Todos os tempos da gravidez…

Sempre achei que o tempo não passa de forma linear, mas em blocos. Você passa boa parte da sua vida se percebendo com uma certa idade e, de quando em quando, toma um choque frente ao espelho, ou quando alguém te chama de senhora pela primeira vez, ou quando não faz idéia de quem seja Justin Bieber, ou em qualquer situação em que seu corpo ou sua cabeça dão mostras de que não acompanham mais tão agilmente o ritmo frenético dos acontecimentos de cada dia… Enfim, algo acontece e todo o peso dos anos passados desapercebidos cai sobre suas costas de uma vez só: tudo mudou, você é quem não tinha visto.

A persistência da memória - Salvador Dali - 1931
A persistência da memória – Salvador Dali – 1931

Na gravidez o tempo parece que passa também dessa forma engraçada, aos trancos e barrancos, seguindo ritmos de luas, de semanas, de sonos e sonhos… O corpo revoluciona e convulsiona e trabalha sem parar para se adaptar à todas as mudanças e isso dá um cansaço danado que faz com que tudo ande beeeem mais devagar. O corpo corre, o corpo pára. E a cabeça faz o mesmo, borbulha todos os pensamentos os melhores e os piores e cozinha tudo ali, o tempo todo, um caldo de idéias e sensações que fica de ruído de fundo para todos os pensamentos que têm que ser pensados, todos as ações que devem ser feitas, todo o cotidiano que deve ser cuidado e que não entra em modo “pause” somente porque você está grávida e precisa de tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo… Como ganhar tempo quando se tem prazo? Porque nem o bebê vai poder esperar você arrumar a sua vida, a sua cabeça, a sua casa, a sua relação… até porque sabemos bem que se o bebê e a vida fossem esperar o nosso momento ótimo, putz, coitados, né? O bebê completaria cem anos ali na barriga e a vida teria parado no homem de Neandertal, que estaria até agora pensando se estaria pronto ou não para se misturar com o homo sapiens…

 

Bom, se o tempo urge, também é reconfortante saber que temos ainda algum um tempo. Em poucos meses as coisas vão mudar ainda mais e o bebê vai precisar de muito mais do que aquilo que dá para garantir ali no quentinho da barriga sem precisar pensar muito porque o seu corpo sabe bem o que fazer. Ufa. Mas quando o pequeno estiver ali fora, no mundo, vai precisar de um pouco mais do que necessita hoje. Ou melhor, possivelmente vai precisar das mesmas coisas, mas de um outro jeito, no qual precisará um pouco mais de você. Deve ser quando o peso todo do mundo e da vida tomba novamente sobre as suas costas e você vira mãe. Vi isso acontecer uma vez, uma cena linda e tocante, quando meu sobrinho chorou no quarto da maternidade e apenas minha irmã e eu estávamos presentes. Nos entreolhamos, como quem se pergunta: cadê a mãe desse pequeno para nos acudir? E, em menos de um segundo, minha irmã passou da dúvida ao susto e desse à constatação de que a mãe era ela, de que não havia nenhuma outra, apenas ela para ser mãe daquele bebê ali, naquele instante. E acudir. Acho que ela envelheceu uns 10 anos em poucos segundos. E virou mãe também.

 

Atlas.
Atlas.

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