Ser grávida é um consumo só…

Um dos meus maiores temores, quando descobri que estava grávida, era o de ser tragada pelo buraco negro das representações, dos imaginários, das ações e de todo o aparato espetacular em que se converteu o simples ato de ter um filho hoje em dia. Comecei a me lembrar de todas as amigas, parentes e conhecidas que engravidaram recentemente e de como passaram por essa experiência e, entre uma memória e outra, nada parecia corresponder à pessoa que sou, à vida que levo, aos meus valores e aos meus anseios. Que pesadelo!

Personal disclaimer: o que eu escrevo aqui vem, como só poderia ser, da minha experiência pessoal, em um contexto específico, em um país específico, em uma cidade singular, cercada de pessoas e histórias também singulares. Evidentemente, no Brasil devem existir muitos outros modos de viver a gravidez e a maternidade, possivelmente muito mais interessantes e enriquecedores do que grande parte do que eu via ao meu redor. Mas, quanto a isso, nada a fazer a não ser respeitar o fato de que eu só poderia pensar a partir da minha própria experiência. E ela me deixava preocupada.

Na cidade de São Paulo, como possivelmente em muitas outras cidades brasileiras que enriqueceram e em que uma parte de seus habitantes prosperaram, ainda mais nos últimos tempos, alavancados pelo boom otimista do próprio país, a medida de prosperidade, de sucesso e até mesmo de satisfação e alegria de um indivíduo se dá, principalmente, pelo que ele consome. Em todos os âmbitos. Vencer na vida é praticamente sinônimo de aceder ao consumo: poder ser = poder ter. Quanto mais, maior importância você tem. Para você e para os outros. Acho que é uma história antiga, em que se somam a lógica capitalista ao nosso passado de colônia. Povo colonizado e sem história, por opção e vergonha da própria história, que tem que inventar para si alguma identidade e algum valor. E o que é mais fácil inventar, aparência ou substância? Maquiagem é mais fácil e mais rápido. Imagem se constrói de maneira mais inócua que entranhas, que a gente só constrói enfiando a mão na massa mesmo. Então, criar uma imagem ou uma idéia de felicidade e realização através do consumo é mais fácil do que ter que acertar as contas com nosso passado, nós, os brasileiros de maneira geral. Os norte-americanos também entenderam rapidinho isso. Viraram os mestres da arte. Até a hora em que… ops… falhou. E a coisa toda não cessa de explodir na cara deles. Mas nós ainda não chegamos nesse ponto, ainda estamos no momento feliz e festivo, em que podemos alçar como máximo valor para cada um o máximo que ele puder consumir. Viva!

Não preciso nem mencionar, porque acho que não passa desapercebido para ninguém, que esse ar inofensivo das aparências e da valorização do consumo como definidores de cada pessoa não é tão inócuo assim. A quantidade de carros na rua que fez de São Paulo uma cidade inviável a qualquer hora do dia ou da noite está aí, assim como a assustadora massa de pessoas acima do peso, comendo o seu consumo literalmente. E todos os iPhones de uma rede de telefonia que não funciona. E todos os bens adquiridos que vão para o lixo que não tem mais onde se descarregar. E mais uma inundação de coisas, de excessos. Todo mundo governado pelo imperativo de consumir, consumir para ser. Comer, beber, comprar, fazer, ter, ter, ter, ter, ter…

E a gravidez e a maternidade não escaparam disso, infelizmente. Ter filhos tornou-se um ato de consumo, onde cada gesto, cada objeto, cada escolha sua vão dar a medida do que você tem. E, consequentemente, de quem você é. E de qual o seu valor. E, se não for alto, você está danada.

Então, a discussão sobre gravidez e maternidade logo resvala para os objetos do seu consumo: o bebê e tudo o que o cerca. Quem é o obstetra, qual a maternidade em que ele vai nascer. Maternidade que é, hoje, mais maquiada que hotel de luxo, a aparência da coisa tendo todo o destaque que merece, em um prospecto no qual ela é vendida do mesmo modo que suas próximas férias em Dubai. Ou sua casa no condomínio fechado. Faz parte da mesma lógica e a escolha é guiada pelos mesmos valores. E o enxoval? Em Miami, é claro. Porque é tãāāāāāāo mais em conta. E a babá, esse resquício descarado do nosso passado de senhor de engenho? Babá é tão necessário quanto o obstetra cinco estrelas, a maternidade cinco estrelas e o enxoval cinco estrelas. E babá cinco estrelas vem de uniforme. Branco. E trabalha mil horas por dia. Até mesmo nos finais de semana. E dorme no trabalho e tem uma folga por mês. Mas você, generosamente, até vai deixar ela almoçar no restaurante em que a família feliz se reúne para os consumos dominicais. Depois de cuidar do rebento, claro. Enfim, a lógica do consumo de onde ficam de fora alguns ínfimos detalhes como, por exemplo, o bebê em si e sua relação com ele. Putz…

Então está tudo bem, você engole o choro, as dúvidas e o desconhecimento, sorri e diz que é tudo apenas muito lindo, vai para Miami, faz o enxoval, vai para a super maternidade, com o super obstetra, leva a super babá junto com a tal malinha do bebê, na super hora marcada e… faz uma cesária, né? Porque isso também é tão acessório quanto o bebê em si. O modo como você vai tê-lo… que importa? Hora marcada é ótimo, dá para avisar os amigos, a Caras, passar na manicure, no cabeleireiro, chamar o fotógrafo, o cineasta. Assim sai tudo perfeito, como planejado. Para todo mundo ver. Bebê virou imagem, mamãe virou imagem, todo mundo sorrindo como na propaganda de margarina. Maravilha.

Só tem um problema… nada disso serve para mim. Danou-se.

imgres-8urlimgres-9imgres-10

2 comentários sobre “Ser grávida é um consumo só…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s