Pelo direito de gestar

Logo que me descobri grávida, em conversas com um grande amigo, confidenciei que andava tendo muita dificuldade em manter minha rotina de trabalho, pesquisa, escrita, estudo. Todos esses afazeres obrigatórios para quem tem uma ocupação intelectual se tornaram mais lentos, mais penosos, menos interessantes. Os hormônios, o início da gestação, as mudanças… putz, quanta coisa! Trabalhadora que sou e que sempre fui, “workaholic” orgulhosa e convicta, isso que eu entendia como uma “leseira” me angustiava. Esse amigo acrescentou ainda mais lenha no fogareiro que andava a minha cabeça, me dizendo que eu tinha que conseguir fazer todas aquelas coisas, naquele ritmo, especialmente agora que estava esperando um filho e que ele dependeria de mim. Conclusão da conversa: às minhas dificuldades somou-se o peso imenso de me sentir relapsa frente ao bebê pelo qual sou, desde que foi concebido, responsável.

E lá vai a pessoa aflita tentando fazer, tentando ler, tentando pensar, tentando escrever, tentando cumprir prazos e ritmos que tornaram-se, a partir dessa mudança em minha vida, uma violência contra mim e contra o que eu estava vivendo. Não, no meu caso não deu certo forçar a barra não. Mas me fez pensar. Muito. Pensar sobre essa lógica estranha em que vivemos e que nos impõe dar conta de absolutamente tudo. E que rotula como preguiça, descaso ou irresponsabilidade cada atitude que uma pessoa tome contra o fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Putz, vamos contra a corrente então. O que gostaria de defender aqui é exatamente isso: o direito de mudar de ritmo, o direito de mudar de prioridade, o direito de gestar. E o direito de que isso tudo seja tão valorizado quanto ser “workaholic”, intelectual ou qualquer outro valor de nossa sociedade atual. Me explico.

Tenho a impressão que alguma coisa do discurso feminista se engessou e se virou contra nós, mulheres. E passou a servir a um discurso dominante que busca, antes de mais nada, não favorecer e respeitar as escolhas e as singularidades mas, ao contrário, sujeitar todos a um mesmo caminho comum. Acéfalo, a-crítico, impotente. Caminho que, não por acaso, anula todos para o proveito de uns poucos. Sim, estou falando do discurso capitalista e do feminismo tendo sido cooptado por esse discurso capitalista e por outros tantos discursos dominantes bastante cruéis e perversos. Pois, se a luta do feminismo foi e é a dos direitos iguais, da igualdade de oportunidades e de condições, como é que isso tornou-se, em algum momento, uma pressão sobre as mulheres que se vangloria em ditar que algumas escolhas são melhores do que outras?

Então é assim hoje em dia: você trabalha, constrói uma carreira, dá o sangue, faz aquilo que gosta e tudo isso é extremamente valorizado socialmente pelos seus pares, pelas outras mulheres, pela sociedade (…ops, nem tanto, que ainda somos bem machistas, mas em vários meios é, sim, bastante valorizante a mulher intelectual, a mulher que pensa, a mulher que trabalha). Você é livre, exerce seus direitos, faz valer sua condição. Parabéns para você.

Em relação ao amor, você escolhe seus parceiros, você constrói junto com cada um deles maneiras singulares de estar junto, você exerce sua sexualidade com liberdade, você se bate contra os tabus da sua cabeça, dá de costas ao conservadorismo circundante e se permite ter prazer. Seu corpo, suas escolhas. Bom, muitos torcem o nariz, mas um tanto de gente te valoriza justamente por aquilo que muitos condenam. Outra estrelinha.

Então você encontra alguém, constrói uma relação amorosa, ou apenas vive uma relação de amor da qual engravida. Pouco importa para você essas definições, mesmo que para os outros isso tenha muita importância e os admiradores de toda aquela liberdade e daquela autonomia já estejam quase todos de cara amarrada que você tenha levado a sério essa idéia de construir um caminho pessoal, próprio, seu. Mas, mesmo assim, você ainda terá algum valor: mulher, livre, bem sucedida, com uma profissão, autônoma, viável financeiramente e, agora, com amor e com filhos. Way to go, girl! Você chegou no topo. Todo mundo te aplaude e te inveja.

Ou melhor. Depende.

Tudo isso é admirável e valorizado se, e somente se você for capaz de fazer a mulher biônica e der conta de todos esses investimentos ao mesmo tempo, num lapso de segundo da sua vida onde tudo conflui. Trabalho, amor, filhos. Você tem que arcar com isso tudo. E com brilhantismo. Afinal, não queria ter todos os direitos, oportunidades, condições?

Putz, aí vem a cilada. E quanto mais você é bem sucedida, quanto mais tenha construído um percurso que tenha, aos olhos dos outros, algum valor, mais as pessoas vão te tomar como uma traidora da causa no momento em que você cogitar fazer algo que, para elas, seja altamente suspeito de atentar contra esses tais valores.

O que, reduzir o seu trabalho, seu ritmo, sua produções para cuidar de filho? Que retrocesso!

Aqui na França, um dos berços do feminismo que deu certo, é quase uma heresia ousar pensar em algo parecido. Se der muita importância a isso, pode passar por iludida ou equivocada. Ingênua, no melhor dos casos. Vendida, no caso das radicalizações mais xiitas. Se disser que é prazeroso e realizador estar grávida ou ser mãe, então, capaz de ser apedrejada. Ou, ao menos, perder uma boa parte dos seus amigos. No Brasil, em muitos círculos, digamos, mais “intelectuais” e esclarecidos da nossa sociedade, não é muito diferente. Maternidade? Ok, mas sem muito engajamento. Não sei não, essa mentalidade esquisita me deixa com a pulga atrás da orelha…

Quando foi que uma defesa pelo direito de escolha tornou-se obrigação de uma única escolha? Quando foi que o discurso feminista tornou-se um radicalismo xiita que julga, desrespeitosamente, as mulheres como sendo melhores ou piores a partir do que elas, legitimamente, escolham para si? Um discurso que deveria ser o primeiro a validar que mulheres possam escolher não apenas não ser mãe, como também desejar sê-lo, não apenas trabalhar e conquistar autonomia intelectual e financeira como também priorizar outras coisas que não o trabalho? Onde foi que essa defesa de uma liberdade tornou-se uma prisão em uma única forma de ser mulher e de dar prova de que você é livre, esclarecida, bem-sucedida e feliz?

E desde quando a maternidade não é e não dá trabalho? Desde quando isso vale menos do que um trabalho formal? Talvez desde o momento em que fomos, feministas ou não, engolidas pelo discurso capitalista no qual o que vale é apenas o que é útil, produtivo, rentável. Ao defender mulheres que dão conta de tudo e ao condenar mulheres que escolham dar conta apenas de algumas coisas em detrimento de outras, cá estamos a legitimar o discurso de que pessoas – homens e mulheres – servem apenas quando são peças bem azeitadas de uma máquina cujo objetivo é produzir. Lucro. Veja bem: lucro vale mais do que gente. Produzir gente para continuar dando lucro, maravilha. Parabéns por ter filhos. Produzir gente e se preocupar em participar ativamente para que essa gente seja gente boa, pensante, afetuosa, amante, amada, cuidadosa, generosa, interessada, singular, ética… bom, aí você está produzindo problema, né? Relaxa, vai cuidar “das tuas coisas”, da tua carreira, do teu sucesso profissional. Isso tudo é que é importante. Deixa que a gente cuida do rebentinho para você. Hein?

Se você for uma mulher bem independente e autônoma e bem inserida nessa engrenagem na qual o seu trabalho, qualquer que seja, alimenta o poder nas mãos de um outro, nem pense em tentar se safar com essa idéia de dedicar-se à maternidade e de dedicar-se ao seu filho. Isso é absurdo, é andar para trás, é anti-feminista, é machista, é reacionário. Certo mesmo é não baixar a guarda, não abrir mão, não recuar naquilo que conquistou. Se não você vai perder tudo, viu? Mas a pergunta importante, nesse momento, seria: perder o que? Em nome do que?

Veja bem, se quer mesmo tanto ser mãe, vá lá. Mas faça do jeito certo: concilie tudo. Seja ainda mais máquina. Seja um automato pensando que é um autônomo… Todos vão te dar a maior força: vai, é assim, você consegue. E, o pior, você também acredita. E se o investimento no trabalho muda… culpa. E se não consegue, em meio à sua rotina insana, ainda dedicar-se à gravidez, curtir, estar feliz ou, depois, ser o que dizem que é “uma boa mãe”… culpa. A culpa é sua, minha senhora, que não está fazendo bem o bastante. Não ajustou as peças da maquininha que é você para funcionar direito. Você acredita que é possível, que tem que dar conta e, mais grave ainda, que é exatamente isso o que quer para você, para sua vida e para a do seu filho. Será mesmo que quer? Você parou para pensar o que quer com ser mãe?

Ao invés de dar conta, por que não dar as contas para essa lógica perversa?

Depois de mais de 15 anos trabalhando de sol a sol, depois de um percurso profissional muito bem sucedido, depois de duas especializações, uma formação, um mestrado, um doutorado, dois pós-doutorados, um fora do Brasil, artigos publicados, livros, palestras e afins… Depois de tanto trabalho e de tanta conquista, quando eu me descobri grávida e percebi que todas essas coisas ganhavam um outro lugar agora… (e olha que nem foi uma idéia de desistir, de largar tudo, apenas a constatação de que coisas, projetos e investimentos mudam de lugar…). Depois de todo esse percurso, tornei-me uma ameaça para várias pessoas apenas por cogitar viver minha gravidez, aproveitá-la, experimentá-la, descobrir com ela. Uma ameaça de retrocesso por pensar que isso, essa experiência, ter um filho pode ser tão bom e tão valioso quanto tudo o que fiz. E por querer me dedicar a isso do mesmo modo como sempre me dediquei a tudo, ou seja, intensamente.

Ainda bem que sempre têm algumas poucas pessoas que conseguem sair da caixinha pré-formatada e pensar com a própria cabeça e que são capazes de dizer: “viva isso, é legítimo tanto quanto tudo o mais que você já viveu” para te dar um alento, não? Parece que vira e mexe resvalamos em um clichê: do “a maternidade é uma benção” para o “seja mãe, mas não seja apenas isso” para o “seja independente e invista em você, na sua carreira, no seu futuro”… Arremessadas de um lado para o outro, sempre às voltas com algum imperativo sobre o que fazer, como fazer, como ser, como sentir, o que viver. Putz, alto lá!

Então, se eu posso dizer alguma coisa de útil é: “viva isso”. Não deixe de viver sua gravidez porque todo mundo, inclusive você, enfiaram na sua cabeça que é preciso dar conta de tudo, que não pode parar, diminuir, recuar, que tem que continuar independente, trabalhadora, bem-sucedida, o que quer que essas palavras signifiquem. Trabalhe, se isso faz sentido. Trabalhe mais, menos, mude de rumo. Mas não caia no engodo de que isso que você está vivendo é uma coisa banal e sem importância que não deveria alterar sua rotina, nem mudar seus projetos que, esses sim, são fundamentais. Pensar assim, a meu ver, é negar a realidade de que uma gestação muda sim seus planos, seus projetos, sua rotina, seus desejos, suas prioridades. Para o melhor e para o pior. De todo modo, algo muda. E qual o problema? Por que é que a maternidade não pode ser importante a ponto de mudar uma pessoa?

Talvez, para essa cultura do sucesso, do êxito, do reconhecimento a qualquer preço seja realmente um problema que, em algum ponto, as pessoas passem a se questionar se é isso mesmo o que importa. Mas, afinal, o que você prioriza na sua vida: ser aquilo que dizem que é o que vai te realizar e te fazer feliz ou tentar descobrir o que, na sua vida singular, te traz realmente alguma realização e alguma felicidade?

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