Você vai perder…

(version française ici.)

… noites de sono, seu sossego, sua liberdade, as baladas com os amigos, as viagens, os
momentos de intimidade apaixonada quando dá na telha… Você vai perder. Muito. Engravidou, vai ter um bebê e vai perder. Já começa perdendo. É o que dizem os abutres de plantão, por vezes disfarçados de parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos de boa vontade, sempre com um sorriso nos lábios, te felicitando pela sua gravidez. A sua vida vai mudar totalmente.

Sempre fico na dúvida nessas horas. Será uma total falta de bom senso que impulsiona esse tipo de comentário ou apenas um gostinho de vingança mal disfarçado de que aquela pessoa ali, aquela barriguda agora vai saber o que é a tal “vida de verdade” onde pessoas perdem. Bem vinda ao clube, amiga! Subentendendo-se: mais uma para partilhar da frustração que é essa vida. Como dizem por aí: “chuta que é macumba!”

Sai para lá com seu fel disfarçado de simpatia e de experiência. Que eu não preciso disso. No momento, o que preciso é cuidar da minha vida, da nossa vida e de garantir todo o bem estar e todo o conforto para a pequenina que está aqui na barriga. Logo mais, vou precisar de outras coisas. E deixo para logo mais o que é de logo mais. Nada disso te diz respeito. E nada disso cabe na sua máxima de “você vai perder”. Uma gravidez não necessariamente se encaixa na sua lógica de perdas e ganhos, sabia?

É curioso: porque será que quando alguém engravida tanta gente assim se regozija em anunciar tudo o que você vai perder com a maternidade? Por que essas pessoas não falam do que você vai ganhar? Será que é mesmo para te preparar para o quanto é difícil? Mas o quanto é difícil?

Eu fico mesmo é com o meu querido Freud – aquele, o tal do Sigmund – que, há pelo menos cem anos, indignou as pessoas e suas mentalidades com a constatação de que boa parte de nosso sofrimento tem justamente a ver com a dificuldade que temos em perder alguma coisa. Nós, os neuróticos comuns e banais, passamos a vida tentando fazer a contabilidade da existência da maneira mais mesquinha possível. Perder o mínimo. Perder nada. Perder parece um horror. Então, cada escolha da vida que envolva uma perda gera um sofrimento quase pânico e coloca a pessoa para trabalhar, para adoecer, para tentar achar uma saída que a impeça de perder. Só que perder nada é perder tudo.

Tem gente que fica colado no que está perdendo. O tempo todo de olho naquele centavo que se esvai. Como se escolher não fosse sinônimo de renunciar, de perder algo para ganhar outro algo. Que escolha não envolve perda? Que escolha não implica abrir mão? Que escolha não é aposta na possibilidade de “x” apesar de “y”?

E tem gente que fica em situação mais aprisionada ainda, acha que descobriu a pólvora e que, se não escolher nada, não perde nada. E daí vai, obssessivamente vida afora, nessa espécie de paralisa das escolhas, acreditando que sem se comprometer está evitando qualquer renúncia. E sem se dar conta de que, não tendo escolhido, perdeu para todos os lados. E que ficou sem nada. Tempos estranhos em que a imobilidade parece uma boa opção para não optar. Tempos estranhos em que o “jeitinho” parece uma estratégia eficaz para ter tudo.

Provavelmente, quando essa pessoa inconveniente curiosa se aproxima de uma grávida dizendo tudo o que você vai perder, não se trata nem de falta de noção, nem de má fé. É apenas ela dizendo o quanto é um mal perdedor. É apenas um jeito pobre de olhar para a vida, priorizando o que se perde no lugar do que se ganha, priorizando o que não se tem no lugar daquilo que se constrói. Pobreza de espírito que não permite à pessoa perceber nem o que ganhou com suas escolhas, quanto mais que possa ver nas escolhas dos outros alguma positividade. A maior parte das pessoas, infelizmente, prefere ficar colada naquilo que lhes falta.

Não estou pregando um olhar cor-de-rosa, onde a gravidez e a maternidade sejam apenas uma propaganda de doriana que se estende por toda a sua vida. Muito menos estou dizendo que não se deve falar sobre o que é difícil, penoso, sofrido nessas experiências. Não, é justamente o contrário. Estou dizendo que levar em conta uma escolha que se faz pela maternidade com TUDO aquilo que ela implica já inclui o “bom” e o “ruim”, o que se “ganha” e o que se “perde”. Ninguém precisa nos prevenir daquilo que já sabemos (quando já sabemos, é claro): que a maternidade, como tudo o que é da vida, traz perdas e ganhos. Pois é uma escolha e, como escolha, seu limite está dado no próprio ato de escolher. E, ainda assim, isso é tão relativo…

Quem sabe o que é bom ou ruim para uma outra pessoa? Quem sabe o que é um ganho ou uma perda para alguém? Posso achar que é uma renúncia terrível não poder mais sair à noite para a balada com os amigos, mas e se a barriguda ali detesta balada? Então, essa história do você vai perder já começa furada pelos valores e pelos preconceitos de cada um, os quais aquele que fala esquece que podem não ser os valores do outro. Falta de respeito pensar que o que eu acho que você vai perder é o que você vai perder realmente e que, ainda por cima, isso é uma tremenda catástrofe para você, do mesmo jeito que foi para mim. As pessoas gostam de falar como se pregassem, como se o mundo fosse apenas o reflexo do que elas são e como se elas soubessem o que você perde e o que você ganha quando decide ter filhos.

E, ainda, parecem desconsiderar que quem fez essa opção, de um jeito ou de outro, na medida em que foi capaz de escolher, já conta com renúncias. Mas também já escolheu passar por alguma coisa, viver algo que julga importante. A menos que tenha optado pela maternidade pensando que vai dar para não perder nada, e que acredite naquele ideal de mulher moderna que é simplesmente tudo e tudo muito bem. Mas, daí, já é outra história. Ou o reverso da medalha dessa mesma história de quem adora falar do que você vai perder quando te descobre grávida. Um sujeito colado na perda que não consegue se conformar em perder nada e uma outra colada na ilusão de plenitude de que vai dar para engravidar, ter filhos e não renunciar a nada. No fundo é a mesma coisa, tanto para um quanto para outro: um assombro, um medo pânico de perder que ou te deixa fixado nisso, contando os centavos de existência e lamentando ter que pagar por ela, ou te coloca em estado de negação, achando que vai dar para escapar, que você será a exceção à regra.

Você perde, eu só ganho… Será mesmo que ter filhos se inscreve nesse binômio empobrecido de ver e de viver a vida? Qual será o sentido de botar alguém nesse mundo já de cara com o peso de que ele te tirou alguma coisa, de que ele te obrigou a renunciar, de que você se sacrificou por ele? Ou de que ele te fez completa, plena, capaz de tudo, de que ele te deu ou tem que te dar tudo? Em nome das tuas perdas, ele vai ter que te compensar? Ele vai ter que te dar o que você perdeu e fazer valer suas renúncias? Não sei não, acho que nessa lógica contábil de olhar para a maternidade apenas pelo viés das perdas e ganhos, não apenas você sai esmagada pelos abutres de plantão que te fazem acreditar que você perde muito e que perder é muito ruim como o seu filho, que nem pode se defender, sai perdendo desde antes de sair da barriga, em dívida contigo pelo simples fato de existir, tendo que te compensar de uma coisa muito ruim que foi você ter abdicado de algo… Putz, que cilada! Será mesmo que a gente quer viver nessa lógica? Eu não, obrigada.

Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França
Portal da Catedral de Saint-Lazare, Autun, França

8 comentários sobre “Você vai perder…

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