O sexo do bebê e sexo dos anjos…

Segundo ultrasom, antes ainda das 22 semanas – porque aqui na França, os obrigatórios e reembolsáveis pela seguridade social são os de 12, 22 e 32 semanas – e o médico lança, não antes de eu ter gentilmente perguntado: ah, isso é uma menina! Assim, como se fosse uma evidência. E isso, vulgo, meu bebê, virou minha bebê, nossa bebê(zinha).

Das coisas que trazem um senso de realidade, de concretude a uma gravidez, saber o sexo do bebê pode ser colocada ali nos “top 5” da lista. Ver o bebê, como já escrevi antes, ouvir seu coração e, agora, saber se é menino ou menina encarnam profundamente esse acontecimento no corpo. Ou, ao menos, encarnam profundamente a consciência de estar gestando dentro da sua cabeça, dos seus sentimentos, das suas fantasias, das suas representações. O que, já diria o bom e velho Freud, é a mesma coisa. Não existe corpo que não seja banhado de alma, de psiquismo, de subjetividade. Corpo organismo, assim, seco, objetivo, cru, apenas os médicos, esses seres estranhos, é que insistem em apregoar. Talvez mais como proteção do que por real convicção, afinal, se eles forem pensar o tempo todo que aquele corpo ali é uma pessoa, como é que vão abrir um tórax, um crânio, realizar uma cirurgia? Enfim…

Mas corpo não é isso, né? Um exemplo: basta ver uma mãe cuidando de um bebê para se dar conta de que o corpo é tudo menos uma objetividade, pois cada vez que um bebê é tratado apenas como um organismo, ele adoece. Uma mãe trocando uma fralda é um toque, um olhar, palavras, sorriso, carinho, calor. Ou até ansiedade, insegurança, cansaço, irritação, pressa… não estou discutindo a qualidade da troca, mas o fato de que ela existe e que ultrapassa o que seria um gesto objetivo, em que as particularidades e os afetos dos dois que estão ali não participariam. Ou seja, trocar uma fralda nunca é o mero ato técnico de cuidar do corpo do bebê esmerdeado. E as imagens do ultrasom, o som do coração do bebê batendo acelerado nunca são apenas os indícios de boa saúde, ou as boas medidas, os bons indicadores do tempo, dos progressos e do estado de uma gravidez. Mesmo que seja apenas isso que conste do relatório do médico, para você é muito mais.

Ainda bem. Porque enjôos, cansaço, sono são bem legais como sinais de gravidez mas, não, são horríveis. Quem gosta de passar três meses enjoando noite e dia, tendo como ruído de fundo permanente um corpo barulhento que se estranha com sua nova condição? Não come, enjoa, come, embola e tem azia, e assim seus dias passam a ser medidos pelos tempos e pelos intervalos entre enjôos e azias e você torce para que ao menos a tal história de que passa ao final do terceiro mês seja verdadeira e a cada vez que lê os relatos de gente que enjoou até um último segundo do último dia do último mês pensa em como vai resistir comendo apenas abacaxi, laranja, mexerica e maçã por todo esse tempo e já se imagina transformando-se em uma pessoa amarela e ácida como as frutas que você consegue comer e… afff…

Corpo bom é corpo quietinho de todas essas turbulências. Corpo em revolução por conta de uma gravidez dá uma trabalheira danada. E um baita mau humor. Até que as imagens, os sons, o sexo do bebê partem em seu socorro e te devolvem a dimensão de porque tudo aquilo está ocorrendo. E você olha para trás, um tempo bem recente, algo como um mês atrás e se diz: ah, nem foi tão ruim assim.

Gustav Klimt: Hope II / 1907/08
Gustav Klimt: Hope II / 1907/08

2 comentários sobre “O sexo do bebê e sexo dos anjos…

  1. Alessandra,
    quando descobri que a minha filha do meio era menina, fui invadida por milhões de inéditos e loucos sentimentos. Uma coisa meio insondável de ancestralidade, de linhagem feminina. Toda mulher já nasce com os óvulos. Isso quer dizer que eu, na barriga da minha mãe, já tinha o óvulo que deu origem à minha filha, e assim por diante… (só para continuar na viagem que vc iniciou…) 😉
    Beijos, parabéns pela bebezinha!
    Marusia

    1. Marusia,
      obrigada pelo comentário, eis aí algo em que ainda não tinha pensado, essa força de uma transmissão, de uma linhagem. Curioso como coisas ancestrais te atravessam nessa hora, né?
      Abração,
      Alessandra

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