Maternidade e psicanálise

A experiência da maternidade, somada ao fato de vir morar na França, mudaram muito o meu jeito de conceber a psicanálise. Isso e a própria passagem do tempo que, segundo dizem por aí, é o que faz com que psicanalistas e vinhos se assemelhem. Eis algumas coisinhas que aprendi nesses mais de 20 anos de profissão, em dois países diferentes, dois filhos depois.

  • Psicanálise tem a ver com acolhimento e escuta. Em um mundo tão árido e pouco solidário como o nosso, acolhimento e escuta tornaram-se artigos de luxo. Quem se dispõe a escutar? Quem se dispõe a acolher? A estar junto? A acompanhar uma pessoa em uma parte de seu caminho? O psicanalista se dispõe. Ou deveria. Receber um total desconhecido na sua sala para que essa pessoa fale de dentro das suas entranhas é como um presente. Pode ser um presente de grego algumas vezes, mas é uma preciosidade que deveria ser tratada com o maior respeito. Frente ao outro no seu lugar mais vulnerável, mais frágil, mais aberto, o silêncio acolhedor do analista é como uma espécie de alento para alguém que sofre. Quando alguém chega e te endereça esse tipo de fala, essa fala profunda e doída, o melhor que você pode fazer é recebê-lo com o cuidado e o respeito de quem acolhe uma pessoa em um dia de chuva com um cobertor, um chá quente e um lugar confortável onde se pousar. Anna Freud atendia seus pacientes tricotando e isso não tem nada a ver com uma desatenção ou um desrespeito. Era sua maneira inteligente de prestar atenção no que diziam e de criar um ambiente acolhedor para que pudessem dizer.
  • Escutar é… escutar. Mesmo. O exercício mais difícil do mundo para qualquer pessoa. Mas para os analistas, ainda mais. Quantas pessoas nos escutam, quantas pessoas realmente escutamos? Será que escutamos realmente nossos filhos, por exemplo? Escutar é aceitar ser arrancado de si mesmo e de suas certezas e mergulhar num mundo de palavras do outro. Quando a gente ouve o que alguém tem a dizer sentindo o peso de dar uma resposta ou uma solução, não queremos escutar nada. O que estamos fazendo é tentar calar a fala do outro com uma resposta que faça ele parar. Você está sofrendo, triste, em carne viva? É isso. Pronto, a pessoa se cala acomodada à sua resposta, acreditando por um momento que seja a solução para o que ela diz. Até que, invariavelmente, ela termine por descobrir, cedo ou tarde, que sua resposta foi uma espécie de violência contra o que ela dizia, que ela foi interrompida em suas palavras e que você, de uma certa maneira, a calou. Freud dizia que o analista só fala nos momentos em que o paciente tem sua fala calada. O analista fala para o paciente poder continuar falando. Se o analista o cala, alguma coisa está fora de lugar.
  • Escutar também não tem nada a ver com dizermos para nós mesmos: ah, é isso. Não é uma resposta para o outro e muito menos para nós analistas. Isso que os analistas falam, isso que os analistas sabem… ai, ai, ai. A teoria serve, ou deveria servir apenas como inspiração para pensar, para ajudar a pensar. A teoria não é uma certeza. No momento em que começamos a ter certeza de que entendemos alguma coisa de uma pessoa é porque paramos de escutar. Nós sabemos tão pouco sobre o outro, que quando ele abre a boca é, na imensa maioria das vezes, uma grande surpresa. Uma pessoa é um universo particular. E mesmo que as questões humanas não sejam tão infinitas quanto os humanos sobre a Terra, a colcha de retalhos que cada um faz para dar conta das mesmas questões é totalmente individual. Então, a teoria em psicanálise serve à clínica, e não o contrário. Não é o paciente que tem que se encaixar em alguma coisa que Freud, Lacan, Winnicott ou quem quer que seja disseram. São esses psicanalistas que podem ter dito coisas úteis para entender uma ou outra coisa sobre tal pessoa. Ou não. E daí, é preciso inventar novos escritos para pensar as pessoas que estão por aí, falando. Freud – ele novamente – nunca hesitou em reformular suas teorias a cada vez que sua experiência clínica mostrava que não era aquilo. Freud era capaz de uma humildade e de uma honestidade intelectual que a imensa maioria dos psicanalistas hoje em dia não possuem. Infelizmente.
  • Mas então o que a gente pode dizer? Antes de dizer qualquer coisa, melhor se dar conta do quão pouco sabemos. E de que não temos nenhuma verdade a oferecer para ninguém. A famigerada interpretação, que muitos analistas esqueceram que é algo a ser usado com parcimônia, nada mais é do que dizer para o sujeito aquilo que ele disse, aquilo que ele acabou de dizer sem dizer. Uma interpretação é uma fala estranha que fala ao mesmo tempo do que já foi dito e do que vai se descobrir no instante seguinte. É como uma ponte entre dois tempos aqui e agora. Nós interpretamos quando aparece uma ponte entre esses dois tempos, quando aparece algo que a pessoa sabe e não sabe, que ela acabou de dizer e não disse. Nós fazemos a ponte com a nossa fala. E é só. Nada de pregação, nada de aula, nada de ocupar um lugar indevido de quem adivinhou o que quer que seja. Não somos magos, adivinhos, nem nada que o valha. E aceitar que uma pessoa nos coloque nesse lugar e que fique nos idolatrando enquanto lambemos alegremente a nós mesmos em uma espécie de auto-satisfação orgulhosa é algo como uma obscenidade. Uma impostura, diria Lacan. Lacan, esse mesmo que falou sobre ocupar o lugar do mestre e pouca gente lhe deu ouvidos. Colocaram o próprio Lacan nesse lugar de mestre, colocaram-se a si mesmos nesse lugar de mestre. E o resultado disso foi um bando de psicanalistas mais preocupados com a sua performance do que com quem está ali na sua frente.
  • Uma pessoa que chega para uma análise não chega para uma análise. Ela não quer nem saber de análise. Ela está ali porque está sofrendo e não consegue mais se desviar das consequências desse sofrimento. E o que ela quer encontrar é um meio de desviar. Ninguém quer mudar nada sobre si mesmo nessa vida, o que queremos é que o nosso entorno mude e se acomode ao nosso desejo. Ponto. Quando isso não acontece, o que quer dizer, sempre, e quando esse abismo entre o que queremos e o que a vida é se torna insuportável, por vezes vamos até um analista. E o que queremos dele é que ele nos ajude a negociar com a morte, como aquele personagem maravilhoso de O sétimo selo do Bergman, que passa um filme inteiro jogando xadrez com a morte. Eis uma das metáforas mais potentes do que tentamos a vida inteira: queremos negociar com a morte. Então, quando chegamos no consultório do analista, não queremos mudar. Mesmo que digamos dessa maneira o que estamos ali buscando. Queremos que tudo se acomode. Queremos encontrar um desvio. Queremos o máximo possível com o mínimo de esforço. Que é o mesmo que pedimos ao psiquiatra, ao padre, ao guru e a todos os seres que pensamos que poderão nos ajudar com algo do tipo.
  • Mas… esse é um pedido que nenhum analista tem condições de atender. Ou melhor, que nenhum analista que tenha sido minimamente marcado pela vida tem condições de atender. Até poderia dizer, que nenhum analista que tenha feito uma análise tem condições de atender. Mas isso seria um risco de supor que um analista que tenha feito uma análise pessoal teria feito realmente uma análise. O que nem sempre é o caso. Porque um analista em análise é alguém que chegou tentando negociar como qualquer outro. Alguém que quis se desviar o quanto pode. E que muitas vezes conseguiu, sob o olhar conivente de um outro analista. Do mesmo modo que muitos pacientes encontram seu desvio sob o olhar conivente de seus analistas, todo mundo sai feliz e satisfeito, uns elogiando aos outros. E a máquina se retro-alimenta sem que ninguém tenha que pagar com o seu pedaço de carne.
  • Enfim, tem alguns analistas que não podem atender a esse pedido. Sorte ou azar seu se foi parar na sala de um deles. Porque ele vive e sofre e percebe na sua própria carne que viver tem um preço. Estar vivo tem um preço. E custa muito caro. Então, a menos que esse analista seja ele também uma pessoa que passou a vida desviando, tegiversando, negociando com a morte, engambelando para não pagar o preço da vida, ele não vai poder ajudar o sujeito a negociar, engambelar e se desviar. Isso é a única coisa que temos a oferecer, essa ferida que é comum a ambos e a todos nós, esse preço que se paga pela vida. Tudo o mais é farsa, teatro. Perda de tempo.
  • E então acontecem às vezes uns belos encontros entre analistas que não negociam e pessoas que chegam em carne viva, querendo desviar… mas que não desviam. E pagam o preço da vida. E conseguem existir de maneira encarnada. Se alguém me perguntasse o que faz um analista, eu diria que tudo o que podemos fazer é acompanhar uma pessoa que decida percorrer o árduo caminho entre ela e ela mesma. E que sabemos que isso aconteceu quando essa pessoa encarna no próprio corpo. Quando cada palavra é substância, quando existe uma coerência entre a fala, a ação e a carne. Isso é o que um analista “faz”. Tudo o mais é perfumaria. Ou, como dizia o perspicaz Winnicott, tudo o mais é o que o analista pode fazer quando uma análise não é possível. Ou nos diversos momentos de uma análise em que uma análise não é possível. São esses momentos ou esses encontros em que uma análise é possível que fazem todo o resto valer à pena. Do ponto de vista de quem trabalha com isso, claro.
  • Em tempo, Freud, Lacan, Klein, Winnicott e todos os outros eram e são… pessoas. Pessoas que viveram e vivem em um certo lugar, numa certa época. Pessoas por vezes geniais mas, também… pessoas. Ninguém, nem mesmo o Freud todo poderoso, tem a capacidade de olhar de outro lugar que não sejam seus olhos. E ignorar isso e tomar o que quer que tenham escrito como uma verdade absoluta em qualquer tempo, para qualquer pessoa, em qualquer lugar, é ignorar uma das maiores preciosidades que a psicanálise nos trouxe, que foi levar em consideração quem fala. Respeitar até as últimas consequências que quem fala é aquele ali e que sua fala só pode sair da sua boca e não de nenhum lugar divino onde estaria a verdade nua e crua. Quem fala é Freud, é Lacan… e eles são gênios e são uns tremendos idiotas. Têm coisas que eles disseram que não servem para absolutamente nada hoje em dia. E coisas que dão um alento no coração para pensar nos nossos tempos e no nosso sofrimento. Uma coisa não anula a outra. Mas ninguém nem nenhuma teoria são um pacote completo e acabado que tem que ser comprado, aceito, comido e engolido em sua totalidade. As ditas “ciências duras” vivem nos dando provas disso, revendo, desdizendo, mudando e retomando uma porção de suas teorias o tempo todo. Ninguém tem pudores de questionar Einstein, Darwin ou quem seja. Esse desendeusamento respeitoso que, infelizmente, nós psicanalistas não aprendemos.
  • A França tem uma das psicanálises mais potentes e ao mesmo tempo mais engessadas do mundo. Contrariamente ao que acontece na Inglaterra, ou até mesmo no Brasil, por aqui o fantasma Lacan todo poderoso imobiliza e empobrece grande parte do que é dito, escrito e feito em termos de psicanálise. Criaram por aqui uma linguagem que ninguém entende, para falar como Eco, a deusa grega, que tem apenas a si mesma como resposta. Eco reverbera por entre muralhas surdas em uma fala que se repete num infinito de palavras mesmas, palavras sem sentido e sem fim. Uma chatice, uma pobreza, uma incapacidade de transitar que sufocam qualquer um. São poucos os psicanalistas franceses que conheci, encontrei ou li – até hoje – que conseguiram escapar dessa assombração Lacan que deixou a maioria burra, chata, pretensiosa e… surda. Stein, Zygouris, Plon, Didier-Weill, Oury, Pontalis… nem cheguem a se empolgar porque a lista é curta. E, se forem ver bem, são praticamente todos de uma velha guarda, gente que escreveu pouco, gente econômica nas palavras, mas muito produtivas em sua prática clínica. A experiência realmente tornou alguns analistas tão bons quanto os melhores vinhos. Mas também tão raros quanto. Gente que parece ter entendido que o melhor do legado de Lacan é justamente essa palavra que não diz nada, essa palavra que é chiste, que é jogo. O melhor do que Lacan disse ou do que ele escreveu foram essa escrita e essa palavra que são a coisa mesma, que são aquilo mesmo de que ele está falando, que são o inconsciente como linguagem. Não tem nada para entender. Não tem nada a que se agarrar como uma verdade, um modo de pensar, saber, fazer, dizer as coisas. Não tem nada para usar como pregação. Tudo é brincadeira, Lacan seu fanfarrão. Talvez se você tivesse nascido no Brasil as pessoas te entendessem com o devido senso de humor.
  • Aliás, passou da hora da psicanálise brasileira parar de pedir benção para a psicanálise francesa. 90% do que se produz e, temo dizer, do que se faz aqui em termos de psicanálise poderia ir direto para a lata do lixo do esquecimento total e absoluto da história. Muita gente que ouve sem escutar, cheia de certezas, de tempos lógicos fora de lugar, de interpretações exibicionistas, de compreensões incompreensíveis. Muita gente tentando impor o tempo, o corte, a castração, a função paterna, o diabo a quatro. Muito silêncio indiferente, muita distância de descaso. Muita falta de empatia e de humildade. Muita gente acreditando piamente que interpretar é como dar uma lição no outro. Muita violência. Bom, talvez, pensando bem, não seja muito diferente do que aconteça na maioria esmagadora dos divãs brasileiros também. Essa violência da arrogância, do saber, da certeza. Essa incapacidade de se colocar em uma posição de vulnerabilidade. Aqui, isso gerou uma repulsa à psicanálise que é tão grande quanto sua própria influência e que, a meu ver, é consequência direta, entre outras coisas, dessa psicanálise surda, burra e narcisista que impera por aqui.
  • Mas se não tem muita diferença, nem na prática, nem na teoria, no Brasil ainda temos uma capacidade de andar nas fronteiras, uma mestiçagem que, mesmo problemática em vários campos, trouxe para a psicanálise e para alguns psicanalistas um jogo de cintura, um rebolado, um molejo que são um tesouro raro. Que saudades tenho das pessoas fazendo arte psicanálise. Aqui não existe E, a França é uma cultura de especialidades e de pessoas que se encaixam em suas especialidades e que nunca mais podem sair do lugar. Isso vale do ponto de vista da formação, isso vale para os percursos profissionais e isso vale, especialmente, para o trabalho do pensamento. A França não tem mestiços, ela tem franceses e/ou estrangeiros. Aqui não existe isso de você ser francês descendente de brasileiro. Você é francês. Percebem que isso impede a fronteira, impede de ser dois, de ser múltiplo? Isso vale para as subjetividades, vale para a psicanálise e encerra pessoas e psicanálise em um terreno bem restrito. Sim, existem exceções.
  • Então, um pouco de cautela da próxima vez que te apresentarem a Bíblia psicanalítica do momento. Ou O cara. Uma das coisas que aprendi é que isso é tudo menos psicanalítico. Isso é religião. E o “santo” Freud tinha muita coisa não muito simpática a dizer sobre religiões, lembram?

Uma pessoa que chega no consultório em carne viva e se confia a um total desconhecido quer negociar. Mas também quer ser acolhida. E escutada. Na verdade e na legitimidade da sua dor. Existe uma dimensão de humanidade, de solidariedade e de compaixão no trabalho psicanalítico que se perdeu historicamente e que se perdeu na fala, nos escritos e nas ações da maioria dos psicanalistas. Uma das psicanalistas mais admiráveis que conheço – brasileira, viveu na França muito tempo e, não, não sou eu e não foi minha analista – é capaz de acompanhar seus pacientes ao longo de uma sessão com seu silêncio acolhedor, sua escuta que não sabe nada e suas palavras econômicas para, ao fim da sessão, sair da sala e acompanhá-los papeando sobre corte de cabelo, viagem, netos… Ela é assim, como a vida. Como os encontros possíveis entre humanos. Como a psicanálise, a meu ver, poderia ou deveria ser, se fosse minimamente coerente consigo mesma. Capaz de escutar a dor mais profunda do ser humano e falar da chuva lá fora. Psicanalistas que se levam a sério demais não são psicanalistas. São apenas… chatos. Ops!

No mundo da maternidade, muita gente critica, e por vezes até teme a psicanálise. Como se a psicanálise fosse inimiga da mulher e da mulher mãe. Se pensarmos no modo como se leva ao pé da letra muita coisa do que Freud escreveu sobre o feminino invejoso e incompleto e sobre a mulher histérica até hoje, e se pensarmos no modo como a idéia da função paterna lacaniana ressoou e ressoa como uma condenação ao laço entre mãe e filho, entendido como uma ameaça a ser combatida, não espanta essa repulsa. E chegaria a dizer que ela tem até um lado bem fundado em querer distância desse discurso.

Mas não podemos esquecer que foi Freud o primeiro a dizer que as histéricas diziam a verdade, que seu discurso era uma fala legítima e digna de ser escutada e levada em consideração. Muita água passou por debaixo dessa ponte desde que Freud escutou essas mulheres sem preconceitos, sem pressupostos e sem amarras. Muita coisa do que Freud descobriu virou saber, virou regra e virou jaula, novamente, para as mulheres e para as mães. Essa é uma das deturpações que mais me impressiona no discurso e na prática psicanalíticas: o quanto eles podem ser violentos com as mulheres. Violentos nas suas proposições e, pior ainda, na clínica. Sem quase nunca se botar em questão, sem nenhuma auto-crítica. Aqui na França, onde o discurso analítico tem uma força imensa, já tive a triste oportunidade de receber mais de uma mulher arrebentada por esse discurso. Em nome de que? Em nome do Pai Lacan?

Um dia quero escrever mais sobre isso, sobre mulheres, mães e psicanálise. Porque poucas coisas se aproximam tanto da prática analítica quanto a experiência da maternidade. Coisa que, talvez, Winnicott tenha percebido. Um dia, quem sabe.

Vamos falar de séquissu!

O quê? Como assim, Alessandra? Esse é um blog família, um blog sobre maternidade. Justamente. Não sou eu que vou precisar contar para vocês que maternidade e sexo têm a ver, sou? Apenas lembrando que a maioria dos casais têm filhos… olha só que loucura… transando! Eu sei, esse é o tipo de revelação que deixa a gente embasbacado quando olhamos para nossos pais e nos damos conta de que eles transaram ao menos o número equivalente ao número de filhos que têm. Mas provavelmente foram mais vezes do que isso. E provavelmente nossos filhos ficarão igualmente embasbacados quando perceberem que nós também transamos. E que esse é um dos motivos pelos quais eles existem. Enfim. Pessoas transam. Pessoas engravidam e têm filhos quando transam. Então falar de maternidade é falar de algo que tem a ver com sexo. Ok? E deixa eu fazer um spoiler aqui: esse não vai ser um texto muito simpático. Eu disse, eu disse num post anterior que ando meio desaforada. Deve ser o inferno astral ou algo assim. Whatever, vamos ao sexo.

E eu vou começar por todos os disclaimers antes de falar sobre sexo depois de nos tornarmos mães. Assim as pessoas vão parando de ler no meio do caminho e lê até o final quem realmente está preocupado com como ficam as relações sexuais de um casal após a chegada dos filhos. Sim, preocupadO porque esse post é essencialmente dirigido aos homens de plantão.

Primeiro disclaimer: passado o ultraje em ler que um blog sobre maternidade vai falar sobre sexo, a primeira coisa que as pessoas pensam é que aí vem mais um texto sobre como a mulher tem que estar inteiraça e cheia de vontade depois de parir, para não correr o risco de “perder o seu homem”. Se você pensa assim, ou se você acha que é isso que vai encontrar escrito por aqui, pára tudo, volta cinco casas e fica ali no cantinho pensando sobre o absurdo da sua presunção. Porque um dos meus primeiros argumentos é que, não, mulher não tem que nada. E não sou eu que vou escrever mais um texto para botar pressão em cima das mulheres dizendo mais umas tantas coisas que elas deveriam fazer ao mesmo tempo que parir, amamentar, aprender a ser mãe, aprender a lidar com um bebê e tudo o mais.

Segundo disclaimer, que tem tudo a ver com o primeiro e que é mais uma epifania do que qualquer outra coisa. E que é o motivo porque estou escrevendo esse post. Noutro dia estava assim meio de bobeira pensando na vida e tive um insight daqueles poderosos, que é tão óbvio que não sei como nunca antes havia pensado nisso. Descobri, olhem só, que quanto mais machista o homem – ou a mulher – pior ele é na cama. O que? Como assim? Além de falar de sexo, vai dar uma de feminista, é?

Sobre o feminismo, uma hora prometo que eu te explico como é impossível tornar-se uma mãe com o mínimo de senso crítico sem se tornar feminista por tabela. Até lá, vai lendo o que escreve gente que fala melhor de maternidade e feminismo do que eu, tipo a Isa Kanupp, do Para Beatriz.

Talvez hajam mulheres que já perceberam isso há tempos. Talvez as meninas de hoje em dia, que estão muito mais emponderadas, donas da própria voz e do próprio corpo já tenham sacado. Então, pô, por que ninguém me avisou? Teriam me poupado umas histórias bem sem graça, a mim e a uma porção de mulheres que já tiverem o desprazer de sair, ficar, transar, namorar ou casar com homem machista.

Na verdade é meio óbvio. Gente machista costuma enxergar a mulher como um objeto, como algo de que ele poderia dispor segundo seus desejos e necessidades. E algo de que se dispõe não é algo que a gente tome em consideração, algo para o qual a gente olhe, algo de que a gente cuide. Dispor significa usar, que é o que fazemos com objetos. Mulher-objeto é uma mulher para ser usada. E como a gente está cansado de saber que sexo, para ser prazeroso, tem que ter cumplicidade, um mínimo de atenção ao outro, um mínimo de empenho, de cuidado e de dedicação… Pois é, considerar o outro na hora de transar não é algo que combina com ver no outro um objeto do seu prazer, né? Aí está: machismo não rima com prazer na cama. Ao menos para uma das partes envolvidas. O que pode não querer dizer nada para o machista. Mas pode querer dizer uma vida inteira sem experimentar algo que pode ser muito bom e muito divertido para uma porção de mulheres. Homem machista é ruim de cama, minha gente. Pensa nas suas transas, faz a enquete com as amigas, vai por mim.

Então o segundo disclaimer é que se você é um sujeito machista, além de ser ruim de cama, você tem altas chances de estar aqui procurando uma receitinha ou um textinho para pressionar sua mulher a voltar a transar contigo porque, afinal, é obrigação dela. Senão, o que você não encontrar em casa vai procurar na rua. E a culpa vai ser dela. Que você tem lá suas necessidades. E ter filho não é desculpa para deixar de se cuidar, de cuidar do seu homem e de dar para ele. Não é mesmo? Não, não é. Volte trinta casas, senta ali no cantinho por uns cinco anos e vê se usa seus neurônios para aquilo que foram feitos, ou seja, pensar. Pensa um pouco, meu caro, pensa antes que o mundo ande e te deixe para trás choramingando sem entender aonde foi que você errou. Pensa antes de ficar sozinho e virar atração de zoológico como um animal em extinção. Pensa logo, porque o mundo está andando. E esse monte de mulher machista que ainda existe nesse nosso mundo de hoje, e que reforça estupidamente suas opiniões e suas certezas, o que torna sua vida confortável demais… bom, essas mulheres estão mudando bem rápido, estão percebendo muitas coisas óbvias e… Bom, pensa bem direitinho aí, cara. Deixa eu te dar uma dica de por onde começar: mulher não é objeto, é sujeito. Combinado? Em tempo: nem criança. Nem ninguém diferente de você. Todo mundo é tão gente quanto você e deve ser levado em consideração sempre que qualquer coisa que você faça os inclua ou traga consequências para eles. Inclusive transar. Ok? Se isso não é óbvio para você, então para por aqui que é game over. A gente não se vê por aí nem na próxima encarnação.

Se você chegou até aqui e não é daquele tipo de pessoa que gosta de ler algo apenas para querer puxar briga depois nos comentários e sair satisfeito consigo mesmo por julgar que humilhou, destratou ou rebaixou alguém, então deve ser porque você é um sujeito verdadeiramente preocupado com essa história de sexo depois da maternidade. Ou da paternidade. Ou porque sua mulher deixou casualmente essa página aberta ali no computador em cima do sofá e você, que não é bobo nem nada, se deu conta de que tem alguma mensagem que ela está querendo te passar… certo, amorzão? Então, ao invés de falar do que sua mulher tem que fazer para “te segurar” e das mil obrigações dela, vou quebrar o seu galho – sim o seu, porque é você que vai me agradecer depois por não ter perdido uma pessoa tão legal quanto sua esposa faendo papel de idiota por tempo demais nessa vida – e vou dizer o que você tem que fazer. Ou, pelo menos o que, na minha experiência e na experiência das mulheres que me falam sobre o assunto, nós mulheres sentimos, pensamos, vivemos e esperamos de vocês homens quando o assunto é sexo pós nascimento de filho. E isso não é uma verdade absoluta, ok? Só para complicar um pouco mais as coisas…

Bom, vai, anota a listinha aí:

  1. Tem mulher que tem mais vontade de transar quando engravida. Tem mulher que tem mais vontade de transar depois que o bebê nasce. Mas a maioria das mulheres não tem muita vontade de transar quando engravida (especialmente no final da gravidez). E tem pouca ou nenhuma vontade de transar depois que o bebê nasce. Não fique chateado com o que eu vou te dizer mas… não é pessoal. Não necessariamente. Não é contigo. Um combinado de mudanças hormonais, mudanças gigantescas de vida e de perspectiva de vida com um cansaço sem tamanho fazem com que a gente só consiga pensar em dormir. E no bebê. Não necessariamente nessa ordem.
  2. Isso é muito sério, nunca subestime o cansaço de uma mulher que acabou de ter um filho. Você pode querer transar e ela pode estar pensando em quantos minutos preciosos de sono está perdendo com aquela transa que nem está tão boa assim. Porque ela está cansada. Preocupada. Não quer fazer barulho para não acordar o bebê. Porque se ele acordar lá vai ela de novo, sem conseguir descansar nem por quinze minutinhos. E se ela está transando contigo mesmo exausta é porque, provavelmente, ela tem essa pressão social perversa dentro dela de que tem que estar disponível para o marido, tem que estar a fim, tem até que gostar. Mas ela não está afim. Ela quer dormir. E se você não percebeu é porque talvez seja um ogro. Volta para o disclaimer e senta ali no cantinho. E se você percebeu e não parou é porque ainda não entendeu que isso é um abuso. Feio, muito feio. Para já de transar com uma mulher que não está afim e deixa ela descansar, cara. Ela não deixou de te amar ou de te desejar depois que esteve filho, ela só está cansada. E com o foco no bebê.
  3. Consequência do anterior: nunca subestime a mudança de prioridades que muito provavelmente acontece para uma mulher quando ela se torna mãe. Os filhos se tornam prioridade. Ah, mas isso é motivo para ela deixar o marido de lado, se esquecer da relação, negligenciá-lo e tal? Isso não é um jeito saudável de ser mãe, isso de ficar se dedicando a cem por cento para o filho. Cara, para que está feio. Sua mulher não está fazendo nada disso. Ela não está te deixando de lado, te esquecendo, te negligenciando. Sai um pouco do seu umbigo, para de falar “eu, eu, eu” e olha para o que está acontecendo ao seu redor. Sua mulher está… cuidando do seu filho. Percebe? Ela está se dedicando ao filho de vocês. Você deveria estar feliz e orgulhoso pelo cuidado que ela tem, pela sua capacidade de se doar, pelo amor com que ela faz as coisas mais corriqueiras. Devia estar feliz, orgulhoso, admirado e agradecido de ter essa mulher que cuida assim de um filho seu. Se você ainda não sacou que isso diz muito sobre a pessoa com quem você decidiu formar uma família, acho que você também precisa voltar umas cinco casas, sentar ali no cantinho e rever alguns conceitos.
  4. “Ah, mas e eu? Eu também preciso de atenção, carinho e cuidado!”. Claro que sim. E se você ainda não notou, provavelmente ela também. Ela também deve se sentir carente, deve se sentir sozinha, deve sentir falta de um carinho, um cafuné, um colo, um sei lá o que. E só não pede porque fica preocupada de você entender que isso é um convite para vocês transarem. E ela não quer transar, cara. Ela quer carinho, cafuné, massagem nas costas. Não quer que isso termine na obrigação de dar para você. Mas como tem homem que não consegue dissociar uma coisa da outra, muita mulher fica ali com a sua carência, tendo que dar para o filho o que não tem. Que tal, ao invés de chegar junto, você ser apenas carinhoso com sua mulher? Sem segundas intenções. Ou com segundas intenções mas sem botar nenhuma pressão. Pode rolar algo, pode não rolar nada, mas pode rolar carinho, afeto, troca e isso pode ser muito bom tanto para um quanto para outro.
  5. Além do que, não sei se você já reparou, mas o seu filho… é um bebê. E você… é um adulto. E uma das diferenças entre um adulto e um bebê é que o adulto deveria saber que um bebê tem necessidades mais vitais e mais urgentes do que as dele. Um adulto deveria ter aprendido a esperar, a adiar e, até, a renunciar. Para a boa e velha psicanálise, é isso que a gente “ganha” quando passa pelo tal do complexo de Édipo. Presente de grego? Sim, literalmente. Mas é uma beleza saber disso par lidar com a vida, com as impossibilidades da vida e com as frustrações que fazem parte de estar vivo.
  6. “Ah, mas então esse pirralho que fique ali frustrado, esperando, porque ele tem que aprender desde pequeno que não pode ter tudo o que quer… tem que ter limite, não pode dispor assim de tudo e de todos em função dos seus desejos.” Assim disse o cara que vê as necessidades de um bebê como desejos e caprichos e que vê os seus desejos como necessidades tão fundamentais que deveriam passar na frente daquelas que o bebê tem. Hummm… precisa explicar onde está o problema? Senta ali e pensa mais um pouco.
  7. “Mas isso dura quanto tempo? Porque, ok, eu sou um cara legal e fico de boa aqui, durante um mês, fazendo o meu papel de pai esmerado e marido compreensivo… mas tudo tem limite, né?”. Tem, tem mesmo. Mas, infelizmente, nesse caso quem coloca o limite não é você. A não ser que queira botar limite no casamento por não respeitar esse começo fusional e importante da experiência da maternidade. Mesmo que você possa argumentar, com todo o verniz psicanalítico que te parece muito útil nesse momento, que “o pai precisa entrar na relação entre a mãe e o bebê e estabelecer um terceiro nessa relação, um corte, um limite”. Mesmo que você argumente que sua interferência e sua reivindicação são legítimas e para o bem da criança. Porque, novamente, você está usando algo para o que te convém. Do mesmo jeito que usa sua mulher-objeto, usa esse argumento do terceiro. E porque, qualquer um que considere com o mínimo de seriedade esse argumento psicanalítico sabe que as relações mãe-bebê que se tornam doentias e coladas são uma minoria. E que a dependência é uma necessidade do bebê para a qual a mãe se presta. Felizmente. E que o terceiro vai entrar de todo o jeito. Que você vai entrar de todo o jeito. Porque você existe. E o mundo existe. E se você parar de ser um babaca e for mais humano, cuidadoso, sensível e respeitoso com a sua mulher e com as necessidades do seu filho, ela não vai precisar ficar lutando contigo para proteger as necessidades básicas dele. E vai ser muito mais fácil dela deixar você estar perto. Até para transar, cara.
  8. Se ainda não ficou claro, vou dizer de outro modo: se você for infantil o suficiente para encarar a paternidade como uma competição com o seu filho recém-nascido pela atenção da sua mulher, e se você cair na besteira de ficar concorrendo com ele como se os dois estivessem no mesmo lugar, e se insistir em ficar dificultando ainda mais a vida da sua esposa nesse momento que já é tão difícil, delicado e sensível… quem vai perder é você. Anota aí em caixa alta, que essa é quase uma certeza absoluta: SE OBRIGAR UMA MULHER A ESCOLHER ENTRE VOCÊ E O FILHO DELA, ELA VAI ESCOLHER O FILHO. Quantas mulheres vocês conhecem que fizeram o oposto disso? Por pressão social, tradição cultural, instinto, ou simplesmente porque a pessoa tem o mínimo de noção para perceber que botou um ser no mundo que precisa dela e pelo qual ela é responsável… adivinha quem vai ganhar se você entrar nessa competição baixa, mesquinha e perversa? Não é você, cara.
  9. “Ah, mas então é ela quem vai perder porque eu vou procurar fora o que não tenho em casa!”. O mais triste nesse argumento, para mim, é que tem muita mulher que acredita nele. E fica com medo. Medo de perder o machistão ogro que é capaz de ameaçar mesmo que tacitamente uma mulher que acaba de gerar um filho dos dois com essa história de transar com outra. E a última coisa que uma mulher quer, logo que tem um filho, é se separar logo em seguida. Ou durante a gravidez. E é incrível como isso é mais comum do que temos notícias. E, podem anotar aí como mais uma quase certeza absoluta: para uma mulher se separar grávida ou recém parida é porque a coisa tem que ser muito, muito séria, muito grave. Porque ela certamente vai ter muito medo de ficar sozinha com tudo o que envolve ter um filho, ela vai ter tanto medo de se separar nessa hora que vai se dispor a engolir muita coisa. O que significa que um cara, para conseguir que uma mulher vá embora grávida ou com bebê nos braços precisa fazer uma asneira descomunal, tipo achar que tem razão em ir “procurar fora”.
  10. Então, colega, se você cogitou mesmo que remotamente em arrumar uma amante, uma peguete, um casinho ou mesmo uma história de uma noite no exato momento em que sua mulher está às voltas com o turbilhão que é ser mãe, deixa eu te dizer que você está correndo um risco imenso. Mesmo. Você está em sério perigo. Porque, na minha humilde opinião, traição nunca é algo bom. E porque uma mulher traída num momento desses é uma mulher que tem medo, mas também é uma mulher que tem uma coragem colossal de te mandar pastar. Os casais têm ou teriam mil maneiras de construir suas relações levando em conta que querem ter outros parceiros, poliamor, triângulo, poligamia serial ou o que quer que funcione para cada casal específico. Cada casal constrói sua relação e quanto mais abertos estejam a estar com o outro de maneira sincera e menos dispostos a adotarem qualquer clichê besta sem nem ao menos pensar se isso serve a eles, mais chance a coisa tem de dar certo. E mentir e trapacear não fazem parte do pacote. Nunca. Mentir e trapacear são coisas de gente que não assume o que quer, nem para si, nem para o outro. E que não corre o risco de construir ou encerrar uma relação por assumir o que quer. Mentir e trapacear são coisas de quem quer ter tudo, de quem não quer perder nada. E de quem não quer ter que pagar o preço de nada. O ogro lá de cima. O machista. No limite, o perversão de plantão. O narcisista. E, se além de mentir e trapacear você decide que a gravidez da sua mulher ou o pós-parto são momentos legítimos para você sair por aí exercendo o seu direito de transar com quem quiser… Bom, tudo o que posso te dizer é que na hora em que ela ficar sabendo vai ser muito difícil para ela conseguir te perdoar. Porque sempre que ela olhar para o filho, ela vai lembrar que estava sozinha enfrentando todo o perrengue do começo de vida com um bebê enquanto você se afastava, se desimplicava, se desincumbia. E se não é raro que mulheres e casamentos sobrevivam após traições do cara-metade, traições durante gravidez e puerpério raramente terminam em outra coisa que não uma separação em um péssimo momento. Com direito a muito sofrimento para todos. Volta para o início do jogo e nasce de novo. De preferência com um coração que funciona, ok?

Não se preocupe que eu volto para acalentar seu coraçãozinho perturbado com uns do & don’t mais simpáticos na continuação desse post. Que antes de poder ser simpática, generosa e construtiva era preciso esclarecer algumas coisas bem sérias que as mulheres dificilmente conseguem falar com seus parceiros quando o assunto é sexo depois de ter filhos. E que já era hora de alguém dizer.

 

E ele engatinhou… para trás 

Aconteceu antes com a pequena, mas não sei se é assim com todos os bebês. Ou apenas com aqueles que gostam de experimentar tudo à sua maneira. Mas aqui temos dois casos em dois de pimpolhos engatinhadores de marcha à ré.

Ele exercitou, sacolejou o corpo todo, esticou os braços feito gato que espreguiça, levantou o bumbum com os pés cruzados no ar. Ficou apoiado só na barriga, tipo um pirocóptero, e eu imaginei que ele ia sair girando, um dançarino de breakdance. E daí apoiou os pés no chão, esticou as pernas, levantou a buzanfa nas alturas, ajudou com o queixo e as mãos e… deu ré.

Ficou meio contrariado quando, uns três movimentos depois, estava mais distante de onde queria chegar do que no começo. Avermelhou resmungando.

Eu ri. Ele me olhou e sorriu com o rosto inteiro. Aquele rosto de covinhas de sorriso. E riu. E foi tentar de novo.

Amamentação: 8 meses and counting…

Eis que passaram os seis meses de amamentação exclusiva. Eis que começou a diversificação alimentar. E então eu li por esses dias três coisas que me fizeram pensar que estava na hora de desentalar esse texto aqui e mais uns outros bem desaforados que, espero, virão em seguida.

Comecemos pelo pior, que foi uma discussão em um grupo privativo da Leche League sobre uma mulher aqui na França que ouviu de sua advogada que, caso ela não pare de amamentar seu filho de três anos até a próxima audiência, a guarda da criança será atribuída ao pai. Sim, você não leu errado, uma mãe é ameaçada de perder a guarda do filho porque ainda o amamenta aos três anos de idade e isso, aqui na França, é considerado como algo absurdo, uma espécie de manipulação da mãe, que visa apenas manter a dependência da criança e afastá-la do convívio com o pai. Nos comentários dessa discussão, dezenas de casos parecidos, em que juízes e juízas decidem por uma guarda compartilhada – o que é praxe nos casos de divórcio por aqui – independentemente da idade da criança e independentemente do fato dela ser amamentada. Em muitos casos, inclusive, a amamentação funcionou como argumento contra a mãe.

Devo confessar que esse tipo de situação me deixa em um misto de tristeza infinita e revolta furiosa porque, vamos combinar, é algo incompreensível para além do terreno da perversidade pura e simples. O que me faz pensar que em algum momento vou conseguir escrever sobre como é ser mulher aqui na França. Mas continuemos aqui apenas no tema da amamentação.

Pois é, por aqui amamentar um bebê é algo opcional e ninguém acha estranho que você decida não fazê-lo porque, segundo a mentalidade francesa, isso entra na conta das liberdades de escolha de uma mulher. A indústria alimentícia e os fabricantes de leite em pó agradecem. Ainda mais na medida em que, junto a esse discurso da liberdade da mulher em escolher se amamenta ou não, veio se agregar um discurso bastante distorcido sobre a dependência entre um filho e sua mãe. E aqui as pessoas parecem ter pavor da dependência, a tal ponto que propostas como deixar o bebê chorando até dormir desde recém nascido encontram eco e são tomadas como boas orientações de conduta.

As pessoas parecem tão assombradas com essa idéia de que a dependência é uma espécie de veneno perigoso que sua maior preocupação, desde que os bebês nascem, é garantir que eles sejam autônomos. Não parece desejável e nem mesmo suportável cogitar que esses bebês, que certamente caminharão rumo à autonomia, dado que isso faz parte da vida, precisem viver um momento de dependência absoluta que vai funcionar como aquilo que lhes traz segurança para poderem se aventurar mundo afora. Como já dizia o bom e velho Winnicott. Mas ele não era francês. Infelizmente para os franceses.

Assim, não causa espanto, em uma sociedade onde a preocupação principal quando o assunto é a infância se centra na independência a qualquer custo das crianças de qualquer idade, que um comportamento qualquer que crie e mantenha laços fortes entre duas pessoas possa ser entendido como contrário ao que se almeja e tenha que ser, consequentemente, combatido. Por isso, uma mãe que amamenta por um longo período é vista como alguém que faz isso em detrimento da criança, visando apenas manter o filho colado, dependente e, com isso, distante dos outros e da sociabilização. Uma mulher que amamenta é um mal a ser combatido aqui na França.

Nem vou entrar no mérito de todas as pesquisas que comprovam que uma amamentação longa traz benefícios importantes para o bebê e para a mãe. Nem vou detalhar as recomendações feitas pela OMS sobre o tema e a ênfase que dão em que se amamente até, no mínimo, dois anos de idade. Por aqui, o pessoal não respeita as diretrizes da OMS, como se fossem mais sábios que isso. Coisas da arrogância francesa.

Ao invés de repisar todas essas informações, ou de falar novamente sobre a importância da dependência na primeira infância justamente para criar pessoas seguras, confiantes e autônomas, prefiro dessa vez falar sobre a segunda leitura que mencionei logo acima, um texto lindo de um sociólogo defendendo a amamentação. Além do fato de ser um homem que defende o amamentar – o que é não apenas raro, mas basicamente o contrário do que a maioria dos homens fazem – seus argumentos são formulados de uma maneira muito inteligente e perspicaz. Leiam o texto, está em francês e em inglês.

Basicamente, o que o Akré mostra, a partir de dados, estudos e pesquisas, é que a questão principal para se apoiar o aleitamento materno é que não podemos realizar nosso pleno potencial se não consumirmos o primeiro alimento feito especificamente para nós, humanos. E assim ele mostra como a amamentação contribui significativamente para que o ser humano possa se desenvolver no melhor de suas capacidades. Ou seja, não é que a amamentação faz com que sejamos mais inteligentes, por exemplo. É que a não-amamentação faz com que não consigamos utilizar todo o nosso potencial de inteligência. Nas palavras de Akré: “Os bebês humanos não realizarão jamais seu potencial genético consumindo fast-food pediátrico – eu falo aqui dos leites industrializados – fabricados à partir de uma espécie que nos é estrangeira”. Em resumo, sua perspectiva é que a amamentação não nos dá um “a mais” em relação aos bebês que não são amamentados. Não faz sentido falar em vantagens da amamentação, pois isso seria como falar das vantagens de andar em pé e não sobre quatro patas. A amamentação permite apenas o desenvolvimento máximo daquilo que temos potencialmente em nós. Coisa que o leite em pó não permite. E, não, não é uma mágica ou uma crença, é questão de composição mesmo.

Vale a pena lembrar que o leite em pó surgiu para resolver uma situação de urgência, ou seja, para servir como alimento substituto nos casos em que o aleitamento materno não fosse possível. É como a cesariana, que surgiu para solucionar casos de urgência em que um parto normal não fosse possível. Não são opções, no sentido de que não são escolhas entre duas coisas equivalentes. São alternativas piores para os casos em que aquilo que é o melhor, o mais indicado e, por que não, o mais natural, não funciona. Têm uma função de remédio e não de algo para ser utilizado rotineiramente.

Em uma sociedade em que amamentar tornou-se questão de escolha sob o falacioso argumento em prol da liberdade da mulher (porque isso não tem necessariamente a ver com liberdade, mas explico num outro texto, prometo) e em que amamentar tornou-se perigo de cultivar uma dependência perniciosa para as crianças em relação às suas mães, ninguém parece preocupado com aquilo que se perde – ou que se impede – quando se adota esse descaso pela amamentação como regra. E essa perda é não apenas emocional, psicológica, mas também cognitiva, imunológica e em vários outros níveis.

Então, chega o terceiro texto, os resultados de uma pesquisa brasileira mostrando o perfil das mulheres que amamentam por dois anos ou mais. Segundo as pesquisadoras, existem algumas características comuns às mulheres que conseguem amamentar de maneira prolongada. Entre elas estão permanecer em casa por pelo menos seis meses de licença maternidade, não dar bicos artificiais como chupetas ou mamadeira ao bebê, fazer a diversificação alimentar apenas à partir do sexto mês e, vejam só, não viverem com o pai da criança.

Retornamos ao início, por um outro viés. O que quer dizer isso de que as mulheres que amamentam prolongadamente (em geral, né, gente, não é a regra absoluta) serem mulheres que não vivem com o pai da criança? Podemos interpretar, seguindo a linha francesa, de que são provavelmente mães que superinvestem os vínculos com seus bebês e os mantém em uma relação de dependência, infantilizando-os tanto quanto possível através da amamentação. Ou podemos pensar, seguindo a linha do Akré, que um dos maiores obstáculos para a amamentação e para o sucesso da amamentação prolongada consiste na falta de apoio das pessoas próximas da mãe e de bebê, principalmente o marido.

No mundo não tão cor-de-rosa da maternidade tem muita mulher tendo que batalhar sozinha para conseguir amamentar. Já ouvi um número desolador de relatos de pais enciumados, que entram em competição com a cria, que se mostram infantis e contrariados por deixarem de ser o centro das atenções daquela relação do que era antes apenas um casal, ou daqueles seios que eram anteriormente apenas “dele”. Já ouvi pais argumentarem que o fato da esposa amamentar impede que eles possam também construir uma relação com o bebê. Sim, exatamente como no argumento usado por pais, advogados e juízes para impor um final de amamentação forçado para uma criança sob risco da mãe perder a guarda, lembram? Já ouvi mães cogitarem dar mamadeira para seus bebês por acreditarem nesse argumento do interesse dos pais em criarem um vínculo com seus filhos e de que esse seria o melhor e mesmo o único modo de fazerem isso. Dar mamadeira seria a única forma de se aproximarem de um bebê, que tal? Já ouvi homens e mulheres argumentando que amamentar é um ato de egoísmo da mulher que tenta, assim, conservar o bebê apenas “para ela”. Conclusão: muitas vezes, a maior dificuldade de uma mulher em amamentar seu bebê é o clima hostil e conflitual criado pelo pai da criança em torno da amamentação. Que coisa triste que uma das primeiras pessoas que deveria entender e valorizar o esforço da mulher em dar o melhor para aquele que, em última instância, é filho de ambos seja um dos maiores empecilhos justamente para que essa criança possa ter o melhor, não? Que mundo estranho e deturpado é esse em que dificultar ou impedir a amamentação é visto como salvar o filho de uma ameaçadora dependência, esse mal terrível encarnado pela mãe?

Aqui nesse mundo estranho, chegamos aos 8 meses de amamentação, seis dos quais em exclusividade. A segunda vez foi mais fácil, pois teve o apoio da experiência da primeira. O que fez com que eu já soubesse quem pode realmente ajudar, a quem realmente dar ouvidos e a quem jamais procurar em busca de conselhos quando o assunto é amamentação.

Ainda na maternidade, as enfermeiras vieram perguntar como eu alimentaria o bebê – pergunta de rotina por essas bandas quando você chega para parir. Disse que amamentaria e me perguntaram se eu precisava de ajuda ou orientação. Disse que não. Me perguntaram se tinha amamentado a primeira e eu disse que sim. Por quanto tempo? Até seus 20 meses. Ah, então você tem experiência. Sim, tenho.

O importante dessa conversa não é que eu estivesse mais ou menos emponderada em relação ao tema, mas que eu tinha mais noção dessa vez sobre com quem valia à pena conversar. O primeiro mês de vida da minha pimpolha foi um calvário de enfermeiras obstétricas, auxiliares de puericultura, sage-femmes e pediatras todos dando pitacos desencontrados sobre uma amamentação que quase foi para o beleléu por conta disso. Complementa, faz intervalo de 3 horas, acorda para dar de mamar, faz em tal posição, muda de peito, espera esvaziar um peito, deixa dormir no peito, acorda para continuar mamando… Quase enlouqueci. E a coisa só começou realmente a funcionar quando eu parei de escutar todas essas pessoas que na realidade não entendem nada de amamentação porque não possuem nenhuma formação específica sobre o assunto e falam a partir de preconceitos, senso comum e informações errôneas. E passei a me orientar com consultores de amamentação, grupos sobre o tema, o pessoal da Leche League e, especialmente, com mães que amamentaram longamente. Dali em diante foi uma experiência muito linda, tocante e rica de emoções para ambas. Aprendi muito amamentando minha filha, tanto sobre mim mesma, minhas possibilidades e meus limites quanto sobre ela, sobre como é nascer, sobre como é depender, sobre como é contar com o outro, sobre como é crescer, confiar, amar…

Nessa segunda vez já nem abri brechas para o azar. Coisa que não poderia ter feito na primeira, pois nunca tinha amamentado, não conhecia tanta gente próxima que o tivesse feito, não tinha muito em quem me espelhar – e, sim, amamentar, tanto quanto parir, é mais fácil quanto mais você tem modelos no seu entorno – e tinha toda a insegurança da primeira vez, do primeiro filho, da inexperiência. Então tive que aprender rápido, tomar as rédeas dessa história, cuidar para fazer o melhor possível com as informações que eu tinha, confiar na minha capacidade e na capacidade da minha filha… E tudo isso eu trouxe para o segundinho que, sortudo, não passou muito perrengue. Mesmo tendo uma pegada bem ruim no começo, mesmo mamando esbaforido, mesmo engolindo tanto ar que achei que ele fosse inflar e sair voando como balãozinho de gás… Eu respirava fundo, arrumava a pega do menino desesperado e acreditava piamente que ia dar tudo certo. E deu. E quem olha as dobrinhas branquicelas das perninhas desse pequeno hoje em dia nunca que iria imaginar que ele foi um bebezinho que no começo nem sabia mamar direito. E que ele aprendeu mamando e que a mamãe aprendeu como é que era para dar de mamar para ele. E que foi a confiança e a aceitação da dependência que ajudaram para que essa história de amamentação pudesse correr bem.

Vai por mim, se você busca algum conselho sobre amamentar: discuta com quem amamentou durante um longo período. Discuta sobre como a pessoa fez, sobre o que funcionou para ela e para o bebê dela. Provavelmente essa pessoa, quem quer que seja, vai te dizer quase as mesmas coisas que qualquer outra pessoa que teve a mesma longa experiência de amamentação diria: amamentar em livre demanda, seguir e confiar no ritmo do bebê, não julgar se ele está com fome ou não, se é manha ou não e dar o peito sempre que ele pedir, não dar chupeta, mamadeira, não usar bico de silicone nem nada que o valha, confiar que tem leite porque a imensa maioria do leite que o bebê mama é produzido durante a mamada e um peito mais cheio ou mais murcho não quer dizer grande coisa, descansar, deixar a casa bagunçada mesmo, deixar-se levar… confiar. Mães que amamentaram seus filhos prolongadamente sabem mais sobre o assunto do que a maior parte dos auto proclamados especialistas porque apenas nas situações de exceção a teoria importa mais do que a experiência.

 

Desacorçoada – ou como parei de gritar com a minha filha

Algumas vezes, quando perguntava à minha avó como ela estava, ela respondia: “ah, hoje estou desacorçoada…”, o que era algo entre o desanimada e o triste e sem esperanças, sem precisar assumir nenhum deles. Desacorçoada era o bom termo para ninguém encher o saco dela dizendo que ela devia estar bem ou pedindo explicações de seu desacorçoamento. Desacorçoada ela ficava em paz para estar triste, sem esperanças ou desanimada o quanto quisesse. Ou precisasse.

Então, eu andei desacorçoada nos últimos tempos. Não o cansaço de ser mãe de dois, não a gastura do verão de dias quentes daqui do sul da França, que eu nunca gostei de verão, mesmo sendo brasileira… não, desacorçoada mesmo. Eu explico.

Nessa história de educação com apego, que é simplesmente você tentar educar os seus filhos de forma respeitosa, tratando-os como seres humanos, respeitando suas vontades, seus limites, suas necessidades e tudo o mais que o respeito a um ser humano inclui ou deveria incluir, muitas vezes nos vemos confrontadas com um desafio hercúleo que é aquele de tentar dar o que não tivemos: como educar sem violência se não temos nenhum registro disso na nossa própria experiência?

Dizem que ninguém dá aquilo que não tem e estou convencida de que aquilo que temos para dar se constrói ao longo de nossas experiências, de nossa história, de nossa vivência, especialmente da infância e da primeira infância. O que temos para dar se constrói na dependência dos outros, do que recebemos, da forma como fomos recebidos nesse mundo e a ele fomos apresentados. Então, o que podemos dar ao mundo será sempre um bom tanto em consequência disso que tivemos desde o início. O que não quer dizer uma condenação, como se uma experiência ruim pudesse colocar absolutamente tudo a perder. Felizmente, não somos apenas uma única experiência, quer ela se chame nascimento, amamentação ou qualquer outra coisa de igual importância nesse começo de vida. Mas… que conta um bocado, conta.

E daí a gente vira adulto e decide que quer dar um monte de coisas aos nossos filhos, o que significa, nesse meu contexto aqui, não materialidades, mas dar um certo tipo de criação, apresentar o mundo de uma certa maneira, receber e se relacionar com essas crianças de um certo jeito que é o que acreditamos ser o melhor para nós e para eles… o mais ético, o mais respeitoso, o mais cuidadoso, o mais amoroso… E aí a gente descobre o quanto é difícil. E um dos motivos – e atentem bem ao “um dos”, porque não é o único – é que possivelmente é nessa hora de querer oferecer algo que a gente se dá conta que não sabe muito bem de onde tirar.

Vejam bem, eu não vou fazer aqui um relato de uma infância infeliz e violenta, porque não é esse o caso. Existem infâncias muito mais radicalmente violentas e complicadas do que a que eu vivi, então é sempre importante nuançar as coisas. Digamos que, na minha história, um bom resumo estaria na frase ouvida à exaustão durante toda a minha infância “mas criança não tem querer”.

Criança não tem querer e a pessoa aqui foi virar psicanalista, sacaram? Na psicanálise, o que move o ser humano, do primeiro ao último suspiro é justamente o querer. Sem desejo, não há nada que se possa chamar de vida ou de humanidade em uma existência. Que tal? Ah, para evitar equívocos, em psicanálise, a primazia do desejo não significa dizer que o ser humano faz tudo o que ele quer, ou que ele faz tudo o que for preciso para alcançar o que quer. Seria assim – e muitas vezes é mesmo – se não fosse por conta de outra coisa linda que o ser humano tem que é a capacidade de renunciar ao todo de seu desejo realizado em prol de uma coletividade. Ou melhor, não é que cada humano generosamente renuncia ao seu desejo totalmente satisfeito em prol de satisfações parciais partilhadas por todos, que nós não somos esses seres altruístas não. Mas somos forçados a isso pelo fato de termos inteligência o suficiente para perceber que esse desejo que tenta se realizar a qualquer preço é sinônimo de vencer pela força e subjugar os mais fracos. E, nesse outro jeito de funcionar do mundo, haveria apenas um mais forte que subjugaria todos os demais, ou seja, só um que teria tudo o que deseja enquanto que os outros ficariam com aquilo que eu ouvia quando criança, sem ter querer. Freud, Totem e Tabu. Leiam, é um belo mito das origens, no sentido mítico mesmo, daquilo que fundaria um pacto civilizatório. Pois bem.

Todo mundo tem querer, até mesmo as crianças. E os velhos. E os loucos. E os deficientes de todos os tipos. Isso é, em suma, o que aceitamos quando aceitamos viver em sociedade. Todos têm querer e então não vai dar para todos terem tudo o que querem. Então vamos compartilhar esses quereres, e que cada um realize um bocadinho do seu. O que é melhor do que o domínio do mais forte sobre o mais fraco. A não ser para o mais forte que pode facilmente esquecer que mesmo no mundo dos animais bem mais inteligentes que nós, como por exemplo entre os leões, o mais forte um dia também envelhece e vai ser vencido pelo próximo mais forte e assim por diante numa tirania sem fim até o fim dos tempos. Melhor todo mundo ter um pouco e uns cuidarem dos quereres dos outros com zelo, respeito e consideração, não? Contemplando o que é possível, ajudando a lidar com o que é da ordem do interdito ou do inalcançável.

Que tal? Parece pouco? Digamos que talvez o melhor dessa nossa civilização tenha se baseado nesse acordo. Por quê? Porque se a gente não tem mais que passar a vida inteira brigando e se matando para ver quem é o mais forte e quem é que pode ter o seu querer, podemos nos dedicar a coisas, digamos, mais interessantes como, por exemplo, produzir cultura, criar história, inventar tecnologia… em suma, melhorar nossos modos e meios de vida. Sacaram? Se não precisa se matar, dá para fazer outra coisa. Inclusive amar, viajar, fazer nada, ler um livro, inventar novos modos de preparar batatas, ou criar o futebol e o rugby… you name it, amiguinho. Porque se a gente for parar para pensar que o que entendemos por civilização e cultura é uma criação humana e que isso depende de que o ser humano possa se dedicar a inventar modos e meios de vida, a gente logo se dá conta que abrir mão de um tanto da nossa realização de desejo em prol de tantas conquistas coletivas que melhoram a vida de todo mundo pode ser um baita negócio, certo?

Certo e errado. Porque infelizmente nós seres humanos não somos tão lisos e tão limpos assim. E se aceitamos de bom grado as vantagens desse pacto civilizatório e se ficamos bem contentes em poder tomar um bom vinho, em assistir o último filme do Almodovar ou em poder contar com todos os recursos da ciência e da medicina para tratar de uma doença… paradoxalmente não ficamos assim tão convencidos nem satisfeitos de que isso deva supostamente beneficiar a todos igualmente. Em outras palavras, estamos felizes que a civilização pague pelos nossos benefícios sociais, pelo nosso carro novo na garagem, pela nossa garagem, pela nossa viagem pra Zooropa nas férias de julho… mas começamos a nos sentir bem explorados se essa tal civilização começa a querer pagar também pelas cotas nas universidades, pelo bolsa família, pela demarcação das terras indígenas, pela criminalização da homofobia ou pela legalização do aborto… E de repente começamos a sentir que essa tal civilização é injusta e que deveríamos dobrar os acordos aos quais todos cederam lá em algum ponto inicial e mítico em prol de uma “justiça” mais para o nosso lado, mais a nossa maneira. Eis o retorno insidioso e sorrateiro da lei do mais forte que, na verdade, parece ter sempre funcionado para colocar um grupo de humanos contra outros, ou para federar um tanto de humanos contra o restante, como nos contam todas as guerras, conflitos e explorações de uns povos por outros ao longo da história. E como constatamos com amargura nos tempos recentes, essa tal lei da força nem tinha sido tão deixada de lado assim, ao menos quando se trata de Brasil, esse nosso país onde aparentemente o tal pacto civilizatório foi apenas de fachada, um truque, uma gambiarra qualquer que alguém fez, muitos acreditaram, mas que era “de mentirinha”. Coisa de gente sem lei. Ou coisa de quem nunca se preocupou em pagar o preço de ter uma.

Mas calma que estou me desviando sem me desviar realmente dessa história de desacorçoada, criação com apego e criança não tem querer.

Pois bem, quando começamos a tentar educar os nossos filhos de uma maneira mais respeitosa e menos violenta é quando a porca torce o rabo e quando nos damos conta do tanto de violência mais ou menos declarada, mais ou menos subterrânea à qual fomos submetidas ao longo de nossa existência, muitas vezes sem percebermos. E não sabemos de onde tirar um modo não violento de lidar com os filhos.

Criança não tem querer. Uma expressão da vontade, uma expressão do simples fato de existir que nunca teve lugar nem legitimidade. Criança não tinha nenhuma autorização para existir enquanto ser querente. Criança não tinha nenhuma autorização para simplesmente existir. Poderia ser pior e é para muitas crianças que são literalmente massacradas em suas existências de todos os modos possíveis. Física, moral e psicologicamente. Em nome de justificativas toscas como “educação” ou “amor”. My ass.

Criança não tem querer pode se tornar, num piscar de olhos, tapas, beliscões, objetos arremessados e, ainda noutro piscar de olhos, palavras duras, especialmente quando vindas de uma mãe ou de um pai, aqueles seres quase divinos que toda criança acredita serem os portadores da verdade: “você é chata”, “você é egoísta”, “você é estranha”, “como você é boba”, “você é feia”, “você não é bonita, mas é inteligente”… Daí para se olhar no espelho e começar a se achar estranha, feia é apenas mais um piscar de olhos. E que criança não chorou a dor de se ver aquilo que o adulto amado diz e de se ver de repente algo que não tem valor, algo que não serve, algo que pode ser deixado de lado? Choro, dor e medo… como é que faz para ser alguém que esse adulto ame?

Pouco a pouco, essa criança vai acostumando com esses dizeres que são ela, com essas ações dirigidas a ela. Existe algo errado e esse algo é ela. Ela é que tem que mudar, melhorar, ser alguém amável aos olhos do outro. O que acontece? A criança agora precisa ser para alguém, precisa agradar alguém para ser amada. Ou ao menos foi o que a fizeram acreditar. E quando a gente começa a precisar ser para o outro, acabou-se a nossa condição de ser coerente com a gente mesmo. Ensurdecemos para os nossos quereres, pois temos que saber o que o outro quer. Para atendê-lo e, quem sabe, termos seu amor em troca. Uma criança que não tem querer é uma criança que deveria estar conformada a apenas querer atender o querer do adulto. Como se ela tivesse sido criada para isso. No dia em que ela crescer, quem sabe, poderá querer, quem sabe até poderá querer subjugar um outro alguém que atenda aos seus quereres. Mas o que pode ela querer se ela nunca teve querer nenhum? Como ela vai saber o que quer?

O jeito como somos educados parece que nos atravessa quando temos filhos, mesmo à nossa revelia. E nos pegamos fazendo com os pequenos aquilo que fizeram conosco, repetindo os mesmos mantras, respondendo com a mesma violência. E então um dia minha filha diz que quer alguma coisa, em alto e bom tom. E uma fúria cega toma conta de mim e eu digo não apenas por dizer e ela insiste e eu grito. Grito mesmo toda a minha raiva. E penso “criança não tem querer”. E cada uma dessas palavras cheias de ódio dessa frase odiosa quase saem pela minha boca. Mas eu consigo conter cada uma e engolir cada letrinha de cada uma delas e saborear o gosto horrendo dessa sopa de letras e palavras até elas borbulharem no meu estômago, gerando um asco imenso por mim mesma, por cada uma dessas palavras, por cada um dos gritos que já escapou da minha boca em direção à minha filha, por cada vez que explodi.

E então vem a notícia podre da menina que foi estuprada por cerca de 30 homens. Não vou colocar o link aqui, todo mundo está sabendo. E ao absurdo desse acontecimento se junta o impensável dos comentários das pessoas. Das pessoas que pensam que o que quer que seja no comportamento, nas palavras, na história, nas atitudes dessa menina poderiam justificar a violência à qual ela foi submetida. Todo o espectro das obscenidades do “ela pediu”, “ela não disse não”, “ela era isso ou aquilo”… todo o desfile de horrores que os homens e mulheres podem demonstrar numa situação dessas. Homens e mulheres se comprazendo em pensar que a violência contra essa menina era merecida. E foi aí que eu fiquei realmente desacorçoada.

Eu poderia escrever uma tese aqui e talvez algum dia a escreva, mas o importante a reter é que, ao ler essa notícia, pensei imediatamente na minha filha. Poderia ser minha filha, não poderia ser minha filha… quem não pensa isso tendo uma filha num mundo como esse? Mas não apenas isso. Pior que isso. Pensei, percebi, talvez pela primeira vez, que eu poderia ser uma influência direta para que esse tipo de violência acontecesse com a minha filha. De que modo? Gritando com ela.

Nossa, Alessandra, agora você viajou, nada a ver isso que você está falando. A menina era uma vagabunda, favelada, drogada, tua filha é uma criança, um anjo, uma graça.

Pois é, minha filha é tudo de melhor que existe nesse mundo. E cada vez que eu grito com ela, o que talvez ela aprenda é que “a mamãe me ama” e “a mamãe grita comigo”. E talvez com isso ela aprenda que eu fazê-la se sentir mal e triste faz parte do amor. E talvez ela aprenda que amar e fazer sentir mal e triste são duas coisas que andam juntas. Afinal, se até a mamãe faz… Talvez ela aprenda que é normal ela ser tratada com gritos. E daí ela poderá achar normal ser tratada com outros tipos de violência. E talvez ela poderá achar normal ser xingada, menosprezada, insultada. Ou até mesmo apanhar. E poderá achar que tudo isso vem junto com o amor. Ou que se isso existe numa relação qualquer, existe nesse mesmo lugar ou nessa mesma pessoa amor também. Talvez isso faça com que ela comece a aceitar ser tratada menos bem do que poderia reivindicar, talvez ela comece a aceitar pequenas violências cotidianas, pequenas ofensas, pequenas feridas. E talvez ela comece a esperar no meio disso as manifestações do amor que viriam junto. Talvez minha pequena vá começar então a mendigar os sinais de amor das pessoas por quem ela tem carinho. E talvez ela vá aceitar qualquer pequena migalha que essas pessoas lhe ofereçam. E talvez ela não consiga mais nem perceber que são migalhas envoltas em tudo isso que é violência, mas para o que ela nem atribui mais esse nome. Pois aprendeu na pele que era assim. Que a vida era assim. Que o amor era assim. Que as relações são assim. E então quando ela souber da notícia de uma menina estuprada, talvez ela pense que nem foi estupro. Ou que a menina mereceu, porque não era boa o suficiente para ser tratada com respeito, cuidado e amor. Como ela mesma. Ou como qualquer outro ser humano.

Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com ela é normal e nem é violência? Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com o outro nem é violência, ou é uma violência justificada? Pois é, no caminho a conta-gotas que leva a essa normalização que um dia pode fazer com que minha filha ache normal que a tratem de forma violenta e que meu filho ache normal ser violento com as pessoas está, bem lá no comecinho de tudo, entre outras coisas, eu gritando com eles. Será que não? Se eu fizer um apanhado da minha vida e das pequenas violências cotidianas do “criança não tem querer” que me ajudaram a tornar-me uma pessoa que, durante muito tempo, não entendeu violência como tal e que achou normal ter sofrido vários tipos dela, sempre na espera de ser amada, então sinto dizer que minha hipótese tem um grande risco de estar correta. Se for juntar à minha própria história outras histórias de outras mulheres que passaram a vida aceitando migalhas e sofrendo abusos os mais variados sem nem ao menos entendê-los pelo que são – abuso e violência – então realmente minha hipótese parece estar bem, bem certa.

Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres que carregam na sua história um monte de insultos, de desvalorizações, de humilhações, de tapas, de abusos, de estupros dentro de relacionamentos que deveriam ser amorosos… Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres taxadas de putas, de vagabundas, de não merecedoras de cuidado, respeito e amor como se fosse qualquer coisa nelas que autorizasse a violência dos outros sobre elas. Qualquer coisa no que elas são. Ou fazem. Ou dizem. Ou vestem. Ou pensam. Ou defendem. Como se a violência fosse válida para todo mundo que não se inscreve nos parâmetros traçados por aquele que decide quem é merecedora de violência ou não: o mais forte. Isso é a barbárie. Isso é a lei sem lei da violência. Da mesma violência dos gritos, das palmadas e das humilhações. Imaginar que é isso que vai educar e proteger nossos filhos é algo que só pode parecer lógico na cabeça de um imbecil ou de alguém para quem a violência foi dada a conta-gotas, desde o berço, até essa pessoa deixar de vê-la como tal. Essa pessoa que ficou cega para a violência sou eu, é você, é toda uma geração criada dentro dessa lógica insensata de que educar é adestrar e de que um tapinha não dói. Nunca. Até o dia em que o tapinha te mata e daí é tarde demais para perceber que se tratava de um tapa.

Mas eu sobrevivi! Sei, que bom, eu também. E conheço gente que sobreviveu a coisas que talvez teriam matado a mim e a você. E qual é a sua proposta? Que criemos mais uma geração de sobreviventes que, como nós, não saibam mais como resolver as coisas a não ser no grito, na porrada, até chegar à submissão do outro? Mais uma geração que, como a nossa, seja capaz de rir e de arrumar desculpa e justificativa para 30 caras estuprando uma menina? Esse é o projeto para nossas filhas e filhos? Isso é o melhor que podemos oferecer para eles?

Olha, se esse é o seu projeto e se isso te basta, sinto muito, mas não estamos nessa juntos. Eu vou tirar alguma coisa de onde não tive e vou aprender, nem que seja nesse embate cotidiano doloroso comigo mesma e com os meus próprios limites, a poder oferecer outra coisa à minha filha. E ao meu filho, que também está crescendo e que também corre o risco dos gritos. Eu parei de gritar com a minha filha porque é impensável dar mais um passo que seja na perpetuação desse círculo vicioso de pequenas imensas violências cotidianas destruidoras de esperanças e de subjetividades inteiras. Chega, não dá mais.

Então, a partir de hoje, aqui em casa criança tem querer. Já tinha antes, mas agora digamos que a coisa se radicalizou e acabou a gritaria para tentar abafar os quereres das crianças que nos causam espécie. E a gente vai vendo o que faz com isso. Com os quereres deles e com os meus ranços de respostas violentas. Porque a violência é como um vício e para se desintoxicar tem que fazer como os alcóolicos anônimos, um dia de cada vez, uma crise de cada vez, uma situação difícil de cada vez.

Para aqueles que vão entender dessa pequena reflexão que a idéia é, consequentemente, deixar a criançada fazer o que quer até se tornarem tiranos, mimados e começarem a mandar nos adultos, sugiro uma boa encerada na cara de pau do seu cinismo, um pouco de estudo e que dêem uma olhada no excelente documentário: Si j’aurais su… je serais né en Suède. E um pequeno disclaimer, só para te ajudar.

Veja, admitir o óbvio de que toda e qualquer criança e até mesmo os bebês recém nascidos têm querer não significa dizer que todo e qualquer querer de um bebê, de uma criança, ou até mesmo de um adulto poderá ser atendido. Isso só existe nas baboseiras hollywoodianas que insistem em vender para a gente que querer é poder. Ideologia marotinha que serve apenas para você acreditar que se você quiser algo, você consegue e, se não conseguir, o defeito é seu, e não um problema de uma sociedade feita para poucos conseguirem muito e o resto morrer tentando, ok? Fora desse mundo de conto de fadas que serve para o que serve isto é, vender sonhos impossíveis, com ênfase para o verbo VENDER, a questão dos quereres e de seus limites é um tanto mais democrática.

Existem quereres possíveis e existem quereres impossíveis para todos. Ao menos em uma sociedade que se pretenda civilizada. E não estamos falando do querer ter e do querer consumir, ok? Estamos falando do querer amor, querer cuidado, querer afeto, querer proteção, querer conforto, querer beleza, querer silêncio, querer presença, querer privacidade, querer atenção, querer ajudar, querer fazer, querer saber, querer aprender, querer autonomia, querer espaço, querer proximidade, querer respeito… todos os quereres ligados ao que é mais básico e vital para cada ser humano. São esses quereres que são possíveis, impossíveis, às vezes possíveis, às vezes impossíveis, parcialmente possíveis, momentaneamente possíveis… E talvez seja isso que os pais deveriam poder ensinar aos aos filhos. Que a gente quer e precisa de muita coisa, muita coisa que no fundo parece até bem simples e óbvia. E que o Freud lá de alguns parágrafos acima resumiu em outro livro como: a gente quer, no fundo, no fundo, ser feliz. A gente quer muito, quer mesmo, com toda força. E às vezes não dá. E é um aborrecimento. E a gente aprende a fazer algo desse aborrecimento. E a continuar querendo. E a tentar outras vias. E a deslocar para outros quereres. E realizar algumas vezes esse querer. E noutras não.

E esse é o erro ou o cinismo puro e simples de quem pensa que educar é algo que se aproxima de um adestramento e que prefere se apegar no que concebe como “dar limites”, como se os limites não estivessem aí postos para toda e qualquer pessoa. Quer coisa mais limitada e limitante do que ser um bebê e ter que se haver o tempo todo com a frustração de ter seus quereres atendidos em permanência por um outro que pode estar ali para responder ou não, que pode entender ou não, que pode estar a fim ou não? Se tem alguém que sabe bem dos limites são os bebês e as crianças, acreditem. Esses pequenos que não podem nem trocar uma fralda de cocô sozinhos e se livrarem do desconforto de um bumbum molhado e assado. Então, você acha que precisa mesmo ensinar para eles que existem quereres que eles não vão poder realizar? Você acha mesmo que eles não constatam isso todos os dias, do mesmo modo que você?

Pois é, uma hora dá um insight e a gente percebe que isso não faz nenhum sentido e que qualquer ação violenta direcionada aos nossos filhos sob pretexto de “educação” deve ser urgentemente repensada. E aqui não falo apenas em palmadas, mas em gritos, humilhações, palavras ofensivas, xingamentos e todo tipo de desvalorização. Violências de vários tipos, nenhuma sem consequências. Elas fazem parte de um mundo que eu, pessoalmente, não faço nenhuma questão de transmitir para a próxima geração.

Em tempo: todo o meu respeito, meu carinho e meu cuidado a essa menina que sofreu tão abominável violência desses 30 dejetos. Você é uma pessoa tão digna de respeito, cuidado e afeição quanto eu, meus filhos e tudo quanto é gente que eu conheço e amo. Você não é mais, nem menos do que nenhum deles. E eu lamento no fundo da minha alma aquilo que você viveu. Conte comigo e com o meu apoio.

 

 

Os homens piram

Começou com uma história, duas, três, até que ficou frequente demais para eu continuar achando que fossem casos isolados. E comecei a formar aqui na minha cabecinha uma idéia sobre uma categoria de homens bem difícil, aquela dos homens que piram.

O enredo pode ser começar bem banal: casal mais ou menos feliz, engravidam, vão ter um filho, todo mundo está contente. Esse acontecimento parece que fortalece o casal, começa ali uma família, é como se tivessem atravessado uma fronteira onde as perspectivas mudam e as prioridades se invertem.

Mas daí o bebê nasce. E do mesmo jeito que acontece alguma coisa no âmago dessa mulher que a muda radicalmente, algo acontece também nas entranhas desse homem. E nem sempre a mudança é para melhor.

O cara vai mais cedo para o trabalho, volta mais tarde. Chega em casa e esquece de perguntar como vão as coisas. Fala, fala, fala. De si, do seu trabalho, das suas preocupações, do mundo lá fora. Fala para uma mulher cansada, que possivelmente passou o dia inteiro entre mamadas, choros, sonos entrecortados. Uma mulher que talvez não tenha visto a luz do dia, que não sabe se faz sol lá fora, que talvez não tenha conseguido ir ao banheiro fazer um cocô.

O cara se espanta porque a mesa do café da manhã ainda está posta. E a cama não está feita. Faz uma crítica ou outra. Vai ver TV, vai para a frente do computador, vai para a internet. Está cansado, teve um dia cheio, precisa relaxar e desanuviar a cabeça.

Espera que o jantar apareça ali na sua frente. Espera que a louça saia da mesa e vá para o lava-louça. Espanta-se que a mulher esteja cansada: “mas como assim, você passou o dia inteiro em casa…”. Não pode cuidar muito do bebê à noite, precisa de uma boa noite de sono para poder sair para trabalhar amanhã. No dia seguinte se espanta com a cara de zumbi da esposa, afinal, o bebê nem chorou tanto assim, vai.

A mulher tenta explicar, tenta mostrar que seus dias são cheios, cansativos, estressantes. “Mas você não está feliz? Não era isso que você queria?” Sim, mas é difícil. Ele demonstra seu tédio profundo em ouvir falar de fraldas, de choros, de mamadas. Ela precisa de um abraço, de uma massagem nas costas, de alguém que segure o bebê para poder tomar um banho. Ele segura o bebê, e o leva para perto da porta do banheiro desde que ele começa a chorar. Ela sabe, ali dentro, que o bebê está chorando, não consegue relaxar, apressa o banho, deixa para lavar o cabelo dali um mês.

O cara quer transar. Quer que a mulher esteja afim. Ela perdeu a forma, precisa voltar a fazer exercícios, hein?! Ela só pensa no pouco tempo de sono que está perdendo com essa transa sem graça e sem vontade. Mas tem mais medo ainda de perdê-lo, então tenta fazer de conta que está gostando. E torce para acabar logo.

O tempo passa, ela está cada vez mais exausta. Ele não entende o que a cansa tanto. Quer que contrate uma babá? Propõe que viagem, propõe que saiam. Como se tudo isso não fosse ainda mais trabalho para ela, que tem que preparar tudo, prever mil cenários, fazer mochila de criança, estressar com o tempo, o vento, a chuva, o banho, o sono. Ele se diverte pra caramba, ela mal consegue ter uma conversa com começo, meio e fim com algum amigo, sempre interrompida pelo bebê, pelo choro, pela fralda. Ela volta para casa ainda mais exausta, enquanto ele se sente revigorado.

O cara sente ciúmes do tempo que ela passa com o bebê. Se sente deixado de lado, sente que não é mais a prioridade dela. Trocado, disputa com o rebento a atenção da mulher. Choro e mamadas noturna contra sexo. Ele quer a atenção dela, que ela escute seus problemas, que ouça suas histórias. Acha que essa história de amamentar é um jeito dela sequestrar o bebê, de não deixá-lo conviver e participar dos cuidados dele. Insiste em que passem para a mamadeira, em que dêem um jeito para que ele durma a noite toda, em que ele durma no seu quarto. Cada vez que ela diz estar cansada, ele a olha com desprezo e lembra a ela que se ela está assim é por conta das escolhas dela, que quis amamentar, fazer cama compartilhada, todas as histórias de respeitar o ritmo do bebê. Ela para de reclamar, porque suas queixas sempre se voltam contra ela, sempre se tornam acusação, e ela não sente que tem mais forças para se ver questionada em todas as suas decisões a todo momento.

Se cede à mamadeira, ele se ocupa por uma ou duas noites. E depois é ela quem volta a se ocupar, pois o sono dele é sagrado. Se cede a colocar o bebê no quarto, é ela quem passa a levantar e percorrer a distância entre um quarto e outro para se ocupar do bebê. Ela está ainda mais exausta, ele acha que finalmente as coisas estão progredindo, já que ela está fazendo tudo do jeito que ele acha melhor.

Ela se fecha, não fala mais nada, nem comenta nada de seu sofrimento com ninguém. Quem poderia entendê-la? Cada vez que estão em situações públicas, ele se mostra um pai maravilhoso. Cuida, brinca, pega no colo, dá risada, conta orgulhoso cada detalhe de cada mudança que ela relatou a ele. Quem iria acreditar que as coisas não são bem assim? Nem ela acredita, pensa que ele é um ótimo pai, não entende direito esse paradoxo.

Quando ela começa a respirar novamente, e que o bebê está mais crescidinho, dorme melhor e por mais tempo, começa a ir na creche ou coisa que o valha, vem a surpresa: as coisas não estão tão bem assim. Ele tem uma amante, está tendo um caso, trocando mensagens pela internet em um site de encontros. Toda aquela falação sem olhar nos olhos era para não falar do principal, de sua falta de honestidade, de sua covardia, de seu egoísmo. Ela percebe o abismo que se criou, sente-se culpada. Se ela tivesse se arrumado mais, estado mais disponível, se tivesse estado mais afim… Mas se sente tão cansada, como poderia ter forçado uma situação num circunstância dessas? Ela não é mais a mulher de antes, livre, cheia de iniciativas, aventureira. Ela se tornou pesada, preocupada, tensa. Talvez seja isso, talvez seja mesmo a culpa dela, de ter se tornado essa pessoa do corpo deformado pela gravidez, cheia de olheiras, monotemática.

Mas e o filho deles, não conta? E o cuidado, a dedicação, nada disso tem importância para ele? Não é razão o suficiente para que ele a ame, para que se orgulhe dela, para que valorize o que ela faz? Ela cria um filho dos dois, isso não vale nada?

Aparentemente não. O cara pirou, o cara compra um carro esporte de dois lugares para pagar de gostosão, o cara tem um caso, o cara se diverte em testar se é gostoso e desejado pela mulherada, o cara quer saber se ainda é capaz de seduzir, o cara quer atenção exclusiva, ele quer uma mulher só para ele, sempre pronta, sempre afim, sempre deslumbrada com todos os seus feitos.

Quantos caras você conhece que mostram o seu pior lado após se tornarem pais? Que abandonam, que negligenciam, que desmerecem, que menosprezam, que criticam? Quantos caras você conhece que, mesmo se tornando pais, continuam gravitando em torno do próprio umbigo?

Conheço algumas histórias de casamentos que explodiram depois que os filhos nasceram. Das amantes, dos caras que se fecharam no trabalho, nos filmes na TV ou nos sites de internet. Tenho uma amiga cujo agora ex-marido chegou ao ponto de sequestrar a filha de pouco mais de um ano por uma semana, forçando um desmame que vinha acontecendo da forma mais gradual e respeitosa possível. Dizia ele que queria passar mais tempo com a criança. Era verdade? Se levarmos em conta que durante essa semana ele continuou trabalhando e chamou a própria mãe para cuidar da filha, dá para duvidar das belas intenções do sujeito…

Quantos caras você conhece que, quando separados das mães de seus filhos, pegam os rebentos no final de semana para a amante, nova esposa, sei lá quem cuidar? E quantos você conhece que continuam exatamente com a mesma vida depois que se tornam pais?

Se você vive no mesmo mundo que eu, deve conhecer muitas histórias assim, dos casamentos que explodem e daqueles que não se desfazem apenas porque a mulher arca com tudo enquanto o cara continua vivendo a própria vida, tendo seu trabalho, seu tempo de lazer, suas horas de sono… Para a maior parte dos homens, quase nada muda depois da chegada dos filhos. E isso não os incomoda nem lhes causa estranhamento. A única coisa que parece os desagradar é aquela mulher chata e reclamona ali, que deixou de ser tão interessante. A maior parte dos caras passa boa parte da sua vida enquanto pais fazendo a mulher pagar por ter deixado de tê-los como prioridade absoluta. Eles se vingam das piores maneiras, criticando, não apoiando, diminuindo, fazendo piada, deixando-as sozinhas. Para cada homem que parece intocado pela paternidade, que parece estar tão bem disposto quanto antes, que parece estar animado cuidando de crianças felizes que chegam nos seus braços secas, alimentadas, agasalhadas, há uma mulher sobrecarregada, exausta, cuidando de tudo sozinha, terrivelmente solitária e em situação de isolamento.

Então, do mesmo jeito que a maternidade mexe e muda as mulheres, a paternidade também mexe e muda os homens. Eles também são expostos a duras provas e o casal passa por um teste pesado. Mas a pergunta que fica é: por que a maior parte dos homens, quando se tornam pais, reagem por esse viés do abandono e do egoísmo?

Ter irmão…

Enquanto me arrumo, a pequena sentada no chão cola adesivos em uma grande folha de papel, cantando e conversando. O pequeno ali perto, cantarola olhando um tanto as folhas agitando raios de sol pela janela, um tanto os brinquedos ao seu redor, um tanto a irmã. O tempo passa, ela concentrada em sua obra, ele se impacienta. Resmunga, resmunga, começa a querer chorar. Chora um pouco, ela concentrada. Chora mais um pouco, ela na dela. Penso em pedir para ela ir até ele levar um brinquedo, mas fico quieta e me apresso em terminar o famigerado banho.

Ela se levanta e desaparece do meu campo de visão lá para os lados dele. Silêncio. Pé ante pé vou dar uma olhada, segurando um: “o que vocês estão fazendo?” que espera alguma molecagem do outro lado. Ainda bem.

Eles não me vêem, mas eu os vejo. Ela faz um cafuné na cabeça dele, ele olha para ela chupando um dedo e dando risada, ela dá risada e um beijinho na cabeça dele, ele ri alto e se balança feliz. Ela volta para sua colagem, senta e continua falando, cantarolando e colando seus geometrismos coloridos. Ele resmunga de novo, ela vai ali para os lados dele e diz algo como: “não precisa chorar”. Ele sorri, outro cafuné, ela volta para a colagem. E decide que é divertido correr de um lado para o outro. Corre até ele, corre de volta para sua colagem. Ele decide que isso é extremamente engraçado e gargalha. Ela decide que é muito divertido fazer ele gargalhar e continua correndo. Eles se entendem.

E estão apenas no começo.

Ter irmãos é muita sorte.

Essas nossas crianças

Eu nunca entendi direito quando diziam que a esperança está nas nossas crianças. Que nossos filhos são o futuro. Ambiciosa que sou, queria ser também parte dessa esperança e desse futuro. Queria mudar o mundo.

Talvez apenas as crianças tenham a inocência de sonhar com mudar o mundo. E a ousadia de tentar fazê-lo. Costumamos dizer que depois vem a “maturidade”. Mas talvez tenha muito mais a ver com acomodação, cansaço, preguiça, covardia. Por quaisquer que sejam os motivos, e salvo algumas raras e louváveis exceções de pessoas que lutam a vida inteira, a maioria de nós, uma vez adultos, acabamos nos deixando seduzir ou amansar por uma vida em que vale mais garantir o que conquistamos do que arriscar tudo por um passo fora do esquadro. A vida é tão difícil, é tão duro lidar com tantas demandas e tantas restrições, por que sair de uma zona de conforto quando finalmente conseguimos chegar em uma? Talvez seja a isso que chamam velhice, quando, na nossa cabeça, chegamos em um ponto em que pensamos naquilo que podemos perder e nos vemos incapazes e sem forças de começar do zero mais uma vez.

As crianças não. Elas sentem que podem arriscar tudo. Não por ainda não terem nada, maldição da nossa sociedade em que ter é mais importante do que ser ou do que viver. Mas por acreditarem que o mundo tem espaço para elas, para seus desejos, para sua vontade de mudança. Elas acreditam naquilo que nos escapa.

Sorte a minha ter tido filhos e poder aprender com eles sobre esse olhar benevolente para com o mundo. Eles acreditam sempre, eles confiam. Neles, em nós, na vida. E esse encantamento, essa confiança, essa ousadia e quase arrogância de querer fazer, de querer dobrar o mundo à sua vontade, isso é uma riqueza. Infelizmente, desiludidos que somos nós, os adultos chamados realistas, acabamos acreditando que nossa tarefa seria domesticar esse olhar. Pensamos que estamos ajudando nossas crianças se ensinarmos a elas o mais rápido possível a se conformarem à realidade da vida. Acreditamos que nosso objetivo é torná-las ao máximo parecidas conosco.

Mas será mesmo que se adequar a esse mundo é sinal de maturidade e de sabedoria?

Vivemos reclamando que o mundo de hoje é feio, injusto, desigual. E, paradoxalmente, nos prestamos docilmente a “educar” nossas crianças para que elas se encaixem o mais perfeitamente nele. E sempre que, para aparar as arestas da liberdade, da insolência e da esperança, nos vemos obrigados a usar de qualquer tipo de violência, ainda conseguimos murmurar e nos convencer de que é assim que as coisas são. E de que é para o próprio bem deles que o fazemos. É por amor. E o amor justifica as maiores injustiças e agressões.

Se olhássemos com um mínimo de franqueza para nossa própria vida, talvez pudéssemos perceber o quão contraditório é desejar para nossos filhos, a quem amamos incondicionalmente, que aceitem e se adaptem a uma existência em um mundo como o nosso. Sem questionarem nada. Que apenas aceitem, se conformem e marchem, como gado, dia a dia, em direção a uma existência tão desacorçoada quanto a nossa. Em um mundo feio, injusto, violento, desigual. Por que eles teriam que se enquadrar nisso e ainda achar bom?

Mais ainda, com essa nossa atitude normativa, acreditamos estar salvando-os dos maiores perigos. Estamos, na verdade, salvando-os do risco. Do risco de uma vida sem previsão. Do risco de um salto no desconhecido. Quando começamos a querer salvar nossos filhos do desconhecido da vida fazendo-os se apaziguarem no conhecido desse mundo tão ruim, quando começamos a ter medo demais e a forçá-los para que se enquadrem a todo custo naquilo que poderíamos chamar de sobrevivência ou de “o menos pior”… bom, é aqui que sabemos que envelhecemos. E que não somos mais a esperança ou o futuro. E que agora apenas fazemos parte dessas forças que lutam contra a esperança e o futuro. De revolucionários a reacionários… triste fim.

Nesse mundo feio, injusto, violento e desigual que mostra os dentes e as garras com cada vez maior ferocidade em nossos dias, aqui na Europa, mas também aí no Brasil, de onde chegam sempre as notícias mais tristes e desalentadoras, vez ou outra chegam uns rasgos de esperança. E a esperança que chega daí, do outro lado do Atlântico, vem pela boca e pelos gestos das crianças.

Essas crianças que estão crescendo sem perder o olhar benevolente para com o mundo. Crianças que ainda acreditam que sua vontade vale algo. E que o mundo pode mudar. Que aquilo que as cerca é poroso e pode ser influenciado por sua vontade.

Não, não estamos vendo surgir uma nova geração de tiranos cujos pais atenderam a todos os caprichos desde a mais tenra infância. Qualquer sujeito pensante consegue perceber a perversidade desse argumento que pretende nos justificar na violência de nossos gestos contra nossos filhos.

Não, não são as crianças sem limite, que nunca ouviram um não na vida.

São crianças que querem mudar o mundo. Em nome de um bem maior.

As crianças que lutam por educação de qualidade.

Por comida decente na merenda da escola.

Por dignidade.

Por respeito para com as meninas-mulheres.

Crianças que se vêem livres e face a essa liberdade, olhem só, não saem quebrando, roubando, reivindicando o seu pirão primeiro como vemos cotidianamente no mau exemplo enraizado em nossa cultura de cima a baixo por tantos adultos corruptos e corruptores a defender sempre e apenas seus próprios interesses.

Essas crianças, quase que por um milagre, querem outra coisa. Querem mais, querem melhor. Querem o que nunca poderíamos imaginar que quisessem. Elas querem tudo. Elas querem mudar o mundo.

E elas tem razão. Esse mundo em que vivem é mesmo uma bela porcaria. Nossa total responsabilidade, nossa, dos adultos, que ao invés de mudarmos o mundo para todos, nos restringimos a garantir nossa sobrevivência cotidiana, a pequenez de nossas básicas aspirações e necessidades. Culpa nossa, problema deles. Que o assumem de peito aberto. Com coragem e ousadia. Desculpem nossa covardia e apatia, crianças. Desculpem querer convencê-los de que é esse nosso jeito que é certo e bom.

Essas crianças que esquecemos por aí, nas escolas públicas sucateadas, comendo comida de merda, abandonadas ao destino de serem gado e seguirem seus destinos sem reclamar. Ah, essas crianças agora se rebelam! Que ousadia! Que ultraje! E toca bala de borracha, cacetada, que nós, adultos, não podemos aceitar que esses seres pequenos se rebelem contra nossas verdades.

O que acontece hoje em dia nas escolas de São Paulo e Rio, e a forma como essas manifestações e ocupações são tratadas pelo poder público, são um perfeito reflexo daquilo que acreditamos, como pais, que seja educar um filho: educar é dobrar, domesticar, aparar todas as arestas até que não sobre nada de uma singularidade. Fazemos isso na nossa casa, no dia-a-dia. E não vemos com nenhuma surpresa que a polícia, o governo, os políticos façam o mesmo nas escolas e nos espaços que deveriam ser os de expressão da palavra, das necessidades e dos anseios das pessoas. Espaços em que os outros de nós, nossas crianças, deveriam poder existir e onde se deveria poder celebrar sua existência. Onde cada um deveria ter lugar para ser quem é no mais profundo respeito. Onde o futuro e a esperança de todos nós deveria ser cuidado e protegido. Mas não. Se não conseguimos nem olhar para nossos filhos como outra coisa que um serzinho desafiador que precisa ser “educado”, como é que poderíamos ver a escola como outra coisa que não a continuidade desse processo de domesticação? Consideramos até que é merecido que esse bando de crianças aprenda desde cedo quem é que manda. Chamamos de delinquentes na TV. E todos ficam aliviados em ter seu “estilo de vida” confirmado. Ufa! Afinal, se eles mandam na gente, por que esses fedelhos poderiam ousar querer escapar?

Domingo é dia das mães. Mais uma data para a qual olho com desconfiança, tanta quanto para o famigerado dia da mulher. Ser mulher e ser mãe, nesse nosso mundo, são apenas valorizados quando servem de pretexto para o consumo. Estamos muito longe de um tempo e de um lugar em que ser mulher seja algo pelo qual não se tenha que batalhar cotidianamente. Quanto a ser mãe então, único lugar pretensamente legítimo para uma mulher querer ocupar, esse não é sem dificuldades, sem sofrimento, sem violência ou solidão. Mesmo o lugar que nos permitem ocupar nesse mundo é um lugar violento. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mulheres. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mães.

Maternidade compulsória, falta do direito de escolha, condenação a cuidar dos filhos sozinha e sem recursos, obrigação de sacrifício, julgamento permanente por não cuidar bem, o que quer que se faça. Mãe é essa mulher julgada e condenada duplamente, não importa o quanto se esforce. Uma maneira vil de dobrá-la, de nos dobrar, de tirar nosso sangue até que não sobre força nenhuma de resistência.

Mas… temos os nossos filhos. E filhas.

Temos as nossas crianças.

Essas crianças aí, que tantos adultos agora repudiam. Essas crianças que botam medo nesse bando de marmanjo corrupto, bandido e covarde. Essas crianças que muitos querem dobrar à força.

Se tem um dia das mães que faz sentido, é o dia das mães dessas crianças. Todos os dias dessas mães dessas crianças que, visivelmente, conseguiram e conseguem criar jovens que fogem do esquadro. Vocês são mulheres as mais admiráveis. Parabéns por existirem. Parabéns por nos darem a esperança na forma dessas crianças.

Com carinho, de uma mãe que só pode acreditar num futuro graças a essas crianças. As suas. E as minhas.

Alessandra

Ocupação / ALESP

Ocupação / ALESP

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas SP em 2015

Ocupação escolas GO

Não fechem minha escola

 

 

Ele está criando, mamãe! – parte 2

Então, o post anterior era para ser sobre bilinguismo. Porque se tem uma coisa na qual a gente pensa bastante, quando é mãe na gringa, é em como vai ser quando os filhos começarem a falar. E, mesmo quando não pensa, sempre aparece alguém para pensar pela gente.

  • Você fala português com eles?
  • E o pai fala francês?
  • E eles falam que língua?
  • As duas?
  • E não dá confusão não?
  • Não demora mais para falar?

Ora, ora, ora. Não sou linguista, nem fonoaudióloga, nem especialista em bilinguismo. Tudo o que sei é que, aqui, desde a gravidez da primeira, estava claro que falaríamos as duas línguas com ela. Porque vivemos na França e seu pai é francês. E eu sou brasileira.

Não se trata apenas da aparente vantagem nesse mundo capitalista e competitivo em ter um filho imerso em duas línguas desde o berço. Vantagem essa que faz muitos pais procurarem escolas bilingues, creches bilingues, babás bilingues… afe! O que motivou essa decisão foram considerações afetivas e não mercadológicas.

A primeira coisa que levei em consideração é que uma língua é mais do que um instrumento de comunicação. É toda uma cultura, um modo de sentir e de ver as coisas, um jeito de se relacionar com o mundo. Quem estuda outras línguas sabe disso. É a saudade que só se diz em português, é um ritmo, um tom… Não falar a minha língua com meus filhos seria privá-los de conhecer essa cultura, essa musicalidade, esse jeito de ser e de se expressar. Privá-los pois, diferentemente de quando decidimos que o filho vai ser bilingue em uma segunda língua que não é a dos pais ou a do país em que vivemos simplesmente porque aquela língua é importante para o futuro dele (oi?), o que se privilegia é partilhar com eles algo que faz parte de suas origens. E a língua é fundamental na transmissão dessas origens.

Sim, existem pessoas que não querem transmitir suas origens. Por vergonha, muitas vezes. Mas também por intimidação, por confundir integração em um outro país com tornar-se idêntico àqueles que dali são originários, por preconceito sentido, por julgarem que não falar outra língua com os filhos vai fazê-los falar melhor, integrar-se mais e mais rapidamente, sair-se melhor nessa vida tão dura de imigrante. Não é verdade. Uma língua não transmitida vira uma espécie de tabu, algo inacessível que muitas vezes impede a criança de saber sobre si, sobre sua história, sobre a história dos seus pais. Impede-a de perguntar, de saber e dificulta, consequentemente, seu acesso à cultura e à língua do país em que vive. Se não temos como saber de onde viemos, como podemos ser alguém ou estar em algum lugar?

Noutro dia ouvi uma história de um menininho que não falava aos dois ou três anos. Os pais, de língua árabe, falavam mal o francês. Receberam a orientação no serviço de saúde de que deveriam falar apenas em francês com ele, para não atrapalhar seu desenvolvimento escolar. Coisa muito comum, orientação das mais corriqueiras, dada por aqui por pediatras, cuidadores de crianças de todo tipo, professores… Um grande equívoco, na opinião de muitos especialistas, seja em linguagem, seja em transculturalismo ou em migração. A última coisa que se deve fazer no caso de crianças bilingues é condenar ou impedir o uso da língua materna ou paterna.

Resumo da ópera: o menino não falava. Na creche em que foi acolhido, era silêncio. E isso só começou a mudar quando as educadoras, muito sensíveis e acertadamente, começaram a falar algumas palavras em árabe com ele. Bom dia. Tudo bem? Tchau… O suficiente para o garoto perceber que a língua da família era possível, aceita e valiosa. Ele podia ser quem ele é, não tinha que soterrar uma parte sua num canto qualquer em nome de integração ou de falar bem o francês. Até mesmo porque o resultado era o contrário do que se pretendia: o menino não falava mais e melhor, falava menos. Voltou a falar. Francês com quem fala francês, árabe com quem fala árabe.

Então, aqui em casa, julguei fundamental transmitir minha língua aos meus filhos. E com isso minha cultura, meu jeito de ver o mundo, de pensar, de existir.

Segundo aspecto que pesou na decisão: minha família é brasileira e vive no Brasil. Como seria triste ir passar as férias lá com as crianças ou ter minha família aqui para uma visita e eles não conseguirem se comunicar. Já pensou não compreender os mimos de avós? Já pensou eles não entenderem as gracinhas dos pequenos e não poderem contar orgulhosos aos amigos?

Imaginei-os encontrando os filhos dos meus amigos queridos sem poder trocar uma palavra, sem poder fazer aquelas aproximações tímidas que as crianças pequenas adoram fazer “qual o seu nome?” “aquela é sua mãe?” “vamos brincar?”. Não, uma língua é uma riqueza e mesmo que não vivamos no Brasil, o Brasil vive na gente por meio dessas pessoas e do que elas dizem.

terceira coisa em que pensei foi bem banal. Imagina que você está passeando na rua com os rebentos, todo mundo feliz. O pequeno vai andando na frente e chega perto da rua. Você vai lembrar de gritar: “attention! arrête!”? Não, minha gente, em situações extremas a gente volta para a nossa língua de origem, por mais fluente que seja em outra. E daí vai gritar “para! cuidado!”. E é melhor que o pimpolho entenda, né?

Assim como não dá para fazer sexo em outra língua, nem falar palavrão quando estamos furiosos, ou contar piada… tem coisas que só dá para comunicar a um filho na nossa língua materna. Algo urgente quando há um risco, um susto. Mas também uma canção de ninar. Ou os sons que os animais fazem. Cachorro aqui não faz au-au, faz ouaf-ouaf… pode? Não, não pode não.

Então, aqui em casa, os pequenos escutam português da mamãe e francês do papai. A pequena fala as duas línguas. Desde o princípio. O português ganhava em vocabulário no começo, ficou um pouco para trás quando ela começou a conviver com outras crianças, voltou a se enriquecer quando passou um tempão de férias com a família. E assim vamos vivendo. E conversando. Eu falo em português com ela, a não ser em conversas compartilhadas com outras pessoas que não falem nossa língua, pois sempre detestei essa coisa de duas pessoas falando uma língua que os outros não compreendem e deixando outros excluídos da conversa. Acho falta de educação e de consideração. Lemos histórias em português. E em francês. O mesmo com as canções. A pequena demorou um tempo para entender que cada coisa tem duas palavras para ela. Mas agora me diz algo e traduz em seguida para o pai, mesmo que ele tenha entendido, o que o deixa bem zangado. De brincadeirinha, claro, ele já se conformou que ela fala melhor o português que ele.

No fim das contas, ela fala português, francês, tudo junto e misturado e alguma coisa no meio disso tudo absolutamente incompreensível. E conjuga os verbos franceses na conjugação do português, como na frase do título. Ele está criando é o irmão gritando (crier, em francês). Mas não é que ela tem razão nas duas línguas?

Sites e blogs sobre bilinguismo:

 

 

Ele está criando, mamãe!

Quando a pimpolha começou a falar, há um bom ano e meio atrás… que deleite! Palavras, uma a uma, conquistadas pelo árduo trabalho cotidiano de buscar se exprimir. Pois, não se enganem, se tem algo que as crianças almejam mais que tudo é poder se comunicar e serem entendidos.

O choro comunica, mas tão precariamente… Com o choro, um bebê pode informar que algo não vai nada bem. Mas ele expressa apenas as linhas gerais do seu mal-estar. Os detalhes e sutilezas… bom, para isso ele precisa aprender a falar.

Um bebê sente frio, fome, sono, tédio, carência, sede, necessidade de carinho, frustração por não conseguir fazer algo, irritação na gengiva… ele chora. Mas como passa disso para “eu quero a saia violeta, mamãe?” Vocês já pararam para pensar no quão sofisticado é poder dizer que quer colocar a saia violeta? Ou que adora a saia violeta?

Para poder falar, uma criança precisa ter toda uma condição e uma maturidade física e neurológica. Mas também precisa ter um desejo e uma necessidade de comunicar sutilezas.

Os choros viram gritinhos e barulhos de alegria ou de prazer. Ensaios de palavras, sons familiares são interpretados pelos adultos como “mamãe”, “papai”, “bebê”. Eventualmente esses esboços se tornam palavras e a princípio, eles fazem milagre com tão pouco vocabulário… uma proeza!

Os bichos são seus sons “au au”, “miau”… Depois tudo vira um nome só. Todos os bichos são “gatinho”, tudo o que voa é passarinho, tudo o que nada é peixe. E a coisa se sofistica ainda mais quando podem haver gatos, cães e cavalos. Galinhas, patos, pássaros e borboletas. Peixes, tubarão e tartaruga. Depois vêm as cores, tudo era vermelho, depois podia ser também violeta, depois juntou-se o rosa, o azul, o verde, o laranja… Pequenas frases, “qué”, “não”, “qué água”, “qué pão”.

A coisa vai num crescendo até que parece que explode e a pequena, de repente, já tem muitas palavras, muitas frases. Em duas línguas. Francês e português que se confundem a princípio, muito mais fácil falar a língua materna no começo dessa falação toda. Mas o convívio com outras crianças torna o francês igualmente importante e as palavras e frases vão surgindo, se acumulando e começam a sair por todos os poros.

Parece que no momento em que a criança entende que pode comunicar algo e que um adulto atento pode ouvi-la e atendê-la ou responder a ela, isso opera uma pequena revolução. Eles querem falar… Finalmente poderão sentir-se incluídos e participantes daqueles infindáveis almoços em família, finalmente poderão dizer algo também ao longo das conversas, finalmente serão ouvidos e as pessoas reagirão ao que dizem… oba! Mas como a coisa não é fácil, a criança vai falando daquilo que já sabe falar. E muitas vezes a tentativa de dizer algo termina em uma impossibilidade frustrante: “mamãe, nho nhé nho nha nhi?” “O que, filha? Do que você está falando?” “Nho nhé nho nha nhi?” “Aqui? O que aqui, filha?” A coisa se complica, ela desiste. Puxa…

Vêm então as perguntas, deliciosa faculdade do querer saber, exercício prazeroso da curiosidade, que deixa mães e pais malucos, mas que é tão importante para os pequenos em plena descoberta do mundo. “Mãe, que é isso?”. A gente responde e os bichinhos parecem um computador superaquecendo de tanto trabalho. “E por que?”

“Olha, apagou, mamãe!” “O que, filha?” “O céu apagou, mamãe! Por quê?” “Ah, ficou escuro, é de noite. O sol se pôs.” “Ele foi onde, mamãe?” “Ele se escondeu agora que ficou de noite, ele volta amanhã”. Essa foi a pergunta maravilhosa feita pela minha pequena há uns dias atrás. Ela tinha acabado de descobrir a noite. E queria saber como funcionava essa luz que apaga deixando tudo escuro. No dia seguinte, no final do dia, ela foi contar ao pai que o sol tinha desligado, que era de noite, que era hora de dormir. E ficou muito feliz em saber que o sol voltava no dia seguinte, na hora de acordar.

Talvez por vício da profissão ou porque sempre fui uma curiosa perguntadeira, as perguntas da minha filha só fazem me encantar. Com ela, com a descoberta dela pensando o mundo em que vive, com essa pessoa sendo cada vez mais pessoa na medida em que se descobre a descobrir, a perguntar. E a afirmar.

Não sei se podemos considerar que um sujeito fala se ele não for capaz de se colocar dentro do seu discurso. Sem que exista alguém que diga “eu quero”, quem é que quer? Pois um passo essencial nessa falação toda é a criança poder dizer “eu” e “você”. E, para chegar nisso, ter efetuado o colossal trabalho de saber-se um “eu”. E de enunciar algo em nome próprio.

Vocês já imaginaram o quanto uma criança já caminhou numa certa consciência de que ela existe quando chega ao ponto de dizer: “tô triste”, “tô brava”, “tô contente”? Aí já não é mais fome, sono, calor, sede… são estados de alma, coisas que muitas vezes nós adultos temos dificuldades em perceber e em expressar.

Ou seja, palavras, frases, por quês e estados de almas ditos pelas crianças deveriam ser comemorados como grandes conquistas que são. E não tomados como encheção de saco, imposição da sua vontade, tirania ou qualquer outra interpretação infeliz que fazemos de nossas crianças no momento em que elas começam a dar provas contundentes de que estão ali, de que pensam, de que sentem e de que existem. E tem gente que se incomoda, se irrita, acha melhor que elas se calem, que parem de perguntar, que parem de falar tanto.

Eu adoro conversar com minha filha de dois anos e meio. Ela tem umas sacadas maravilhosas, como essa do sol da qual falei logo acima. E muitas outras que eu deveria anotar mas não anoto, pois não quero estragar o momento de partilha com uma preocupação em correr atrás de papel, gravar no celular ou o que quer que seja.

Agora, além de dizer que está triste, feliz ou brava, ela deu para perguntar como estamos. Nós, os outros. E, mais do que isso, deu para consolar, apoiar. “Calma, irmão. Não chora, não fica triste. Vai ficar tudo bem. Você quer um abraço?”

Crianças descobrindo o mundo através da palavra. Tão precária e tão maravilhosa palavra. Que permite chegar ao outro. Mesmo capenga. Mesmo com falhas e malentendidos. Palavra que é tão frágil quanto a nossa humanidade. E, por isso mesmo, tão preciosa.

Vou ali comemorar com minha pequena que descobriu que o sol desliga à noite. E volto daqui a pouco porque esse post, nas suas origens, era para falar sobre bilinguismo. Eita palavra que desliza por caminhos tortuosos!