Os medos… ah, os medos…

Acho que foi minha irmã quem me disse que, uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila. Não, não se trata das noites mal dormidas por conta de amamentar, dos choros, das cólicas e afins. É mais sério que isso. Uma vez mãe, você nunca mais dorme tranquila porque terá sempre, como ruído de fundo, as preocupações relacionadas ao seu rebento. Lembro-me bem dela ter dito que a maternidade é como uma espécie de luto: ao lado da alegria de ter em seus braços aquele serzinho encantador, uma dor passa a te acompanhar para sempre. A dor de quem dá origem a um outro ser humano que, por ser humano, é criado para a vida e, também, para a morte. Uma vez consciente desse risco que todo humano corre pelo simples fato de estar vivo, que mãe pode dormir tranquila?

Os medos, pelo que tenho percebido, esses nos acompanham a cada momento a partir da concepção. Parece loucura, mas desde que soube que estava grávida, uma série de coisas banais que nunca me inquietaram passaram a me assombrar sobremaneira. Sair sozinha à noite, voltar para casa tarde da noite de metrô, situações em que pessoas levantam a voz próximas a mim, como se fossem brigar… Coisas que até então passavam desapercebidas, pelo fato de morar em um lugar bastante seguro, em um país bastante seguro, onde você pode andar na rua, inclusive à noite, até mesmo sendo mulher, sem que ninguém te aporrinhe. Sim, existem lugares onde se pode ir e vir e onde a rua e a cidade são, ainda, de todos.

Mas muito além desses medos e inseguranças que criaram uma grande sensação de vulnerabilidade ao surgirem lá onde não existiam, e que atribuo ao fato de me sentir responsável por proteger uma pessoa indefesa que está aqui na barriga e precisa de mim também para garantir sua segurança, a novidade maior foram esses medos relacionados à gravidez, ao parto e a essa criança propriamente dita.

Nem precisa ler muito sobre maternidade para ser inundado de assombrações permanentes: entre aquilo que publicam sobre o assunto, aquilo que os especialistas dizem e todos os palpites e “causos” que todas as pessoas “de bem” insistem em te contar, sobra material para metros e metros de medos sem fim. Cheguei a discutir isso antes, nesse post aqui. Essa mistura de cultura do risco que inunda os saberes médicos e de atração pela desgraça alheia que atravessa o senso comum dos realities shows aos relatos de catástrofe mostrados com esmero por toda a mídia, não sobram dúvidas: o que se quer é ver sangue.

Credo! Sai para lá!

Mas como isso se reflete na gravidez, no parto e na experiência da maternidade? Penso que, para além dessa sensação humana da qual falava no início, dessa aguda percepção da fragilidade e da finitude da vida, esse nosso gostinho por focalizar no pior das coisas ajuda a que nós, as grávidas e mães em questão, fiquemos alucinadas com muito mais do que o que seria necessário. Se não, vejamos o breviário de medos e inseguranças que nos acompanha feito bagagem pesada demais:

  • no começo, a gente teme estar grávida e, quando existe a suspeita, teme também achar que está e se frustrar descobrindo que não;
  • depois de confirmada a gravidez, a gente teme os temores do primeiro trimestre, que é quando todo mundo diz – putz! – que a maior parte dos abortos acontecem… e lá se vão três meses em que você passa pensando “ai, fica bem na barriga da mamãe, queridinho…”, com medo de acordar um dia e estar sangrando;
  • então surgem os primeiros exames e você passa a temer também todos os bichos e afins… toxoplasmose, listeriose, rubéola, DSTs… e lá se vão noites e noites de sono pensando em porque não tomou as vacinas direito, porque diabos comeu tanta carne mal passada, porque bebeu no ano novo…
  • o bônus dos primeiros exames, ao menos aqui na França, é a depistagem da trissomia do cromossomo 21 e de outras anomalis genéticas, que eles fazem a partir do primeiro ultrasom somado a um exame de sangue… mais um bocado de noites e dias de aflição de que o pequeno tenha algum problema genético…

O primeiro trimestre passa e você respira aliviada por não ter abortado, por todos os exames terem dado negativo, por estar bem e saudável, pelo ultrasom e os exames de depistagem não terem indicado nenhuma anomalia e você quase acredita que pode dormir sossegada… Mas não! Isso foi apenas o começo.

  • teu ganho de peso, tua pressão arterial, tua diabetes podem prejudicar o desenvolvimento do bebê, então você passa todos os seus dias preocupada com o que come, como come, para não comer demais ou de menos;
  • exercícios demais podem gerar contrações e não é nada bom ter contrações antes da época em que elas devem acontecer… Então você segura a onda;
  • mas exercícios de menos e sedentarismo demais influenciam na troca entre você e o bebê pela placenta, além de contribuírem para o ganho de peso,  e para o aumento das dores pelo corpo todo devido às mudanças corporais… então você enlouquece e começa a fazer yoga, natação e sei lá mais quantas mil atividades que são ótimas durante a gestação;
  • e, embora os casos de aborto espontâneo sejam uma questão importante no primeiro trimestre, é claro que sempre existe o risco de um óbito… então você passa suas noites de sono torcendo para isso não acontecer contigo e para que tudo continue bem ali, na barriga;
  • e, quanto mais se aproxima do terceiro trimestre, mais o risco de um bebê prematuro de tão baixa idade é um risco de um bebê que não sobreviva… então, embora tanto risco dentro da barriga te faça pensar que seria mais seguro o sujeitinho sair logo, e ainda que sua curiosidade em relação ao serzinho que te habita só faça aumentar e você queira muito saber como ele é, você insiste “fica bem aí na barriga da mamãe, queridinho…”

Passa o segundo trimestre e você respira aliviada da travessia de tantos percalços em teoria achando, já menos convicta que ao final do primeiro trimestre, que agora vai. Mas agora vão começar os assombros do terceiro trimestre, da prematuridade, do ganho de peso do bebê, da posição, do encaixe, do parto, do trabalho de parto, das dores, das contrações, da dilatação ser suficiente, de saber se deu certo de estar cercada de gente respeitosa e humana, se o bebê, teu corpo, teu marido, teu médico, tua parteira, tua maternidade vão todos conspirar para que tudo se passe da forma mais cuidadosa, respeitosa e natural possível para a chegada do pequeno… E, bebê nascido, haverão os medos de que tudo esteja bem com ele, de que seja saudável, de que mame, de que durma, de que viva bem… E da relação com os outros, dos perigos do mundo, da escola, de estar criando tão bem quanto possa, das doenças, das dificuldades, dos percalços… Putz, é preocupação sem fim, quando termina uma, começa a seguinte…

Parece tanta coisa que nem exorcista dá conta, uma condenação sem fim a um sono preocupado, inquieto, temeroso de tudo o que pode ser que… Entendo melhor minha mãe e todas aquelas mães um pouco malucas, em constante estado de alerta e tensão permanente, apostando que filho debaixo da saia é filho no lugar mais seguro desse mundo. Não deve ser nada fácil olhar para cada dia e para os desafios e riscos de cada dia e confiar que tudo vai correr bem. Mas é por isso que olho com ainda mais admiração para aquelas mães que conseguem, em meio a tantos assombros, manter uma certa calma no coração, uma certa confiança na vida e uma certa aposta de que seus filhos, na barriga e fora dela, estão e estarão bem.

8 comentários sobre “Os medos… ah, os medos…

  1. Ah, nem me fale destes medos… Estou com 25 semanas de gravidez e dei uma acalmada nos medos. Mas assim que descobri, enquanto não passou o primeiro trimestre, eu não confiei que a gravidez iria “vingar”. Sonhava com sangue direto. E para piorar tem as histórias malucas que as pessoas nos contam (até escrevi sobre isso no blog já). Uma loucura!

    1. Pois é, se ao menos os terroristas segurassem um pouco suas línguas, né? Tenho uma amiga grávida que inventou a melhor técnica: ela simplesmente desliga, fica esquizofrênica, lá no mundinho dela enquanto o povo fala… acho que ela descobriu uma boa solução, o duro é conseguir fazer igual…

  2. Amei o texto! É bem assim que sinto! Não os medos que as pessoas terroristas fazem a gente ter, mas tenho o medo principal de não dar conta de deixar meu filho ser livre quando estiver maior. Moro no RJ, a violência é absurda, sempre fui muito temerária e precavida, e só de pensar no meu bebê saindo madrugadas por aí, chegando em casa ao amanhecer… Ai, preciso me preparar para isso!

    1. Puxa, você tem razão… a gente começa a antecipar todos os riscos que conhece da vida, da cidade, dos outros e dá um frio na barriga, né? Fora a sensação de impotência, porque já sabemos de antemão que não vai dar para controlar o mundo inteiro e, a menos que a gente decida ser o tipo de mãe que não deixa o filho nem sair de casa, acho que vamos ter que aprender a ter confiança e a apostar que as coisas correrão bem…

  3. Adorei o texto, estou grávida de quase 27 semanas e identifiquei-me tanto com tudo o que li, pois também sou atormentada constantemente pelos meus medos! E tudo o que leio de mau, penso sempre se serei a próxima a quem vai acontecer o mesmo e então fico numa ansiedade imensa e por mais que tente distrair-me com outras coisas, é uma tarefa quase que impossível! O medo de que algo corra mal é gigante e se há dias em que penso que tudo vai correr bem, tem outros em que tenho tanto medo de que assim não seja! Medo, medo de tudo o que toca à bebé! Anseio sempre pelos seus movimentos para me acalmar, pois é delicioso ficarmos tranquilas através dos seus movimentos não é? Vou tentar adoptar a forma de pensar no que toca à regra e não à excepção! Adorei o blog, pois percebi-me que não estou de todo “sozinha” achando que sou maluca, paranóica, sempre com medo que algo de errado possa acontecer!
    Obrigada, fez-me muito bem ler este blog!
    Parabéns!
    Beijinhos para todas e que tudo corra bem para todas nós!

    1. Filipa, acho que o medo e a maternidade andam juntos. A gente sempre emenda uma preocupação na outra. O bebê nasce e a gente sente um alívio das preocupações da gravidez que acabaram e logo começam aquelas de ter um bebê pequeno. Acho que não tem fim. E nossa sociedade tão medicalizada, que vê doença e risco em tudo, não ajuda nada. O que me ajuda muito nessas horas de paranóia é justamente pensar que praticamente sempre tudo corre bem para todo mundo e que a exceção é quando algo dá errado. Na maioria das vezes, somos apenas parte de uma vasta maioria, sem mais nem menos, sem nada de extraordinário. E isso é bom. Obrigada pela leitura do blog e até mais. Boa sorte, respira fundo e um abraço grande, Alessandra.

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