Dia das mães…

Pablo PIcasso - Motherhood - 1901
Pablo Picasso – Motherhood – 1901

(en français: ici)

Não, eu não gosto de datas comemorativas. Acho bobagem. E se a questão é ganhar presente, já ganhei o meu deste ano e ele vale por Natal, aniversário, dia das mães e muito mais. Um colosso. Muito melhor do que esse comércio de datas que te obriga a declarar seu amor em um dia específico, de uma maneira bem estereotipada e que, de preferência, envolva eletrodomésticos ou outros apetrechos para casa e cozinha, que é o que o mundo clichê pensa que traduz a maternidade. Sei, experimenta me dar uma batedeira de presente para você ver….

O negócio é que mãe dona-de-casa, mãe moderna (que é como se adjetiva a mãe que trabalha… Oi?), mãe esportiva, mãe isso, mãe aquilo… Tudo caminha para a conclusão de que a mulher se realiza em ser mãe. E apenas se passar por isso. Afinal, não vemos muita comemoração pelo dia da mulher que trabalha, ou pelo dia da mulher que se exercita, ou pelo dia da mulher intelectual, ou pelo dia da mulher artista… Até mesmo o dia da mulher é um só no ano. Porque sabemos bem que todos os outros, para a imensa maioria de nós, ficam bem distantes desse artifício cor-de-rosa das datas comemorativas.

Enfim… Não só temos um só dia de comemoração como, com essa equivalência entre mulher e mãe, só podemos celebrar de um jeito. Temos apenas um caminho a seguir. Uma mulher sem filhos seria uma mulher incompleta. Infeliz. Amarga. Sozinha. Sem graça. Mas o que isso quer dizer quando virado do avesso? Que um filho completa uma mulher. Judiação, já está fadado, antes mesmo de nascer, a dar conta de tudo aquilo que falta naquela pessoa tão simpática, doce e amorosa ali na sua frente. Mal começou e já está em dívida. E quando ela te dá tudo sem pedir nada em troca é porque você já está suficientemente amarrado para se sentir culpado pelo resto da sua existência caso não seja o filho perfeito, amoroso e pleno de gratidão que ela deseja. Afinal, é o mínimo que você pode fazer, né? Imagina se você se rebelar, se não gostar de viver colado, de ser extensão do outro, se quiser inpendência? Putz!

Acho que dá para entender que uma coisa leva à outra, que essa voracidade e essa violência que as mães muitas vezes têm em relação a seus filhos, que esse excesso de expectativa, que toda essa demanda, essa pressão desmesurada e sem crítica podem ser fruto de um ódio, um ressentimento, frutos dessa violência que elas mesmas sofreram ao se sentirem obrigadas a seguir a manada e tornarem-se mães. É como uma vingança que desconta no outro aquilo que ela mesma sofreu. Foi oprimida, oprime. Foi obrigada, obriga. Foi cobrada, cobra. E, com isso, participa da propagação e da perpetuação desse modo a-crítico de viver, em que todo mundo é vítima das circunstâncias e das obrigações sociais e ninguém se responsabiliza por nada. Não seria melhor perguntar o que quer e tomar as rédeas da própria vida naquilo em que é possível?

Por que não se perguntar se quer ser mãe? Por que não se perguntar o que quer com isso? Por que não se indagar sobre o seu desejo e assumi-lo? Por que não ser responsável por sua escolha, ainda mais quando ela vai trazer consequências para outra pessoa além de você?

Leio muito, atualmente, sobre a humanização do parto. Discussão extremamente importante, ainda mais em um país onde ser mãe ficou totalmente aprisionado em um ato médico e em um conjunto de ações técnicas que tiram da mulher o papel ativo em relação à gravidez, ao parto e até à experiência da maternidade, visto que tudo isso fica nas mãos de um outro que decide em seu lugar. A mulher tornada objeto, sem poder de decisão. E, para colocar em questão isso e para tentar retomar o papel de sujeito dessa mulher face à sua gravidez e seu parto, muitas vozes se levantam, na internet e fora dela. Ainda bem. (Algumas excelentes discussões aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, entre outros)

Mas queria pensar que, junto com essa discussão da humanização da gravidez e do parto, poderia ser retomada uma outra, a de uma maternidade humanizada, que possibilitasse à mulher ser também sujeito de sua escolha em ser ou não mãe. Sem clichês, sem obrigações, sem opressão ou violência em relação ao que cada uma queira inventar como caminho da vida. Ser mãe como mais uma possibilidade entre outras, um mundo inteiro aberto e digno de respeito. Para que ser mãe possa ser escolha e não falta de projeto de vida. Para que a mulher já seja sujeito antes mesmo de engravidar e parir. E para que os filhos não sofram as cobranças de sua falta de opção.

Feliz dia das mães para aquelas que desejaram ser mães. Feliz dia para aquelas que desejaram outras coisas. O meu mais profundo respeito e a minha sincera admiração por todas vocês.

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