Mas o bebê sente tudo o que a mamãe sente?

Drawing woman surrounded by her children - Pablo Picasso - 1950
Drawing woman surrounded by her children – Pablo Picasso – 1950

 

Está aí uma boa pergunta, que sempre me deixa de cabelo em pé, ainda mais quando vem em forma de afirmação: “ah, mas fique bem porque o bebê sente tudo!” Quer dizer que, além de ter que dar conta de tudo o que acontece, eu não posso reagir emocionalmente a nada de ruim porque, caso tenha um mau pensamento ou um mau sentimento, estarei prejudicando o bebê? Sério, alguém já parou para pensar na cilada que é esse tipo de afirmação? Porque, minha filha, agora, além de não poder fazer mais nada, nem de expressar mais nada, você não pode mais nem sentir nada ou você será uma péssima, péssima, péssima mãe. E você não quer isso, né? Putz…

Acho que esse tipo de idéia entra no mesmo rol de “maternidade é uma benção”, uma posição unilateral, que não dá espaço para a pluralidade que é a vida e que prefere jogar para debaixo do tapete tudo aquilo que é rejeitado, condenável, incomodo. Estabelecemos uma idéia de como devemos ser, como devemos viver, como devemos reagir a cada experiência da vida e tudo o que foge ao padrão tem que ficar bem escondidinho. Com o agravante que, em uma gravidez, escondidinho não pode nem mais ser dentro de você, no segredo do seu silêncio ou dos seus pensamentos, porque dentro de você tem o bebê e se ele e seus segredos se encontrarem… minha nossa, que perigo! O bichinho corre o risco de ficar contaminado por toda a porcaria que você guardou ali. Euh, melhor arrancar tudo de dentro de você e jogar num lixo, daqueles lixos tóxicos de resíduos nucleares que ficam enterrados sob toneladas de concreto num fim de mundo qualquer. E do qual nunca mais se tem notícia até o dia em que ele vaza, transborda por uma rachadura da parede e todo mundo é obrigado a lembrar que não dá para o lixo ficar debaixo do tapete para sempre. O velho Freud sabia das coisas quando dizia que tudo que vai para debaixo do tapete volta para cobrar a conta.

Essas idéias unilaterais que a gente cisma em colocar como um ideal servem apenas para nos torturar por toda uma vida, cobrando e cobrando a nossa incapacidade, a nossa insuficiência em ser como se deve. Na hora de ser mãe então, em que nem o nosso íntimo é lugar seguro para guardar as nossas falhas, ficamos presas na cilada da maneira mais cruel, tendo que manter o pensamento e o sentimento em suspenso para não correr o risco de nada de ruim sair dali.

E será que o bebê sente mesmo?

Acho que seria mais realista perguntar o que é que o bebê sente. Porque supor que o bebê sente que a mamãe está irritada porque teve uma pane de gás no bairro e isso deixou a casa congelada em pleno inverno é supor que um bebê pode decodificar e atribuir os mesmos sentidos que um adulto. Para um mundo que ele ainda mal conhece. Como seria possível? Ou um bebê na barriga é uma espécie de mestre Yoda que sabe tudo, entende tudo, registra tudo, percebe tudo e que, quando nasce, perde todos os super poderes a ponto de não ser capaz nem de dizer se está com fome ou com sono, ou essa suposição de que o bebê sente, o bebê percebe, o bebê sabe é alguma coisa próxima demais da paranóia, né?

A verdade é que ninguém tem como saber o que é que um bebê sente e que marca isso faz na existência dele ali na barriga. Os cientistas pesquisam, os psicanalistas supõem, os religiosos afirmam, mas no fundo, no fundo, mesmo todo mundo achando que encontrou a verdade, é tudo mera suposição. Porque o bebê não lembra e não vai poder nos contar depois. Então, por que acreditar no pior dos casos? Será mesmo que ficar triste, desanimada, cansada, em dúvida, com medo, com raiva, ambivalente, irritada… será que tudo isso tem realmente o poder de prejudicar o bebê? Será que o bebê vai perceber tudo isso como sendo o que é e será que ele vai ficar traumatizado por que tem dias que a mamãe não sabe o que fazer, não sabe mais se quer ter filho, tem medo do que está por vir? Puxa, mas que bebê poderoso que sabe tudo e que mamãe poderosa que pode prejudicar o bebê com um mero pensamento, hein? Cruzes!

Eu gosto mesmo do Freud, porque ele sempre me ajudou a entender que, muitas vezes, isso que a gente coloca nos outros, isso que a gente pensa que é a verdade dos outros ou da vida mostra, tão somente, o jeito como a gente funciona, aquilo em que a gente acredita, nosso esqueleto, por assim dizer. E o Freud sempre dizia que temos um dom especial para acreditar que somos transparentes, como se estivéssemos desnudados frente às pessoas e como se nossos pensamentos e sentimentos mais incomodos tivessem o poder de atos e pudessem ferir, matar, destruir. Ledo engano. A gente pode muito pouco e isso é que é duro de engolir. E não somos transparentes. Nem para fora, nem para dentro. Nem para nós mesmos, nem para o bebê.

Eu gosto de imaginar – porque parece que estamos mesmo num terreno em que apenas a imaginação pode saber de alguma coisa – que o bebê sente o que eu sinto do mesmo jeito que ele sente quando eu como uma pratada de feijoada. Ou seja, que ele tem sensações, tumultos, intensidades, agitos, calmarias, confortos e desconfortos. Mas, até aí, se é tristeza, preocupação, azia ou congestão, talvez seja para ele apenas da ordem do barulho indecifrável em que ele vive com a mesma curiosidade com a qual vai viver tudo ali na barriga, porque ainda não conhece nada. Nem dividiu ainda o mundo em bem e mal. Nem sabe que existem “bons” e “maus” pensamentos e sentimentos.

Se tudo vai bem e o bebê está ali, no quentinho, talvez tristeza seja como uma barriga que se contrai feito um coração apertado, talvez raiva seja o rufar dos tambores dos dias de azia ou de gases, talvez amor seja a calmaria da respiração do sono ou os balanços compassados das horas de sexo… Talvez… Quem sabe?

Joe Sorren - Mother and child
Joe Sorren – Mother and child

24 comentários sobre “Mas o bebê sente tudo o que a mamãe sente?

  1. Alessandra,
    adorei a proposta do seu blog!
    O fato é, que depois de milhares de anos, ter um ser humano dentro de outro ainda é um mistério insondável… Eu também ficava preocupada na gravidez, sobre o quanto poderia estar influenciando o bebê. Desencuquei quando fechei com ele uma cumplicidade: “muito bem, neném, vamos enfrentar isso juntos.”
    Esse Yodinha está tudo de bom!
    Te incluí em meu blogroll!
    Beijos!

    1. Marusia,

      Obrigada pelo comentário. Complicado esse bombardeio de regras que a gente sofre durante a gravidez, né? E conseguir dizer não, filtrar, desencanar é algo que exige muita força de vontade, quase um nós contra o mundo… Mas vamos em frente porque, se não defendemos os pequeninos de toda essa loucura que virou ter filhos hoje em dia, quem vai defender, né? Um abração, Alessandra

      Ah, já tinha incluído seu blog, tenho lido com frequência, ele é muito bom, parabéns!

      1. Claudia, u não sei o que acontece na sua vida para você estar triste a esse ponto. Só posso dizer que sinto muito por vocês dois. Acho que antes de fazer qualquer coisa, é importante conversar com alguém em quem você confia e que possa te ajudar a ver as coisas por outros ângulos. Conversar ajuda. Seja cuidadosa com você e com o bebê, pois poucas coisas são impossíveis de dar conta, de um jeito ou de outro. Morrer não é uma opção. Um abraço e muita força e muita garra para vocês.

  2. Nao sabe o alivio que senti ao ler esse texto,eu estava me sentindo um monstro por pensar assim e o pior era nao se sentir a vontade p falr isso c c algm.Mas ja resolvi isto

    1. Pois é, Mari, tem muitas coisas que sentimos e não falamos para ninguém por vergonha, pudor ou por não ser o esperado. Acho que o mais importante é poder falar, poder compartilhar essa parte mais sombria, para ela não ficar nos assombrando. E na medida em que percebemos que outros sentem parecido ou que sentir é apenas sentir, fica mais fácil de lidar, né? Um abraço, Alessandra.

  3. Ola !me chamo talita,ando muito triste e chorando muito.to com 3 meses de gravidez e meu esposo vai me deixar.eu o amo muito queria muito criar meu pequenino com ele, mais infelizmente ele não me ama mais.ando sofrendo muito.tenho 30 dias pra deixar a casa dele com isso a dor só aumenta.preciso muito de uma palavra amiga.me ajude.

    1. Talita, sinto muito pela demora em te responder e mais ainda em saber pelo que você está passando. Nessas horas, penso que o melhor é ir com calma, tentar fazer uma coisa por vez para não se afogar na tristeza e nos problemas. Busque todo o apoio que puder, dos amigos, da família, peça ajuda a eles e se deixe ajudar. Um grande abraço, Alessandra

    1. Sabata, desculpe a demora em te responder. Para saber de como está o bebê em cada momento da gravidez, te sugiro baixar um dos muitos aplicativos de gravidez que você encontra na internet e que mostram semana a semana como o bebê evolui na barriga. Um abraço, Alessandra.

  4. Adorei a postagem! Sou mãe de primeira viagem, e mesmo aos
    35 anos, você consegue imaginar a quantidade de absurdos que as pessoas (que se acham ou se dizem experientes) me falam?

    Chega a ser irritante!!!

    Vou compartilhar este artigo com as minhas amigas grávidas!
    Grande abraço!

    1. Obrigada, Priscilla. Olha, eu também fui mãe mais velha e isso nunca evitou comentários sem noção das pessoas não. E depois do segundo, também não melhora. É uma sina, hehehe. Abraço, Alessandra.

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