A descoberta.

Pregnant woman from Kostienki. - aprox. 26.000 a 22.000 anos
Pregnant woman from Kostienki. – aprox. 26.000 a 22.000 anos

(en français: ici)

Bom, em pleno século XXI, com toda informação que circula por esse mundo, me parece muito difícil que, com raras exceções, a gente não esteja totalmente implicada na responsabilidade por estar grávida. Quero dizer: em quantas situações se pode realmente dizer que não sabia? Ou que não se queria? Porque meios para evitar são mais numerosos do que os meios para fazer acontecer, muito mais numerosos. Temos mais opções para não ter filhos do que para tê-los. Nesse ponto, mesmo com os progressos impressionantes da ciência, a coisa ainda se resume a 1+1=2… o básico. Ou melhor: 1+1=3. Quem diria que Lacan, o psicanalista, sabia mais da matemática dos seres humanos e de suas subjetividades do que aquele nosso professor chato da escola?

Mas então, você descobre que está grávida. Ou melhor, confirma alguma coisa que já sabia. Pronto, tem o aval, a legitimação da ciência, da farmácia, do laboratório, do seu médico, seja-lá-do-que-for que a gente precise para assumir como verdadeiro aquilo que já era óbvio porque você estava enjoada, vomitando, cansada, inchada, irritada, com fome, com sono, com um monte de coisas… Ou apenas você simplesmente parou de menstruar e a gente sabe muito bem que menstruar é chato, mas é a nossa carta de alforria mensal, que nos  tranquiliza e nos alivia com a notícia de que todos os riscos corridos naquele mês deram em nada e aquele carinha que se revelou um mala, ainda bem, nunca mais teremos que olhar para a cara dele, quanto mais ter algum laço que nos una àquele cretino para uma vida inteira, ufa… Bom, você descobre. E agora?

Agora que nunca é como você imaginou. Porque você imaginou que seria como no comercial de margarina, tudo escorrendo liso e sem atritos pela sua boca, pela sua cabeça, pela sua vida. Você pensou que seria no dia D, quando todos os planetas estariam alinhados e você estaria pronta, em todos os níveis, para a incrível experiência da maternidade: o momento certo, o cara certo, no lugar certo, com a vida certa, o trabalho certo, a grana certa no banco, o estado de espírito certo… Tudo certo, né? Gravidez é como um daqueles vestidos fantásticos que a gente compra mesmo sem ter dinheiro e que custou os olhos da cara, aquele vestido lindo, no qual você fica magnífica e soberana e que você, por isso mesmo, guarda para usar no momento especial, O momento da sua vida, aquele em que tudo vai acontecer. E o vestido fica ali no guarda-roupa pegando poeira porque o dia D nunca chega. Você engorda, você emagrece, de vez em quando vai ali ver se o vestido ainda serve e espera o momento, o seu momento… E nada. Nunca é o grande dia, aquele da Cinderela no baile, do sapatinho de cristal, do príncipe que beija a Bela Adormecida. Mas você espera e acredita. Até que o vestido empoeira, mofa, pega traça, o tempo cuida dele melhor do que você e acabou-se. Nada de vestido. Nada de você soberana.

O tempo não espera o dia D, simplesmente porque dia D não existe. E a vida não para esperando que você se apronte e esteja na condição perfeita para viver isso ou aquilo. A vida acontece. E a gravidez acontece assim também, no meio da vida, junto com ela, ali, na banalidade de um dia em meio a outros. Mesmo tendo sido planejada, desejada, inseminada, ela acontece ou não por motivos tão insondáveis e tão inexplicáveis que nenhuma ciência consegue dar inteiramente conta. Ainda bem. Ou não, porque a gente gosta de controlar tudo e de pensar que está no comando de tudo que acontece na nossa vida, até de nosso corpo. E de uma gravidez. Se tem uma primeira coisa que engravidar desconstrói, para nosso horror e angústia, é exatamente isso: aconteceu.

Não, não é uma total contradição com o que eu escrevi no começo, quando disse que a responsabilidade e a escolha por engravidar é nossa. O que acabei de dizer significa tão somente que a responsabilidade é toda nossa, o desejo é todo nosso, ainda que aconteçam desse jeito torto, fora de controle, longe do dia D, em meio a uma manhã de domingo, em um dia nublado de Barcelona, ou em qualquer lugar e hora tão banais quanto isso. Eis a responsabilidade: não é a propaganda de margarina e não vai ser, já começou não sendo. Mas é justamente o que eu queria.Quando eu descobri que estava grávida, entendi do modo mais contundente como é a vida quem faz os caminhos. Exatamente em direção ao que a gente quer. Mas nunca – NUNCA – do jeito que se quer. A vida é misteriosa, e isso sem nenhum sentimento ou apelo religioso incluídos… apenas a constatação disso que nos atravessa, nos ultrapassa e vai criando uma coerência entre o que somos, o que queremos, o que pensamos que queremos, o que de fato fazemos acontecer, o que nos acontece… Quando olhamos ao lado desse pavor do descontrole, a coisa parece até divertida… lúdica. Uma brincadeira de criança estar grávida agora, aqui, com você, nesse tempo e nesse projeto de vida em que ter filhos parecia uma velha história…

Grávida…

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