Medo de tudo.

Medo de atravessar a rua. De uma hora para outra, até medo de atravessar a rua dá. E de voltar sozinha, à pé, à noite para casa. Em Paris, onde é seguro e onde o prazer sempre foi essa liberdade de movimento reconquistada, desconhecida da paulistana que nunca pode parar em um farol vermelho após as dez da noite em seu próprio país. Mas agora, dá medo. Como se agora o mundo tivesse ficado mais perigoso e você, mais vulnerável. E para além desses medos que surgem em um final de tarde, na calçada, de olho do farol de pedestres, ainda vêm outros. Medo de ter algum problema quando estiver sozinha. Medo de ter um algum problema morando em outro país e estando grávida (como se morar em outro país já não fosse incerto o suficiente). Medo de passar mal, medo de abortar, medo que o bebê tenha algum problema, medo da trissomia do 21, medo. Medo da vida, de tudo o que pode acontecer quando se está vivo. Você está grávida e se dá conta que o risco de estar vivo agora não é apenas seu, mas também do outro que, por enquanto, depende totalmente de você. E como você sabe, enquanto o pequeno está ali no bem bom, quentinho, feliz da vida mergulhando, sem ter a menor idéia, sorte dele… como você sabe o risco que é estar vivo, as mazelas e os custos de criar para si uma vida, de repente você percebe que – caramba! – o pequeno está ali também, correndo todos esses riscos sem saber. Quantos fantasmas com os quais lidar!!!

Johann Heinrich Füssli - Le cauchemar - 1781
Johann Heinrich Füssli – Le cauchemar – 1781

E os livros, sua família, seus amigos, seu médico, o acompanhamento da sua gravidez, o que fazem? Te inundam com mais um oceano de medos. Não, não é totalmente verdade, porque amigos que te conhecem bem e família próxima, gente que te ama e te conhece de verdade não fica te atormentando nem com histórias, nem com medos, nem com um monte de fantasmas. Eles consideram que você já os têm em número suficiente e torcem para que você se saia bem. E te ajudam com o que for preciso. Que alento! Porque a maior parte das pessoas nem se toca. E os livros, então? Cada capítulo, uma ressalva acerca de algo com que você tem que se preocupar: o que come, doenças sexualmente transmissíveis, herança genética, até o final do terceiro mês é quando ocorre o maior número de abortos espontâneos, mal-formações congênitas… E os casos? Os “causos”. Todo mundo tem um “causo” para contar de alguém que conhece alguém que teve um bebê com duas cabeças, três braços ou sabe-se-lá-o-que-inspirado-de-um-filme-de-horror-da-vida-real. Sério, alguém me diga que as pessoas ao menos pensam antes de abrir a boca, ao menos de vez em quando…

O mais paradoxal é que, ao mesmo tempo em que ninguém se poupa de contar todo tipo de horror assim que descobre que você está esperando um filho, e que nenhum veículo de (des)informação se poupa de páginas e mais páginas de descrições de tudo aquilo que pode dar errado, nenhuma pessoa agüenta ouvir falar, por mais de dois minutos, (e quase nenhum livrositeeocaralho escreve por mais de uma ou duas páginas) desses seus medos, das suas inseguranças, das suas dúvidas. E o que eu faço? E se? E se? E se? As pessoas saem de fininho afinal, como você pode não estar apenas muito feliz? E os veículos transmissores de todos os saberes te dizem: você vai se fazer muitas perguntas, vai ter muitas inseguranças, mas isso é perfeitamente normal. “Ahhhhhh, então tá, valeu aí. Obrigada por me dizer que o que estou vivendo é legítimo.” Parece o discurso da mãe psicotizante descrita pela psicanalista Piera Aulagnier: de um lado, o terror, de outro, a cobrança de que você deveria estar bem, feliz, calma e segura nessa situação que o discurso mesmo do outro ameaça.

Acho estranho que ninguém diga que, quando fritamos os nossos miolos com todos esses dados, estatísticas, ressalvas, perigos, “causos”, apreensões e vulnerabilidades estamos colocando no centro das nossas preocupações aquilo que, na verdade, é a exceção. Todo mundo conhece um caso bizarro, triste, trágico porque casos bizarros, tristes e trágicos são extraordinários. São a exceção e não a regra. E se os dados dizem que uma em mil gestações tem tal ou qual complicação, isso significa que 999 não têm. A gente nem pára para pensar nisso, né? Parece que estamos tão acostumados a viver em um mundo onde tudo teria que ser extraordinário que tomamos logo a exceção pela regra. Só que a exceção pode ser tanto a menina pobre que foi descoberta e virou modelo de sucesso internacional quanto o cara que saiu de casa um dia e morreu esmagado por um piano que caiu na sua cabeça. Ficamos esperando ser uma exceção espetacular em cada acontecimento de nossas vidas. E somos bombardeados por todos os casos de exceção. Daquilo que é a exceção do ideal, do que tem que ser. E do que é a exceção da catástrofe. E a gravidez não escapa a esses anseios e temores relativos à exceção.

Pode parecer meio banal e comum demais para nossas expectativas de extraordinário mas, ao que parece, desde que o ser humano existe na face da Terra ele cuidou de perpetuar a sua espécie se reproduzindo. O que significa que mulheres engravidaram. E deram à luz a seus bebês. E que esses bebês de algum modo vingaram, cresceram, viveram e se reproduziram também. Deve ser uma fórmula eficaz porque, excetuando-se as vezes em que não deu certo, a humanidade parece que vai muito bem, obrigada, povoando o mundo até explodir, ocupando cada canto desse planeta com todas as suas idiossincrasias, contradições e muito mais. Então, depois de ler uns dois livros, navegar por uma quantidade indecente de sites, ler uma série de relatos de histórias e ouvir não sei nem quantos “causos” sobre a exceção na gravidez em tão pouco tempo, eu entendi que, sempre que alguém abre a boca ou que começo uma leitura, tento considerar, antes de mais nada, o seguinte disclaimer:

A história que se segue foi baseada em fatos reais de exceção. O que significa que ela tem quase 99% de chances de não se aplicar a você.

Agora, ao menos eu escolho se vou ficar siderada pela exceção, apenas porque a vida é um grande e desconhecido risco, ou se vou me conformar à banalidade do que está acontecendo comigo. Porque é extraordinário para mim. É surpreendente. Mas é também a coisa mais comum do mundo: ter filhos.

Mais sobre os medos ao longo da gravidez: aqui.

2 comentários sobre “Medo de tudo.

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