Novas paragens

Está ali no post anterior: decidi voltar a escrever mas, como não quero me restringir ao assunto maternidade e filhos, criei um novo blog. Mais livre, mais solto, menos sério. Ou talvez não. De todo modo, a cada vez que escrever algo relacionado à maternidade, coloco aqui o link, para quem quiser acompanhar e discutir, ok?

Nesse post recente escrevi sobre a amizade entre as crianças. Espero que gostem. Um abraço.

Um ano

Há um ano atrás, nossas vidas mudavam mais uma vez. Chegava o menino loiro do sorriso largo repousado em covinhas e do olhar doce, terno e profundo.

Há um ano atrás, eu descobria que amor multiplica.

Há um ano atrás, teu pai descobria o aconchego dos braços largos que fazem dormir em total confiança.

Há um ano atrás, tua irmã descobria a alegria de ter um amigo da vida inteira.

Como você cresceu, meu menino!

As memórias relampeiam acontecimentos desse ano… as mamadas, os sonos da tarde tranquilos ao meu lado, as descobertas das luzes, das sombras, dos movimentos. Os primeiros sorrisos já anunciando os grandes sorrisos largos que iluminam o rosto inteiro e todos os corações em volta. O balançar animado, os primeiros jogos por vezes desajeitados com a irmã. O encantamento com essa irmã tão pequena e tão grande. O dedo na boca, o esforço conquistado em segurar objetos e cores e sons tão interessantes… o amor pelos sons, pela música que faz sacolejar o corpo. A tranquilidade de cada momento e os choros das necessidades, dos incômodos, dos desconhecimentos. Os passeios pelos campos e pela beira do mar. Teu prazer com o vento batendo no rosto, os olhos meio apertados. Poder tocar as folhas, as flores, os pezinhos na água fresca do mar, a vontade de comer areia.Os encontros com a família, com os amigos, os colos, os encontros entre bebês. Tentar virar, tentar sentar, engatinhar e rir e sorrir e rir de poder conquistar o mundo inteiro, de poder ir e vir, de poder conhecer novamente todos os lugares pelas próprias pernas. Os armários abertos, os objetos encontrados, as batucadas com a louça da cozinha. As histórias e os livros de história, passar um tempão em silêncio concentrado, observando, aprendendo, olhando, sentindo até entender. Buscar entender o mundo. O conforto dos abraços, a graça dos beijos, as cócegas dos sopros na barriga que você mesmo aprendeu a fazer. As risadas… ah, as risadas francas e declaradas com a irmã. Os dois deitados olhando os brinquedos, os dois sentados brincando, uma testa na outra, dois sorrisos, duas risadas francas, a cumplicidade. Os passeios de bicicleta com o papai, a convivência com os amiguinhos da creche, as reclamações quando sentiu saudades demais, as reivindicações de atenção e presença.

Um dia, em um final de tarde, brincava ao meu lado sentado no tapete. E então me distraí um pouco até sentir um cutucão em uma das pernas. Você estava de pé, segurando na borda do sofá com seu olhar imenso pregado em mim e um sorriso estampado na cara como quem espera meu olhar apenas para dizer: “olha, mãe, consegui!”.

Você conseguiu, meu filho. Você conseguiu nos ensinar que nenhuma tristeza resta indissolúvel no amor do seu sorriso.

Parabéns pelo dia de hoje. E por todos os dias.

Aquela história de ter ou não filhos…

Noutro dia fiquei sabendo que existe um movimento childfree. Foi por meio de um post do blog da Isa, que eu leio e do qual eu gosto muito. E ao mesmo tempo que fui informada sobre o movimento, descobri também uma querela entre as mulheres childfree e as mães, ofendidas pelo modo como as primeiras se referem à maternidade, às mães e a seus filhos. Não contente, dei uma olhada também em algumas dessas páginas childfree. E encontrei alguns posts bem interessantes sobre legalização do aborto, controle de natalidade, anticoncepção e sobre a dificuldade em se ter acesso à uma laqueadura, coisa da qual nem desconfiava. Mas a parte menos interessante da história foram os posts, montagens e comentários bastante agressivos, cheios de ódio às mães e às crianças, como se a culpa da obrigação em ser mãe fosse das mulheres que são mães e de seus filhos e não uma construção social, cultural, histórica a qual todos endossamos de alguma maneira. E, lógico, os contra-ataques das mães alegando que mulheres que não têm filhos não são completas, não se realizam, são mal amadas, não tem Deus no coração, vão morrer sozinhas e mais um tanto de coisas que são de um clichê, de uma falta de reflexão que nem sei se preciso explicar. Ou se quero. Fato é que lendo tudo isso me deu uma vontade de escrever algumas coisas, não sobre a parte bobinha, infantil e quase ridícula desses insultos que eu li por aí atribuídos ao movimento childfree, nem das respostas ainda mais tolas e sem inteligência alguma, mas sobre algumas coisas bem legais que essa discussão permite pensar. E que dizem respeito a poder se questionar sobre querer ou não ter um filho. Porque, sim, mulher, uma das coisas que você precisa aprender a começar a se perguntar, cada vez que a idéia passar pela sua cabeça é: por que eu quero ter um filho? Você não apenas precisa ter o direito de se colocar essa questão, como tem a obrigação de fazê-lo. E de se virar para encontrar uma resposta. Difícil? É. Então, vamos por partes.

Em uma outra vida eu fui casada. Sim, pois é, tive um casamento anterior ao meu encontro com o cara-metade, com o qual tenho dois rebentos. Então, nessa época desse primeiro casamento, passamos muitos e muitos anos sem querer ter filhos. E por que? Porque a cada vez que pensávamos e discutíamos a respeito, parecia não fazer o menor sentido.

O mundo está superpovoado, já não temos mais nenhuma obrigação de garantir a sobrevivência da espécie. E, enquanto espécie, a humanidade não tem se mostrado tão viável assim, né? Usamos, exploramos e destruímos tudo ao nosso redor, muitas vezes sem necessidade. Matamos, sujamos, poluímos, extinguimos… o planeta, a natureza, os recursos naturais, as outras espécies vivas…  E nem podemos dizer que entre nós somos melhores do que com tudo o mais que nos cerca, se considerarmos a maneira como o ser humano trata o seu semelhante. Nesse quesito também não estamos para dar exemplo de espécie que cuida ao menos da própria preservação. Violência, desonestidade, mentira, desigualdade, exploração, crueldade, humilhação, preconceito, racismo, misoginia, xenofobia, homofobia… para que impor tudo isso a um outro ser? Para que criar alguém e colocá-lo nessa fria? Apenas para compartilhar nossa própria desgraça? Colocando tudo isso na balança, com o primeiro marido, encerrávamos cada conversa com um tom de perplexidade, nos perguntando por que mesmo teríamos filhos em um contexto nefasto como esse. E não encontrávamos respostas.

Algumas vezes, amigos com filhos participavam dessa discussão. Começavam animados com ganas de nos convencer e terminavam deprimidos. Na época eu sentia uma forma de desespero dos casais amigos com filhos em tentar convencer todos ao redor a, com o perdão da palavra, chafurdar na mesma merda que eles. Porque todo mundo na mesma merda é desgraça compartilhada. E, mais do que isso, porque quando todo mundo segue os mesmos rumos que a gente, não nos sentimos obrigados a questionar nossas decisões. Se tem uma coisa que perturba essa nossa espécie humana é a diferença, porque quando alguém pensa diferente isso nos obriga a pensar na vida que levamos. E nem sempre chegamos a boas conclusões quando nos embrenhamos nessa auto-análise.

Uma época a dúvida veio. Convencidos que estávamos, abrimos uma brecha e cogitamos… e se? Ao menos para mim, bateu o medo do arrependimento. E se não tivesse filhos e mudasse de idéia depois, quando fosse tarde demais? Porque para muita coisa nessa vida a gente pode guardar a ilusão de que sempre podemos voltar atrás, mudar de idéia, mudar de rumo e essa ilusão nos dá o consolo de que nossas decisões não seriam tão definitivas, tão drásticas. Mas quando o assunto é filhos, mesmo com as aberrações e com as inovações tecnológicas que tentam empurrar esse limite cada vez mais para frente, existe um fato e existe um limite, um limite do próprio corpo da mulher que, mesmo turbinado, uma hora não dá mais conta. Fim. Acabou. Não vai acontecer. Quem segura a onda de uma decisão assim? Ah, mas sempre pode adotar. Claro que pode. Mas adotar dificilmente é a primeira opção na cabeça de qualquer pessoa que em algum momento da vida cogita ter filhos. Sigamos.

Eu por medo, ele por não sei que motivação, certamente com um monte de clichês agindo nas nossas cabeças, um monte de pressão social, familiar e o escambau para dar um up nas nossas dúvidas e nos nossos receios, enfim, tudo junto e misturado e eis que decidimos mudar de idéia e… não veio filho nenhum. Isso sim é um golpe na nossa onipotência, né? Achamos que podemos decidir se sim ou se não, por quais motivos, quando, como e com quem e daí decidimos tudo e a vida, essa danada, se encarrega de não seguir o nosso script. E a paulada foi tão grande que o casamento acabou. Não por isso, minha gente, que nenhum casamento acaba por não poder ter filhos assim como nenhum casamento fica em pé quando temos filhos apenas pelo fato deles existirem. Mas esse golpe somado a outros, à vida, às mudanças… fim de uma história. Que foi muito boa e feliz. E que não teve filhos.

Roda o filme e lá vou eu pela vida elaborando esse luto de não poder ter filhos. Não queria, depois quis e não deu. E isso doeu. A contrariedade doeu mais do que o fato em si, provavelmente. Isso de querer e não poder. Somos mimadinhos, nós humanos, né? E o tempo foi passando e eu me assentei com essa história e criei uma vida que me fazia muito feliz. Feliz mesmo, não aquela felicidade de foto em rede social para parecer a mais feliz do mundo e ganhar muitos likes. Amava meu trabalho, meus amigos, minhas gatas, minha casa, minha família, meus amores, minhas viagens… Tudo ia bem, estava bem na minha própria pele, coisa mais rara dessa vida de se conquistar. Vão por mim, eu sei do que estou falando não apenas por experiência pessoal como também por vício profissional, encontrar gente verdadeiramente bem encarnado na própria pele é mais raro que encontrar trevo de quatro folhas, ver uma estrela cadente ou ganhar na loteria.

Nessa época boa, conheci o cara-metade. E ficamos juntos. E o bonito disso foi que ficamos juntos quando eu não estava “precisando de homem”, “desesperada para casar”, “com medo de morrer solteira” nem nada dessas frases atrozes com as quais as pessoas em geral insistem em presentear qualquer mulher que, a partir de uma certa idade, não esteja casada e com filhos. Já tinha vivido essa fase, já tinha ido embora, já estava em outra. Pessoalmente, profissionalmente e, o mais importante, emocionalmente, eu já não me sentia mais na obrigação de provar nada para ninguém. Nem para mim mesma. Vim, vi, venci. Ponto. E encontrar um cara-metade nesse estado de alma é como um bônus, não é uma necessidade, nem uma busca. É um acontecimento.

Quando, certo dia, esse sujeito me disse que teria filhos comigo, acendeu uma luzinha ali dentro do meu ser: “filhos? como assim? por quê?”. A vida estava tão boa, onde os filhos se encaixavam nessa equação? E então aconteceu uma coisa meio inesperada (calma, não fiquei grávida, não nesse dia). O inesperado foi que, pela primeira vez, eu pensei que gostaria de construir uma família com esse homem. E esse motivo, que foi menos uma racionalização do que uma evidência, foi o que me serviu como resposta para a questão do por que ter um filho.

Essa é a resposta? Não, essa é a minha resposta. Poderia ter sido outra. Poderia ter sido qualquer uma que me levasse à conclusão oposta. Respostas são pessoais e não merecem ser generalizadas. Minha resposta serve apenas para ilustrar uma coisa que penso que esse movimento childfree provoca com sua postura por vezes tão agressivamente contra a maternidade: é obrigatório colocar a questão.

Para sustentarmos posições e decisões nessa vida que vão contra a maioria, contra o estereótipo, contra as convenções sociais, somos obrigadas a pensar muito, a nos munir de argumentos e, principalmente, a termos um razoável grau de conhecimento de nós mesmas e daquilo que nos mobiliza. Por quê? Porque para defender uma posição dissonante, que vai ser atacada das formas as mais baixas e por todos os lados, é preciso força. E a força vem da reflexão, do pensamento, do autoconhecimento e, ouso dizer, da coerência consigo mesma. Então, só posso supor que talvez uma boa parte das mulheres que aderem a esse movimento childfree tenham um razoável conhecimento delas mesmas, uma razoável experiência de reflexão, de luta consigo mesmas até terem chegado ao ponto de decidirem não ter filhos. Porque decidir isso, afirmar isso, na nossa sociedade e nos dias de hoje que parecem tão bizarros e obscurantistas, é quase uma heresia.

E elas deveriam apenas ter o direito de decidir não terem filhos. Sem que ninguém tenha que questionar, opinar, condenar, criticar. Ninguém tem nada com isso. É um direito das mulheres não ter filhos. Simples assim. Que elas tenham que se agrupar para se apoiar mutuamente contra essa enxurrada de condenações moralistas, cruéis e equivocadas, só prova o quanto é difícil sustentar uma posição dissonante. E o quanto precisamos de companhia para não sucumbirmos sozinhas.

As mulheres que são mães, ou as que querem ser mães, teriam muito a aprender sobre esse questionamento de si com as mulheres que não querem ter filhos. Sobre perguntar de onde veio essa vontade, sobre se indagar até que ponto somos manipuladas, condicionadas, educadas, pressionadas, seduzidas e obrigadas à maternidade, como se essa fosse a única via para uma mulher existir. Deveríamos poder nos perguntar a cada momento sobre o que condiciona nossas decisões, o que está em jogo, o que movimenta os nossos quereres. O que norteia o nosso desejo? O quanto da gente? O quanto do outro?

E aí eu penso que também as mulheres childfree poderiam e deveriam se desarmar um pouco em relação às mulheres que são mães. E orientar os ataques a quem de direito. Porque mulheres mães alienadas, que são levadas pelo mar dos acontecimentos sem pensar, sem se perguntar, achando que tem que ser assim porque disseram, porque seus pais, porque Deus, porque o filme romântico que assistiram… bom, isso tem de monte. E é muito chato mesmo ter que argumentar com quem nem ao menos se dá conta de que está fazendo papel de boneco de ventríloquo. Mas… agredir essas pessoas, serve para o que exatamente? Ironizar suas escolhas, que nem escolhas são, a quem serve essa e outras tantas guerrinhas entre as mulheres?

Na experiência da maternidade existe o insondável. Você pode se colocar em risco, pode se colocar em questão, pode decidir ter ou não ter filhos. E nada disso garante que você vai ser feliz o tempo todo com a decisão que tomou. Senão não seria a vida, seria mais um filminho bobo, né? Pode ser que mulheres que decidam não ter filhos se arrependam. Pode ser que mulheres que decidam ter filhos se arrependam. Isso não tem nada a ver com a decisão, isso pode ser apenas o curso da vida. As coisas mudam, decisões acertadas em uma época podem não fazer mais sentido depois. E, com filhos, essa mudança não faz com que se possa voltar atrás, nem para quem teve, nem para quem não teve. E tudo bem. Ou não.

Sou feliz com a decisão de ter tido filhos. Principalmente, sou feliz com a conjuntura de tê-los tido mais tarde, e de não ter a sensação de que perdi coisas, de que deixei de fazer coisas, pois vejo tudo o que fiz e não gostaria de ser aquela pessoa que tinha aquela vida mais do que gosto da vida que tenho hoje. Tem momentos difíceis? Tem. Tem perrengues? Tem. Mas fiz a melhor escolha.

O que vale para mim não precisa valer para nenhuma outra mulher. Tenho grandes amigas que não tiveram filhos. E outras tão próximas quanto e com filhos. Nenhuma delas escapa de seus momentos de dúvidas, de arrependimento, de questionamento. Nenhuma. Nenhuma delas vive uma vida sem dificuldades. Mas nenhuma delas está totalmente infeliz. Qual a dificuldade, ao menos entre mulheres, de respeitarmos e apoiarmos que cada mulher tenha o direito de ser e de viver como quiser?

 

Mas no meu tempo…

Vou começar pelo óbvio, que parece que as pessoas que adoram esse mote desconsideram: o seu tempo é hoje. Isso posto, vamos aos fatos.

Vira e mexe vejo pessoas discutindo a respeito da infância e de seus filhos utilizar esse argumento: “ah, mas no meu tempo é que era bom, era assim, era assado”. De que tempo estão falando? Podem estar se referindo ao tempo de suas infâncias. Mas esse era mesmo o seu tempo?

Quem argumenta dessa maneira desconsidera que o tempo de nossa infância é tudo menos o nosso tempo. Ele é, essencialmente, o tempo de nossos pais, de nossos avós, daqueles que são os adultos daquele tempo e que fazem com que a vida seja tal qual ela é. Aquele tempo é o tempo de quem tomou as decisões, não de quem as vive de forma passiva.

O nosso tempo é o de hoje, quando nos tornamos adultos e participamos ativamente na criação desse mundo que nos cerca. E é aí que talvez possamos entender melhor porque existem pessoas que gostam tanto de dizer “no meu tempo…”

No meu tempo te libera de qualquer responsabilidade pela vida tal qual ela é hoje, como se o mundo atual fosse um acaso que tivesse despencado sobre a sua cabeça sem que você nada tenha feito para isso. No meu tempo as crianças brincavam livres pela rua. E quem é que guarda as crianças de hoje em dia trancadas em apartamentos e condomínios fechados, coladas na TV, no tablet e no celular? Ah, mas hoje em dia é muito perigoso deixar as crianças na rua. Sim, e de quem é a responsabilidade por esse perigo, de um mundo que ficou assim a sua revelia ou de escolhas que fizemos, enquanto sociedade, por manter desigualdades e criar tensões sociais que aumentam diretamente a violência? Escolhas e decisões das quais você participa e as quais você reforça quando opta por se encastelar no seu prédio cheio de câmeras e fios de arame farpado como uma vítima impotente de um destino cruel ao invés de reivindicar a rua e de agir para que ela possa ser ocupada até mesmo pelas crianças.

A pessoa que argumenta com o famoso “no meu tempo” se exime de pensar, de se implicar no tempo em que ela é adulta e potencialmente agente da situação, se acomoda e se acovarda numa situação dada, que ela alegremente transmite aos seus filhos na maneira como os educa. Sem nenhum questionamento, sem nenhuma rebelião, apenas aceitação. Dizemos “no meu tempo” como se o passado que parece tão melhor fosse obra nossa e o presente fosse fruto de qualquer um menos de nós mesmos.

Não foram os seus filhos que fizeram o tempo de hoje, eles farão os tempos de amanhã e talvez possam fazê-lo muito melhor do que aquilo que fizemos. Mas se o tempo atual está tão pior do que o tempo da sua infância é muito provavelmente porque você trabalhou muito menos do que os seus pais para construí-lo bem. Ou porque se acomodou na idéia do “meu tempo” como um tempo sempre passado e não se deu conta que precisaria agir e fazer um grande esforço para ter um tempo que julgasse bom.

As pessoas que gostam de dizer “no meu tempo” para discutir infância e crianças são as mesmas que gostam de dizer “nós fizemos isso e sobrevivemos”. O argumento do sobrevivente é a sequência óbvia para o argumento da nostalgia do tempo que passou. E ao mesmo tempo é sua negação. Porque quem viveu num tempo tão maravilhoso não precisaria ser um sobrevivente, né? Não teria que justificar que passou por situações difíceis ou que foi o alvo de decisões questionáveis e que conseguiu ultrapassá-las. Se “o meu tempo” tivesse sido tão bom assim, por que você teria que ter “vivido e sobrevivido” a ele?

A infância é uma fase da qual guardamos lembranças que misturam realidade e ficção. Muito do que foi nossa infância nos resta como memória à partir do que nos contam os adultos. São os adultos, os verdadeiros senhores daquele tempo, que nos repetem o que aconteceu através de seus relatos, de fotos, de vídeos, de testemunhos. E nós acreditamos nessa versão porque ela é parte importante da colcha de retalhos que precisamos montar cada um de nós a fim de termos alguma referência do que foi que vivemos. Boa parte, sobretudo de nossa primeira infância, fica em algum lugar recôndito de nosso ser, esquecida, presente apenas em traços que quase não são memórias… um cheiro, um gosto, um clima, um déjà vu. Existe aquilo de que lembramos e aquilo que criamos como lembrança e tudo isso nos compõe. Muitas vezes em análise as pessoas chegam por conta de um sofrimento decorrente entre essa memória criada e alguma sensação dissonante de que algo ali não bate e o trabalho é feito no sentido de aproximar essa sensação de discrepância de algo que pareça uma memória mais coerente com aquilo que a pessoa sente ou intui. Tudo isso para dizer que “no meu tempo” desconsidera também que esse tempo tão bom é uma construção, repleta de muitas verdades e de muitas farsas, que serve para quem você é hoje mas que pode conter em si muitas áreas de desconhecimento, de sombra ou, até mesmo, de mentira.

Uma mentira possível é aquela que os advogados do “no meu tempo” também gostam muito de propagar: a de que nas suas infâncias tão felizes, seus pais eram muito mais relaxados, tranquilos e menos pressionados do que os pais de hoje em dia em relação à educação de seus filhos. Como se os pais tivessem, naquela época, a sabedoria de deixar seus filhos brincando entre si enquanto conversavam alegremente entre adultos, cada qual livre para viver sua vida de criança ou de adulto sem que um interferisse no prazer do outro. As pessoas que lançam essas memórias de pretensa liberdade de adultos em relação aos seus próprios filhos, como se nos pais sim tivessem tido a capacidade de não ficarem escravizados ou assombrados pela infância e por suas crianças, esquecem de perguntar a esses mesmos pais e, especialmente, às suas mães, como é que era realmente o cotidiano de seus cuidados.

Quem se dá ao trabalho de confrontar idealização com realidade indo falar com os próprios pais talvez perceba que, sim, eles tinham a tranquilidade de deixar os filhos brincar na rua. Ou brincar longe deles durante uma reunião entre amigos. Mas essa aparente descontração não significa que eles não estivessem repletos de preocupações ou de pressões em relação aos seus filhos e à sua criação. Se na época de nossos avós o melhor que se podia oferecer para uma criança era que ela fosse à escola e pudesse ao menos saber ler e escrever, é justamente na geração de nossos pais, aquela em que há um salto por conta dos estudos para muitas e muitas famílias, que oferecer aos filhos apenas a alfabetização não é mais suficiente. É importante ir além, é importante ir para a faculdade. E poder trabalhar e ganhar a vida decentemente. Então, possivelmente nossos pais não estavam preocupados com agrotóxicos na comida (porque isso apenas começava a existir) ou com excesso de hormônios no leite de vaca (porque o leite era melhor e menos turbinado naquela época). Mas eles se preocupavam, se estressavam, se sentiam pressionados por eles e por seus pares a nos darem o melhor daquilo que se concebia como melhor naquela época. Ou seja, a maternidade e a paternidade nunca foi algo sem pressão, sem questionamentos, sem críticas ou sem dúvidas.

Ou talvez sim, tenha sido. Historicamente, ter filhos era outra coisa até o momento em que a infância passou a ocupar o centro das atenções das famílias. Mas isso aconteceu quando a família, que era extensa e englobava várias gerações e vários graus de parentesco passou a se centrar na família nuclear. E as crianças, que eram mini adultos considerados apenas como mão de obra se tornaram, pouco a pouco, crianças na acepção que se tem do termo nos dias de hoje. Só que essa mudança não aconteceu da geração anterior para a nossa, como parecem pensar os defensores do “meu tempo”, um tempo onde a infância seria totalmente diferente do que se vê nos dias de hoje. Não, a idéia de infância como existe hoje, assim como a idéia de família e até a idéia de centralidade da infância são construções históricas que começaram mais ou menos no século XVI. Para quem tem dúvidas, basta ler Philippe Ariès. Já faz alguns séculos que a infância e as crianças estão “no centro” das atenções das famílias, mesmo que o que possa ser considerado como foco de atenção possa variar de uma geração a outra.

Então, as pessoas do “no meu tempo” e do “fiz e sobrevivi” parecem precisar desses argumentos que as colocam em um passado ideal sem nenhuma responsabilidade pelo hoje que existe para fazer frente a algo que as angustia muito, assim como angustia a qualquer que tenha filhos e que elas chamam de “centralidade dos filhos” na vida familiar atual. E, para isso, elas citam exemplos de pessoas preocupadas com educação, alimentação e todos os outros aspectos da criação dos filhos como potenciais escravos dessas crianças, que se tornariam tiranos. Além de ser um argumento de gente que não quer se mexer e que parece ficar incomodada que outros queiram, me espanta a cada vez que o escuto, principalmente quando usado para falar de nosso filhos, sua mediocridade e sua pobreza de espírito.

Se formos traduzir, esse argumento das pessoas que se irritam com quem busca informações, alternativas, referências e, em suma, se questiona permanentemente é uma espécie de elogio da ignorância e do imobilismo. Como “no meu tempo” era diferente e minha memória construída desse tempo é boa e como, corroborando o que eu acredito está o fato de que eu estou aqui, estou vivo e me julgo alguém legal, logo, no que diz respeito aos meus filhos, basta replicar o que eu vivi. Não importa que se passaram 30 anos entre a minha infância e a dos meus filhos, não importa que nesse meio tempo descobriu-se que açúcar causa obesidade, por exemplo. Se eu tomava refrigerante e estou aqui, o pimpolho também vai tomar. Porque, de que importa que as informações surjam, que pesquisas sejam feitas, que pessoas questionem, que novos modos de entender apareçam?

O que essas pessoas fazem é um elogio da ignorância e da mediocridade contra quem quer que pense ou aja diferente. E que é rapidamente taxado de excessivo, escravo dos filhos, criador de tiranos em potencial. Na sua preguiça em rever a si e aos seus conceitos, na sua inércia em agir no mundo e no tempo atuais, acomodam-se no “seu tempo” e no “eu vivi” e se regozijam uns com os outros a cada vez que aparece um novo texto sobre maternidade sem complexos, sem cobranças e sem neuras. Todos os outros ficando do lado das neuras e da cagação de regra.

Será mesmo que os pais dessas pessoas, os pais e as mães dessas pessoas que pregam a coolitude a qualquer preço em relação à maternidade e à paternidade estavam assim tão tranquilos no tempo deles? Ou será que são esses pais que estavam se esforçando em tudo aquilo que eles julgavam essencial na época para mudar o mundo, para construir um mundo melhor e para dar a esses filhos melhores condições e um ponto de partida diferente do que tiveram? Se os pais dessas pessoas tivessem ficado com essa lógica que elas adoram do “no meu tempo”, eles não teriam ido para a escola além da quarta série, nem teriam ido para a faculdade, não teriam viajado para conhecer o mundo, nem teriam ido a museus, peças de teatro ou concertos de música. Porque “no tempo” dos nossos pais, nossos avós tinham outras preocupações, outras prioridades, outras pressões e, portanto, outras ações em relação aos seus filhos.

Se toda gente ficasse acomodada nessa lógica do “meu tempo”, crianças não seriam vacinadas porque houveram gerações de pessoas para as quais não haviam vacinas e que, mesmo assim, sobreviveram. Crianças nem iriam à escola porque houveram gerações de crianças que iam diretamente ao trabalho e, quando muito, a centros de formação técnica, que é o que existia na Idade Média tardia. Crianças cujos pais foram apenas alfabetizados se preocupariam apenas que seus filhos soubessem assinar seus nomes. E pais que viveram a fome se preocupariam que seus filhos pudessem apenas comer e não comer o mais saudavelmente que cada época pode proporcionar. Apenas para viajar em alguns exemplos.

E é bom lembrar que estamos falando apenas de uma certa camada da sociedade, de uma certa parte desse país. Essa camada que mais ou menos compõe a classe média atual das grandes cidades. Porque em muitos lugares do Brasil (e até mesmo do mundo) crianças brincam nas ruas livremente, crianças brincam entre si enquanto seus pais conversam, crianças andam descalça e não ficam na frente do computador, da TV e nem cumprindo agenda de ministro. Aliás, se essas pessoas do “meu tempo” olhassem um pouco para além de seus próprios umbigos, veriam que as questões delas são também questões específicas, não generalizáveis, nem historicamente e nem ao menos em um mesmo país, em uma mesma classe social, em uma mesma cidade. São questões preguiçosas de gente que, ao invés de assumir suas escolhas por ficar na lógica do “meu tempo”, do “fiz e não morri” para se oporem às crianças tiranas que tanto as assombram, preferem ainda uma vez não assumir responsabilidade nenhuma, nem por suas posições na vida e em relação aos filhos, criticando e jogando a culpa nos outros, que são mostrados como os equivocados.

Nos tempos de hoje temos a vantagem e ao mesmo tempo a condenação de termos em mãos o acesso à muitas e desencontradas informações. E isso, em todos os domínios, inclusive no que diz respeito à infância. Para muitos de nós, isso funciona como uma espécie de fantasma, como se tivéssemos que dar conta de tudo o tempo todo sem errar. Consequências do nosso tempo, que se torna angústia e sofrimento para muitos e essa reação tosca de recusa para outros. Será mesmo que para acabar com a angústia é necessário se fechar nesse passado ideal e nessa recusa em se mexer? Se isso funcionasse para acabar com essa angústia, por que então as pessoas do “no meu tempo” se sentem tão propensas a escrever sua defesa permanente de sua posição?

Em tempo, as pessoas falam da centralidade da infância como se a criança de hoje fosse o centro do mundo e tudo girasse em torno dela. E, para defender esse argumento, usam o exemplo das crianças que fazem milhares de atividades e cujos pais passam os dias a levar e trazer e a seguir crianças em atividades e programas de crianças sem fim. Nem vou mencionar novamente o quanto isso é uma realidade parcial, localizada no tempo e no espaço e totalmente diferente do que ocorre na imensa maioria do Brasil. Limito-me à perguntar o que sempre penso quando escuto essas afirmações: será que isso é mesmo uma prova da centralidade da criança nas famílias atuais? Será isso mesmo uma demonstração da tirania das crianças e das infâncias que escravizam os adultos? Ou será que é justamente o contrário, uma demonstração de um modo de agir no qual a criança é apenas refém de um leva e traz infinito, através do qual ela é delegada a tudo e a todos, na esperança e na aposta de que toda essa ação, de que todas essas atividades, de que todas essas outras pessoas consigam preencher um vazio daquilo que justamente não podemos, não queremos ou não conseguimos dar, a condição e a importância central que essa criança deveria ter substituída por uma performance que serve de vitrine e de justificativa para os outros? Será que a criança tirana não é, na realidade, a criança que, frente a essa ausência, frente a essa falta do essencial, começa a adoecer, a se rebelar, a dar trabalho e dar problema, convulsionando frente a esse contexto que mais a violenta do que a leva em consideração?

O que será que essas crianças de hoje vão dizer do “seu tempo”?

 

Vida lá, vida aqui

Ou coisas que ganhamos e que perdemos vivendo fora do país. Ou as fases pelas quais passamos vivendo fora. Ou, os dilemas de ser estrangeiro. Ou… ah, chega de prolegômenos e vamos ao que interessa!

Vira e mexe aparecem uns textos de pessoas contando como é viver fora do Brasil e sobre o que aprenderam com isso. De pessoas que viveram em algum outro país por um curto período de tempo, por conta de estudos ou trabalho, ou de gente que foi por algum motivo e acabou ficando. O mais recente falava que viver fora é para os fortes. Depois de mais um período de férias no Brasil, diria que não sei. Talvez viver ali seja para os fortes. Talvez simplesmente viver seja para os fortes. Ou, talvez, viver seja apenas viver. E ninguém precisa de uma medalha de força e coragem por conta disso. É o que fazemos.

Logo que chegamos a um outro país, das duas, uma: ou nos fechamos num queixume sem fim e vivemos num gueto, fazendo programas brasileiros, entre brasileiros, falando português, comendo comida brasileira e comparando tudo sempre entre lá e cá. Ou temos a impressão de estarmos em um lugar que corresponde a algo profundo em nós mesmos, como se estivéssemos no lugar certo pela primeira vez na vida e finalmente pudéssemos viver. Conheço histórias dos dois tipos, de gente que foi e voltou sem nunca ter realmente vivido onde estava, gente que queria recriar sua realidade brasileira em um novo lugar, sem se abrir para absolutamente nada de novo. E histórias de gente que chegou e mergulhou nessa diferença que traz o delicioso sabor de uma liberdade inesperada. Uma espécie de coerência entre o lugar em que você vive e você mesmo. No meu caso específico, pertenço ao segundo grupo.

Quem vai para outro país por conta de estudos ou pesquisa parte em um contexto bastante privilegiado. As universidades, em qualquer lugar do mundo, costumam ser lugares em que a troca e a abertura ao outro é bem recebida e até incentivada. Por todo canto do mundo existem programas de intercâmbio, bolsas de estudo, pesquisadores convidados, parcerias entre universidades… Então temos uma chegada pela “porta da frente”, facilitada, bem vista, felicitada.

Mas esse modo de chegar, de início provisório, também cria uma bolha tão sectária quanto a do gueto: quem chega para passar um tempo, por maior que seja, como estudante, doutorando, pesquisador, estagiário não vai se confrontar com muitas facetas da realidade da vida em um outro país. Apenas quando você precisa lidar com tarefas muito cotidianas como declarar impostos, solicitar documentos, utilizar serviços de saúde, trabalhar é que começa a sair dessa zona de conforto de estar com um pé aqui e outro lá – estar em lugar nenhum – para se encontrar no lugar de estrangeiro vivendo noutro lugar.

Na minha experiência foi impactante a mudança desse lugar de estudante e pesquisadora convidada por uma universidade, o que me trouxe até aqui, para o lugar de alguém que iria ficar. Um choque de realidades. E ter que, de uma hora para outra, reaprender a viver.

Morar em outro país é ter que reaprender a viver. Em outra língua, em outra cultura, com outros códigos. Coisas evidentes como autenticar um documento ou chamar um encanador para desentupir um encanamento tornam-se, de um dia para outro, complicações praticamente insolúveis. Onde precisa ir? Com quem precisa falar? Como é que diz cano entupido em francês? Putz!

Então, depois dessa lua-de-mel que pode ser o começo de vida fora do seu país de origem, e que pode durar mais ou menos tempo, quanto mais sua situação pareça provisória e quanto mais seu encontro com o lugar onde vive seja superficial e não resvale muito nos aspectos difíceis… bem, depois do romance, vem a realidade. E ela parece tão menos agradável quanto menos você a compreenda.

Aquilo que você não entende e não sabe como fazer, como pedir ou como acessar esbarra, muitas vezes, na falta de abertura e na insensibilidade dos “locais”. Desencontros de costumes e linguísticos se misturam com preconceitos, racismo, xenofobia e você acaba acreditando que aquela recusa, aquele atendimento grosseiro, aquela dificuldade em fazer o óbvio são contra você. E leva muito tempo para conseguir distinguir o que é xenofobia do que é apenas um funcionamento burocrático e burro ao qual todos daquele país estão igualmente sujeitos. E isso se repete tantas vezes que você fica desencantada, com raiva, ressentida. Aquelas pessoas, aquele país, não te querem ali.

Isso é uma verdade que cedo ou tarde todo estrangeiro descobre. Quem quer estar ali é você. Então cabe à você uma boa parte do trabalho e do esforço. Isso não exime o país que te acolhe de fazê-lo de fato. E não exime as pessoas de aprenderem sobre hospitalidade. Mas você também vai ter que se mexer se quiser criar uma vida possível em outro lugar que não onde tudo era mais confortável. E, nossa, como tudo parece mais fácil e mais simples e mais bonito e mais saboroso e mais simpático e mais colorido e mais tudo de bom no Brasil desde que você não vive mais ali.

Um dia você acorda e se passaram três, quatro, cinco anos. Você finalmente percebe que o que era provisório tornou-se mais permanente do que imaginava. E então começa aquele período de arrumar a casa. Você se instala aqui, você se desinstala acolá. Casa permanente é diferente de casa provisória, onde você acampa. Você quer suas coisas, não todo aquele mundo de objetos, trecos e cacarecos que a vida fora te ensinou que são superficiais e dos quais você aprendeu a separar-se tão bem. Quer aqueles objetos de família, aquelas poucas preciosidades que deixou guardadas em algum lugar seguro, esperando que algum dia pudesse ter algo que novamente fosse próximo do que considera um lar. Quer as fotos, os papéis velhos e empoeirados, quer os livros, os quadros, os móveis da avó. Você fecha aquelas contas no banco que ficaram penduradas por lá, na esperança do “vai que”, você muda seu título de eleitor, seu domicílio fiscal e até seu domicílio no facebook. E abre conta, e declara imposto, e começa a trabalhar mais seriamente do que os “bicos” daquela vida provisória que não eram para durar mesmo.

E quando vai ao Brasil, acontece uma coisa estranha. Você se dá conta que a vida daquelas pessoas tão queridas, tão amigas, tão próximas acontece. E que você não faz parte dela. Vocês se falam, vocês trocam mensagens, e quando se encontram é uma alegria, uma celebração. Mas elas estão ali, prisioneiras do dia-a-dia que não é mais o seu. E você, pouco a pouco, passa a ter um dia-a-dia que lhes escapa também. Cursos que você não fez, encontros aos quais não foi, livros dos quais não participou, festas nas quais não esteve, mudanças, acontecimentos, oportunidades. Concursos para professor, vagas de emprego que são a sua cara… essas coisas chegam na sua caixa de mensagens quase como uma ofensa, uma lembrança daquilo que você não vai viver. E é quando você começa a se dar conta do que está perdendo.

Para morar em um outro país, é preciso perder o futuro que a gente teria no nosso país de origem. É preciso aceitar perder e, para isso, é preciso perceber que perdemos. Perdemos o que poderia ter sido se tivéssemos voltado. Perdemos onde teríamos chegado, perdemos o que poderia ter acontecido. Perdemos o famoso e angustiante “e se…”.E pouca gente se dá conta, no idílio amoroso dos começos de vida fora, ou nos meios revoltantes do choque de realidade de uma vida que se instaura que há algo que estão, constantemente, perdendo. E que cada dia a mais em um lugar estrangeiro é uma camada a mais de distância daquilo que poderia ter sido se você tivesse ficado. E então, quando você de repente se dá conta, vem a deprê.

Ou a crença no famoso plano B. Conheço gente que vive falando que está cansada do jeito como as coisas são no Brasil e que vai embora do país, sabe como é? Já falei disso antes e expliquei que esse é o alento que temos em acreditar em um plano B, em guardar a idéia de que basta estalarmos os dedos e irmos embora para reinventarmos a vida. Pois é, a crença no plano B de quem mora fora é o inverso, é aquela idéia guardada em algum lugar de que essa é uma situação provisória e que vamos voltar. Cedo ou tarde vamos voltar e vamos retomar tudo aquilo que ficou nos esperando e do qual temos lembrança.

Mas… pessoas, lugares e oportunidades não ficaram no esperando. Porque a vida não fica em standby para a gente ir ali ver se algo funciona ou se a grama do vizinho é mesmo mais verdinha. E, o que é mais difícil se dar conta e assumir, provavelmente nem vamos voltar.

Morar em um outro país é a prova de que se pode mudar a vida, mudar de lugar, criar recomeços. Então, claro que sabemos que não existe situação definitiva. E quando falo aqui de que não vamos mais voltar, isso não é um absoluto, uma certeza absoluta, uma imobilização. É apenas uma tomada de posição, uma mudança de mentalidade que acontece com todo mundo que decide, em algum momento da vida, investir seus esforços em algo tão grande ou importante quanto construir uma vida em algum canto. Porque mesmo que isso possa em algum momento mudar, seu estado de espírito ao fazer aquele investimento, ao fazer aquela aposta, é de que seria como um casamento, é de que seria “para sempre, até que a morte os separe”. E aí, você se joga. Mas antes de se jogar, ou enquanto está se jogando, ou depois mesmo de ter se jogado, olha e descobre que não vai viver umas tantas coisas. Que pareciam ser o seu destino ali onde estava. O que, por si só, é uma ilusão. Que você acalenta do mesmo modo que todo mundo acalenta em si ao menos uma certeza absoluta baseada em nada além de muita vontade: “se eu estivesse lá, seria isso ou aquilo”, “se eu tivesse ficado…”.

Quantas vezes você vai imaginar, no final do dia, como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai ter certeza de que sabe como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai acreditar que teria sido muito melhor se tivesse ficado… se embrenhando em uma espiral de constatações de perdas e de lutos e de tristezas por tudo o que perdeu e tudo o que não foi e que teria sido se tivesse ficado… Nossa, todo estrangeiro em um país outro que o seu vive, penso eu, essa fase dolorosa do “se eu tivesse ficado…”. E para alguns isso parece durar para sempre, a pessoa se fecha em um lamento e em um ressentimento sem fim, como se culpasse a vida, o mundo e todas as pessoas de uma escolha que foi só dela. Vira melancolia. Saudosismo. Outras tantas vezes, um patriotismo exagerado e fora de lugar. E nessas horas também as pessoas se fecham no gueto e se ufanam de serem brasileiras e comem e bebem e saem e falam e tudo é Brasil, Brasil de um Brasil que elas nunca viveram porque ele, simplesmente, não existe. É o Brasil ideal no lugar onde antes ficava o outro país ideal, o país dos sonhos. Que agora é bem real, cheio de paradoxos, de burocracias, de chatices e de desafios cotidianos. Infernal. Como é a vida, para aqueles que esperavam viver outra coisa que não aquilo que ela pode ser. Até que… um dia… muda.

Um dia você está voltando para casa depois do trabalho, ou de buscar as crianças na creche ou do que quer que seja e, de repente, se dá conta de que gosta dali. Você gosta daquela vida. Você gosta daquele lugar. Não, não do lugar do glamour da imagem que as pessoas fazem de onde você vive e de como é a sua vida mas do lugar mesmo, daquelas pedras ali no chão, da cor dos prédios no final da tarde quando tem sol, do gosto do pão que você come de manhã, do modo como a luz entra pelos galhos das árvores em cada estação do ano… Você gosta mais do que desgosta. E depois de pensar e acalentar e acariciar por um minuto ou dois mais uma daquelas imagens “e se” na sua cabeça, você enjoa e acha que seria muito, muito chato. Se “qualquer outra coisa”, você ainda preferiria estar ali. E é quando descobre que está voltando a habitar seu presente.

Um dos lutos mais difíceis para quem mora fora do Brasil é construir uma família em outro país e se dar conta de que seus filhos, mesmo sendo brasileiros, nunca serão realmente brasileiros como você. Eles falarão português com sotaque, no melhor dos casos. E seus gostos, seus cheiros, seus lugares, suas histórias e seus trajetos, suas cidades, seus percursos serão, para eles, apenas “as histórias da mamãe”. Não serão as marcas deles pois eles não estarão nos mesmos lugares, nos mesmos gostos, nos mesmos percursos, nas mesmas praias nas férias para terem, eles também, suas marcas e suas histórias ali, onde tudo para você foi tão importante. Talvez eles olhem tudo o que você apresenta para eles a cada viagem de férias no Brasil com o interesse, o carinho e o apreço de… um estrangeiro. Num certo ponto, eles serão sempre um pouco estrangeiros na sua casa e você na deles. Tem coisa mais estranha e difícil de lidar?

Mas você está aqui, ou ali, ou lá, ou como quer que se chame esse lugar que você escolheu. E a vida foi sendo vivida e você criou raízes. Para além da paixonite aguda e meio boba do princípio, para além da revolta dos confrontos e das diferenças, para além das perdas e dos lutos… eis você ali, ainda ali. Vivendo. E alguma coisa muda sempre que a gente decide viver o que está vivendo.

Quando fui ao Brasil dessa vez, sentia um medo de chegar lá e não encontrar o país que conhecia. Por motivos óbvios, ligados ao momento atual, à surrealidade do que se vive no meu país, ao absurdo, ao grotesco da conjuntura política, das relações violentas que se instauraram entre as pessoas, dass mentalidades podres e pobres que se desvelaram e que nunca imaginei tão podres e tão pobres… enfim… Tantas coisas aconteceram por ali que eu nem sonhava possíveis. E às quais eu só conseguia responder com perplexidade, apreensão e desesperança. Mas esse medo tinha não apenas uma justificativa macro, como também micro, pessoal, subjetiva… de chegar ali e não encontrar mais aquele futuro que eu tinha, não encontrar mais o meu “e se”. Não me encontrar mais ali.

Pois um dia, cedo ou tarde, depois que você vai embora, você não se encontra mais naquele seu lugar quando volta. Você não se encontra, pois já está em outro lugar. E tudo fica muito estranho, tudo ganha ares de despedida. Porque você foi indo, foi indo, foi indo tanto que, finalmente, foi.

“Um dia eu volto, quem sabe…” diz a música. Toda música de quem foi e um dia vai voltar é lamento. E tem uma hora que, de tanto ir e voltar, você vira de lugar nenhum. O que talvez seja um alento para algumas gentes. E uma aflição para outras.

A vida por aqui é. Bem. Normal. Com os prós e contras que todo lugar tem. Tem conta para pagar, tem casa para cuidar, tem filho para levar na escola, tem dia de chuva, tem momentos de tédio, tem passeios, tem descobertas, tem resfriado, vinho ruim, bad hair day, brincadeiras, livros, gente interessante, conversas… A vida por aqui tem um monte de saudades de quem está longe. E um pensamento para cada um deles a cada dia. E uma vontade de compartilhar umas tantas coisas. E de se queixar de outras e poder reclamar e terminar rindo junto. Porque tudo é tão besta quando se está entre amigos. E tanta coisa fica leve com a família por perto.

Então, obrigada para vocês do lado de lá por existirem, por não serem apenas memória e continuarem vivos e presentes. A distância te ensina, quando você mora em outro país, sobre o que é realmente essencial e que você não perdeu quando foi embora: as pessoas. As pessoas estão aí. E aqui. E lá. E acolá. Elas estão para você. E você para elas. E o resto não tem, na verdade, nenhuma importância.

Fui.

 

Maternidade e psicanálise

A experiência da maternidade, somada ao fato de vir morar na França, mudaram muito o meu jeito de conceber a psicanálise. Isso e a própria passagem do tempo que, segundo dizem por aí, é o que faz com que psicanalistas e vinhos se assemelhem. Eis algumas coisinhas que aprendi nesses mais de 20 anos de profissão, em dois países diferentes, dois filhos depois.

  • Psicanálise tem a ver com acolhimento e escuta. Em um mundo tão árido e pouco solidário como o nosso, acolhimento e escuta tornaram-se artigos de luxo. Quem se dispõe a escutar? Quem se dispõe a acolher? A estar junto? A acompanhar uma pessoa em uma parte de seu caminho? O psicanalista se dispõe. Ou deveria. Receber um total desconhecido na sua sala para que essa pessoa fale de dentro das suas entranhas é como um presente. Pode ser um presente de grego algumas vezes, mas é uma preciosidade que deveria ser tratada com o maior respeito. Frente ao outro no seu lugar mais vulnerável, mais frágil, mais aberto, o silêncio acolhedor do analista é como uma espécie de alento para alguém que sofre. Quando alguém chega e te endereça esse tipo de fala, essa fala profunda e doída, o melhor que você pode fazer é recebê-lo com o cuidado e o respeito de quem acolhe uma pessoa em um dia de chuva com um cobertor, um chá quente e um lugar confortável onde se pousar. Anna Freud atendia seus pacientes tricotando e isso não tem nada a ver com uma desatenção ou um desrespeito. Era sua maneira inteligente de prestar atenção no que diziam e de criar um ambiente acolhedor para que pudessem dizer.
  • Escutar é… escutar. Mesmo. O exercício mais difícil do mundo para qualquer pessoa. Mas para os analistas, ainda mais. Quantas pessoas nos escutam, quantas pessoas realmente escutamos? Será que escutamos realmente nossos filhos, por exemplo? Escutar é aceitar ser arrancado de si mesmo e de suas certezas e mergulhar num mundo de palavras do outro. Quando a gente ouve o que alguém tem a dizer sentindo o peso de dar uma resposta ou uma solução, não queremos escutar nada. O que estamos fazendo é tentar calar a fala do outro com uma resposta que faça ele parar. Você está sofrendo, triste, em carne viva? É isso. Pronto, a pessoa se cala acomodada à sua resposta, acreditando por um momento que seja a solução para o que ela diz. Até que, invariavelmente, ela termine por descobrir, cedo ou tarde, que sua resposta foi uma espécie de violência contra o que ela dizia, que ela foi interrompida em suas palavras e que você, de uma certa maneira, a calou. Freud dizia que o analista só fala nos momentos em que o paciente tem sua fala calada. O analista fala para o paciente poder continuar falando. Se o analista o cala, alguma coisa está fora de lugar.
  • Escutar também não tem nada a ver com dizermos para nós mesmos: ah, é isso. Não é uma resposta para o outro e muito menos para nós analistas. Isso que os analistas falam, isso que os analistas sabem… ai, ai, ai. A teoria serve, ou deveria servir apenas como inspiração para pensar, para ajudar a pensar. A teoria não é uma certeza. No momento em que começamos a ter certeza de que entendemos alguma coisa de uma pessoa é porque paramos de escutar. Nós sabemos tão pouco sobre o outro, que quando ele abre a boca é, na imensa maioria das vezes, uma grande surpresa. Uma pessoa é um universo particular. E mesmo que as questões humanas não sejam tão infinitas quanto os humanos sobre a Terra, a colcha de retalhos que cada um faz para dar conta das mesmas questões é totalmente individual. Então, a teoria em psicanálise serve à clínica, e não o contrário. Não é o paciente que tem que se encaixar em alguma coisa que Freud, Lacan, Winnicott ou quem quer que seja disseram. São esses psicanalistas que podem ter dito coisas úteis para entender uma ou outra coisa sobre tal pessoa. Ou não. E daí, é preciso inventar novos escritos para pensar as pessoas que estão por aí, falando. Freud – ele novamente – nunca hesitou em reformular suas teorias a cada vez que sua experiência clínica mostrava que não era aquilo. Freud era capaz de uma humildade e de uma honestidade intelectual que a imensa maioria dos psicanalistas hoje em dia não possuem. Infelizmente.
  • Mas então o que a gente pode dizer? Antes de dizer qualquer coisa, melhor se dar conta do quão pouco sabemos. E de que não temos nenhuma verdade a oferecer para ninguém. A famigerada interpretação, que muitos analistas esqueceram que é algo a ser usado com parcimônia, nada mais é do que dizer para o sujeito aquilo que ele disse, aquilo que ele acabou de dizer sem dizer. Uma interpretação é uma fala estranha que fala ao mesmo tempo do que já foi dito e do que vai se descobrir no instante seguinte. É como uma ponte entre dois tempos aqui e agora. Nós interpretamos quando aparece uma ponte entre esses dois tempos, quando aparece algo que a pessoa sabe e não sabe, que ela acabou de dizer e não disse. Nós fazemos a ponte com a nossa fala. E é só. Nada de pregação, nada de aula, nada de ocupar um lugar indevido de quem adivinhou o que quer que seja. Não somos magos, adivinhos, nem nada que o valha. E aceitar que uma pessoa nos coloque nesse lugar e que fique nos idolatrando enquanto lambemos alegremente a nós mesmos em uma espécie de auto-satisfação orgulhosa é algo como uma obscenidade. Uma impostura, diria Lacan. Lacan, esse mesmo que falou sobre ocupar o lugar do mestre e pouca gente lhe deu ouvidos. Colocaram o próprio Lacan nesse lugar de mestre, colocaram-se a si mesmos nesse lugar de mestre. E o resultado disso foi um bando de psicanalistas mais preocupados com a sua performance do que com quem está ali na sua frente.
  • Uma pessoa que chega para uma análise não chega para uma análise. Ela não quer nem saber de análise. Ela está ali porque está sofrendo e não consegue mais se desviar das consequências desse sofrimento. E o que ela quer encontrar é um meio de desviar. Ninguém quer mudar nada sobre si mesmo nessa vida, o que queremos é que o nosso entorno mude e se acomode ao nosso desejo. Ponto. Quando isso não acontece, o que quer dizer, sempre, e quando esse abismo entre o que queremos e o que a vida é se torna insuportável, por vezes vamos até um analista. E o que queremos dele é que ele nos ajude a negociar com a morte, como aquele personagem maravilhoso de O sétimo selo do Bergman, que passa um filme inteiro jogando xadrez com a morte. Eis uma das metáforas mais potentes do que tentamos a vida inteira: queremos negociar com a morte. Então, quando chegamos no consultório do analista, não queremos mudar. Mesmo que digamos dessa maneira o que estamos ali buscando. Queremos que tudo se acomode. Queremos encontrar um desvio. Queremos o máximo possível com o mínimo de esforço. Que é o mesmo que pedimos ao psiquiatra, ao padre, ao guru e a todos os seres que pensamos que poderão nos ajudar com algo do tipo.
  • Mas… esse é um pedido que nenhum analista tem condições de atender. Ou melhor, que nenhum analista que tenha sido minimamente marcado pela vida tem condições de atender. Até poderia dizer, que nenhum analista que tenha feito uma análise tem condições de atender. Mas isso seria um risco de supor que um analista que tenha feito uma análise pessoal teria feito realmente uma análise. O que nem sempre é o caso. Porque um analista em análise é alguém que chegou tentando negociar como qualquer outro. Alguém que quis se desviar o quanto pode. E que muitas vezes conseguiu, sob o olhar conivente de um outro analista. Do mesmo modo que muitos pacientes encontram seu desvio sob o olhar conivente de seus analistas, todo mundo sai feliz e satisfeito, uns elogiando aos outros. E a máquina se retro-alimenta sem que ninguém tenha que pagar com o seu pedaço de carne.
  • Enfim, tem alguns analistas que não podem atender a esse pedido. Sorte ou azar seu se foi parar na sala de um deles. Porque ele vive e sofre e percebe na sua própria carne que viver tem um preço. Estar vivo tem um preço. E custa muito caro. Então, a menos que esse analista seja ele também uma pessoa que passou a vida desviando, tegiversando, negociando com a morte, engambelando para não pagar o preço da vida, ele não vai poder ajudar o sujeito a negociar, engambelar e se desviar. Isso é a única coisa que temos a oferecer, essa ferida que é comum a ambos e a todos nós, esse preço que se paga pela vida. Tudo o mais é farsa, teatro. Perda de tempo.
  • E então acontecem às vezes uns belos encontros entre analistas que não negociam e pessoas que chegam em carne viva, querendo desviar… mas que não desviam. E pagam o preço da vida. E conseguem existir de maneira encarnada. Se alguém me perguntasse o que faz um analista, eu diria que tudo o que podemos fazer é acompanhar uma pessoa que decida percorrer o árduo caminho entre ela e ela mesma. E que sabemos que isso aconteceu quando essa pessoa encarna no próprio corpo. Quando cada palavra é substância, quando existe uma coerência entre a fala, a ação e a carne. Isso é o que um analista “faz”. Tudo o mais é perfumaria. Ou, como dizia o perspicaz Winnicott, tudo o mais é o que o analista pode fazer quando uma análise não é possível. Ou nos diversos momentos de uma análise em que uma análise não é possível. São esses momentos ou esses encontros em que uma análise é possível que fazem todo o resto valer à pena. Do ponto de vista de quem trabalha com isso, claro.
  • Em tempo, Freud, Lacan, Klein, Winnicott e todos os outros eram e são… pessoas. Pessoas que viveram e vivem em um certo lugar, numa certa época. Pessoas por vezes geniais mas, também… pessoas. Ninguém, nem mesmo o Freud todo poderoso, tem a capacidade de olhar de outro lugar que não sejam seus olhos. E ignorar isso e tomar o que quer que tenham escrito como uma verdade absoluta em qualquer tempo, para qualquer pessoa, em qualquer lugar, é ignorar uma das maiores preciosidades que a psicanálise nos trouxe, que foi levar em consideração quem fala. Respeitar até as últimas consequências que quem fala é aquele ali e que sua fala só pode sair da sua boca e não de nenhum lugar divino onde estaria a verdade nua e crua. Quem fala é Freud, é Lacan… e eles são gênios e são uns tremendos idiotas. Têm coisas que eles disseram que não servem para absolutamente nada hoje em dia. E coisas que dão um alento no coração para pensar nos nossos tempos e no nosso sofrimento. Uma coisa não anula a outra. Mas ninguém nem nenhuma teoria são um pacote completo e acabado que tem que ser comprado, aceito, comido e engolido em sua totalidade. As ditas “ciências duras” vivem nos dando provas disso, revendo, desdizendo, mudando e retomando uma porção de suas teorias o tempo todo. Ninguém tem pudores de questionar Einstein, Darwin ou quem seja. Esse desendeusamento respeitoso que, infelizmente, nós psicanalistas não aprendemos.
  • A França tem uma das psicanálises mais potentes e ao mesmo tempo mais engessadas do mundo. Contrariamente ao que acontece na Inglaterra, ou até mesmo no Brasil, por aqui o fantasma Lacan todo poderoso imobiliza e empobrece grande parte do que é dito, escrito e feito em termos de psicanálise. Criaram por aqui uma linguagem que ninguém entende, para falar como Eco, a deusa grega, que tem apenas a si mesma como resposta. Eco reverbera por entre muralhas surdas em uma fala que se repete num infinito de palavras mesmas, palavras sem sentido e sem fim. Uma chatice, uma pobreza, uma incapacidade de transitar que sufocam qualquer um. São poucos os psicanalistas franceses que conheci, encontrei ou li – até hoje – que conseguiram escapar dessa assombração Lacan que deixou a maioria burra, chata, pretensiosa e… surda. Stein, Zygouris, Plon, Didier-Weill, Oury, Pontalis… nem cheguem a se empolgar porque a lista é curta. E, se forem ver bem, são praticamente todos de uma velha guarda, gente que escreveu pouco, gente econômica nas palavras, mas muito produtivas em sua prática clínica. A experiência realmente tornou alguns analistas tão bons quanto os melhores vinhos. Mas também tão raros quanto. Gente que parece ter entendido que o melhor do legado de Lacan é justamente essa palavra que não diz nada, essa palavra que é chiste, que é jogo. O melhor do que Lacan disse ou do que ele escreveu foram essa escrita e essa palavra que são a coisa mesma, que são aquilo mesmo de que ele está falando, que são o inconsciente como linguagem. Não tem nada para entender. Não tem nada a que se agarrar como uma verdade, um modo de pensar, saber, fazer, dizer as coisas. Não tem nada para usar como pregação. Tudo é brincadeira, Lacan seu fanfarrão. Talvez se você tivesse nascido no Brasil as pessoas te entendessem com o devido senso de humor.
  • Aliás, passou da hora da psicanálise brasileira parar de pedir benção para a psicanálise francesa. 90% do que se produz e, temo dizer, do que se faz aqui em termos de psicanálise poderia ir direto para a lata do lixo do esquecimento total e absoluto da história. Muita gente que ouve sem escutar, cheia de certezas, de tempos lógicos fora de lugar, de interpretações exibicionistas, de compreensões incompreensíveis. Muita gente tentando impor o tempo, o corte, a castração, a função paterna, o diabo a quatro. Muito silêncio indiferente, muita distância de descaso. Muita falta de empatia e de humildade. Muita gente acreditando piamente que interpretar é como dar uma lição no outro. Muita violência. Bom, talvez, pensando bem, não seja muito diferente do que aconteça na maioria esmagadora dos divãs brasileiros também. Essa violência da arrogância, do saber, da certeza. Essa incapacidade de se colocar em uma posição de vulnerabilidade. Aqui, isso gerou uma repulsa à psicanálise que é tão grande quanto sua própria influência e que, a meu ver, é consequência direta, entre outras coisas, dessa psicanálise surda, burra e narcisista que impera por aqui.
  • Mas se não tem muita diferença, nem na prática, nem na teoria, no Brasil ainda temos uma capacidade de andar nas fronteiras, uma mestiçagem que, mesmo problemática em vários campos, trouxe para a psicanálise e para alguns psicanalistas um jogo de cintura, um rebolado, um molejo que são um tesouro raro. Que saudades tenho das pessoas fazendo arte psicanálise. Aqui não existe E, a França é uma cultura de especialidades e de pessoas que se encaixam em suas especialidades e que nunca mais podem sair do lugar. Isso vale do ponto de vista da formação, isso vale para os percursos profissionais e isso vale, especialmente, para o trabalho do pensamento. A França não tem mestiços, ela tem franceses e/ou estrangeiros. Aqui não existe isso de você ser francês descendente de brasileiro. Você é francês. Percebem que isso impede a fronteira, impede de ser dois, de ser múltiplo? Isso vale para as subjetividades, vale para a psicanálise e encerra pessoas e psicanálise em um terreno bem restrito. Sim, existem exceções.
  • Então, um pouco de cautela da próxima vez que te apresentarem a Bíblia psicanalítica do momento. Ou O cara. Uma das coisas que aprendi é que isso é tudo menos psicanalítico. Isso é religião. E o “santo” Freud tinha muita coisa não muito simpática a dizer sobre religiões, lembram?

Uma pessoa que chega no consultório em carne viva e se confia a um total desconhecido quer negociar. Mas também quer ser acolhida. E escutada. Na verdade e na legitimidade da sua dor. Existe uma dimensão de humanidade, de solidariedade e de compaixão no trabalho psicanalítico que se perdeu historicamente e que se perdeu na fala, nos escritos e nas ações da maioria dos psicanalistas. Uma das psicanalistas mais admiráveis que conheço – brasileira, viveu na França muito tempo e, não, não sou eu e não foi minha analista – é capaz de acompanhar seus pacientes ao longo de uma sessão com seu silêncio acolhedor, sua escuta que não sabe nada e suas palavras econômicas para, ao fim da sessão, sair da sala e acompanhá-los papeando sobre corte de cabelo, viagem, netos… Ela é assim, como a vida. Como os encontros possíveis entre humanos. Como a psicanálise, a meu ver, poderia ou deveria ser, se fosse minimamente coerente consigo mesma. Capaz de escutar a dor mais profunda do ser humano e falar da chuva lá fora. Psicanalistas que se levam a sério demais não são psicanalistas. São apenas… chatos. Ops!

No mundo da maternidade, muita gente critica, e por vezes até teme a psicanálise. Como se a psicanálise fosse inimiga da mulher e da mulher mãe. Se pensarmos no modo como se leva ao pé da letra muita coisa do que Freud escreveu sobre o feminino invejoso e incompleto e sobre a mulher histérica até hoje, e se pensarmos no modo como a idéia da função paterna lacaniana ressoou e ressoa como uma condenação ao laço entre mãe e filho, entendido como uma ameaça a ser combatida, não espanta essa repulsa. E chegaria a dizer que ela tem até um lado bem fundado em querer distância desse discurso.

Mas não podemos esquecer que foi Freud o primeiro a dizer que as histéricas diziam a verdade, que seu discurso era uma fala legítima e digna de ser escutada e levada em consideração. Muita água passou por debaixo dessa ponte desde que Freud escutou essas mulheres sem preconceitos, sem pressupostos e sem amarras. Muita coisa do que Freud descobriu virou saber, virou regra e virou jaula, novamente, para as mulheres e para as mães. Essa é uma das deturpações que mais me impressiona no discurso e na prática psicanalíticas: o quanto eles podem ser violentos com as mulheres. Violentos nas suas proposições e, pior ainda, na clínica. Sem quase nunca se botar em questão, sem nenhuma auto-crítica. Aqui na França, onde o discurso analítico tem uma força imensa, já tive a triste oportunidade de receber mais de uma mulher arrebentada por esse discurso. Em nome de que? Em nome do Pai Lacan?

Um dia quero escrever mais sobre isso, sobre mulheres, mães e psicanálise. Porque poucas coisas se aproximam tanto da prática analítica quanto a experiência da maternidade. Coisa que, talvez, Winnicott tenha percebido. Um dia, quem sabe.