prescreve com facilidade um suplemento de leite em pó, o que faz com que muitas crianças saiam tomando mamadeira já da maternidade. E com chupeta na boca, claro).

Tudo isso para mostrar que às diferenças de concepção sobre mater/paternidade juntam-se contextos culturais outros, educações diferentes, outros costumes, outras formas de ver a vida que não apenas justificam as posições do marido gringo como tornam qualquer conversa muito mais complicada, já que ele estará sempre apoiado pelo discurso vigente no seu país. Que é justamente onde vocês moram. A menos que ele seja um peixe fora d’água com tanto senso crítico quanto você, né?

Claro que o marido gringo pode te ensinar coisas maravilhosas, como a liberdade que é poder pegar sua filha e sair de casa, não importa com que idade, não importa para onde. Como aqui não existe essa cultura das babás 24 horas por dia e as famílias não são necessariamente presentes e participativas mesmo quando há um bebê novo no pedaço, o jeito para viver a vida é, simplesmente, vivê-la. Sem muito drama, sem muita restrição, sem muita frescura. Botar a bebê no sling e sair para dar uma volta. Ou arriscar uma viagem. Ou andar na beira da praia. Ou jantar fora. Enfim, o que for razoável e puder agradar a todos.

Também é o marido gringo quem pode te ensinar a simplicidade de uma relação menos machista, em que ele se ocupa dos cuidados com a pequena tanto quanto você, sem que isso receba a estranha interpretação do “ele me ajuda”. Mesmo em uma França machista anos luz atrás dos anglo-saxões ou dos nórdicos, que guarda ainda bastante de sua latinidade no seu aspecto mais misógino, não há como comparar aquilo que o marido gringo faz com naturalidade com aquilo que muitos ogrinhos brasileiros fazem apenas sob os holofotes e com muito drama. Marido gringo cuida da bebê. Ponto.

 

Em resumo, marido, gringo ou não, traz ensinamentos e dificuldades. Como toda relação que funciona bem, demanda esforço e dá prazer. A chegada de um filho abala tudo o que estava assentado antes e, gringo ou não, ele vai ter que pensar muito bem no que está fazendo contigo. E você fará o mesmo. Pois nada suscita mais amor e mais dificuldades para um casal do que o nascimento de um filho. Ou, se suscita, eu ainda não sei e espero nem descobrir tão cedo.

Marido gringo que se torna pai de um filho seu causa toda uma revolução, pois à partir dali os dois sabem que não é apenas o exotismo, as diferenças interessantes ou o sotaque bonitinho que alegrarão o dia-a-dia. Desde que o rebento nasce, eis duas pessoas ligadas permanentemente e, mais ainda, dois países, duas culturas, duas distâncias oceânicas tendo agora que confluir para um único ser, fruto desses dois tão distintos. Haverá uma criança metade brasileira, metade gringa. Haverão duas línguas, dois temperos nas comidas, duas canções de ninar. Haverão duas formas de criar, haverão dois modos de amar. Com sorte, toda essa diferença será uma riqueza, e os pequenos sairão ganhando.

(Esse post foi inspirado pelo tema: “E os pais?” da blogagem coletiva Papo de mãe)

Ela gosta de música.

Mais ainda, gosta que cantem para ela. De preferência bem alto, com sons demorados e repetitivos como mantras. Gosta tanto que abre um sorriso imenso de dois dentes na boca. E coloca as mãos no rosto de quem canta. Chega o rosto meio vesguinha, sorrindo com os dois dentinhos e mergulha naquele som, naquela voz, naquela boca. Ela quer engolir a música! Menina que tudo o que ama tenta conhecer pela boca achou que era uma boa idéia degustar a canção. E ela tenta e ri e tenta e ri e tenta e ri, sempre surpresa com esse som tão saboroso que ela não consegue pegar. Menina linda entendeu tudo. Música é coisa que alimenta.

E sai sacolejando o esqueleto que bambeia mas para em pé. E cantando mil sons novos que sempre misturam espanto e alegria.

Aquelas perguntinhas infames…

… e as respostas que passam pela minha cabeça. Especialmente em dia de mau humor e língua solta.

  • Posso pegar no colo? Ou: quer vir com a titia? Ou qualquer uma das muitas variações que envolvem sempre um estranho sorrindo na cara do seu bebê, abrindo os braços e batendo palminhas como se isso fosse argumento. Por que diabos as pessoas têm essa necessidade incontrolável de carregar o bebê? Mesmo que seja a primeira vez que o vêem na vida? Mesmo que seja o primeiro segundo em que se vêem? Você acharia razoável que um estranho que você encontra pela primeira vez chegasse todo empolgado e te pedisse para lhe dar um beijo, um abraço ou sentar no seu colo? Então se manca e espera o tempo do bebê, né? Se ela quiser, ela vai no seu colo. Mas o mais provável é que não. Deal with it.
  • Dá um sorrisinho… Outra variante dessas anteriores, mas com um agravante: você quer que o bebê sorria para você a qualquer preço, como se sua vida dependesse disso. Parece que os adultos têm uma estranha urgência de se verem confirmados no sorriso das crianças. Porque criança sorri e olha nos olhos e é um amor doce, cálido e alentador. Um bálsamo para almas torturadas e carentes de todo tipo. Então todo mundo se sente no direito de sugar sorrisos do seu filho para aplacar as carências e necessidades dele, o adulto. Colega, vai vampirizar alguém do seu tamanho!
  • Quer uma balinha? Docinho? Bombom? Chocolate? Isso, muitas vezes, já botando a tralha na mão da criança. Não. Faça. Isso. Ou você gostaria que alguém chegasse botando um cigarrinho de maconha na mão de quem você ama? Ou uma carreira de cocaína? Cruzes, que radical, né? Nada a ver! Em termos, porque açúcar faz tão mal à saúde quanto algumas dessas drogas e, se você não sabe disso, é porque não anda lendo muito ultimamente. Então, pare de tentar comprar a atenção da criança com estimulantes de todo tipo e aguente o fato de que ela pode não estar interessada em você. Ponto.
  • O que, não vai dar açúcar? Salgadinho? Danoninho? Suco de caixinha? Refrigerante? Mac Lixo? Mas que bobagem, que xiita! Depois ela vai comer mesmo na escola, nas festas dos coleguinhas, em todo lugar… Essa é a variante piorada das anteriores, pois supõe que é você quem tem um problema em querer cuidar para que sua filha tenha uma alimentação saudável. Sob o argumento de que ela vai eventualmente comer porcarias em outros lugares e em outras circunstâncias, você é quem parece imbecil de querer oferecer algo melhor dentro de casa. Cuidado, colega, pois seguindo essa sua lógica podemos dizer que é melhor bater em um filho já que o mundo vai acabar batendo nele. Ou que é melhor mentir, enganar, trapacear e zoar com a cara dele porque ele certamente passará por isso ao longo da vida. Já que a vida é cruel eu preparo meu rebento desde o berço, né? Sei, sei, por essas e outras que tem pai que mata a pancadas filho porque julga que ele é afeminado demais ou coisas do tipo, viu? Segue a sua lógica de impor o pior para os seus filhos porque o mundo não tem jeito, é uma porcaria de uma selva e é melhor ele estar preparado que eu sigo na minha aposta de que cuidar bem e fazer o melhor por alguém é dar a chance de que, um a um, o mundo possa mudar para melhor.
  • Mas é grudada com a mãe, né? Pois é, queria que fosse grudada com quem? Contigo? Quem cuida, passa o tempo todo junto, protege, alimenta, acompanha desde o útero? A pessoa quer que a criança fique tão fascinada por ela que isso a torne a pessoa mais importante na vida do filho dos outros. Eita narcisismo, minha gente. Olha, não sei se te disseram, mas o mundo não gira em torno de você. E, sim, para um bebê a mãe dele é beeeeeem mais interessante que a sua pessoa. E a menos que você seja o pai ou alguém extremamente próximo dessa criança, ela vai preferir ficar grudada na mamãe do que perder o tempo precioso de suas descobertas para encher a sua bola e te reassegurar de que você é o máximo. A não ser quando for adolescente, quando vai achar que qualquer um é bem mais interessante que sua mamãe e seu papai, que seja você ou qualquer outro, apenas para descobrir, mais adiante, que os pais nem eram tão ruins assim e que você, sujeitinho que adora competir com os outros pela atenção e posição de centro da vida alheia, sempre foi mesmo um belo de um mané.
  • Mas ainda mama? Chupa o dedo? Usa fraldas? Acorda de noite? Chora? Sim, meu caro, isso se chama primeira infância, sabe? Faz um certo tempinho – tempo histórico, quero dizer – que crianças não são consideradas como mini-adultos e têm reservada para elas uma fase e uns modos de ser todos seus. Que são apenas normais para o momento que vivem e aquilo que podem fazer de seus corpos e mentes tão precários. Tudo bem que hoje queremos que isso passe o mais rápido possível. E que o rebento cresça, não dê trabalho, não peça nada e fique quieto ali no canto, entretido com o joguinho do iPad. E tudo bem que queremos que o rebento seja alfabetizado com seis meses, bilíngue, gênio, aceito em Harvard, de preferência antes mesmo de aprender a falar, de parar de babar e de ter todos os dentes na boca mas… tsc, tsc, tsc… quem está sendo ridículo em suas expectativas mesmo?
  • Que língua será que ela vai falar primeiro, hein? Português ou francês? Acho que vai falar português como a mamãe, né? Vai falar francês como o papai, que lindinha, já pensou, fazendo biquinho e tudo? Essa é um plus para quem faz parte de um casal bilíngue. Ou para quem mora fora do país. Colega, a menos que você seja um linguista ou algum outro especialista em linguagem, aquisição da linguagem e problemas de linguagem, o seu palpite é tão relevante para nós quanto a previsão do tempo em Timbuktu para o dia de amanhã. Agora, se mesmo assim você não resistir em guardar sua saliva para assuntos mais interessantes e tiver que falar disso, por favor, por favor, por favor mesmo, poupe-nos das explicações do porquê você acha que vai ser assim ou assado. Eu não sou francesa e minha pequena é meio brasileira. Mas nós duas sabemos bufar.

A mãe triste e o menino

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados.

O menino nasceu pendurado por um tênue fio a ela. No começo, entre mamadas e cuidados diários, parecia que o fio sustentava. Ela dava conta de estar ali para ele, empenhando nisso todos os seus esforços. Ele se empenhava em sua sede de vida e de conhecer o mundo.

Com o passar dos meses, os primeiros sinais de independência, os primeiros olhares para fora daquele dueto. Ela, exausta, viu nesses pequenos movimentos de vai-e-vem a oportunidade de ir-se. Se um bebê pequeno era possível e a ajudava mesmo a sentir-se inteira e viva, um bebê menino pequeno era demais. Demanda demais, esforço demais, decisões demais, atitudes demais, acontecimentos demais. Cada novidade exigia dela uma posição e cada posição um pensamento e um trabalho. Teve um momento em que deixou de suportar remar contra a maré e deixou-se simplesmente tragar e tragar e tragar. E deixou-o ser tragado também pelo que viesse.

O menino, confuso, não sei se entendeu muito bem porque sua mãe desistiu desse embate diário que lhe dava um contorno em forma de comida, de cocô, de fraldas, de falas, de brincadeiras, de roupas, de sono e de tudo o mais que ele necessitava. Ele não entendeu suas ausências em presença, não entendeu como é que ela poderia estar ali sem estar. Apavorou-se em vê-la desaparecer sob seus olhos, detrás do computador, de livros, de escritos… Ela se afastou mais, pois até mesmo esse olhar suplicante lhe demandava além da conta e quanto mais ele pedia, mais ela se refugiava em suas tarefas que eram tudo menos ele. Precisava dormir, precisava descansar, precisava arejar as idéias, precisava trabalhar.

O trabalho voltou e ele ficou cuidado por outros. A escola chegou para ele e esse cuidado se espalhou e se terceirizou ainda mais. Ela decidiu cada vez menos e isso parecia confortar-lhe. Não podia suportar que alguém precisasse dela tanto assim, era peso demais para ela. Melhor que outros decidissem em seu lugar, já que faziam tanta questão. Baixou os braços, entristeceu-se e apequenou-se no lugar de mãe.

O menino desorientou-se um tanto em meio a esses cuidados. Cada um faz de um jeito e pensa uma coisa diferente. Como lidar com seus pedidos? Seus momentos de cólera? Suas teimosias? Suas dificuldades? Cada um age de um jeito e isso fez o menino crescer confuso, sem saber direito até onde pode ir. Qual é o limite da sua própria pele? E, pergunta ainda mais vital para ele do que essa sobre os limites: como ter o que precisa?

As faltas que impomos aos nossos filhos, muitas vezes as compensamos com consumo. Toda aquela demanda de afeto, de presença, aquela voracidade, aquela intensidade da necessidade do menino bebê foi desviando para os lugares e os modos em que ele podia receber algo: comida, atenção, objetos, presentes, doces. Ali onde ele podia ganhar, instalou-se e tornou-se um colecionador de coisas, coisas que ingere e coisas que acumula, tampando os buracos das suas carências com aquilo tudo. Não pode se desfazer, não pode emprestar, não pode deixar nada dessas coisas circularem livremente porque isso seria perder alguma coisa. E perder alguma coisa, para ele, seria perder tudo. Do cocô ao brinquedo, nada sai.

O menino foi crescendo carente, tristonho no fundo do seu coração, sob uma máscara de risonho encanto. Agressivo nas suas exigências, nas suas reivindicações que sempre pressionam o outro para que ceda, para que lhe dê aquilo que quer, para que se submeta ao seu desejo e à sua necessidade. Estar com o outro tornou-se uma espécie de “só pode haver um”. Um desejo, um que vence e impõe ao outro o que quer. Trata-se de um braço de ferro em que ele se especializou desde menino, em que vence quem gritar mais alto, pois essa é a única forma de conseguir algo. Gritar, gritar, gritar na esperança de que ela escute, de que ela venha, de que ela se mexa. Será que um dia ela vem?

Não, ele não se tornou um delinquente, nem nenhum desses clichês que poderíamos associar como consequências óbvias de seu lugar de origem. Tornou-se um sujeito correto, bem sucedido, que trilhou um caminho bastante comum, sem dar muito trabalho nem se colocar muitas questões. Estudou, escolheu uma profissão, casou-se com a namoradinha da faculdade, teve filhos, comprou uma casa, um carro e um cachorro. Mas tudo isso foi se colando em torno de um vazio, uma casca oca encobrindo esse lugar primeiro em que algo faltou. E como ele não se deu conta de que as bases eram tão frágeis, uma hora tudo explodiu. A vida explodiu, a história explodiu, a família explodiu e ele se viu afogado novamente por aquele lodo negro, aquela dor que ele conheceu lá no começo e da qual ele tentou se afastar sem levá-la em consideração. Ele se tornou alguém muito parecido com aquela mãe triste, o olhar vazio e distante que não responde, não olha, não pode, pois tudo é pesado demais.

E ela?

Como eu disse, toda história tem ao menos dois lados. E o lado dela foi igualmente árido. Essa tristeza que a tragou não vem sem culpa, a não ser na medida em que ela se acentua e se acentua e se acentua até estar tão sufocante que não há ar para respirar ou para se sentir culpada. Eis uma espécie de libertação pelo pior, uma saída para não precisar olhar, não precisar se responsabilizar, não precisar sangrar e doer por pura impossibilidade. Ás vezes o estado de espírito é tão frágil que não há forças nem para sentir culpa.

Freud (sim, o bom e velho) escreveu em um de meus textos favoritos, o maravilhoso Luto e melancolia, lá pelos idos de 1917, que sempre que perdemos algo muito importante, somos arremessados em um processo de luto que é necessário, fundamental. Serve para ficarmos lambendo nossa ferida o tempo que dure para que ela cicatrize. Pegamos cada coisa, cada lembrança, cada memória, cada cheiro, cada lugar, cada momento associado com aquilo ou aquele que perdemos e lembramos, lambemos, choramos, doemos e… deixamos ir. Um processo de luto é um processo de renúncia ao que não podemos mais ter, visto que está perdido.

Quando não conseguimos perder, quando não aceitamos, não queremos, lutamos contra e nos rebelamos, eis aí o que ele chama de melancolia. Melancolia é tentar apegar-se com tanta força àquilo que se perdeu que o único jeito possível é engolindo aquilo. Engolindo, incorporando, tatuando na pele e nas entranhas cada pedaço de cada detalhe de cada coisa, lembrança ou situação que se relacione com o que foi perdido. Assim, por meio dessa incrustração, dessa incorporação, guardamos o que perdemos no mais fundo do nosso ser e, desse modo, vivemos como se não fosse perdido.

Só que a melancolia cobra um preço cruel por seus serviços. Você não perde nada, você não deixa partir, você não renuncia mas… passa a vida inteira impregnada de um cadáver. Sim, um cadáver morto e putrefato que você engoliu na esperança desesperada de que, com isso, ele viva e você não tenha que abdicar dele. Até o ponto que você vira esse cadáver. E cadáveres, como todos sabemos, não se movem. Eis uma vida morta e imobilizada pelo esforço em não perder.

O que será que ela não pode perder com tanta força a ponto de ter se aceitado se encarcerar nesse lugar negro e lodoso do qual não pode mais se mover, ficando prisioneira de sua própria impossibilidade de renunciar, ficando imóvel? Pelo que ela pagou o preço de sua imobilidade? O que valeu sua paralisia e de todos a seu redor, sempre pisando em ovos com medo de dizer algo que faça com que ela se feche e desapareça ainda mais? Pelo que ela entregou sua vida e aceitou renunciar a quem ela é pelos que a amam? O que fez com que amor se tornasse exigência pesada demais? Por que sua única opção é abandonar e ficar abandonada? A que serve esse estado tenebroso de imobilidade que faz de todos além dela mesma reféns? Será ela também fruto de uma história de abandono e negligência? Que é fruto de outra história de abandono e negligência e de outra e de outra, por várias gerações?

Quando ficamos grávidas, a maior parte das pessoas insiste em um discurso esquizofrênico que oscila entre as maravilhas insuperáveis da maternidade e os horrores de tudo aquilo que você vai perder e/ou do que vai ter que abdicar. Eu mesma escrevi sobre isso aqui, em uma época em que começava a estranhar essas contradições dos discursos sobre a gravidez e o ser mãe e aqui, no começo dessa vida pós-parto. Mas aquilo que quase ninguém fala é que a maternidade faz com que você se perca de você mesma. Aquela pessoa que você era, foi, construiu com mais ou menos cuidado, com mais ou menos investimento, prazer e alegria é varrida do mapa para aquele lugar chamado passado. Que você queira ou não, que saiba ou não, que lute contra ou não, está feito e qualquer que seja a relação que você construa ou não com o seu filho, o fato irremediável é que você passou por essa experiência que rasga a vida em antes e depois: ficou grávida, pariu, virou mãe. E essa onda que te arrasta e sobre a qual você não tinha pensado é inclemente e o único modo de sobreviver é fazendo o luto de quem você foi. Perdeu. Você perde você. E vai ter que construir, inventar, criar uma você outra, que pode ser mais ou menos próxima daquela que foi, mas que nunca será a mesma porque a ela foram somadas as marcas mãe e filho.

Tem gente que construiu toda uma vida antes de tornar-se mãe e que viveu anos e décadas apoiada em uma imagem de si totalmente calcada no trabalho, nas conquistas pessoais, nos feitos individuais, nas histórias amorosas ou no que quer que tenha sido central para essa pessoa até ali. E quanto mais esse percurso foi longo, forte e pontuado de grandes acontecimentos, maior é o impacto desse acontecimento maternidade. E então tem quem se desespere nesse estado primeiro de perda de si e se agarre com todas as forças ao que foi. Precisa voltar ao trabalho, precisa seguir com a carreira, precisa recuperar o corpo de antes, o sucesso de antes, o poder de antes, precisa, precisa, precisa. Precisa congelar-se no momento imediatamente anterior àquele em que tudo mudou e a vida basculou definitivamente. Congelar-se no que era e no que foi e ficar ali, quietinha, tentando levar adiante como se nada tivesse mudado. Como se mãe e filho não existissem. Ignorando solenemente tudo o que se relaciona à maternidade e suas imperiosas reivindicações.

Tem gente que precisa se congelar e se amarrar por um fio ao cadáver de si mesma. Para não mudar, para não andar sem rumo com um filho nos braços procurando um caminho, uma saída, um jeito, um lar. Ainda mais que aquele pequeno ser depende totalmente dessa que nem é ainda. E sua fragilidade e sua dependência extrema chocam tanto mais a cada vez que cutucam a ferida dessa perda. Como é que um bebê poderia cuidar de outro?

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados. Dois lados sensíveis, dois lados tristes, dois lados profundamente desamparados. Mas, não se iludam, não são dois lados iguais. Não estão em pé de igualdade a mãe e o menino em relação a seus desamparos. Um já cresceu, mesmo a contragosto. O outro ainda está ali, em profunda dependência. E, a meu ver, o único modo de cuidar desse bebê que sangra em você é deixando-o ir para cuidar do outro.

Diversificação alimentar? Putz!

Então você, mãe de primeira viagem, pariu e acreditou que esse era o maior desafio da maternidade. Veio a amamentação. Então você bravamente mergulhou nesse universo de leite, mamadas, afeto e sono e acreditou que esse era o maior desafio em ser mãe. Veio o momento da diversificação alimentar…

Pô, qual é o maior desafio em ser mãe, então? Quando é que a gente pode sentar, relaxar, pedir um aperitivo, abrir um livro e se felicitar por ter dado conta de tantas coisas que não eram nada evidentes com garra e dedicação de leoas? Hahaha, pois é… nem preciso responder, né?

A história da diversificação alimentar começa parecida com a da amamentação no seguinte sentido: do mesmo modo que você é bombardeada de informações desencontradas logo que seu bebê nasce e que vocês dois começam essa descoberta que é o momento de cada mamada, acontece uma segunda enxurrada de orientações e palpites que têm por tema a alimentação do seu bebê assim que você diz que começou a dar “papinha” para ele. Foi dada a largada, todo mundo em volta querendo saber se o sujeitinho come bem (oi?), o que come, como come, quando come, quanto come… todo mundo tem uma receita, uma dica, um método infalível. E todo mundo tem também um comentário bem simpático a fazer, de preferência na frente do seu rebento que está ali tranquilamente descobrindo uma coisa nova: “ah, bem, come mesmo, come bem direitinho porque a sua mãe – ou o seu pai, ou o seu irmão, ou o seu primo, ou quem quer que seja o termo de comparação do comentário infeliz – não comia nada”. Se minha pequena pudesse responder nesse momento, acho que ela diria algo como: “puxa, valeu pelo incentivo, hein?”. No entanto, como ela é mais esperta e mais blasée do que isso, apenas olha com indiferença enquanto continua chupando seu pedaço de legume, fruta, carne ou o que for que ela esteja explorando naquela hora.

Acho curioso como as pessoas e suas receitas, palpites e opiniões se preocupam muito pouco em observar o que está acontecendo. Não parece estranho a vocês também que as pessoas cheguem com as respostas antes mesmo que alguém faça uma pergunta? Ou que cheguem com soluções, idéias preconcebidas e diretrizes a te fornecer antes mesmo de saberem quem você é ou o que está acontecendo ali? A mim sempre pareceu muito esquisito. Talvez por isso tenha me tornado psicanalista, já que a psicanálise considera que o mais importante é aquilo que o sujeito tem a dizer e, mais ainda, aquilo que ele pode ser se dermos espaço para que ele diga e seja sem ficarmos poluindo tudo com nossas falas e nossas conclusões desconectadas da pessoa que ali está. Enfim… nesse modo arbitrário com o qual as pessoas se aproximam para falar de diversificação alimentar e de como fazê-la, parece-me que escapam algumas observações que, ao menos para mim, têm sido bem úteis nessa nova etapa:

Sua filha já está comendo? Sim, evidentemente, ela come desde que nasceu senão não estaria aqui, né?

Pois é, acho que a primeira obviedade que escapa às pessoas, inclusive à nós, mães, na hora em que começamos a nos preocupar com essa história da alimentação é que nossos filhos já comem desde que nasceram. E perceber isso diminui muito a ansiedade e a expectativa. Quero dizer: eles comem, sabem comer, estão bem alimentados, saudáveis… o que muda, a partir dos seis meses, é que nós oferecemos a eles outros alimentos além do leite.

Tenho encarado a diversificação alimentar como algumas outras coisas desse mundo que estou apresentando à minha filha: gostos que ela conhecia sutilmente porque passavam pelo leite materno e que ela reencontra agora mais intensos, em novas cores, texturas, temperaturas. E acho que essa é a segunda obviedade que nos escapa: trata-se de uma descoberta, de apresentar algo do mundo, de uma brincadeira.

Sim, pois os pequenos botam os alimentos na boca como quem coloca qualquer coisa na boca, para conhecer e explorar e, de repente, aquilo tem um gosto, uma consistência, é interessante… Parece que é assim que começa, como uma brincadeira divertida que acaba virando alimento também. Mas não é isso o principal no começo. Até mesmo porque o leite é o principal alimento de um mamífero por um bom tempo e nós somos mamíferos, mesmo que nos esqueçamos disso com frequência. Os outros alimentos vêm como complemento, como uma apresentação, como uma brincadeira de explorar que pode ser divertida, surpreendente e prazerosa. Eis aí mais uma obviedade que nos escapa, ou que insistimos em ignorar: comer tem a ver com prazer.

Comer é um ato prazeroso, e isso é tão fácil de constatar observando um bebê que mama quanto uma criança ou um adulto que comem com gosto algum alimento de que gostem muito. Por que não poderia ser assim para uma criança? Por que, de repente, tudo tem que ficar sério, baseado em quantidades pré-estabelecidas que desconsideram ritmos e vontades daquele serzinho… por que tem que ficar chato, estressante, limpo, sem botar as mãos, sem babar nem nada disso? E como podemos esperar que nossos pequenos curtam a experiência a ponto de querer repeti-la várias vezes ao dia se logo somos tragados pelo mar de palpites e orientações estapafúrdios que tentamos seguir como se fossem garantir que o bebê coma e coma bem?

Aliás, o que é comer bem? Eu não sabia até pouco tempo, mas o estômago de um bebê de seis meses tem mais ou menos o tamanho de seu punho fechado. Ou seja, é minúsculo. Ou seja, aquela pratada que você come dizendo que comeu “super bem”, aquela feijoada, aquele dogão… nada disso vai caber. Fisicamente impossível. E lá vamos nós ajustar expectativas aos fatos e aos limites da realidade de um bebê.

Primeira conclusão desse início de diversificação alimentar: temos que reaprender a comer quando começamos a variar a alimentação de nossos filhos. Segunda conclusão: temos um mergulho garantido para dentro de nossas concepções e histórias com a comida tão logo começamos a precisar decidir sobre pratos, legumes, frutas, carne, onde, quando, como, quanto… Maternidade parece que é assim: quando você pensa que conseguiu entender alguma coisa e começa a relaxar, logo surge o momento seguinte, cheio de surpresas e de questões para pensar, estudar, informar-se, decidir…

E quanto aos palpiteiros de plantão… minha gente, vamos parar de despejar caminhões de expectativas nesses pequenos? Vamos deixar eles se divertirem um pouco com o que estão vivendo? Vamos deixar as nossas neuroses, ressentimentos, manias e afins guardados para nós mesmos, ao invés de sair vomitando palpites sobre alimentação por aí, por gentileza?

Obrigada. Quem sabe então possamos falar do que interessa realmente.

Alguns posts, links e idéias que têm me ajudado:

Meu filho não come 6/7 meses (introdução alimentar) do blog As delícias do Dudu.

O grupo Alimentação Consciente do facebook.

Nutrição infantil, o blog.

Diretrizes para o blw, post do blog Nosso primeiro bebê.

A saga da introdução alimentar, post do blog Potencial Gestante.

Nossos filhos são o que comem, post do blog Cientista que virou mãe.

Baby Led Weaning, o site.

Ontem e hoje…

… você engatinhou. Não assim como uma chuva em um dia ensolarado. Você vinha se preparando, levantava-se sobre os braços, apoiava-se sobre os joelhos e as mãos, testava uma rebolada, tirava os joelhos do chão e… ia de ré. De ré escorregava no chão liso, resmungando que se afastava daquilo que queria alcançar, como se estivesse constantemente em um mar cujas ondas te levassem para longe. Brava, acabou dando um jeito tortuoso de chegar de ré onde queria. Isso quando não se enroscava em pernas de cadeiras ou em outras coisas pelo caminho. Ficou até mais silenciosa por semanas, tão concentrada estava nesse exercício cotidiano. Descobriu movimentos, subiu nas pontas dos pés apoiada pelas mãos com tanta maestria que pensei que sairia em cambalhotas pelo mundo. Minha ginasta concentrada, já te vi Diane dos Santos.

… entre brinquedos a serem descobertos e exercícios, a caminhada de ré foi se aperfeiçoando até tornar-se um caminho complexo de chegar a algum lugar. Foi quando você, atingindo a maestria, decidiu que era tempo de ir também para a frente.

Não sei como foi que descobriu o segredo da coisa, mas lá estava sobre o tapete, noutro dia, sobre mãos, pés e joelhos e, desse jeito levou os braços para a frente. Seguiram-se as pernas, meio hesitantes, cambaleando como se estivesse com a vertigem de quem descobre algo extraordinário. E foi. Sem se jogar, sem se arremessar, sem dar barrigada no chão, sem deslizar, sem cair para os lados. Seu pai chegou, sentou um pouco distante e eu perguntei se você não queria ir lá dar um abraço nele. Você foi.

Minha menininha deu um passo em direção ao mundo. Com toda a autonomia. Ousada. Segura. Sorrindo e dando gritinhos de celebração.

Depois disso, tem achado boa a idéia de levar seus brinquedos favoritos consigo a cada balada pela sala, pelos quartos, pelo corredor. Não basta engatinhar, ainda dá carona, com direito a paradas pelo caminho para um merecido descanso. Olhares e sorrisos para quem estiver por perto. E muita concentração na maior parte do caminho. Fora os gritinhos.

Há tantos novos sons, expressões, caretas, carinhas, carinhos e chamegos nessa menina que engatinha… Fico aqui admirada que em seis meses se possa conquistar tantos gestos, tantas experiências, tantos gostos, tantas descobertas. Meus olhos transbordam o que meu coração nem consegue abarcar.

Algumas confissões após seis meses de amamentação…

Amamentar…

… é como passar no vestibular, ou chegar na reta final de uma corrida, ou realizar um projeto importante. Enfim, um pouco disso tudo, só que totalmente diferente, porque amamentar não é uma prova de conhecimentos que te permite se sair bem apenas por estar bem informada, nem uma prova de habilidades físicas, que te permite conseguir por ter preparado seu corpo, nem tampouco uma competição com outras mães para ver quem amamenta mais e melhor e, menos ainda, um projeto do qual se dê conta sozinha.

Logo que a pequena nasceu, talvez como a maioria das mulheres, eu contava com a natureza e com a naturalidade da amamentação para garantir que tudo desse certo. Sabe essa história de que está nos genes e, portanto, basta deixar por conta deles que tudo se resolve? Pois bem, não é exatamente assim. Não sei se para todas as mulheres mas, pelo que vejo das queixas e das dores de tanta gente, para a grande maioria amamentar não é algo natural, instintivo e dado. Ou melhor, não do modo como concebemos algo que deveria ser natural e instintivo como dado.

Fato é que, desde que engravidamos, na medida em que tenhamos o desejo de uma gravidez, um parto e uma maternidade mais conscientes, apropriados, singulares e humanizados, vamos nos dando conta de que começa um longo e árduo trajeto de batalhas cotidianas. Sei que existem pessoas que se preparam antes e, ao engravidarem, já têm em mente com muita clareza o que querem e como querem mas, se a sua experiência for como a minha, possivelmente somos pessoas que vamos pensando conforme acontece e tentamos elaborar e entender o que queremos conforme cada situação nova se impõe. O que significa que temos que elaborar muita coisa em um tempo determinado e, ainda por cima, agira de acordo, no caso de uma gravidez, de um plano de parto ou da maternidade dos inícios da vida de nossos filhos. Não dá para ficar “esperando Godot” naquela reflexão punhetante que dura o quanto tiver que durar e nos vemos pressionadas e coletarmos informações, pensarmos e agirmos com prazo. Tarefa angustiante para uma psicanalista, sempre mergulhada no caldo das livres associações e dos tempos do inconsciente mas, nessa vida, há situações e momentos que pedem uma certa agilidade. Enfim…

Então, grávida, você descobre que precisa batalhar para viver sua gravidez com tranquilidade, sem muitas interferências, sem terrorismo e sem excesso de intervenções. Mais ainda, descobre que terá que lutar para ter um parto digno, humano, acolhedor para você e para seu bebê que chega. E que terá que brigar para ser bem tratada e para que seu filho seja bem recebido neste mundo. Terminados gravidez e parto, começam outras sagas e uma delas – ou a mais intensa delas, a meu ver – é a da amamentação. Porque você contou com a natureza ao longo da gravidez, aprendeu a confiar que seu corpo poderia abrigar bem uma vida ali dentro dele, aprendeu a não se sobressaltar, a não se inquietar com riscos e a escutar seu corpo e os sinais do bebê. Assim como você aprendeu a contar com essa mesma natureza na hora de parir, acreditando ainda uma vez que seu corpo saberia trazer seu filho ao mundo e, principalmente, que esse pequeno saberia vir ao mundo por seus próprios meios e no seu tempo. Então, como é que na hora em que começam os cuidados com o bebê essa tal de natureza não funciona assim tão bem?

Penso que temos uma idéia meio equivocada do que seja confiar na natureza, no instinto, no corpo e na sabedoria dele. Parece que isso significa que podemos relaxar e deixar tudo por conta de uma força que nos é alheia e que nada mais precisa ser feito, apenas estar entregue. Será que é mesmo isso?

Tenho minhas dúvidas. Pois se uma grande capacidade de entrega e de desconhecimento ajuda muito nesses momentos viscerais da existência, o fato de sermos nós, mulheres do século XXI, marcadas pela ciência, pela razão, pelo pensamento, pela lógica faz com que, feliz ou infelizmente, não possamos nos dar ao luxo de uma total inconsciência daquilo que vivemos nesses momentos em que a natureza tem que tomar a dianteira. Quero dizer que ficamos numa condição paradoxal de precisar se aproximar dessas experiências do jeito que somos capazes hoje em dia, ou seja, de um jeito super mediado, cheio de racionalizações, de conhecimentos, de falas, de idéias e assim por diante e, ao mesmo tempo, poder deixar tudo isso em segundo plano, a cabeça descansando em standby enquanto o corpo trabalha. Difícil, não?

Fato é que não vivemos mais gravidez, parto e maternidade como nossas avós e bisavós viviam. Não estamos mais cercadas de pessoas que pariram seus filhos, não escutamos mais suas histórias, dificilmente teremos visto um parto na vida antes do dia de viver o parto de nossos próprios filhos, assim como raramente teremos estado na companhia cotidiana de mães e seus bebês pequenos, acompanhando os cuidados e a amamentação dedicados a eles. Todas essas situações que faziam parte da vida mais banal de nossas avós, bisavós e antes delas, pelo simples fato das famílias serem grandes, das pessoas conviverem de perto com seus familiares de muitas gerações e, principalmente, do cuidado das crianças ser compartilhado entre muitas pessoas, inclusive no que diz respeito à gravidez, parto e puerpério, quando as mulheres mais experientes se encarregavam de cuidar e orientar as mais novas, bem… todo esse jeito de entender e de lidar com a maternidade deixou de existir. Ao menos para nós, mulheres ocidentais burguesas vivendo em certos cantos ditos desenvolvidos desse mundo. E, se não convivemos mais com grávidas, parturientes e mães, e se não as acompanhamos mais nesses momentos, como esperar que tenhamos de onde tirar esse conhecimento visceral que deveria agir nessas horas?

Então, na hora de contar com a natureza para amamentar, a “porca torce o rabo” e percebemos, muitas de nós, que nisso também haverá luta, esforço, batalha, busca de informação, ajuda, orientações desencontradas, violências e desrespeito. E nisso também teremos que fazer face a muitos desafios, muitas opiniões desencorajadoras, muita pressão. E muita insegurança. Ou seja, quando você acha que acabou o mais difícil e que agora pode relaxar e curtir a cria, a coisa está apenas começando.

Assim, muitos perrengues e desencontros depois, foi com muito orgulho e emoção que constatei nossa chegada aos seis meses de amamentação exclusiva. Emoção e gratidão, especialmente à minha filha, que foi quem me ensinou a amamentar. Eis aqui o grande segredo, a meu ver, dessa tal de amamentação e que ninguém conta porque pouca gente sabe: mesmo que nós, as mães, adultas, estejamos muito marcadas por toda a nossa história e nossa experiência de distanciamento de nós mesmas, de nossos corpos e de nossas potências enquanto mulheres parideiras e nutrizes, nossos bebês recém-nascidos sabem. Sabem muito mais que a gente, porque mais conectados ou menos perdidos. Então, se dermos um crédito a esses pequenos e tentarmos escutá-los, respeitá-los e seguir um pouco os ritmos e as demandas deles, muita coisa pode funcionar de um jeito surpreendente.

Claro que não é mágica. O bebê também aprende a mamar, ao mesmo tempo que aprendemos a amamentar. Ele aprende a pegar o seio, a sugar eficientemente. Mas ele tem, como nós também, todos os instrumentos para isso. Basta uma ajudinha ou outra no começo e uma boa dose de paciência que o sujeitinho faz o resto. Basta ouvi-lo, atendê-lo em suas demandas pelo seio, deixá-lo experimentar, ajustar com ele posições, buscar um conforto para ambos. Uma das coisas que aprendi, que parece tão simples de tão evidente, mas que quase me passa desapercebida, é que não se trata de você. Amamentar (como parir) não se trata de você. Não é um projeto seu, uma decisão sua, algo que diz respeito ao seu corpo, ao seu desejo e blábláblá. São dois, percebe? Você e o bebê. Existem duas pessoas aí, dois seres, dois corpos, dois desejos, duas existências que precisam se encontrar e entrar em alguma espécie de acordo sobre como viver tudo isso de uma maneira que seja boa para ambos. E de onde saiam ambos alimentados e felizes.

E, não, esse não é o fim dessa história. Ainda teremos amamentação pelo tempo que a pequerrucha precisar e eu puder. E temos introdução alimentar. Mas isso é outra saga, conto depois.

Outros textos sobre amamentação: aqui.

Dia da mulher?

Eu realmente não sou o tipo de pessoa que gosta de datas comemorativas. Sempre achei o Natal deprimente, o Carnaval de uma alegria forçada e nunca gostei de quem tentasse me impor uma data para festejar namorado, mãe, pai ou afins. No entanto, existem datas que me irritam mais particularmente do que outras e o dia da mulher é uma delas.

Que haja um dia da mulher, a meu ver, representa que ainda não conseguimos estabelecer uma condição de igualdade e respeito. Qualquer dia dedicado a uma dita minoria é assim: dia do índio, da consciência negra, do orgulho glbt, dia da mulher. A maioria das pessoas divididas em grupos que, desconsiderados, discriminados ou destratados cotidianamente, precisam de um dia para lembrar ao restante que existem e que há ainda o que ser feito para lhes garantir condições mais dignas de existência. Ou seja, é um atestado de fracasso, não?

Durante muitos e muitos anos de vida eu não tive a preocupação em ser feminista. Nem em saber muito bem do que tratava o feminismo além das caricatas queimas de soutiens da década de 60. Não me preocupava com a questão porque, talvez, não sentisse na pele o preconceito ou, o que acho mais provável, porque não identificava certos acontecimentos da minha vida como fruto de um machismo opressor e discriminatório. A vida dá muitas voltas e numa delas eu entendi.

A França é conhecida como um dos berços do feminismo e é, certamente, um dos lugares do mundo em que ele foi levado mais à sério. Nem se compara ao nosso Brasil tão machista, tão misógino, cheio ainda de piadas e atitudes que nos denigrem, bem como de homens e muitas mulheres sempre dispostos a apontar o dedo e condenar sumariamente qualquer mulher. Pelo que quer que seja. Porque é bonita, porque é feia, porque é magra, porque é gorda, porque é bem sucedida, porque trabalha, porque tem filhos, porque não tem, porque é inteligente, porque pensa, porque transa… Qualquer motivo é válido para desqualificar uma mulher. Ainda nos dias de hoje. Simplesmente porque é mulher, coisa que poucos dos apontadores de dedo assumem assim tão claramente. O que torna a coisa toda mais subterrânea e, com isso, mais perversa.

Perversa porque hoje em dia escutamos muitas críticas ao feminismo como ideologia ultrapassada, problema superado ou coisa de mulher mal amada e mal comida. Eis aí o mesmo preconceito desqualificando quem ousa pensar que as condições de existência de metade da população desse planeta estão longe de um padrão mínimo de decência. Quem repete esse discurso, curiosamente, são aqueles que querem perpetuar o tal estado de coisas como está, pois não por coincidência são os que se beneficiam dele e, o mais triste, muitos e muitas jovens para os quais essas reivindicações de igualdade parecem distantes e sem sentido.

Acho que, como eu durante muito tempo, eles também não conseguem enxergar aquilo que vivem como produto e consequência de uma opressão que impõem às mulheres ou que elas, meninas jovens, já sentem na pele sem perceber. As piadinhas continuam as mesmas, os julgamentos e condenações de meninas por sua aparência ou por suas atitudes continuam por aí, assim como as ações sem respeito e sem cerimônia com as quais os garotos se dirigem a essas meninas. E elas aceitam. E todo mundo acha tudo isso perfeitamente normal.

Foi aqui na França, a terra dos seres pensantes, do Iluminismo e da filosofia, que descobri que o machismo e a misoginia existem. E que atuam e fazem agir homens e mulheres de forma contundente, violenta e sem piedade, ainda nos dias de hoje. A França, que se diz e que realmente fez um grande movimento em direção à igualdade entre todos os seres humanos, é surpreendentemente um país ainda extremamente machista. Basta ver como se passam as relações e os jogos de poder e de influência nas universidades e o esforço descomunal que uma mulher precisa fazer para ser levada a sério e poder fazer sua carreira ali. Basta ver os discursos denigridores das mulheres intelectuais magníficas que a França, felizmente, mesmo assim consegue produzir. Basta ver como os homens se referem às suas colegas na universidade, no mundo intelectual, na política. Não precisa ser na mesa de bar não, num fim de mundo do interior francês onde poderíamos facilmente botar a culpa no provincianismo, na falta de clareza e de abertura de espírito, ou no reacionarismo de direita que remonta. Não, se você quer saber o que é o machismo e o misoginismo postos em prática e atuando perversamente em um país que tanto fez e tanto faz para que ele deixe de existir, procure nos altos escalões, nas altas discussões, procure em Paris.

Foi aqui, percebendo que, mesmo nesse canto ideal do mundo em que tudo parecia funcionar do modo como todo mundo sonha que a vida deveria ser, ainda assim nada funcionava exatamente como parece ser que me dei conta que o feminismo e a luta pela igualdade entre homens e mulheres são questões atualíssimas. Porque se a coisa está assim em Paris, se as mulheres são tratadas dessa maneira na França, se o direito ao aborto é revogado na Espanha e se as mulheres continuam mesmo aqui a serem menosprezadas em sua inteligência, reduzidas à sua aparência, agredidas em função de seus desejos, limitadas a uma imagem estereotipada, descartadas como objetos utilizáveis ou não segundo o critério e a decisão de um outro, não é difícil imaginar que em lugares onde o feminismo nem foi levado tão a sério ou simplesmente não incidiu, a coisa deve estar muito mais tenebrosa. E está.

Noutro dia li, em uma dessas minhas muitas leituras de blogs de mães, uma postagem de uma brasileira que mora na Irlanda, em que ela dizia Eu não sou feminista, porque não preciso ser. Gostei muito do texto e gostei ainda mais de saber que existem lugares no mundo em que as mulheres podem simplesmente existir, pois o mínimo essencial – e estou dizendo que igualdade faz parte do mínimo essencial para a existência humana – está garantido. E ele me fez pensar que lutar pela igualdade da mulher deveria poder incluir todo o imenso espectro de possibilidades ofertados à sua existência.

Quero dizer, essa luta pelo direito das mulheres deveria ser uma luta para que toda e qualquer mulher tivesse igualdade de condições, para que todo ser humano tivesse em pé de igualdade com seus pares. E igualdade não quer apenas dizer poder trabalhar em qualquer função ou poder ter a mesma autonomia financeira que um homem. Reduzir a questão da opressão às mulheres apenas a uma busca profissional ou financeira é manter funcionando toda uma rede de preconceitos e de ações que a desqualificam em muitos outros lugares e situações. Buscar autonomia, independência financeira e condições de trabalho é legítimo e necessário, ainda nos dias de hoje. Mas transformar isso em sinônimo de igualdade entre homens e mulheres será o suficiente?

Lembrando da situação aqui na França, muito parecida com vários outros lugares no mundo dito desenvolvido, em que as mulheres ganham menos do que os homens nas mesmas posições e que levam muito mais tempo e têm muito mais que se esforçar para atingir os mesmos objetivos de carreira, parece que ter tais objetivos como finalidade de uma luta pela igualdade é ainda muito válido. Mas por que defender o direito de ser mãe, de cuidar dos filhos, de amamentar, de parir de parto natural humanizado não são entendidos como reivindicações feministas? Ou, pior ainda, são taxados como o oposto do feminismo, como ocorre com muita frequência em discussões acaloradas por aqui? Tem mulher intelectual feminista dizendo que a insistência na amamentação, por exemplo, é a derrota do feminismo e a volta da opressão das mulheres. Como é que é? Eis aí novamente mulheres apontando o dedo para outras mulheres porque elas querem escolher parir, amamentar ou cuidar de seus rebentos. Como se isso fosse andar para trás. Como se esses desejos e esses projetos de vida não pudessem fazer parte legitimamente do espectro tão variado daquilo que uma mulher pode querer. E como se não devessem ser apoiados e defendidos.

Tendo estado tão imersa na experiência da maternidade e tão envolvida com leituras a respeito, sinto uma grande tristeza a cada vez que vejo mulheres acusando mulheres do que quer que sejam as suas opções de vida. Parece que ainda falta um longo caminho para compreendermos que é apenas defendendo o direito à liberdade de existir como desejar e de escolher aquilo que quiser de cada mulher, com toda a diversidade que isso envolve que poderemos dizer, com a boca cheia e com conhecimento de causa, que o feminismo é uma questão ultrapassada.

As mulheres podem e devem escolher. Defendo escolhas informadas, defendo a desalienação, defendo o conhecimento e a reflexão que não aceitam de mão beijada aquilo que é dito como verdade sem ao menos se interrogarem acerca de a quem essa verdade serve. Defendo que as mulheres possam saber das forças que lhes atravessam e que atravessam esse mundo e que, com isso em mãos, escolham. E é nisso que discordo do texto ao qual me referi acima. Não penso que seja possível não ser feminista porque não é preciso ser. Mesmo vivendo na Irlanda ou em algum outro lugar onde sair com as amigas para se divertir enquanto o marido fica em casa e toma conta das crianças é tão evidente que ninguém mais pensa que isso é um grande acontecimento, ou que é estranho, ou que a mulher que faz isso é uma mãe desnaturada ou outros comentários desse tipo. Mesmo para quem tem esse privilégio de viver em um lugar em que a liberdade de existir e de ser é garantida para todos igualmente, na maior parte do mundo isso está muito, muito longe de ser uma realidade. E não existe liberdade real ou igualdade efetiva enquanto existem pessoas que padecem dos males que não te afetam mais. Porque, simplesmente, eles podem resvalar em você de um modo ou de outro, em um ou outro dia. Pode ser que alguém te desconsidere por ser mulher em uma universidade francesa, pode ser que alguém fique encarando seus peitos enquanto você amamenta em um trem europeu, pode ser que você ainda tenha dificuldades de comprar roupas de outras cores para sua filha, ou roupas cor-de-rosa para seu filho… Ou pode ser estupro, violência, agressão.

Se o que queremos é igualdade, devemos reivindicar a liberdade de sermos como quisermos, inclusive de ser bonita, de se preocupar com a aparência, de andar de minissaia, de ser feia, de ser gorda, de ser magra, de ser esportista, de não fazer esporte algum, de estar em forma, de estar com o corpo do jeito que quiser, de gostar de comer, de ter filhos, de não ter filhos, de casar, de não casar, de morar sozinha, de morar com alguém, de viajar pelo mundo todo, de ir e vir com tranquilidade e segurança, de poder andar à noite na rua sozinha, de morar em outro país, de trabalhar, de ganhar os mesmos salários pelas mesmas funções, de ocupar todo e qualquer cargo, em qualquer esfera, de cuidar da casa, de não fazer absolutamente nada, de amar um homem, de amar uma mulher, de amar várias pessoas ao mesmo tempo, de parir, de amamentar… Ser mulher, e isso sim o feminismo deveria se preocupar em garantir, e poder ser verdadeiramente livre. E que ninguém questione isso sob o argumento de que mulher não pode. E que ninguém julgue essa liberdade de maneira a aprisioná-la para garantir sua tranquilidade em não ser ameaçado por nosso desejo e por nossas escolhas. E que ninguém critique, diminua ou menospreze as infinitas possibilidades que temos, mas respeite e ajude a garantir que elas sejam viabilizadas.

Então, se no dia de hoje vierem me falar da beleza de ser mulher, com aquele monte de clichês baratos que estereotipam e aprisionam nossa existência há séculos, e se vierem me falar dos direitos das mulheres ao trabalho ou ao aborto, como se esses fossem os fins e não apenas algumas das possibilidades, ou se vierem me oferecer aquelas flores ridículas junto com aqueles poemas patéticos que comparam toda mulher a uma rosa, como se isso fosse demonstração de consideração… eu me permito, sinceramente, mandar toda essa gente para a PQP. O dia de hoje não é um dia para ser comemorado – como nenhum dia de nenhuma minoria é. Esse é um dia para termos vergonha e, quem sabe, criarmos vergonha na cara em relação a essa perversidade com que tratamos as mulheres e com que nos tratamos entre mulheres. O que devemos reivindicar? Tudo. Absolutamente tudo. E que tudo seja respeitado. Até se tornar uma evidência. E que ninguém mais precise comemorar esse dia. Nem falar em feminismo.

O que eu quero? Respeito. Por mim e por minhas escolhas. E pelas outras mulheres e suas escolhas. Nada menos do que isso.

Os três patetas vão ao restaurante

Sabe aquelas idéias que a gente tem de vez em quando e que a gente sabe que são péssimas mas, mesmo assim, a gente encasqueta que vai dar certo e coloca em prática? Pois é. Ontem foi o momento de uma dessas epifanias, em que essa que vos fala concluiu que seria uma idéia genial sair para jantar com o cara-metade e a pequerrucha.

Vocês podem perguntar: qual é o problema?

Tenho uma conhecida que me disse, logo que a bebê nasceu, para aproveitar e sair muito no começo, que eles só dormem mesmo, porque depois teria que esperar uns bons anos para botar a cara em um restaurante novamente. Sábias palavras.

Que escolhi ignorar.

E lá fui toda pimpona, de preto sobre preto sobre preto, no melhor estilo francesa esbelta (ah, o preto, como ele nos ajuda nesse efeito trompe l’oeil, seu lindo!), cabelos ao vento, tipo mãe celebridade, cara-metade do lado, bonitão, com a pequena no canguru, toda colorida, olhos bem abertos, apreciando o passeio. Maravilha de comercial de margarina.

Então entramos no restau, somos acomodados em uma mesa simpática, olhamos ao redor com gostinho de quem está adorando sair de casa, ele pede um apéro, eu fico na água mesmo. Pedimos os pratos que parecem deliciosos, o garçon simpático nos convence que é uma boa comer uma entrada antes. E lá vamos nós, família feliz, rumo a um jantar comme il faut, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.

L-E-D-O E-N-G-A-N-O.

Uma coisa que aprendi é que devemos respeitar os horários, ritmos e limites dos nossos bebês. A primeira infância passa muito rápido e ninguém morre de passar um tempo sem fazer baladas infinitas pelo mundo afora. Porque, simplesmente, bebês cansam, sentem sono, sentem fome, ficam inquietos e esgotados dos estímulos do dia. E isso tudo ocorre especialmente à noite. Saímos pouquíssimas vezes com a pequena de noite até agora e, quando isso ocorreu, por conta de pequenas viagens e coisa que o valha, tudo correu muito bem, ela dormindo no sling, tranquilona, como se não houvesse amanhã.

Isso até ontem à noite. Quando ela decidiu simular uma mistura explosiva entre “Alien, o oitavo passageiro” e “O Exorcista”.

Sério.

O caldo começou a entornar logo depois da entrada. Animadona com toda aquela gente, aquele burburinho, aquelas cores, aqueles cheiros, a pequena ficou dividida entre olhar para todos os lados, tentar chamar a atenção da mesa vizinha (putos, como é que nem deram atenção para uma fofura dessas?) e resmungar que estava cansada. Até que deu uma regurgitadinha. Coisa pouca, pegou num canto da sua blusa e a mãe francesa esbelta de pretinho básico posando de celebridade discretamente limpou tudo com a perícia de um escultor polindo sua criação. Partimos para a estratégia infalível: a mamada que alimenta, relaxa, faz feliz e faz dormir gostoso no restaurante, no carro, no museu, onde quer que seja. Ainda mais que já era hora do soninho. Pensei: moleza! A gatinha mama e dorme antes do prato principal chegar. SO DAMN WRONG…

Então a pequena descobre que a parede é avermelhada e rugosa e… Wow! Que demais! Yupiiiii! E dá-lhe peitola esguichando leite pelo mundo afora. Putz!

Pronto, calma, ninguém viu, vamos em frente, ela vai mamar. Só que não porque tem a parede, os vizinhos da mesa ao lado, a iluminação do bar… Eu coloco ela sentada e de repente estou com o alien nos meus braços se jogando para todo lado e por que diabos os malditos vizinhos não falam com ela e fazem careta e distraem ela um pouco, minha gente?! Então ela lembra dos meus cabelos ao vento (ela adora cabelos ao vento) e gruda neles com aquele amor que só ela tem, catando um chumaço de cada lado com vontade, que é para mostrar que está perita mesmo nesse negócio de agarrar e puxar. E puxa, puxa, puxa toda a juba para a frente do meu rosto e enfia todo o chumação dentro da boca toda, aquela boca linda sorridente desdentada que eu amo e que engole toda minha cabeleira de starlet francesa esbelta e blasé ali no restaurante. E com muito custo eu consigo negociar a liberação dos cabelos reféns e ela, de boca vazia, começa de novo a resmungar porque está cansada, com fome, cheia de interesses e tudo isso já é mega over quando chega o prato principal, o cara-metade todo lindo cortando o magret de canard para minha pessoa, que com uma mão como tentando equilibrar magret, molho, acompanhamento em uma garfada torta dessa já não tão elegante à la francesa de pretinho básico, descabelada com chumaços babados inclinada para um lado tentando achar o caminho do garfo à boca enquanto equilibra a pequena alien divertida e resmungona no outro braço com ela exercitando todos os seus movimentos recém aprendidos para tentar chamar a atenção dos malditos cretinos vizinhos de mesa que não param de conversar um segundo sequer seus desalmados que não devem ter filhos e nem devem saber como é importante sair para jantar uma vez depois de tanto tempo e nem se solidarizam com a causa, bof, bof, bof, odeio todo mundo, a humanidade é fria e egoísta quando… Gente, ela vomita. Mas não aquela regurgitadinha discreta, aquela regurgitadinha fina, tipo arrotinho que a rainha da Inglaterra deve dar nos jantares oficiais segurando o guardanapo no canto da boca. Não. Ela vira a menina do “Exorcista”. Não vira o olho, nem gira a cabeça 360°C, calma, minha gente. Mas manda aquela famosa “gorfada em jato” que…

O mundo para. Em câmera lenta essa que vos fala tenta descobrir na velocidade de um raio onde foi parar o jato de leite vencido. Antes que alguém descubra. Olho por todos os lados, não sem antes tentar alcançar o guardanapo que a pequena habilmente tinha jogado no chão e ali está… na minha calça. Sim, na minha calça preta modelito ótimo que faz de conta que estou esbelta e fina e elegante à perfeição. Ali, naquela calça jaz uma poça de leite. Poça, eu juro.

O cara-metade pega a pequena enquanto eu tento enxugar a poça antes que a calça absorva tudo, numa corrida para ver quem é mais rápido e mais esperto, ela ou eu. A bebezinha resmungona senta no colo do pai ainda resmungando, meio indignada com aquilo tudo e ele dá a ela uma folha de alface.

Hahaha, minha gente! Porque tinha esquecido de falar, têm os dentinhos nascendo agora e qualquer um vira o demônio da Tasmânia com dentes nascendo e coçando e toda essa irritação e resmungação devia-se em boa parte a isso também. Que, claro, a patetona aqui não achou que fosse influenciar tanto na hora em que decidiu fazer saída noturna com jantar descolado com direito à entrada, prato principal e sobremesa. E, sim, acabamos de começar a diversificação alimentar e fazemos tudo bonitinho, os legumes orgânicos cozidos no vapor, temperados com ervas e um pingo de azeite, aquela descoberta cotidiana, sabores, cores, texturas, tudo um sonho sem fim até que alguém teve a bendita idéia de ir jantar fora e, no meio do caos, ofereceu uma azeitona para ela roer (what? sim, azeitona) seguida de perto em sua insanidade pelo cara-metade que não contente em oferecer uma folha de alface que não obteve muito sucesso, saiu-se com um bem sucedido pedaço de pão. Sim, meus queridos, um pedaço de pão. Pão bom, que aqui na França tem pão ótimo mas… pão. Putz!

A pequena aquietou com o pão antes do cara-metade ter um momento de lucidez e concluir que era melhor irmos embora, pois não seria nada prudente mandar uma baguette na mão da menina e entregar para Deus enquanto pedíssemos a sobremesa. Conclusão: nada de provar o tal creme de chocolate branco com maracujá…

Voltamos andando para casa, a pequena sossegada no colo do pai, eu meditando sobre quem teve a idéia de Jerico de sair para jantar à noite fazendo a diva da nouvelle vague apenas para retornar com o rabinho entre as pernas, os cabelos em tufos babados e a calça vomitada, sem nem um consolo de açúcar para a situação. Chegando em casa, a pequena se agita. É hora de trocar de fralda, de roupa, mamar e dormir. Eu corro para trocar de calça. O cara-metade me pergunta se era tão urgente trocar de calça (vomitada… oi?) que eu não podia dar de mamar logo. Isso vindo de quem falava fazendo cócegas na barriga da pequena. Pois é, a maternidade e a paternidade tem seus momentos surrealistas.

Não sei se porque no meu prato tinha uma redução de cerveja ou se porque a noitada foi toda montada num cenário cômico delirante, aquela cena ali me deu um acesso de riso incontrolável. E lá fui trocar a pequena e amamentar sem conseguir parar de gargalhar. Somos absurdos. Somos ridículos. Isso tudo é divertido demais.

Claro que foi menos engraçado hoje pela manhã, quando tive que sair e constatei que minhas opções de vestimenta eram: uma calça molhada recém lavada, duas calças de antes da gravidez que haviam rasgado, uma calça de grávida gigante. Ou a calça vomitada. Putz!

Quarto e último post de dicas…

… de compras para mamães e bebês na França. Série que eu havia começado nessa intro geral, passando pelas roupas e pelos móveis, carrinho e meios de portagem do bebê. Mas, como ficaram faltando algumas coisas que eu poderia compartilhar com vocês sobre o que tem sido útil ou inútil nesses primeiros tempos de maternidade em termos de produtos, objetos e afins, demorou mais trago aqui o que espero seja o final da lista. Por enquanto.

Vamos a ela, no melhor estilo miscelânea:

  • No quesito fraldas, pois não temos como escapar delas, a não ser que a gente tope fazer algo no estilo Elimination Communication, vamos ter que escolher como lidar com a questão cocô-xixi-bebê. Não apenas não dei conta de fazer o EC, por achar que seria mais uma coisa de grandes dimensões com a qual lidar no início tão conturbado da maternidade, quando o que mais se necessita é sossego e que as coisas caminhem o mais facilmente possível (quem sabe mais para frente, ainda não desisti, porque a idéia é muito boa e simples, se for pensar bem), como também não dei conta de usar fralda lavável. Eu sei, eu sei, estou agindo diretamente contra o meio ambiente que gostaria de preservar para minha filha. No entanto, achei uma boa solução de compromisso com as fraldas descartáveis ecológicas. São algumas marcas que produzem fraldas com menos produtos químicos que agridem a pele do bebê e, ainda, com menos produtos que agridam o ambiente, sendo quase que totalmente biodegradáveis. Bom, já dá um alento, não? Testamos aqui três marcas: Naty Nature Babycare, Moltex e Wiona. Fico com a primeira, excelente. A Moltex também é muito boa, mas achei espessa demais (todas essas fraldas ecológicas serão mais espessas que as comuns porque não têm toneladas de produtos químicos e gel para transformar as cacas do bebê em sei lá o quê, por isso, precisam contar com camadas a mais, ok?). A Wiona, se você não ajusta milimetricamente as laterais, vaza que é uma beleza. E a gente não tem tempo de ficar ajustando laterais como um obssessivo compulsivo quando o bebê está mexendo para todo lado, né? Então, Naty tem sido a fralda por aqui.
  • Personal disclaimer: nunca fiz estoque de fraldas e acho que não precisa. As residências são minúsculas na França, ao menos em Paris. Imagina ficar estocando fralda? Não dá e é o tipo de coisa que você pode comprar assim que o último pacote for aberto. Mesmo comprando pela internet, no caso das fraldas ecológicas, você encomenda em um dia e está na sua casa no dia seguinte. Fora que estocar fralda faz com que você perca uma montanha de pacotes. Não tem como saber quanto tempo seu bebê vai usar RN, 1, 2, 3… Como dica, eu diria para, antes dele nascer, comprar dois pacotes do tamanho de recém nascido e dois do tamanho 1. Porque se o rebento for grande, é capaz de nem usar RN. E vai repondo conforme for acabando. Chá de fraldas, por aqui, só para quem tem muito espaço.
  • Em tempo, um ótimo site para comprar as tais fraldas ecológicas, já que apenas a Naty você encontra de vez em quando nos supermercados, é o Bébé-au-naturel. Os preços são bons, a entrega é muito rápida, vira e mexe tem descontos e promoções e eles vendem, além de fraldas, tudo quanto é produto natural ou bio ligado à maternidade. Inclusive aquele chá da mamãe da Weleda, que aqui chama tisane allaitement e que recomendo muito para todas as que precisem aumentar a produção.
  • Aproveitando carona do quesito amamentação, para aquelas que precisarem tirar o leite, por questão de trabalho ou o que quer que seja, recomendo uma bomba manual da Avent com a qual me adaptei muito bem. Concordo com quem me disse que bomba de tirar leite tem que ser simples e tem que dar para fazer com uma mão só porque, para algumas de nós, facilita na hora de tirar o leite se o bebê estiver mamando no outro peito. Essa bomba tem um bom preço, é fácil de montar e de usar e tem um kit em que já vem os potes para armazenamento, que você tampa e coloca na geladeira. Sem bisfenol A, aquele composto do plástico que é tóxico. Do kit, diria apenas para jogar fora o bico de mamadeira que você pode acoplar no pote de armazenamento e já dar o leite ali mesmo para o bebê. Acho que é melhor oferecer o leite no copinho, na colher ou, até, na mamadeira colher da Medela, por exemplo. Mas esse é o tipo de coisa que é possível comprar depois, quando surgir a necessidade.
  • ainda nesse assunto, bico de silicone, concha e toda essa parafernália não apenas são inúteis mas, ainda, atrapalham a amamentação (o bico de silicone) ou trazem risco de fungos e bactérias, como as tais conchas ou os absorventes para seios. Os seios têm que ficar arejados, secos e limpos, não úmidos e abafados. Das dicas salvadoras que recebi durante esse período, uma das mais importantes foi essa de deixar essas tralhas de lado, pois trazem mais problemas do que benefícios. Absorvente para seios, eu usei apenas em momentos de sair para fora de casa e, ainda assim, somente no começo, quando os seios realmente podem vazar muito (com o tempo, a produção regula com a necessidade do bebê e os seios praticamente não vazam). Nada de passar o dia com eles.
  • e aqueles cremes cicatrizantes, para o caso de fissuras ou machucados, tipo Lansinoh? Olha, comigo funcionou muito bem em momentos críticos, mas tem dois poréns que pouca gente vai te dizer. O primeiro é que não faz sentido algum usar esse tipo de creme ou qualquer outro tipo de produto no seio de forma preventiva. Seu seio é preparado pelo seu corpo e pela sucção do bebê, não precisa de mais nada. Nada de bucha, de estropiar o coitado, deixa ele sossegado ali que a natureza cuida do resto. O segundo porém é que passar esse tipo de creme de lanolina após cada mamada – como chegaram a me orientar – pode ser um tiro no pé. Porque esses cremes são super gordurosos e ficam na pele. E a pele do seu seio fica bem escorregadia. Junta isso com um bebê recém nascido que ainda não sabe pegar direito e que fica escorregando a boca e você poderá ter muito mais trabalho em ajustar a mamada. Ou seja, um produto que deveria te ajudar, mas que pode fazer a boca do seu pequeno escorregar, pegar errado, machucar ainda mais seu seio e dificultar muito mais para o pobre bebê faminto. Melhor usar apenas em casos críticos, né? Ou então passar o bom e velho leite materno mesmo nos bicos rachados, pois nosso leite tem alto poder de cicatrização.
  • o mesmo vale para os famigerados soutiens de amamentação. A menos que você tenha seios enormes, que fiquem ainda mais gigantescos com a amamentação, e precise de um suporte, uma sustentação para se sentir mais confortável, te digo: esses trambolhos só servem para atrapalhar. Pensa comigo: o bebê está com fome. Ele resmunga, chora, se irrita. Você levanta a blusa, baixa o soutien, isso quando conseguir encontrar o fecho que permite baixá-lo, claro, arranca o tal absorvente da frente, embola tudo isso num canto e, nesse ponto, o bebê já está mega estressado. Daí tenta aproximar ele do seu seio para fazer a pega correta com aquele monte de pano ali embolado, dificultando que vocês achem uma posição confortável. Se ainda tiver uma bela camada de creme de lanolina então… é a glória. Gente, não tem como funcionar, entende? É o seguinte: o peito vai cair, não tem soutien que segure. Vai cair mesmo que você não tenha filhos ou não amamente. Peito cai. Peito de quem amamenta cai também. Faz parte. Para quem se incomoda com isso, sugiro que guarde o dinheiro de toda essa porcariada para fazer plástica depois.
  • em tempo, ainda nesse quesito, havia me esquecido de um item super importante, que ficou tão incorporado na rotina que até me esqueci que faz parte do enxoval e só agora lembrei e voltei para editar o post. É a almofada de amamentação. Pode ser um travesseiro, uma almofada comum, ou uma daquelas específicas para amamentação, como essa maravilhosa da Boppy que herdamos da minha irmã e do meu sobrinho. Você amamenta uma vez meio desajeitada, noutra com os ombros encolhidos, noutra com as costas tortas, noutra sem apoio e, no final de um dia, dois, uma semana, um mês… você está arrebentada. Amamentamos de oito a doze vezes por dia e o bebê cresce, ganha peso e começa a pesar no braço. Então, tudo o que puder deixar essa experiência o mais confortável possível merece ser utilizado. Além disso, a mesma almofada de amamentação quebrou um galho durante o fina da gravidez quando, versátil, servia de apoio para a barriga na hora de dormir de lado. Foi o único modo de conseguir uma posição para dormir durante cerca de um mês… ou seja, essa almofadinha é salvadora.
  • por outro lado, no campo dos produtos de higiene para o bebê, por aqui nos demos muito bem com os produtos da Mustela. No Brasil eles custam uma fortuna, mas aqui são vendidos em qualquer farmácia por preços totalmente abordáveis. Os géis de banho, para corpo e cabelos são ótimos e práticos, assim como as barras de sabonete. O creme para a troca de fraldas também, funciona maravilhosamente quando começam vermelhões ou assaduras. Quando não tem nada disso, recomendo o liniment oléo-calcaire deles, dica boa de auxiliar de puericultura da maternidade. Aqui não se coloca uma camada de pomada para assaduras a cada troca de fralda a menos que o bebê tenha assaduras. Parece lógico, né? Eu, como sempre achei esquisita aquela crosta branca permanente em bumbum de bebê, gostei muito desse liniment, que é como um creme à base de óleo de oliva, bem gorduroso, que faz uma camada de proteção sem ficar grudento. Você pode investir em um frasco de liniment, outro de creme para assaduras e mais um gel de banho ou sabonete e, com isso, tem um belo kit básico para o bebê. Creme hidratante só usamos agora no frio, quando a pele fica mais ressecada como acontece com todos nós, mas não foi artigo de primeira necessidade. Protetor solar também, apenas quando fomos encarar o verão brazuca. Mas, ainda assim, preferi investir mais em chapéus que em cremes protetores para a pequena, porque pele de bebê é super sensível e ficar besuntando de produtos químicos assim logo de cara me pareceu um pouco demais. Pelo mesmo motivo, perfumes ou colônias para bebê é algo que me pareceu totalmente descabido. Bebê tem um cheiro delicioso, nada mais desnecessário que perfume para bebê (sim, tem isso aqui e os franceses parecem achar que é um ótimo presente, pois a pequena ganhou 3!!!).
  • ainda nesse tópico, de todas as coisas que vêm em um estojo de produtos de higiene para bebê, usamos apenas o cortador de unhas, a escova de cabelo e o termômetro. Aquele limpador de nariz fica pegando pó, já li que pode até machucar o nariz do bebê e, ainda por cima, aqui qualquer profissional de saúde vai te orientar a limpar o nariz do pequeno com soro fisiológico. Sempre. Nada de enfiar cotonete, limpador de nariz, limpador elétrico de nariz (sério, gente, como pode?), é soro fisiológico e pronto. E olha que resolve.
  • para as mamães, a Mustela também tem produtos maravilhosos. Um creme anti-estrias para passar ao redor dos seios, na barriga e nas coxas que foi meu companheiro por nove meses e deixou minha pele intacta e um creme de hidratação profunda para todo o corpo que também funcionou maravilhosamente. Acho que foram as melhores aquisições que fiz para mim durante a gravidez.
  • ainda para as mamães, além dos produtos de beleza, do chá da mamãe e dos famigerados soutiens, penso que no maravilhoso mundo da maternália não pode faltar uma calça jeans de grávida. Esse é o único item de roupa que eu achei fundamental ter comprado. Blusas largas, regatas, vestidinhos com corte capaz de acolher um barrigão… tudo isso foi possível encontrar em qualquer loja de qualquer marca por aqui. Coisas para usar antes, durante e depois. Mas a calça foi fudnamental. Porque chega uma hora que não dá mais para colocar alargador de fecho de calça. Nem deixar a dita cuja aberta mesmo. E não tem nada mais desconfortável do que roupa apertando o barrigão grande, é horrível. Então, se tiver que comprar uma única peça de roupa, invista na tal calça. Mesmo que não vá usar depois.
  • para tudo aquilo que pode ser comprado usado, recomendo o site leboncoin. Importante lembrar que aqui na França não existe nenhum preconceito contra comprar usados, não é coisa de pobre, nem nenhum desses preconceitos bregas de novo rico que a gente adora proferir na nossa terrinha, apenas coisa de gente que tenta consumir com menos desperdício. Enfim, no leboncoin você encontra de apartamento para alugar a gente vendendo tudo o que você puder imaginar. Inclusive artigos de bebê. Penso que para coisas que usamos tão pouco e que são reaproveitáveis e resistentes como berço, mobiliário de quarto, trocador, carrinho e afins, pode-se fazer excelentes negócios.
  • bom e barato você encontra também no Monoprix. Sim, o supermercado tem uma linha de roupas de boa qualidade a bons preços. Assim como a Hema. E a H&M, como me lembraram noutro post (obrigada!). E a Baby Gap, Vertbaudet e The essential one.
  • cadeirão, colheres, pratinhos, recipientes térmicos e afins? O bebê só vai começar a se preocupar com isso aos seis meses. Você pode fazer o mesmo.
  • brinquedos? Bom, a menos que você faça absoluta questão de dar um brinquedo específico para seu bebê, melhor economizar porque a maioria das pessoas vai dar brinquedos de presente. E está aí uma coisa que se acumula mais rapidamente do que os pequenos têm a capacidade de brincar e de realmente aproveitar cada uma daquelas coisinhas. Brinquedos, tapete de atividades, cadeiras, transats, móbiles com luz, música, barulhos… não sei não, mas começa a ficar um excesso de estímulos infernal, que muitas vezes mais estressa do que diverte. Bebês nascem mal conseguindo enxergar um palmo na frente do nariz, não vai adiantar colocá-los frente a um monte de brinquedos barulhentos, coloridos ou o que quer que seja. Leva um tempo até eles começarem a se interessar em olhar ao redor. E o que é bonito de ver é exatamente que o que parece atrair são luzes, sombras, movimentos, cores fortes… Não precisa correr com brinquedos, nem acumular uma montanha. Menos fraldas e menos brinquedos nesse mundo dos bebês, por favor!!!

Boas compras e, principalmente, boa maternidade. Se quiser saber o que é o mais importante providenciar para o bebê que vai nascer eu te digo, com toda seriedade e verdade, que não é nada disso que comentei ao longo desses posts. O mais importante a ser preparado é um lugar na vida dos pais para esse bebê, é preparar o coração para as mudanças e para as surpresas. E preparar-se para parir, para amamentar, para o corpo e a alma funcionarem, trabalharem em prol daquele pequeno que vai chegar. Todo o resto é supérfluo. E mais vale passar nove meses se preparando para esse acontecimento do que fazendo compras, arrumando quarto e outras distrações que, ainda que agradáveis, nunca vão dar conta do essencial.

Boa sorte nesse preparo de si, mamães!