Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.

Sétimo mês? Putz!

(version française)

E a gente começa a se perguntar se já não é o suficiente. Porque sim, eu sei, esse último trimestre é extremamente importante para a pequena ganhar peso, desenvolver os pulmões e ficar linda e saudável e prontinha para nascer. Mas a questão que me assola é: onde é que vai caber mais bebê dentro desse corpinho limitado e pelos próximos dois meses? A barriga já cresceu para todos os lados, os músculos dão sinais de estarem em sua extensão máxima, tudo parece caminhar para uma explosão iminente. Sabe aquelas brincadeiras de criança em que você enche a bexiga até ela estourar e tem um momento em que parece que não vai dar mais e a bichinha distende, distende, fica fininha, fininha, transparente e… bum! Então… E como nessa busca por espaço cada milímetro deve ser otimizado, a pequena achou por bem alojar seus belos pezinhos sob as minhas costelas. O que significa cócegas nas costelas, dedadas nas costelas, alongamentos nas costelas, chutes nas costelas… socorro! Aliás, eu que nunca entendi direito para que as tais costelas serviam, acho que finalmente captei: são a barra de exercícios do bebê na barriga, as danadas.

E todos os órgãos que se alojavam confortavelmente nesse espaço? Bom, minha teoria é que agora todos se acumulam no espaço entre meu osso externo e a minha garganta. O estômago, por exemplo, foi parar na garganta, tenho certeza absoluta. Basta comer qualquer coisa tão infinitamente pequena como um amendoim e ele já dá sinais de vida ali, na garganta, onde tudo entala e permanece por horas e horas e horas e horas… E como conciliar a fome com o embolamento do estômago que você sabe que vai vir a cada vez que você comer porque, simplesmente, ele deve estar morando ali na sua garganta junto com as suas amídalas, seu coração, seus pulmões, seus rins, seu pâncreas, seu fígado… Todo mundo enlatado feito sardinha no ônibus do final do dia.

E a bebê nas suas costelas. E você já não enxerga mais nada abaixo da sua barriga. E seus pés se tornaram seres distantes e alienígenas qual um E.T. com quem você passou a ter grande dificuldade de fazer contato. E.T. phone home. Venham, venham para casa pezinhos, venham para a mamãe que existem unhas a serem cortadas. Bom, além de entender a utilidade verdadeira das costelas, renovei meus amores pela manicure.

A sorte é que no sétimo mês a gente se diverte arrumando o quarto, as coisas do bebê, brincando de decoradora, arquiteta, pintora, personal stylist, lavadeira, passadeira. Deve ser o modo de adiantar tudo para tentar adiantar o tempo e acreditar que é para logo em breve. O tempo, ah, esse senhor que se revela em toda a sua complexidade quando estamos grávidas, passando tão depressa e tão devagar a ponto de deixar qualquer um maluco. Einstein devia ser uma mulher grávida quando inventou a teoria da relatividade.

E a tal curiosidade? Como será o rostinho dela? Será o nariz da mamãe ou do papai? O sorriso da mamãe ou do papai? E as mãozinhas? Os pezinhos, esses danados que eu vou morder muito depois que a pequena nascer, só para descontar o dano costelento provocado. E o cabelo? Será que vai ter muito cabelo? E os olhos? E nisso se vai uma bela meia hora de devaneios, sonhos e tentativas de antecipar o tempo e saber do futuro que está logo ali, pés nas costelas e dois meses adiante. Esse futuro que tem nome, sobrenome, lugar, quarto, berço, roupas, fraldas, cortador de unhas, aspirador de nariz. E amor, amor de todas as partes e de tantas gentes que ela nem imagina.

Fica mais um pouco na barriga, bebê. Vamos cuidar desse pulmãozinho para você respirar bem esse ar fresco que tem feito aqui fora. E, por favor, nada de estragar esse belo trabalho que mamãe e papai fizeram virando fumante, ok? Ai, putz…

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984

George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães

D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.