Mas, sim, existe uma diferença.

Li hoje um dos excelentes posts da comadre de blogosfera, a Carol do Meu Parasita Querido, em que ela fala sobre parto. Vale a pena dar uma olhada.

O que achei curioso, e é algo que eu percebo cada vez que alguém escreve sobre parto natural, parto humanizado e defende como posição própria o direito de fazer essa escolha, é que sempre aparecem os comentários de pessoas que passaram por uma cesárea dizendo que não são menos mães por isso, que elas têm o direito de escolher e por aí vai. Como se a escolha de uma mulher pelo parto normal fosse uma crítica e um desmerecimento a quem fez uma cesariana. Mas aí eu me pergunto: por que será que para algumas pessoas a carapuça serve e elas se sentem atacadas assim?

Eu acho que é porque o simples fato de existirem pessoas que pensam diferente e defendem posições diferentes revela que, sim, existe mesmo uma diferença entre parto normal e cesárea. E que exista uma diferença e que isso faça com que outras mães escolham caminhos diferentes de uma cesariana, isso automaticamente parece colocar quem optou por isso para repensar suas decisões. Mesmo a contragosto.

Antes de ir adiante, é importante esclarecer que estou falando aqui das cesarianas desnecessárias, e não daquelas que existem e salvam vidas. Isso é óbvio. E também estou falando das pessoas que, frente à própria experiência com uma cesariana ou com a escolha de uma cesariana se incomodam quando alguém defende o parto normal. Isso também é óbvio. Porque tem um monte de gente que fez ou escolheu fazer uma cesariana e que está bem com isso. Maravilha. Então, estou me questionando sobre quem se sente diminuída por ter feito ou escolhido uma cesárea a cada vez que surge outra mãe defendendo o parto normal e humanizado, ok? Porque é isso que acho curioso. (Acho curioso quem não se questiona também, mas isso é vício de profissão e incapacidade de conceber que tem gente que consegue viver sem pensar a respeito do que faz com a própria vida… enfim…)

Ser mais ou menos mãe?

Quando as pessoas falam que são mãe igual, que argumento é esse? Mulheres adotam crianças e são mães dessas crianças. Assim como, por vezes, mulheres têm filhos e não são mães deles. Ser mãe é algo que se constrói na delicada, cotidiana e singular relação com cada filho, é um processo que pode começar na barriga, antes da barriga, depois da barriga… Enfim, pode começar, nem sempre começa, mas muitas vezes começa e para cada uma começa de um jeito diferente. Então, parto normal, cesariana, adoção ou sei lá quais outras maneiras de maternar se encontre ou se invente, não é o jeito como a criança veio ao mundo que te faz mãe ou não mãe. Mas, de todo modo, você não é mãe igual a ela porque, simplesmente, essa história de que mãe é tudo igual é uma balela sem tamanho. Mãe é tudo diferente. Tão diferente quanto existem pessoas diferentes nesse mundo.

Mesmo passando por tantas coisas semelhantes – afinal, não existem tantas questões existenciais assim para nós humanos e nem sofrimentos tão variados – acho fascinante como cada pessoa é capaz de criar uma solução única, um percurso singular, um mix, uma colagem, uma junção de tantas coisas para inventar o seu jeito de lidar com aquilo. E penso que é assim também com ser mãe: no geral, as coisas se passam mais ou menos do mesmo modo e os desafios são aqueles que se colocam para nós todas. Mas como é que cada uma inventa a si mesma e a seu jeito de maternar? Singularmente.

Então, você não é menos mãe ou mais mãe do que aquela mãe que defende o parto normal. Você é mãe diferente. E a escolha do modo como se coloca uma criança no mundo pode fazer parte dessa diferença. E isso não é um julgamento de valor, é a constatação da diferença. Por que isso ofende? Por que deveríamos todos passar pelas coisas da mesma maneira?

Eu penso que temos um medo imenso de tudo aquilo que foge à regra, à homogeneização das pessoas e de suas experiências que é tão típica dos nossos tempos. Saiu do padrão, já nos incomoda. Porque quando alguém sai do padrão, automaticamente bota em questão tudo aquilo que é considerado normal. Não é assim? A gente achava normal até uns tempos atrás matar uma mulher que traísse o marido e isso se chamava “legítima defesa da honra” e justificava assassinato. Até que alguém começou a pensar diferente, ou a se perguntar por que seria assim. E quando um pergunta, mesmo quem estava acomodado nessa situação anterior acaba tendo que se mexer. O diferente obriga a gente a pensar.

Talvez aconteça o mesmo em relação ao parto. Ironicamente, o parto que é chamado normal não tem mais nada de normal no Brasil. E isso não é porque descobriu-se que outro tipo de parto é melhor do que esse. Porque não é. E esse é um dos fatores que parece que incomodam tanto a tanta gente: para a grande maioria das mulheres e seus bebês, na imensa maioria dos casos, o melhor parto é o parto normal. Não existe nenhuma pesquisa que contradiga isso. E se os números de cesarianas só faz aumentar em nosso país, indo na contramão do que afirmam todas as pesquisas acerca do tema, é porque deve ter algo errado nisso, não?

Questão de escolha?

Aliás, é estranho demais que no Brasil a cesariana seja escolha e seja defendida como uma escolha, como se fosse um direito adquirido pela mulher. Você pode escolher ter parto normal ou cesariana? Como assim? Na grande maioria dos países, isso não é questão de escolha. Parto equivale a parto normal, com mais ou menos intervenções médicas, mais ou menos humanizados, mais ou menos respeitosos dos meios e das condições de cada mãe e de cada bebê. Cesariana não é nem chamada de parto, ela é uma intervenção médica de urgência quando um parto não é possível. Então, o que acontece que cesariana vira parto e vira escolha no Brasil? E isso serve para que? Será mesmo uma grande conquista e uma imensa vantagem a ponto de podermos nos vangloriar de “escolher” uma cesariana? Se fosse um procedimento assim, tão excelente que merecesse ser estendido para todas as situações em que não é necessário, acho que vários países do mundo estariam agora nos copiando e a OMS não nos criticaria tanto nesse ponto, não? Não sei não, mas acho que aí tem uma lógica bem perversa agindo e que nos impede de ver que nosso discurso defende uma posição que não se sustenta em praticamente nenhum outro lugar do mundo e em nenhuma outra época. E se, como indivíduos, estamos defendendo essa mesma posição e a nossa escolha por uma cesariana, será que não vale mesmo nenhuma reflexão a respeito?

Quando uma mulher defende publicamente o parto normal e humanizado, num país como o nosso, ela certamente deve ter percorrido um longo caminho para chegar até essa decisão. Justamente porque ela não tem mais nada de normal, justamente porque ela virou a exceção e não a regra. E essa pessoa passa a incomodar porque, possivelmente, ela pensou muito mais a respeito do que a imensa maioria das mulheres que seguem o fluxo da cesariana. Porque, sim, é mais fácil seguir o fluxo, não se questionar e deixar as coisas acontecerem, sendo guiada por alguém a quem você delega as decisões a respeito de você, do seu bebê e do seu parto. Não digo que é melhor ou pior. Mas é certamente mais fácil do que parar e pensar. Daí, quando chegam essas mulheres cheias de idéias, de informações e de alternativas, isso dá um chacoalhão e obriga à indagação: o que é que estou fazendo? Será que é realmente o melhor? Mas se eu for botar isso em questão agora, onde fico com  minhas decisões? Fico sem chão, fico sem referências, nem sei por onde começar… Pânico. Sofrimento. E ataque como resposta.

Penso que ignorar as diferenças é a melhor maneira de se isentar de pensar sobre as coisas. E de ter que se responsabilizar pelas escolhas que fazemos. E de ter o trabalho de agir a partir delas, assumindo-as ou mudando de rumo.

Então, sim, existe uma diferença. Um parto normal é diferente de uma cesariana que é diferente de uma adoção. Nenhuma dessas escolhas garante em nada que haverá uma mãe e um bebê depois. Nenhuma delas garante o que vem em seguida. Nenhuma delas diz de quem será mais ou menos mãe. Mas são escolhas diferentes e dentro de cada uma delas ainda existe uma imensidão de diferenças. E penso que, sim, infelizmente, nos dias de hoje, no Brasil, da forma como gravidez e parto são tratados, escolher uma cesariana é algo que merece muita reflexão. Muita. Sobre o que está sendo escolhido quando se decide por isso. Sobre o porque está sendo escolhido. Porque não é uma escolha inócua – como também não é uma escolha de parto normal – e vai trazer, sim, consequências para você, para seu filho, para a história de vocês. Você está ciente disso?

Isso é uma coisa ruim? Que suas escolhas tenham consequências na sua vida e na dos seus filhos? Espero que não porque, quaisquer que sejam elas, pelo que tenho aprendido e ouvido acerca da gravidez e da maternidade, ficamos para sempre assombradas com a dúvida sobre se fizemos mesmo o melhor. E essa interrogação não vai sair da sua cabeça se você atacar alguém que escolheu diferente de você. Em relação aos nossos fantasmas, só nos resta encará-los.

2 respostas em “Mas, sim, existe uma diferença.

  1. Primeiro, MUITO OBRIGADA pelo elogio! Fiquei me achando…rsrs
    Realmente essa coisa de mais mãe/menos mãe é incabível! Em momento algum eu condeno quem faz cesárea, até pq isso é uma “escolha” de cada um. o engraçado é que, basta eu dizer que quero um parto natural, sem anestesia que pronto: vc automaticamente vira a “radical” do parto. Para mim, radical é marcar uma intervenção sem motivo aparente e achar isso normal. Parir é algo fisiológico, de onde as pessoas tiram essa ideia de que é radical lutar por aquilo… Alguns comentários sobre esse meu post me deixaram cada vez mais convencida que as pessoas se incomodam DEMAIS com a opinião alheia e se sentem ofendidas por algo contrário a elas. Cesariana não faz de alguém menos mãe, muito pelo contrário, como eu disse, é uma forma de salvar vidas, minha crítica é exatamente sobre o q vc disse: sobre a banalização do que deveria ser natural e isso é uma cultura de brasileiro (novamente, vide a Kate…).
    Adorei seu final: sobre seus fantasmas, resta a vc encará-los. Perfeito! Meus fantasmas estão bem escondidos, já os encarei e tomei minha decisão e se por algum motivo eu não puder ter o parasita de forma natural, saberei que: não fui enganada e que uma cesárea realmente teria indicação!
    Bjokssss e tks pelo apoio! :-D

    • Pois é, Carol. Não entendo essa coisa de que quem busca um parto normal e humanizado é que é xiita. Como se reivindicar algo que é totalmente normal – ou deveria – e que existe e funciona desde que a humanidade existe fosse um absurdo. Acho que você está mais do que certa de batalhar pelo seu parto e fazer tudo o que você pode para criar as condições para que ele aconteça do modo como você percebe que é o melhor. Depois, na hora H, o que vai acontecer não se sabe. Mas você fez a sua parte, né? Um abraço.

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