O que não me contaram sobre a gravidez

Uma comadre da blogosfera materna, a Carol do Meu Parasita Querido, postou sobre o tema ontem e eu gostei da idéia de fazer uma lista dessas. Aí vão as minhas 15 descobertas, com um toque de humor e outro de mau humor:

  1. Ninguém me disse que logo que você engravida você começa a sentir um cansaço monstruoso. De férias no Brasil, eu achava que tinha me desacostumado do calor, do verão, do feijão com arroz, de tanto que só conseguia pensar em dormir. E isso dura ao menos pelos três primeiros meses, quando você consegue dormir até em pé ao lado da caixa de som da boate com seu dj preferido tocando techno. Não que tenha acontecido comigo, mas… 
  2. Também não me falaram que enjôo de grávida não é como naqueles dias em que você come um pastel na feira e fica meio virada depois. Não, enjôo de grávida começa de manhã, vira azia depois que você toma o café da manhã, volta a virar enjôo depois que você consegue digerir tudo o que comeu, volta a virar azia depois do almoço, quando você comeu para tentar debelar o enjôo, e vira enjôo depois que o almoço arruma um lugar no seu corpinho combalido, e azia depois do jantar. E assim por diante. Incessantemente. Por ao menos três meses. Vai ver é por isso que se dorme tanto. Afinal, o que dá para fazer além de dormir estando tão enjoada assim?
  3. Ninguém me disse que desejo de grávida podia não fazer parte do programa. Passei todo esse tempo esperando ter alguma vontade enlouquecida de algo extremamente bizarro. Nada. Nadica de nada. Fora o dia em que devorei um pacote de Haribo (umas balas de criança que existem aqui na França e que foram o mais perto de bala de goma que consegui chegar). Mas não sei se isso conta, já que não envolveu misturas esdrúxulas, nem ninguém saindo de madrugada para tentar achar um mercado aberto. Putz, que frustrante!
  4. Ah, também não estava sabendo que gravidez dá tanto o que pensar. Antes do bebê nascer, você já deu a volta ao mundo mil vezes, tanto para o passado, revendo sua vida, suas escolhas, suas relações, sua família, quanto para o futuro, tentando imaginar o que e como fazer. Entender de onde veio, buscar projetar um futuro. Além de dormir – e mesmo dormindo e sonhando – acho que é esse o trabalho que mais nos ocupa cotidianamente.
  5. E, na categoria pensar, não imaginava que gravidez também desse tanto o que pensar sobre ela mesma. Não apenas passado e futuro, mas o presente vira questão. Tem gente que se deixa levar e vai vivendo, mas para mim tem sido a revolução cotidiana de pensar como viver essa gravidez, como cuidar dela, como ser ativa frente a essa experiência, tomando minhas decisões sobre a gestação e o parto da maneira mais consciente possível. Gravidez vivida, onde se batalha por um certo tipo de cuidado, por um certo tipo de acompanhamento e por um certo tipo de parto. Que trabalheira! E quanta responsabilidade ao perceber que é preciso tomar decisões e que não dá para se alienar e se abandonar nas mãos de ninguém quando o assunto é esse. Sob pena de acabar vivendo uma gestação e um parto que estejam muito distantes daquilo que você julgue humano. E como é trabalho com prazo limitado, a gente sai correndo atrás de informação, de alternativas, de lugares, referências e pessoas para tentar criar as melhores condições possíveis. Definitivamente, dá para entender por que é preciso dormir tanto e pensar tanto, né?
  6. Outra da categoria pensar é que ninguém te conta que, entre tantos pensamentos, revisões de vida, projetos de futuro e afins, há também um bocado de angústia, um monte de dúvidas, vários momentos de solidão e tristeza em que não se fala com ninguém. Todo mundo do lado de fora vivendo o clichê de que a gravidez é uma maravilha e te cobrando estar em estado de graça permamente. E você enjoada, com sono, pensativa, sem saber se é o melhor mesmo, com medo de que algo aconteça e você perca o bebê, com medo de ter o bebê, com medo de tanta coisa que parece que uma nuvem negra navega sobre a sua cabeça 24 horas por dia. E tendo pesadelos à noite, para completar. Tendo momentos em que lamenta estar grávida e pensa que vai perder muita coisa. E tendo momentos de culpa avassaladora por pensar nisso e não viver “como todo mundo”, achando tudo uma maravilha. Acho que uma grávida é uma pessoa dilacerada por dentro entre aquilo que dizem e cobram que ela viva – inclusive quem já passou por isso e até ela mesma – e aquilo que ela realmente vive e guarda lá dentro do coraçãozinho. Mesmo que não seja nada tão negro e obscuro assim, qualquer senão já é motivo para culpa, vergonha e autocrítica. Ah, vale dormir mais um pouco para tentar escapar dessa…
  7. Outra coisa que não sabia é que entre sono, pensamentos e ações cotidianas para dar conta de viver bem uma gravidez e o nascimento do bebê, o seu tempo fica totalmente tomado por isso. Você vira um monotema, sua cabeça vira um monotema e não é fácil desligar e fazer outras coisas. Trabalho, marido, amigos… onde? Como? Nossa, é um esforço hercúleo para se manter conectada e não se fechar totalmente. Mas você acaba se encasulando, ficando mais quietinha e na sua do que antes. A não ser quando encontra outras grávidas que querem falar das mesmas coisas que você. Daí é o paraíso e faltam horas no relógio para o tanto que se pode matraquear…
  8. Ninguém me preveniu, também, que quando a gente engravida fica meio burrinha. Não, meio desligada. Quer dizer, é tanta coisa passando na cabeça – como vocês podem constatar pelo começo dessa lista – e mais uma revolução de hormônios igualmente gigantesca, que o cérebro fica a ponto de dar bug. Não funciona direito. O meu, pelo menos, funciona bem mal e porcamente para tudo o que não seja relativo à gestação. Hehehe, é uma lerdeza seletiva, confesso. Mas o pior é que acontece. (Perguntem à minha manicure, ela certamente terá vários relatos de diálogos impossíveis para contar… putz). Esquecer coisas que acabaram de me falar é praxe. Esquecer, aliás, virou parte da vida. Confundir, então, nem se fala. Pessoas, horários, compromissos… Dar foras. Quem está ao redor já acostumou e espera pela próxima gafe ansiosamente. Eu espero apenas que meu sorriso amarelo e minha frase: “desculpe, sabe como grávida é distraída, né?” continue angariando a simpatia de todos com quem tenho tido que lidar ultimamente.
  9. Ah, e essa história de revolução hormonal, então? Por que é que ninguém diz que é mais ou menos como uma TPM que dura nove meses e que é elevada à milésima potência? Não, você não fica instável emocionalmente, você vira uma mistura de Darth Vader com Felícia (sim, gente, aquela do Pernalonga, que adora gatinhos). Você ama, você chora, você se emociona com tudo. Você quer engolir de tanto amor. Mas quando se irrita, não é uma irritaçãozinha não. Você tem vontade de matar alguém. Tirem as crianças da sala! Ai de quem for inconsequente o bastante para provocar uma grávida. Nós nos tornamos máquinas de respostas atravessadas (finalmente!) e de olhares fulminantes. Não, uma grávida furiosa é como o Godzilla, melhor ficar de sobreaviso e ser bem bonzinho por 9 meses, ouviu?
  10. Pior é que ninguém diz também que, mesmo uma grávida sendo esse ser em permanente estado de pré-explosão, isso não evita que a maior parte das pessoas encha o saco sempre que puderem. Os palpites… ai, os palpites. É tanta gente com tanto palpite e tanta vontade de botar a mão na sua barriga e te dizer o que fazer, que acabo acreditando que nós, grávidas, somos na verdade umas santas dignas de canonização imediata. A gente consegue gerenciar os pensamentos, as angústias, os cuidados com a gravidez, as decisões sobre a vida e a panela de pressão de hormônios sem estapear ninguém e ainda tem que aguentar os palpiteiros? Deve ser algum tipo de karma que cai automaticamente na conta de cada mulher assim que o teste de farmácia aparece positivo, não?
  11. Outra que não me disseram é que sentir o bebê mexer dentro da barriga é tão, mas tão emocionante. Já escrevi a esse respeito mil vezes e acho que nunca vou cansar de escrever. Porque, sim, todo mundo sabe que o bebê mexe, mas por que ninguém conta que é interativo? Bebê responde, chega perto da mão que acaricia a barriga, dá chute quando você vira do lado e aperta alguma parte da pança em que ele tinha se ajeitado, responde ao papai, responde à mamãe e, sapequice das sapequices, para tudo cada vez que você pega o telefone para tentar filmar as acrobacias. É ou não é incrível experimentar algo assim?
  12. Ah, ninguém te avisa também que verão e gravidez não combinam. Ainda mais se for o final da gravidez. Calor escaldante e mulher grávida, pesada, andando com dificuldade e tendo que dar conta de mil e uma tarefas antes do nascimento do bebê é pedir para o Godzilla dar as caras, minha gente. Não é humano isso não.
  13. Outra que ninguém diz: andar com uma melanciazinha na barriga é difícil. Cansa rápido se você fica em pé, e sentada ou deitada é quase milagre encontrar posição. Levantar é uma tarefa bem engraçada, que pode durar uns 10 minutos. E abaixar para pegar algo que caiu no chão… bem… para que, né? Nem está atrapalhando ou sujando tanto assim. A única hora em que você se encontra minimamente com alguma desenvoltura corporal é quando nada. Daí o peso some e você se sente novamente bailarina, podendo saltitar pela piscina como se pesasse poucos quilos… Maravilha!
  14. Essa ninguém diz mas todo mundo sabe. Acho que é um silêncio solidário, porque, convenhamos, roupa de grávida é muito feia, vai?! Eu uso bem contente de que existam calças e shorts com elástico que sirvam em mim. Mas, putz! Sair vestida de barril o tempo todo não ajuda muito na auto-estima não. Ou você consegue estar muito bem com as mudanças do seu corpo, se sentindo poderosa, bonita e orgulhosa da sua barriga, ou acaba passando ao menos a parte final da gravidez escondida dentro de casa, deixando o marido se aproximar apenas de noite, com a luz apagada. Bônus extra que descobri com essa crise fashion: vestidinhos. Vestidinhos de não grávida em corte envelope, por exemplo, são muito dignos e vestem super bem. Nessas horas, tive que agradecer o verão, estão vendo como a gente é paradoxal?
  15. E a última da minha lista de coisas que não me disseram sobre a gravidez é que, mesmo antes de acabar, dá aquela vontadezinha de começar tudo de novo. Putz!

 

Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.

As mudanças em ti, as mudanças nos outros.

Tenho uma amiga-irmã, grávida quase ao mesmo tempo que eu (porque amigas-irmãs compartilham quase tudo, menos marido e escova de dentes, hehehe) que deu a melhor definição de como se defender dos palpites e das invasões que nos assolam desde que as pessoas, próximas ou não, tomam conhecimento de que estamos grávidas. Sabe aquela invasão básica e desagradável, feita sob o pretexto da boa vontade e de querer ajudar, mas que é sempre inconveniente, despropositada e oprimente? Pois bem, essa amiga-irmã definiu sua estratégia de defesa: já que não dá simplesmente para mandar todo mundo guardar seus palpites para si ou simplesmente ir tomar naquele lugarzinho sombrio e úmido, ela criou um botão de liga-desliga que funciona muito bem e que permite que ela mergulhe numa bolha de proteção a cada vez que alguém começa com a ladainha. E chamou o botão, carinhosamente, de sua esquizofrenia.

Uma grávida esquizofrênica, não no sentido patológico do termo, faz mesmo muito sentido, já que aprendemos na marra ao longo desses 9 meses que é necessário cindir, separar, desligar-se do mundo em muitos momentos para proteger a si e à cria nesse complexo e introspectivo ato que é gestar um bebê. Vai ver que é por isso que ficamos tão distraídas, tão desligadas, tão desatentas, memória tão curta… tudo concentrado naquilo que é o mais importante: o bebê, seus sinais, seus movimentos, a gestação, seu corpo, o corpo dele… Se existe uma sabedoria na natureza é essa de fazer uma mulher grávida ser capaz de desligar de tudo o que é apenas tormenta e voltar-se para o que realmente importa.

E, acreditem, o que menos importa é aquilo que os palpiteiros têm a te dizer. Não há conselho estapafúrdio, história trágica de meter medo, história cor-de-rosa de fazer sentir que você é uma porcaria de mãe porque contigo nada é tão perfeito assim… não há palpite ruim que não possa ser encontrado em mais trezentas bocas de trezentas outras pessoas. Ou na internet. Ou em livros. Ou em blogs. Ou seja, não se preocupe em não prestar atenção porque você não há de perder nada que não será repetido mil vezes nas suas exaustas orelhas de gestante. E cada vez será tão inútil quanto na primeira. E tão nocivo, invasivo, aflitivo quanto. Então, esquizofrenia sem dó. Cisão. Separação. Palavras inúteis para um lado, você para o outro. Na sua bolha de gestar. E de cuidar do que realmente importa.

Acontece que tenho descoberto algo curioso em relação a essa invasão palpiteira. Aliás, duas coisas que têm me impressionado bastante e que compartilho aqui. Talvez o fato de estar em outro país torne essas constatações ainda mais gritantes. Vamos ver.

A primeira é que os palpiteiros de plantão parecem ser, por algum motivo que não mera coincidência, as pessoas menos próximas de você. Nunca é alguém com quem você compartilha de sua intimidade e de sua confiança. Nunca é o melhor amigo, ou o parente querido. Esses, na medida em que você gesta e em que sua vida muda, parecem entrar numa espécie de sintonia muito fina e cuidadosa contigo. São aquelas pessoas amadas que perguntam antes de afirmar, que querem saber, que têm ouvidos disponíveis e braços para abraços apertados, que falam com cuidado, que são generosos em seus dizeres, e que te deixam muito mais falar do que te obrigam a ouvir, ou que te acompanham nos seus silêncios.

Ao menos comigo, as pessoas que vêm palpitar já se destacam de cara por essa falta de proximidade, essa insensibilidade, essa falta de ouvido, essa pressa em vomitar suas verdades, esse desconhecimento e essa falta de interesse por aquela pessoa com quem estão falando. Elas não falam para mim, mas para si mesmas, para se convencerem de algo, para descarregarem algo, para imporem suas certezas que não toleram nenhuma diferença, nenhuma discordância. Não é conversa, é monólogo. E, como todo monólogo, é chato, desinteressante, enervante. E quando a gente engravida, nossa tolerância para esse tipo de coisa, felizmente, parece atingir o nível próximo de zero. Ainda bem! Liga-desliga. Esquizofrenia gravídica. Talvez fosse algo que merecesse até ser levado para a vida inteira, não?

Agora, como consequência direta dessa primeira constatação sobre os “cheio de opinião”, a outra coisa que descobri em relação a essa invasão palpiteira durante a gravidez e, dizem, mais ainda depois do nascimento do bebê (socorro!) é que ela te deixa, mulher grávida, em uma situação de imensa solidão. Porque conversa que não é conversa não alimenta, não faz companhia, não ajuda em nada e não permite troca alguma. Preenche apenas o tempo com um recheio inútil e que faz sofrer. E companhia de verdade nesses momentos, como talvez em todos os momentos da vida, é muitíssimo rara.

Não é só a gente que muda quando engravida. Os outros ao nosso redor também mudam muito, quer queiram ou não. Reagem de maneiras que provavelmente não fariam se parassem um segundo para pensar no que já viveram em suas próprias gestações, ou nas que viram outros viverem, ou em suas próprias experiências de vida e em seus valores, sendo pais ou não. Tem gente que se afasta como diabo que foge da cruz, como se de repente você não fosse mais parte daquele mundo hype e descolado em que todo mundo sempre está a viver coisas interessantíssimas, uma vida de luxo, poder e glamour bem diferente da perspectiva de um cotidiano de fraldas, mamadas e noites de sono entrecortado. Gente que sempre militou pelo respeito à diferença e às diferentes escolhas de vida passa a ter dificuldades com a sua mudança de vida. Assim como aqueles que sempre priorizaram o trabalho intelectual acima de tudo passam a ter dificuldades com a sua escolha em priorizar sua gestação nesse momento, como se você se tornasse uma traidora da causa do trabalho, da intelectualidade, do pensamento, do feminismo, da autonomia… E ainda tem gente que sempre te estranhou por não fazer parte do “status quo” e não seguir os caminhos padrão e que, agora, vêem na sua gestação uma escolha por se enquadrar que as tranquiliza. Você passa a fazer parte da turma e elas logo querem te integrar no maravilhoso mundo do que elas pensam ser a maternidade.

Assim como nós reagimos de modos os mais inusitados quando nos descobrimos grávidas, eis que as pessoas também reagem. Se afastam, nos deixam na promessa do papo, da visita, do email que nunca chega. Ou se aproximam, nessa tentativa tosca de te encaixar em algum lugar, te invadindo com as certezas que são delas a respeito de quem você é ou do que você quer. Mas quem se afasta a partir de estereótipos nos quais passa a te ver ou quem se aproxima por te encaixar em novos clichês, o que eles podem saber realmente a respeito daquilo que você vive?

Tenho pensado que o momento da gravidez é um momento de faxina geral, em que tudo se abala não apenas dentro como fora, na vida, com as pessoas. O que permite que a gente faça uma triagem e consiga separar o joio do trigo ao longo desses meses. Sem muito esforço, porque a excitação é tanta ao redor de uma grávida que as pessoas mostram escancaradamente a que vieram. E fica palpável quando você está sozinha na presença de alguém ou quando existe ali verdadeiramente uma presença de quem faz questão de estar ao seu lado. Momento de faxina providencial, até para saber com quem contar. Pois uma das alegrias desse momento de gestação é justamente que nas brechas entre a esquizofrenia e a solidão surgem algumas pessoas fundamentais que se revelam em palavras e gestos amorosos, generosos, amigos, companheiros. Uma mensagem breve enviada em um momento importante. Um telefonema. Um email. Uma visita. Um papo aqui, outro acolá. Gestos que fazem toda a diferença. E fazer a faxina, separar joio do trigo, trabalhar o liga-desliga são nada mais do que formas de fazer justiça a esses gestos. Cuidar do que realmente importa. Dentro e fora. Cuidar de quem realmente importa.

Outras sobre as mudanças em você, nesse post aqui.

Os medos… ah, os medos…

Acho que foi minha irmã quem me disse que, uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila. Não, não se trata das noites mal dormidas por conta de amamentar, dos choros, das cólicas e afins. É mais sério que isso. Uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila porque terá sempre, como ruído de fundo, as preocupações relacionadas ao seu rebento. Lembro-me bem dela ter dito que a maternidade é como uma espécie de luto: ao lado da alegria de ter em seus braços aquele serzinho encantador, uma dor passa a te acompanhar para sempre. A dor de quem dá origem a um outro ser humano que, por ser humano, é criado para a vida e, também, para a morte. Uma vez consciente desse risco que todo humano corre pelo simples fato de estar vivo, que mãe pode dormir tranquila?

Os medos, pelo que tenho percebido, esses nos acompanham a cada momento a partir da concepção. Parece loucura, mas desde que soube que estava grávida, uma série de coisas banais que nunca me inquietaram passaram a me assombrar sobremaneira. Sair sozinha à noite, voltar para casa tarde da noite de metrô, situações em que pessoas levantam a voz próximas a mim, como se fossem brigar… Coisas que até então passavam desapercebidas, pelo fato de morar em um lugar bastante seguro, em um país bastante seguro, onde você pode andar na rua, inclusive à noite, até mesmo sendo mulher, sem que ninguém te aporrinhe. Sim, existem lugares onde se pode ir e vir e onde a rua e a cidade são, ainda, de todos.

Mas muito além desses medos e inseguranças que criaram uma grande sensação de vulnerabilidade ao surgirem lá onde não existiam, e que atribuo ao fato de me sentir responsável por proteger uma pessoa indefesa que está aqui na barriga e precisa de mim também para garantir sua segurança, a novidade maior foram esses medos relacionados à gravidez, ao parto e a essa criança propriamente dita.

Nem precisa ler muito sobre maternidade para ser inundado de assombrações permanentes: entre aquilo que publicam sobre o assunto, aquilo que os especialistas dizem e todos os palpites e “causos” que todas as pessoas “de bem” insistem em te contar, sobra material para metros e metros de medos sem fim. Cheguei a discutir isso antes, nesse post aqui. Essa mistura de cultura do risco que inunda os saberes médicos e de atração pela desgraça alheia que atravessa o senso comum dos realities shows aos relatos de catástrofe mostrados com esmero por toda a mídia, não sobram dúvidas: o que se quer é ver sangue.

Credo! Sai para lá!

Mas como isso se reflete na gravidez, no parto e na experiência da maternidade? Penso que, para além dessa sensação humana da qual falava no início, dessa aguda percepção da fragilidade e da finitude da vida, esse nosso gostinho por focalizar no pior das coisas ajuda a que nós, as grávidas e mães em questão, fiquemos alucinadas com muito mais do que o que seria necessário. Se não, vejamos o breviário de medos e inseguranças que nos acompanha feito bagagem pesada demais:

  • no começo, a gente teme estar grávida e, quando existe a suspeita, teme também achar que está e se frustrar descobrindo que não;
  • depois de confirmada a gravidez, a gente teme os temores do primeiro trimestre, que é quando todo mundo diz – putz! – que a maior parte dos abortos acontecem… e lá se vão três meses em que você passa pensando “ai, fica bem na barriga da mamãe, queridinho…”, com medo de acordar um dia e estar sangrando;
  • então surgem os primeiros exames e você passa a temer também todos os bichos e afins… toxoplasmose, listeriose, rubéola, DSTs… e lá se vão noites e noites de sono pensando em porque não tomou as vacinas direito, porque diabos comeu tanta carne mal passada, porque bebeu no ano novo…
  • o bônus dos primeiros exames, ao menos aqui na França, é a depistagem da trissomia do cromossomo 21 e de outras anomalis genéticas, que eles fazem a partir do primeiro ultrasom somado a um exame de sangue… mais um bocado de noites e dias de aflição de que o pequeno tenha algum problema genético…

O primeiro trimestre passa e você respira aliviada por não ter abortado, por todos os exames terem dado negativo, por estar bem e saudável, pelo ultrasom e os exames de depistagem não terem indicado nenhuma anomalia e você quase acredita que pode dormir sossegada… Mas não! Isso foi apenas o começo.

  • teu ganho de peso, tua pressão arterial, tua diabetes podem prejudicar o desenvolvimento do bebê, então você passa todos os seus dias preocupada com o que come, como come, para não comer demais ou de menos;
  • exercícios demais podem gerar contrações e não é nada bom ter contrações antes da época em que elas devem acontecer… Então você segura a onda;
  • mas exercícios de menos e sedentarismo demais influenciam na troca entre você e o bebê pela placenta, além de contribuírem para o ganho de peso,  e para o aumento das dores pelo corpo todo devido às mudanças corporais… então você enlouquece e começa a fazer yoga, natação e sei lá mais quantas mil atividades que são ótimas durante a gestação;
  • e, embora os casos de aborto espontâneo sejam uma questão importante no primeiro trimestre, é claro que sempre existe o risco de um óbito… então você passa suas noites de sono torcendo para isso não acontecer contigo e para que tudo continue bem ali, na barriga;
  • e, quanto mais se aproxima do terceiro trimestre, mais o risco de um bebê prematuro de tão baixa idade é um risco de um bebê que não sobreviva… então, embora tanto risco dentro da barriga te faça pensar que seria mais seguro o sujeitinho sair logo, e ainda que sua curiosidade em relação ao serzinho que te habita só faça aumentar e você queira muito saber como ele é, você insiste “fica bem aí na barriga da mamãe, queridinho…”

Passa o segundo trimestre e você respira aliviada da travessia de tantos percalços em teoria achando, já menos convicta que ao final do primeiro trimestre, que agora vai. Mas agora vão começar os assombros do terceiro trimestre, da prematuridade, do ganho de peso do bebê, da posição, do encaixe, do parto, do trabalho de parto, das dores, das contrações, da dilatação ser suficiente, de saber se deu certo de estar cercada de gente respeitosa e humana, se o bebê, teu corpo, teu marido, teu médico, tua parteira, tua maternidade vão todos conspirar para que tudo se passe da forma mais cuidadosa, respeitosa e natural possível para a chegada do pequeno… E, bebê nascido, haverão os medos de que tudo esteja bem com ele, de que seja saudável, de que mame, de que durma, de que viva bem… E da relação com os outros, dos perigos do mundo, da escola, de estar criando tão bem quanto possa, das doenças, das dificuldades, dos percalços… Putz, é preocupação sem fim, quando termina uma, começa a seguinte…

Parece tanta coisa que nem exorcista dá conta, uma condenação sem fim a um sono preocupado, inquieto, temeroso de tudo o que pode ser que… Entendo melhor minha mãe e todas aquelas mães um pouco malucas, em constante estado de alerta e tensão permanente, apostando que filho debaixo da saia é filho no lugar mais seguro desse mundo. Não deve ser nada fácil olhar para cada dia e para os desafios e riscos de cada dia e confiar que tudo vai correr bem. Mas é por isso que olho com ainda mais admiração para aquelas mães que conseguem, em meio a tantos assombros, manter uma certa calma no coração, uma certa confiança na vida e uma certa aposta de que seus filhos, na barriga e fora dela, estão e estarão bem.

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984

George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães

D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Você vai perder…

(version française ici.)

… noites de sono, seu sossego, sua liberdade, as baladas com os amigos, as viagens, os
momentos de intimidade apaixonada quando dá na telha… Você vai perder. Muito. Engravidou, vai ter um bebê e vai perder. Já começa perdendo. É o que dizem os abutres de plantão, por vezes disfarçados de parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos de boa vontade, sempre com um sorriso nos lábios, te felicitando pela sua gravidez. A sua vida vai mudar totalmente.

Sempre fico na dúvida nessas horas. Será uma total falta de bom senso que impulsiona esse tipo de comentário ou apenas um gostinho de vingança mal disfarçado de que aquela pessoa ali, aquela barriguda agora vai saber o que é a tal “vida de verdade” onde pessoas perdem. Bem vinda ao clube, amiga! Subentendendo-se: mais uma para partilhar da frustração que é essa vida. Como dizem por aí: “chuta que é macumba!”

Sai para lá com seu fel disfarçado de simpatia e de experiência. Que eu não preciso disso. No momento, o que preciso é cuidar da minha vida, da nossa vida e de garantir todo o bem estar e todo o conforto para a pequenina que está aqui na barriga. Logo mais, vou precisar de outras coisas. E deixo para logo mais o que é de logo mais. Nada disso te diz respeito. E nada disso cabe na sua máxima de “você vai perder”. Uma gravidez não necessariamente se encaixa na sua lógica de perdas e ganhos, sabia?

É curioso: porque será que quando alguém engravida tanta gente assim se regozija em anunciar tudo o que você vai perder com a maternidade? Por que essas pessoas não falam do que você vai ganhar? Será que é mesmo para te preparar para o quanto é difícil? Mas o quanto é difícil?

Eu fico mesmo é com o meu querido Freud – aquele, o tal do Sigmund – que, há pelo menos cem anos, indignou as pessoas e suas mentalidades com a constatação de que boa parte de nosso sofrimento tem justamente a ver com a dificuldade que temos em perder alguma coisa. Nós, os neuróticos comuns e banais, passamos a vida tentando fazer a contabilidade da existência da maneira mais mesquinha possível. Perder o mínimo. Perder nada. Perder parece um horror. Então, cada escolha da vida que envolva uma perda gera um sofrimento quase pânico e coloca a pessoa para trabalhar, para adoecer, para tentar achar uma saída que a impeça de perder. Só que perder nada é perder tudo.

Tem gente que fica colado no que está perdendo. O tempo todo de olho naquele centavo que se esvai. Como se escolher não fosse sinônimo de renunciar, de perder algo para ganhar outro algo. Que escolha não envolve perda? Que escolha não implica abrir mão? Que escolha não é aposta na possibilidade de “x” apesar de “y”?

E tem gente que fica em situação mais aprisionada ainda, acha que descobriu a pólvora e que, se não escolher nada, não perde nada. E daí vai, obssessivamente vida afora, nessa espécie de paralisa das escolhas, acreditando que sem se comprometer está evitando qualquer renúncia. E sem se dar conta de que, não tendo escolhido, perdeu para todos os lados. E que ficou sem nada. Tempos estranhos em que a imobilidade parece uma boa opção para não optar. Tempos estranhos em que o “jeitinho” parece uma estratégia eficaz para ter tudo.

Provavelmente, quando essa pessoa inconveniente curiosa se aproxima de uma grávida dizendo tudo o que você vai perder, não se trata nem de falta de noção, nem de má fé. É apenas ela dizendo o quanto é um mal perdedor. É apenas um jeito pobre de olhar para a vida, priorizando o que se perde no lugar do que se ganha, priorizando o que não se tem no lugar daquilo que se constrói. Pobreza de espírito que não permite à pessoa perceber nem o que ganhou com suas escolhas, quanto mais que possa ver nas escolhas dos outros alguma positividade. A maior parte das pessoas, infelizmente, prefere ficar colada naquilo que lhes falta.

Não estou pregando um olhar cor-de-rosa, onde a gravidez e a maternidade sejam apenas uma propaganda de doriana que se estende por toda a sua vida. Muito menos estou dizendo que não se deve falar sobre o que é difícil, penoso, sofrido nessas experiências. Não, é justamente o contrário. Estou dizendo que levar em conta uma escolha que se faz pela maternidade com TUDO aquilo que ela implica já inclui o “bom” e o “ruim”, o que se “ganha” e o que se “perde”. Ninguém precisa nos prevenir daquilo que já sabemos (quando já sabemos, é claro): que a maternidade, como tudo o que é da vida, traz perdas e ganhos. Pois é uma escolha e, como escolha, seu limite está dado no próprio ato de escolher. E, ainda assim, isso é tão relativo…

Quem sabe o que é bom ou ruim para uma outra pessoa? Quem sabe o que é um ganho ou uma perda para alguém? Posso achar que é uma renúncia terrível não poder mais sair à noite para a balada com os amigos, mas e se a barriguda ali detesta balada? Então, essa história do você vai perder já começa furada pelos valores e pelos preconceitos de cada um, os quais aquele que fala esquece que podem não ser os valores do outro. Falta de respeito pensar que o que eu acho que você vai perder é o que você vai perder realmente e que, ainda por cima, isso é uma tremenda catástrofe para você, do mesmo jeito que foi para mim. As pessoas gostam de falar como se pregassem, como se o mundo fosse apenas o reflexo do que elas são e como se elas soubessem o que você perde e o que você ganha quando decide ter filhos.

E, ainda, parecem desconsiderar que quem fez essa opção, de um jeito ou de outro, na medida em que foi capaz de escolher, já conta com renúncias. Mas também já escolheu passar por alguma coisa, viver algo que julga importante. A menos que tenha optado pela maternidade pensando que vai dar para não perder nada, e que acredite naquele ideal de mulher moderna que é simplesmente tudo e tudo muito bem. Mas, daí, já é outra história. Ou o reverso da medalha dessa mesma história de quem adora falar do que você vai perder quando te descobre grávida. Um sujeito colado na perda que não consegue se conformar em perder nada e uma outra colada na ilusão de plenitude de que vai dar para engravidar, ter filhos e não renunciar a nada. No fundo é a mesma coisa, tanto para um quanto para outro: um assombro, um medo pânico de perder que ou te deixa fixado nisso, contando os centavos de existência e lamentando ter que pagar por ela, ou te coloca em estado de negação, achando que vai dar para escapar, que você será a exceção à regra.

Você perde, eu só ganho… Será mesmo que ter filhos se inscreve nesse binômio empobrecido de ver e de viver a vida? Qual será o sentido de botar alguém nesse mundo já de cara com o peso de que ele te tirou alguma coisa, de que ele te obrigou a renunciar, de que você se sacrificou por ele? Ou de que ele te fez completa, plena, capaz de tudo, de que ele te deu ou tem que te dar tudo? Em nome das tuas perdas, ele vai ter que te compensar? Ele vai ter que te dar o que você perdeu e fazer valer suas renúncias? Não sei não, acho que nessa lógica contábil de olhar para a maternidade apenas pelo viés das perdas e ganhos, não apenas você sai esmagada pelos abutres de plantão que te fazem acreditar que você perde muito e que perder é muito ruim como o seu filho, que nem pode se defender, sai perdendo desde antes de sair da barriga, em dívida contigo pelo simples fato de existir, tendo que te compensar de uma coisa muito ruim que foi você ter abdicado de algo… Putz, que cilada! Será mesmo que a gente quer viver nessa lógica? Eu não, obrigada.

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França

Parir entre sangue e dor…

(version française de ce post ici.)

Noutro dia, reunião aqui em casa, discuto com os amigos minha opção por um parto natural que, na França, felizmente, não é sinônimo de parto normal – que o parto é normal, já está dado e eles ficam de cabelo em pé com nossa mentalidade cesárea – mas diz respeito, mais especificamente, àquilo que no Brasil chamamos parto humanizado, um parto normal com direito à recusa de várias intervenções médicas que são, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias e apenas atrapalham de maneira violenta mãe e bebê. Então uma amiga minha tira da cartola, depois de dizer que seu ideal de parto seria ser sedada, apagar e acordar apenas quando o bebê tivesse sido retirado de dentro dela – que essa opção de parto natural é uma escolha católica por parir entre sangue e dor e o quanto ela é absurdamente ideológica. Minha amiga é feminista. E inteligente. Parei para pensar. E percebi que não concordo com nada do que ela disse.

Primeiro, porque toda e qualquer opção em relação a todo e qualquer tema em nossas vidas é ideológica, quer dizer, tem em si alguma ideologia, quer saibamos ou não. Ser ideológica não é argumento para uma escolha, é a constatação de uma condição do pensar humano. A questão poderia ser, então, que ideologia está por detrás de uma escolha de parto ou de outra? O que estamos apoiando ou defendendo quando preferimos isso à aquilo?

Parir entre sangue e dor foi a condenação dada por Deus a Eva depois dela comer o fruto proibido e ser expulsa do paraíso. Mas por que isso seria uma condenação? Não sou uma expert em estudos religiosos, não li a Bíblia inteira e, assim, não tenho como falar do lugar de sabichona no que diz respeito a esse tema. O que, talvez, seja bem melhor, porque permite que eu apenas faça aqui as questões e reflexões que me provocam desde o comentário dessa amiga. Vamos a elas.

Do ponto de vista de uma pretensa defesa feminista do direito a não parir entre sangue e dor e, com isso, não sucumbir ao legado machista católico que impõe às mulheres sangue, dor e sofrimento, acho o comentário dela especialmente equivocado: afinal, a Bíblia foi escrita por quem? Por homens. Até Deus, o figura, é definido no masculino, herança e testemunho dos séculos e séculos de patriarcado que estabeleceram o homem no lugar da razão e a mulher como ser menor, incapaz, relegada às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos. A Bíblia apenas prolonga uma mentalidade que era aquela dos gregos antigos, herdada pelo império romano, do homem como cidadão, centro da pólis, senhor do pensamento. Então, minha pergunta, mesmo sabendo que o Antigo Testamento não foi estabelecido pelos seguidores de Jesus, mas bem antes: a que serve que um livro desses estabeleça a mulher como pecadora e a condene a parir entre sangue e dor?

Existiam homens e mulheres antes disso, não? Bom, talvez para os católicos não, homens e mulheres tenham surgido com Adão e Eva. Mas antes do surgimento da Bíblia como livro sagrado do catolicismo que diz que homens e mulheres surgiram de Adão e Eva e que dá a opção às pessoas de acreditarem nessa versão da história como mito das origens, já existiam homens e mulheres nesse mundo, não? Que não acreditavam ou não sabiam da tal verdade que é Adão e Eva. E que nem sabiam que o modo como viviam a depender de seu trabalho e a se reproduzir e parir entre sangue e dor era consequência do pecado original. Podemos achar que eles eram apenas ignorantes da verdade que os fazia serem como são. Ou podemos pensar que essa verdade é apenas uma versão das coisas que diz mais a respeito dela mesma e do por que ela foi construída desse modo do que acerca de como as coisas realmente são.

Como as mulheres antes da Bíblia pariam? Provavelmente, naquilo que é essencial, do mesmo jeito que nós fazemos hoje. Então, não foi a Bíblia que inventou o parto entre sangue e dor, ele já existia antes dela. Ela apenas inventou que ele seria consequência de uma condenação. Quer dizer, ela associou parto, sangue e dor à um castigo. Aí é que está o problema.

Por que será que interessa a alguém associar parto com dor a um castigo? Se formos pensar em um argumento radicalmente feminista, será que não seria o caso de considerar que interessa apenas aos homens – esses mesmos que instituíram o patriarcado nesse mundo – que um ato exclusivamente feminino, em que a mulher tem todo o poder sobre o seu corpo e sobre uma vida além da dela mesma, em que ela pode dar origem a um outro ser – coisa que apenas inventando um Deus homem os homens conseguiram remediar – enfim, que esse ato exclusivamente feminino seja considerado como um castigo e, assim, desapropriado? Desqualificado? Tornado impuro, menor, feio? Apenas uma idéia que me ocorreu. E que não me pareceu tão absurda se, seguindo por essa veia mais radical e paranóica formos pensar que, milhares e milhares de anos depois, a opção que se criou para as mulheres e seu procriar e seu parir de segunda categoria foi uma em que elas se desfazem totalmente de qualquer poder sobre o seu corpo, tornando-se objetos que, voltando às palavras da minha amiga, são botadas para dormir, têm seus corpos manipulados e decididos por outros, têm seus bebês extraídos delas e devolvidos a elas quando, como belas adormecidas, elas acordam de um sonho encantado com seus filhinhos no colo, sem nenhuma participação naquilo que trouxe ao mundo essa nova vida.

Então, tá. Ser objeto, um corpo objeto das decisões de outro a respeito da vida de seu filho é a alternativa feminista para o parto condenado entre sangue e dor? Não ser sujeito, não estar ali presente no momento em que a experiência acontece é fazer valer seu direito de ser mulher, ser independente, ser autonoma e não participar? Muito bem, o feminismo nos trouxe e nos trás conquistas incontestáveis e deve ser defendido enquanto houver nesse mundo uma pessoa que pense e aja de maneira violenta contra uma mulher pelo simples fato dela ser mulher. E defendeu o nosso direito sobre nossos corpos, sobre a concepção, sobre a alternativa de não ter filhos frente à obrigação de tê-los, sobre a opção de interromper uma gestação e tantas outras coisas mais. O feminismo defendeu até nosso direito de nos alienarmos em um conjunto de atos médicos para não participarmos do momento do parto de nossos filhos. E, ok, pode ser que para muitas mulheres isso seja uma opção. E defendo o direito que elas adquiriram de escolher isso.

Mas, apenas uma questão, essa escolha, tão ideológica quanto a minha por um parto natural, defende qual ideologia mesmo?

Em nome de nosso “direito” à não ter dor, não ter sangue, não ter sofrimento, parece que entramos em uma corrida para extirpar essas experiências de nossa condição humana. Como se fosse possível uma vida sem dor, sem sangue e sem sofrimento. E como se essas coisas fossem ruins, um castigo, um calvário pelo qual temos que passar para pagarmos os pecados de sabe-se-lá-quem-ou-o-quê. As pessoas parecem que têm mais medo da dor do que ela pode doer realmente. E em nome desse medo, jogam para fora da vida muitas experiências que são tudo, menos um castigo e uma condenação.

Poder parir um filho entre sangue, dor e muitas outras coisas que ainda não consigo imaginar me parece um privilégio, uma consequência coerente de uma escolha de alguém que decide que, em sua vida, cabe o projeto de dar vida a um outro alguém. Vida, em que também existe sangue e dor. E riso, e alegria, e um mundo todo de descobertas. Vida que não foge do dito ruim para tentar ficar apenas com o que pareceria bom, como se sentir fosse perigoso, como se sofrer fosse uma ameaça, como se as dores da vida não ensinassem e não formassem tanto quanto os seus prazeres.

Eu quero parir minha filha. Não quero que outros o façam por mim.

Mas o bebê sente tudo o que a mamãe sente?

Drawing woman surrounded by her children - Pablo Picasso - 1950

Drawing woman surrounded by her children – Pablo Picasso – 1950

 

Está aí uma boa pergunta, que sempre me deixa de cabelo em pé, ainda mais quando vem em forma de afirmação: “ah, mas fique bem porque o bebê sente tudo!” Quer dizer que, além de ter que dar conta de tudo o que acontece, eu não posso reagir emocionalmente a nada de ruim porque, caso tenha um mau pensamento ou um mau sentimento, estarei prejudicando o bebê? Sério, alguém já parou para pensar na cilada que é esse tipo de afirmação? Porque, minha filha, agora, além de não poder fazer mais nada, nem de expressar mais nada, você não pode mais nem sentir nada ou você será uma péssima, péssima, péssima mãe. E você não quer isso, né? Putz…

Acho que esse tipo de idéia entra no mesmo rol de “maternidade é uma benção”, uma posição unilateral, que não dá espaço para a pluralidade que é a vida e que prefere jogar para debaixo do tapete tudo aquilo que é rejeitado, condenável, incomodo. Estabelecemos uma idéia de como devemos ser, como devemos viver, como devemos reagir a cada experiência da vida e tudo o que foge ao padrão tem que ficar bem escondidinho. Com o agravante que, em uma gravidez, escondidinho não pode nem mais ser dentro de você, no segredo do seu silêncio ou dos seus pensamentos, porque dentro de você tem o bebê e se ele e seus segredos se encontrarem… minha nossa, que perigo! O bichinho corre o risco de ficar contaminado por toda a porcaria que você guardou ali. Euh, melhor arrancar tudo de dentro de você e jogar num lixo, daqueles lixos tóxicos de resíduos nucleares que ficam enterrados sob toneladas de concreto num fim de mundo qualquer. E do qual nunca mais se tem notícia até o dia em que ele vaza, transborda por uma rachadura da parede e todo mundo é obrigado a lembrar que não dá para o lixo ficar debaixo do tapete para sempre. O velho Freud sabia das coisas quando dizia que tudo que vai para debaixo do tapete volta para cobrar a conta.

Essas idéias unilaterais que a gente cisma em colocar como um ideal servem apenas para nos torturar por toda uma vida, cobrando e cobrando a nossa incapacidade, a nossa insuficiência em ser como se deve. Na hora de ser mãe então, em que nem o nosso íntimo é lugar seguro para guardar as nossas falhas, ficamos presas na cilada da maneira mais cruel, tendo que manter o pensamento e o sentimento em suspenso para não correr o risco de nada de ruim sair dali.

E será que o bebê sente mesmo?

Acho que seria mais realista perguntar o que é que o bebê sente. Porque supor que o bebê sente que a mamãe está irritada porque teve uma pane de gás no bairro e isso deixou a casa congelada em pleno inverno é supor que um bebê pode decodificar e atribuir os mesmos sentidos que um adulto. Para um mundo que ele ainda mal conhece. Como seria possível? Ou um bebê na barriga é uma espécie de mestre Yoda que sabe tudo, entende tudo, registra tudo, percebe tudo e que, quando nasce, perde todos os super poderes a ponto de não ser capaz nem de dizer se está com fome ou com sono, ou essa suposição de que o bebê sente, o bebê percebe, o bebê sabe é alguma coisa próxima demais da paranóia, né?

A verdade é que ninguém tem como saber o que é que um bebê sente e que marca isso faz na existência dele ali na barriga. Os cientistas pesquisam, os psicanalistas supõem, os religiosos afirmam, mas no fundo, no fundo, mesmo todo mundo achando que encontrou a verdade, é tudo mera suposição. Porque o bebê não lembra e não vai poder nos contar depois. Então, por que acreditar no pior dos casos? Será mesmo que ficar triste, desanimada, cansada, em dúvida, com medo, com raiva, ambivalente, irritada… será que tudo isso tem realmente o poder de prejudicar o bebê? Será que o bebê vai perceber tudo isso como sendo o que é e será que ele vai ficar traumatizado por que tem dias que a mamãe não sabe o que fazer, não sabe mais se quer ter filho, tem medo do que está por vir? Puxa, mas que bebê poderoso que sabe tudo e que mamãe poderosa que pode prejudicar o bebê com um mero pensamento, hein? Cruzes!

Eu gosto mesmo do Freud, porque ele sempre me ajudou a entender que, muitas vezes, isso que a gente coloca nos outros, isso que a gente pensa que é a verdade dos outros ou da vida mostra, tão somente, o jeito como a gente funciona, aquilo em que a gente acredita, nosso esqueleto, por assim dizer. E o Freud sempre dizia que temos um dom especial para acreditar que somos transparentes, como se estivéssemos desnudados frente às pessoas e como se nossos pensamentos e sentimentos mais incomodos tivessem o poder de atos e pudessem ferir, matar, destruir. Ledo engano. A gente pode muito pouco e isso é que é duro de engolir. E não somos transparentes. Nem para fora, nem para dentro. Nem para nós mesmos, nem para o bebê.

Eu gosto de imaginar – porque parece que estamos mesmo num terreno em que apenas a imaginação pode saber de alguma coisa – que o bebê sente o que eu sinto do mesmo jeito que ele sente quando eu como uma pratada de feijoada. Ou seja, que ele tem sensações, tumultos, intensidades, agitos, calmarias, confortos e desconfortos. Mas, até aí, se é tristeza, preocupação, azia ou congestão, talvez seja para ele apenas da ordem do barulho indecifrável em que ele vive com a mesma curiosidade com a qual vai viver tudo ali na barriga, porque ainda não conhece nada. Nem dividiu ainda o mundo em bem e mal. Nem sabe que existem “bons” e “maus” pensamentos e sentimentos.

Se tudo vai bem e o bebê está ali, no quentinho, talvez tristeza seja como uma barriga que se contrai feito um coração apertado, talvez raiva seja o rufar dos tambores dos dias de azia ou de gases, talvez amor seja a calmaria da respiração do sono ou os balanços compassados das horas de sexo… Talvez… Quem sabe?

Joe Sorren - Mother and child

Joe Sorren – Mother and child

Todos os tempos da gravidez…

Sempre achei que o tempo não passa de forma linear, mas em blocos. Você passa boa parte da sua vida se percebendo com uma certa idade e, de quando em quando, toma um choque frente ao espelho, ou quando alguém te chama de senhora pela primeira vez, ou quando não faz idéia de quem seja Justin Bieber, ou em qualquer situação em que seu corpo ou sua cabeça dão mostras de que não acompanham mais tão agilmente o ritmo frenético dos acontecimentos de cada dia… Enfim, algo acontece e todo o peso dos anos passados desapercebidos cai sobre suas costas de uma vez só: tudo mudou, você é quem não tinha visto.

A persistência da memória - Salvador Dali - 1931

A persistência da memória – Salvador Dali – 1931

Na gravidez o tempo parece que passa também dessa forma engraçada, aos trancos e barrancos, seguindo ritmos de luas, de semanas, de sonos e sonhos… O corpo revoluciona e convulsiona e trabalha sem parar para se adaptar à todas as mudanças e isso dá um cansaço danado que faz com que tudo ande beeeem mais devagar. O corpo corre, o corpo pára. E a cabeça faz o mesmo, borbulha todos os pensamentos os melhores e os piores e cozinha tudo ali, o tempo todo, um caldo de idéias e sensações que fica de ruído de fundo para todos os pensamentos que têm que ser pensados, todos as ações que devem ser feitas, todo o cotidiano que deve ser cuidado e que não entra em modo “pause” somente porque você está grávida e precisa de tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo… Como ganhar tempo quando se tem prazo? Porque nem o bebê vai poder esperar você arrumar a sua vida, a sua cabeça, a sua casa, a sua relação… até porque sabemos bem que se o bebê e a vida fossem esperar o nosso momento ótimo, putz, coitados, né? O bebê completaria cem anos ali na barriga e a vida teria parado no homem de Neandertal, que estaria até agora pensando se estaria pronto ou não para se misturar com o homo sapiens…

 

Bom, se o tempo urge, também é reconfortante saber que temos ainda algum um tempo. Em poucos meses as coisas vão mudar ainda mais e o bebê vai precisar de muito mais do que aquilo que dá para garantir ali no quentinho da barriga sem precisar pensar muito porque o seu corpo sabe bem o que fazer. Ufa. Mas quando o pequeno estiver ali fora, no mundo, vai precisar de um pouco mais do que necessita hoje. Ou melhor, possivelmente vai precisar das mesmas coisas, mas de um outro jeito, no qual precisará um pouco mais de você. Deve ser quando o peso todo do mundo e da vida tomba novamente sobre as suas costas e você vira mãe. Vi isso acontecer uma vez, uma cena linda e tocante, quando meu sobrinho chorou no quarto da maternidade e apenas minha irmã e eu estávamos presentes. Nos entreolhamos, como quem se pergunta: cadê a mãe desse pequeno para nos acudir? E, em menos de um segundo, minha irmã passou da dúvida ao susto e desse à constatação de que a mãe era ela, de que não havia nenhuma outra, apenas ela para ser mãe daquele bebê ali, naquele instante. E acudir. Acho que ela envelheceu uns 10 anos em poucos segundos. E virou mãe também.

 

Atlas.

Atlas.

Mas para que esse blog?

"O sono da razão produz monstros", Francisco Goya, 1799
“O sono da razão produz monstros”, Francisco Goya, 1799

Então é assim: você descobre que está grávida e as portas de um novo mundo se abrem para você. Bem-vinda ao seleto clube! Cinco minutos de espera para o teste de farmácia e sua vida muda. Ou melhor, já tinha mudado e você tem a confirmação. Parabéns! É o que todos vão te dizer. Eu inclusive. E imediatamente te encaixam em uma nova categoria: a grávida. Deal with it. Você não é mais aquela pessoa singular que sempre foi, você não é mais os seus projetos, suas esperanças, sua vida, sua história. Você é a grávida e encarna – literalmente – uma imagem padrão que todos acham que entendem e com a qual todos vão se relacionar de agora em diante. Vão conversar com a grávida, vão te contar histórias de grávida. E vão assumir que sabem exatamente quem você é e o que você sente porque sua condição de grávida passa magicamente a definir todo o seu ser. Não sobra espaço para nenhuma individualidade. Putz…

E então, o que é que você faz com tudo aquilo que você é e sente, especialmente agora? Porque, convenhamos, você descobre que está grávida e a cabeça, o corpo, o coração… tudo vira um turbilhão, uma avalanche de intensidades. Mas, como na nossa sociedade, na nossa cultura e no imaginário de cada um de nós estar grávida e ser mãe significam apenas a mais pura experiência de felicidade que um ser humano pode ter, qualquer coisa que escape disso está condenada ao silêncio. Ninguém fala. As mães não falam. Ficam abandonadas e sozinhas com tudo aquilo que convulsiona dentro delas, todos os medos, todas as ambigüidades, todas as dificuldades, todas as incertezas… Imagino que para os pais seja parecido. Todos têm que estar felizes. Muito. E apenas felizes. Nada mais. Entendeu?

Ninguém nos disse, ninguém vai nos dizer e, quando chegar a nossa vez, também não diremos a ninguém. Psicanalista que sou, com mais de uma década de experiência em consultório, eu sei bem o que é o conflito dilacerante que se instala em cada um quando temos que ser adaptados a um ideal que, no fundo, no fundo, ninguém consegue atingir a não ser nas aparências. Já testemunhei muita gente destroçada por não conseguir ser o que “deveria” e por não se autorizar a ser aquilo que pode, quer, aquilo que faz sentido. Construir um caminho singular e respeitar essa singularidade é sempre o mais difícil, custa caro, exige assumir uma responsabilidade por si mesmo e se tratar com um tal respeito que, na maior parte das vezes, não estamos dispostos a oferecer a nós mesmos. E as pessoas ao redor também não ajudam. Pressionadas que são a vida toda por também se enquadrarem, dificilmente elas podem oferecer outra coisa que não a imposição devolvida de que você faça o mesmo.

Se isso é verdadeiro para tudo o que somos nessa vida, o que dizer dos momentos ditos importantes, decisivos? Escolher uma profissão, ter um relacionamento, ter filhos. Nessas horas, a pressão pesa a ponto de esmagar e você vira gado, vira aquilo que faz, vira uma condição, um estado… Nada de ser você e ter alguma liberdade para entender como você fica no meio dessa história. Ou o que você quer. Ou como quer. Não cause problemas, não invente moda. Cale-se. O silêncio que todos os outros foram obrigados a depositar nesse mesmo altar pesa mais do que o mundo nas costas de Atlas e, de você, espera-se tão somente o mesmo.

Uma vez que você engravida, e que a novidade se torna pública, toda e qualquer pessoa da face da Terra terá uma opinião e/ou uma “ótima” dica para te dar. Mesmo quem não te conhece. Porque você é a grávida, lembra? Então qualquer um sabe quem você é, o que sente, do que precisa, o que é bom para você. E ninguém vai se furtar a te dizer isso. Todas as dicas do mundo, todas as opiniões do mundo, “faça isso”, “coma aquilo”, “não faça isso”, “é assim”… Todas as dicas do mundo, todos os livros que te explicam minuciosamente o que está acontecendo – sério? – todos os sites, blogs, fóruns… Não encontrei praticamente nenhum em que alguém dissesse alguma coisa que fugisse ao padrão: “momento lindo”, “milagre”, “estado de graça” (e quando encontro, indico aqui). Ah, claro, pode ser que você se sinta diferente disso, mas daí se enquadra no item “depressão” e isso é doença, algo que tem que ser tratado, que é para você ficar logo como todo mundo e não criar problemas. Para você, para o bebê, para os outros… E a culpa por criar problemas? E o medo de que o mero ato de pensar ou de sentir prejudique teu filho? Afff… impensável. Melhor passar 9 meses dormindo e esperar que tudo isso que cozinha ali dentro saia e desapareça. Não sei como, mas de preferência de um modo inodoro, incolor e imperceptível. O problema é que gente não funciona assim, né? Gente não vem com botão de “delete” e muito menos com comando para reformatar. Droga…

Eu penso que dizer que algo não é normal ou que não deveria existir não faz com que aquilo desapareça. Muito pelo contrário. Apenas te deixa sozinha com aquilo que te assombra e te faz sofrer calada, às vezes mais, às vezes menos, mas sempre de uma maneira dolorosa. É exatamente por isso que até hoje eu tive muito com o que trabalhar, porque tudo aquilo que fica jogado em baixo do tapete não desaparece… e retorna, retorna, retorna… Não seria melhor encarar não?

As mães não falam porque nos foi ensinado que falar é errado, que o certo é viver apenas o lado bom da maternidade. E, sinceramente, ele existe. Mas eu me propus a voltar a escrever um blog, depois de tantos anos e de tantas vidas vividas porque, ao menos aqui, posso deixar marcado o que eu sinto, o que eu penso, o que eu estranho nesse momento, o que me surpreende, e o que me choca. Não apenas em parte, não apenas o que todo mundo quer ouvir e espera, porque para isso ninguém precisa de um novo blog, já tem um bilhão de coisas escritas, vamos poupar olhos e ouvidos de tanta repetição das mesmas informações, né? Então, como disclaimer a meu respeito e a respeito desse blog que inicio junto com essa história dentro da minha história que começa agora, quero dizer que:

  • sim, estar grávida é uma coisa maravilhosa e poucas coisas nesse mundo proporcionam uma sensação de plenitude, de alegria e de aposta na vida com tanta intensidade quanto a perspectiva da maternidade…
  • mas isso todo mundo sabe, é o que todo mundo diz e espera de você… é como todo mundo inclusive você mesma querem que você viva essa experiência…
  • só que ela não é apenas isso e, como cada coisa importante da vida, tem infinitas facetas, contraditórias, complexas, estranhas, subterrâneas…
  • e ninguém fala disso porque parece errado e feio…
  • e a gente fica em silêncio esperando que passe e que a gente passe a sentir como todo mundo…
  • até mesmo porque, tem tanta coisa boa acontecendo, por que olhar para esses “pequenos detalhes”, né?
  • e ninguém fala disso…

Então, falo eu.