A enxurrada.

Eu contei a ele. Ou melhor, mostrei o teste de farmácia e ele ficou bem mais calmo do que eu. Também, já tem três filhos e eu, marinheira de primeira viagem, entre o riso, o choro e a negação pura e simples. Isso é bom, isso é maravilhoso, isso é péssimo, isso é um pesadelo… E agora, o que faço das minhas viagens, trabalho, pesquisa, roupa de mergulho, balada com os amigos? O que faço dos projetos que eu tinha, ou do conforto acomodado de acreditar que eu sabia quais projetos tinha, o que iria fazer em seguida, onde estaria amanhã ou depois… o que fazer de todas essas certezas?

“Você está gestando. Está em estado de graça. É uma coisa maravilhosa.” Isso era a última coisa que eu precisava ouvir, esse chamado para o enquadramento, essa exigência da felicidade absoluta, esse fim de todas as questões. Porque antes de ficar feliz, alegre, eufórica com a notícia – ou ao mesmo tempo em que ficava feliz – eu precisava de espaço, de tempo e de autorização para ficar outras coisas também: tensa, indiferente, descrente, triste, irritada, preocupada, apavorada… Uma enxurrada de coisas, uma retrospectiva de toda a minha vida, de tantas vezes que desejei isso, de toda a minha história com ter filhos, dos tempos em que quis, não quis, quis de novo, não quis mais, tentei, desisti… E agora, justo agora?

Pois é, agora mesmo. Lembro de uma mulher que passou anos fazendo tratamento para engravidar. Anos. Ela tinha mais de 40 quando a conheci. E tentava. A vida girava em torno disso, era muito importante. Ela sofria horrores. Uma dor de alma a cada dia. E haviam dito para ela que na hora em que você relaxa, esquece, deixa para lá, a cosia acontece. E todos aqueles exemplos de mulher que não conseguia engravidar, adotou e ficou grávida no minuto seguinte. Ou daquela que separou e engravidou de uma aventura no minuto seguinte. No minuto seguinte à desistência, acaba acontecendo. Essa mulher tentava se convencer de que desistiu. Tentava desistir sem ter desistido, assim como quem tenta enganar a morte, como aquele sujeito do Sétimo Selo do Bergman… jogando xadrez, jogando xadrez, negociando. Ela tentou e tentou negociar, tentou fazer de conta, dar um truque. Não deu. O Bergman era genial, ele sabia que nunca dá, a gente nunca consegue contornar o que deseja para fazer de conta que não deseja para a vida passar distraída e nos dar o que queremos…

Levou uns bons dias para a “ficha cair”… ou melhor, umas boas provas de realidade. Don’t blame me. Vivemos em um mundo em que a imagem se substituiu a quase tudo e em que praticamente tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo. O que garante a realidade de algo hoje em dia? Um teste de farmácia? Um exame de sangue? Enjôo? Cansaço? Eu precisei chegar até o primeiro ultrassom, oscilando entre saber e não saber, balançando entre lembrar e esquecer, entre pensar a vida como se nada fosse e pensar em como mudar a vida, entre querer, decidir querer e reclamar que não era bem assim que eu imaginava… Primeira consulta médica, primeiro ultrassom: está ali, existe. Pronto, para mim teve efeito de realidade. Estou grávida.

O Sétimo Selo - Ingmar Bergman
O Sétimo Selo – Ingmar Bergman

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