Mas para que esse blog?

"O sono da razão produz monstros", Francisco Goya, 1799
“O sono da razão produz monstros”, Francisco Goya, 1799

Então é assim: você descobre que está grávida e as portas de um novo mundo se abrem para você. Bem-vinda ao seleto clube! Cinco minutos de espera para o teste de farmácia e sua vida muda. Ou melhor, já tinha mudado e você tem a confirmação. Parabéns! É o que todos vão te dizer. Eu inclusive. E imediatamente te encaixam em uma nova categoria: a grávida. Deal with it. Você não é mais aquela pessoa singular que sempre foi, você não é mais os seus projetos, suas esperanças, sua vida, sua história. Você é a grávida e encarna – literalmente – uma imagem padrão que todos acham que entendem e com a qual todos vão se relacionar de agora em diante. Vão conversar com a grávida, vão te contar histórias de grávida. E vão assumir que sabem exatamente quem você é e o que você sente porque sua condição de grávida passa magicamente a definir todo o seu ser. Não sobra espaço para nenhuma individualidade. Putz…

E então, o que é que você faz com tudo aquilo que você é e sente, especialmente agora? Porque, convenhamos, você descobre que está grávida e a cabeça, o corpo, o coração… tudo vira um turbilhão, uma avalanche de intensidades. Mas, como na nossa sociedade, na nossa cultura e no imaginário de cada um de nós estar grávida e ser mãe significam apenas a mais pura experiência de felicidade que um ser humano pode ter, qualquer coisa que escape disso está condenada ao silêncio. Ninguém fala. As mães não falam. Ficam abandonadas e sozinhas com tudo aquilo que convulsiona dentro delas, todos os medos, todas as ambigüidades, todas as dificuldades, todas as incertezas… Imagino que para os pais seja parecido. Todos têm que estar felizes. Muito. E apenas felizes. Nada mais. Entendeu?

Ninguém nos disse, ninguém vai nos dizer e, quando chegar a nossa vez, também não diremos a ninguém. Psicanalista que sou, com mais de uma década de experiência em consultório, eu sei bem o que é o conflito dilacerante que se instala em cada um quando temos que ser adaptados a um ideal que, no fundo, no fundo, ninguém consegue atingir a não ser nas aparências. Já testemunhei muita gente destroçada por não conseguir ser o que “deveria” e por não se autorizar a ser aquilo que pode, quer, aquilo que faz sentido. Construir um caminho singular e respeitar essa singularidade é sempre o mais difícil, custa caro, exige assumir uma responsabilidade por si mesmo e se tratar com um tal respeito que, na maior parte das vezes, não estamos dispostos a oferecer a nós mesmos. E as pessoas ao redor também não ajudam. Pressionadas que são a vida toda por também se enquadrarem, dificilmente elas podem oferecer outra coisa que não a imposição devolvida de que você faça o mesmo.

Se isso é verdadeiro para tudo o que somos nessa vida, o que dizer dos momentos ditos importantes, decisivos? Escolher uma profissão, ter um relacionamento, ter filhos. Nessas horas, a pressão pesa a ponto de esmagar e você vira gado, vira aquilo que faz, vira uma condição, um estado… Nada de ser você e ter alguma liberdade para entender como você fica no meio dessa história. Ou o que você quer. Ou como quer. Não cause problemas, não invente moda. Cale-se. O silêncio que todos os outros foram obrigados a depositar nesse mesmo altar pesa mais do que o mundo nas costas de Atlas e, de você, espera-se tão somente o mesmo.

Uma vez que você engravida, e que a novidade se torna pública, toda e qualquer pessoa da face da Terra terá uma opinião e/ou uma “ótima” dica para te dar. Mesmo quem não te conhece. Porque você é a grávida, lembra? Então qualquer um sabe quem você é, o que sente, do que precisa, o que é bom para você. E ninguém vai se furtar a te dizer isso. Todas as dicas do mundo, todas as opiniões do mundo, “faça isso”, “coma aquilo”, “não faça isso”, “é assim”… Todas as dicas do mundo, todos os livros que te explicam minuciosamente o que está acontecendo – sério? – todos os sites, blogs, fóruns… Não encontrei praticamente nenhum em que alguém dissesse alguma coisa que fugisse ao padrão: “momento lindo”, “milagre”, “estado de graça” (e quando encontro, indico aqui). Ah, claro, pode ser que você se sinta diferente disso, mas daí se enquadra no item “depressão” e isso é doença, algo que tem que ser tratado, que é para você ficar logo como todo mundo e não criar problemas. Para você, para o bebê, para os outros… E a culpa por criar problemas? E o medo de que o mero ato de pensar ou de sentir prejudique teu filho? Afff… impensável. Melhor passar 9 meses dormindo e esperar que tudo isso que cozinha ali dentro saia e desapareça. Não sei como, mas de preferência de um modo inodoro, incolor e imperceptível. O problema é que gente não funciona assim, né? Gente não vem com botão de “delete” e muito menos com comando para reformatar. Droga…

Eu penso que dizer que algo não é normal ou que não deveria existir não faz com que aquilo desapareça. Muito pelo contrário. Apenas te deixa sozinha com aquilo que te assombra e te faz sofrer calada, às vezes mais, às vezes menos, mas sempre de uma maneira dolorosa. É exatamente por isso que até hoje eu tive muito com o que trabalhar, porque tudo aquilo que fica jogado em baixo do tapete não desaparece… e retorna, retorna, retorna… Não seria melhor encarar não?

As mães não falam porque nos foi ensinado que falar é errado, que o certo é viver apenas o lado bom da maternidade. E, sinceramente, ele existe. Mas eu me propus a voltar a escrever um blog, depois de tantos anos e de tantas vidas vividas porque, ao menos aqui, posso deixar marcado o que eu sinto, o que eu penso, o que eu estranho nesse momento, o que me surpreende, e o que me choca. Não apenas em parte, não apenas o que todo mundo quer ouvir e espera, porque para isso ninguém precisa de um novo blog, já tem um bilhão de coisas escritas, vamos poupar olhos e ouvidos de tanta repetição das mesmas informações, né? Então, como disclaimer a meu respeito e a respeito desse blog que inicio junto com essa história dentro da minha história que começa agora, quero dizer que:

  • sim, estar grávida é uma coisa maravilhosa e poucas coisas nesse mundo proporcionam uma sensação de plenitude, de alegria e de aposta na vida com tanta intensidade quanto a perspectiva da maternidade…
  • mas isso todo mundo sabe, é o que todo mundo diz e espera de você… é como todo mundo inclusive você mesma querem que você viva essa experiência…
  • só que ela não é apenas isso e, como cada coisa importante da vida, tem infinitas facetas, contraditórias, complexas, estranhas, subterrâneas…
  • e ninguém fala disso porque parece errado e feio…
  • e a gente fica em silêncio esperando que passe e que a gente passe a sentir como todo mundo…
  • até mesmo porque, tem tanta coisa boa acontecendo, por que olhar para esses “pequenos detalhes”, né?
  • e ninguém fala disso…

Então, falo eu.

4 comentários sobre “Mas para que esse blog?

  1. Achei o seu blog em uma das minhas milhares de pesquisas na blogosfera sobre maternidade. Só li o seu primeiro post e já me identifiquei tanto com o que você escreveu, que a minha vontade é ler tudo até o fim … mas só que não (estou no meu trabalho, durante o horário de expediente…). Eu tomei ontem o último comprimido da minha cartela de anticoncepcional e a partir de agora acho que posso me considerar uma “tentante” como dizem por aí… Eu estava começando a me considerar uma extraterreste, um ser estranho, completamente desconectada desse mundo e de todas as gentes desse mundo. Sim, eu quero muito ter um bebê, mas eu não quero deixar de ser quem eu sou por isso. Já me disseram que quando nasce um bebê, nasce uma mãe junto…. mas alowww , a futura mamãe aqui já nasceu faz tempo, já viveu uma porção de coisas, mas espera muito da vida ainda…

    Vou ler o seu blog e espero de verdade descobrir que eu não sou um ET …

    Bjs 🙂

    1. Flávia, obrigada pela visita e pelo comentário. Acho que quando as pessoas dizem que uma mãe nasce junto com um bebê, é porque algo muda lá no fundo das suas entranhas. Quero dizer: a pessoa que você é vai mudar com a maternidade, mas isso não significa que você vai virar um clichê. Ou que alguém possa dizer como vai ser para você passar por isso. A vida não acaba quando temos filhos, ela começa de uma outra maneira e acho que a gente fica, ao menos no começo, tentando se encontrar entre aquela pessoa de antes e tudo o que mudou. Mas sabe que isso pode ser muito bom? Com a leitura, talvez dê para perceber do que estou falando e talvez a gente ainda troque figurinhas sobre isso. Um abraço e boa sorte na sua tentativa!

  2. Oi, Alessandra. Achei seu blog hoje, por conta do seu texto que saiu no site sobre bebê (não lembro qual agora), e resolvi começar a ler do início. E que bom que fiz isso. Estou grávida de 16 semanas e, logo no início (e muitas vezes, ainda), me vi muito chocada com as coisas que ninguém nunca falou sobre estar grávida. Eu resolvi escrever um blog também, pra falar sobre essas coisas (http://mundomatterno.blogspot.com.br). Vou continuar lendo seu blog, é possível que nos encontremos em mais alguns comentários. =) Beijos.

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