As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil parte III

Para quem não acompanhou essa saga, já escrevi um pouco a respeito da gravidez e do parto na França nesse post aqui e nesse aqui. Tem um passo-a-passo das burocracias para ter acesso ao acompanhamento médico durante esse período, mesmo sendo estrangeira, além de um bocado de considerações sobre como esse acompanhamento aqui, onde se privilegia o parto normal é, não obstante, extremamente medicalizado e baseado na idéia de risco. Não se trata de um guia exaustivo, mas do que tenho descoberto na prática sobre esse acompanhamento e que, talvez, possa ser útil a outras pessoas que também estão grávidas e tendo seus bebês por aqui.

Onde ter informação?

O que constatei ser o mais difícil, na França, é o acesso à informação. Como é tudo muito burocrático e cheio de meandros, você leva um bom tempo até entender como funcionam as coisas. Mas, uma vez conseguindo ingressar no sistema de seguridade social francês, como eu havia explicado aqui, a coisa melhora e muito. E você pode constatar que o acompanhamento à gravidez e ao parto aqui é bem cuidadoso, bem completo. Mesmo pendendo e muito para um excesso médico, o fato é que eles se ocupam bem das mulheres grávidas e dos nascimentos. Quero dizer, em comparação com o Brasil, eles se ocupam efetivamente de gestação e parto de forma universal e irrestrita, como questões de saúde pública e de dever do Estado. Tudo o que, infelizmente, a gente sabe que em nosso país se promete e não se cumpre. Bom, aqui a coisa funciona. Então, segue mais uma lista de observações que tenho feito a respeito.

O site da seguridade social tem muitas informações sobre gravidez, o acompanhamento, os procedimentos a seguir, os benefícios. Em caso de dúvida, é sempre uma boa referência: aqui. Também para o acompanhamento que eles oferecem, por meio de visita domiciliar no pós-parto, as informações estão aqui.

Outra boa fonte de informação são os inúmeros libretos que eles te fornecem em vários momentos ao longo da gravidez: quando você se inscreve na caixa de auxílio à família, a CAF, que é quem paga os benefícios aos quais as mães têm direito, você recebe um material informativo sobre procedimentos burocráticos e sobre a gestação; quando você se inscreve em uma maternidade, normalmente te entregam um material de leitura, digamos, oficial, onde explicam muitas coisas a respeito da gravidez, do parto, das mudanças, dos exames, do acompanhamento médico, dos cuidados com a alimentação, das medidas administrativas a serem tomadas. Isso pelo sistema público, pois no sistema privado também te entregam todo esse material, mas ele é um pouco diferente, mais cheio de firula, de propaganda e afins.

Essas espécies de cartilhas são interessantes, eu devo ter ao menos umas três diferentes, porque a enfermeira obstetriz que me acompanha e que trabalha como autônoma também me forneceu uma pasta de material informativo. Li todos. E constatei que têm coisas bem úteis no meio de muita coisa inútil. Mas que seria bem bom se no Brasil a gente tivesse algo do tipo, um ponto de partida para compilar todas as informações das quais você vai precisar em algum momento e que fosse dado a você na sua gravidez, para que você saiba onde e como procurar o que necessita. É como se você estivesse frente a um desses livros mais clássicos sobre gravidez e parto: não vai ter nada que fuja muito ao padrão e as informações sempre vão tender para uma ênfase bastante médica. Mas, com um pouco de discernimento, é possível aproveitar justamente para entender melhor aquilo que eles explicam sobre os procedimentos a seguir aqui na França. E algumas dicas e informações são boas e úteis. Então, dê uma olhada nesse material que receber da CAF, na maternidade ou no acompanhamento com as “sage-femmes”, tem coisa bem aproveitável no meio de um monte de publicidade de loja, de leite em pó e de todo o comércio que circunda a maternidade. Porque, claro, não vamos nos iludir, essas cartilhas e esses materiais são organizados pelo serviço público, mas eles tem patrocínio e apoio do setor privado. E apoio significa publicidade, o que significa que você recebe um quilo de papel de onde tira uma ou outra coisa que vão realmente te informar e te ajudar em algo. E mais um monte de amostra grátis de tudo o que você pode imaginar e até do que não pode. E mais uma tonelada de cupões de desconto para comprar um monte de coisas, na sua maioria inúteis. Mas toda essa papelada você pode jogar na lixeira da reciclagem. E aproveitar as boas informações.

Bom, estando garantida a informação mínima para você saber onde ir, como proceder, quem procurar, como fazer… e estando garantido o seu acompanhamento e o pagamento desse acompanhamento pela seguridade social, tudo caminha forma bem prática e eficaz. As consultas são reembolsadas, consultas, atendimentos, medicamentos e tudo o que se relaciona à gravidez passam a ter cobertura completa à partir do 5° ou 6° mês, você apresenta sua carteirinha e não coloca mais a mão no bolso… enfim, tudo corre muito bem. É realmente de se espantar, dadas as referências que temos. Penso que é o real significado da palavra assistência, ou da palavra acompanhamento: você está acompanhada. E ponto. Não precisa se preocupar em ter que garantir o que é seu direito. Isso é algo muito estranho para uma brasileira, vocês nem imaginam.

Mas, e se você for como eu que, além de um atendimento de qualidade, estiver em busca de um atendimento mais humano para a sua gestação e o seu parto?

Onde ter alternativas?

Bom, isso são outros quinhentos. E nada, nada simples. Como eu disse, aqui o acompanhamento é extremamente centralizado na idéia de que gravidez e parto são situações de risco que devem ser cuidadas enquanto tal. Muitos exames, muitas despistagens, muita medicalização da saúde, como é de praxe em boa parte do mundo. O parto normal é a norma, mas isso não significa que ele seja isento de muitas e muitas intervenções que estão cristalizadas, mas que não são exatamente necessárias, como o uso majoritário de peridural, o constrangimento de parir na posição ginecológica, o monitoramento ininterrupto do bebê e da mãe… E, para fazer frente a isso, a melhor opção é escolher muito bem a maternidade na qual pretende dar à luz.

Em Paris, a única (veja bem, eu disse única mesmo) maternidade que propõe um parto dito fisiológico, ou seja, mais humano e respeitoso do ritmo e do protagonismo da mãe e do bebê é a Maternidade “Les Bluets”. E ela esteve ameaçada recentemente de intervenção, justamente por isso, porque a qualidade dos serviços que ela oferece, a ideologia de um parto humanizado na qual se baseia, a oferta de diversos serviços, dos ateliers, dos grupos de discussão, de informação, das diferenças de acompanhamento e tudo o mais custam caro e rendem pouco. E até aqui na França a saúde fica constantemente assombrada pela questão econômica do lucro, ou de minimizar os gastos e os prejuízos. Então, a coisa é tensa, como é possível constatar nessa matéria recente. Tenho uma amiga grávida que é acompanhada lá e conheço outras pessoas que tiveram seus filhos lá e que falam muito bem dessas opções de acompanhamento ao longo da gravidez e de um parto respeitoso. Um alento.

Essa é a única maternidade que tem o selo “amiga dos bebês” em Paris, uma iniciativa francesa para incentivar e reconhecer os estabelecimentos de saúde que promovem não apenas o aleitamento materno, quanto também o respeito ao parto humanizado, ao ritmo e ao protagonismo mãe-bebê. Existem outras 17 pela França, você pode consultar aqui. São boas referências. Mas a fila de espera, na Bluets por exemplo, é imensa. Então, nem sempre você consegue garantir pela inscrição na maternidade a certeza de um parto humanizado.

E fora essas, há alternativas? Bom, pelo que pude pesquisar, o parto domiciliar é algo raríssimo, alvo de muitas críticas e ataques violentos, a ponto de as enfermeiras obstetrizes que o fazem, as sage-femmes, terem praticamente desaparecido do mapa. Veja matéria aqui. Como as sage-femmes trabalham vinculadas a um departamento, a uma região, por vezes tem lugares que ainda contam com essa possibilidade e outros não mais. É preciso procurar muito, correr muito atrás em fóruns e no boca-a-boca com outras mães. A França está na contramão de seus vizinhos, para os quais o parto domiciliar é o mais incentivado, o mais simples, menos custoso e garantido para todas as mulheres que queiram e possam tê-lo. Aqui, o melhor é começar a procurar muito cedo, no começo da gravidez se essa for sua opção. Algumas informações: aqui.

Outra possibilidade é dar sorte em encontrar as pessoas “certas”. E forçar a sorte um pouquinho também. Nas maternidades e hospitais que cuidam da gravidez e do parto por aqui, são as “sage-femmes” que acompanham toda a sua gestação, examinam, pedem os exames. Você raramente vê o médico. E também não o verá no dia do parto, a menos que algo fora do usual aconteça. E esse modo de acompanhamento é justamente o que pode contar a seu favor. Pois as enfermeiras obstetrizes francesas, as “sage-femmes”, têm formação médica mas, ao mesmo tempo, podem trabalhar como autônomas, podem cuidar de vários aspectos da gravidez e do parto. E, com isso, elas fazem várias especializações interessantes: algumas trabalham com acupuntura, homeopatia, sofrologia (que são exercícios de respiração e relaxamento), yoga e por aí vai. Já encontrei uma porção delas, porque o acompanhamento é feito de forma bem impessoal na maior parte dos serviços e posso dizer que já vi de tudo um pouco, de gente bem rígida que não topa sair do padrão a gente que não presta atenção em você e apenas segue um protocolo apressado a gente bem humana e aberta à escutar, capaz de sanar muitas dúvidas e de te tranquilizar frente a várias situações. Mas, no geral, percebo uma abertura maior por parte das “sage-femmes” para um respeito ao parto natural. E, como elas é que te recebem e te acompanham no dia do parto, a sorte está lançada de você cair nas mãos de alguém mais humana e cuidadosa.

Mas não é apenas sorte. Aqui, você pode escrever um projeto de nascimento, um projeto de parto e entregar no dia para a equipe que vai te atender, ao chegar na maternidade. Você tem o direito de escrever uma espécie de carta dizendo como gostaria de viver o seu parto. E, ao mesmo tempo, quando você chega na maternidade, você pode entregar esse documento que fica arquivado no seu prontuário, e comunicar à equipe o que tem ali (para o caso de eles não terem tempo de ler, o que é possível, pois estamos falando de estruturas grandes, que fazem 2000, 3000 partos por mês). Pelo que tenho entendido, as equipes são bem sensíveis a esse plano de parto e costumam tentar respeitá-lo. No que diz respeito à peridural, por exemplo, eles sempre acatam quando você diz que não quer tomar. Para a episiotomia pode haver um pouco mais de resistência, mas os índices são baixos por aqui e você tem como decidir. Você tem como insistir na sua decisão. Na maior parte dos casos que tenho ouvido, o mais difícil é a decisão de parir em outra posição que não a ginecológica. As intervenções e exames que se seguem com o bebê recém-nascido também parecem meio inquestionáveis. Mas isso é especialmente rígido nos locais onde o médico obstetra aparece apenas nesse momento para dar um oi e cobrar pelo procedimento. Ah, e se você quiser a peridural vai ter o monitoramento permanente e vai ficar na posição do frango assado, sem poder se mexer e encontrar opções confortáveis. Uma coisa vai se associando à outra, numa bola de neve de caminhos pré-estabelecidos. Por outro lado, a possibilidade do corpo-a-corpo e de amamentar logo após o nascimento também são mais respeitadas.  É preciso insistir nisso.

Tem “sage-femme” que não quer fazer nada de diferente porque atrapalha o esquema de trabalho dela. Como se um parto tivesse que ser calcado nisso, no que é mais prático para o médico, para a enfermeira obstétrica e para a equipe e não no que é melhor para a mãe. Ou seja, terão pessoas que vão resistir mais do que outras. Por isso é sempre bom pesquisar bastante, especialmente nos fóruns, as opiniões e experiências das mães em cada maternidade. Você logo percebe que esses relatos dão boas dicas sobre as posições das instituições quanto ao que você pode vir a pedir ou não. Mesmo não sendo posições formalizadas, elas existem. E aparecem no modo como as pessoas contam os partos e como as equipes cuidaram delas. Melhor ler nas entrelinhas. E levar seu plano de parto. E fazer questão de entregá-lo, insistir nisso. Enfim, tudo questão de negociação e conversa. E de ter um certo tato na conversa para não criar hostilidade. Até porque, no dia do parto não vai dar para ficar brigando, né? Dicas para projetos de parto bem escritos e que serão considerados: aqui.

E o que fazer com a mentalidade francesa frente à gravidez e ao parto?

Olha, é um belo de um paradoxo.

As francesas são totalmente adeptas do parto normal, mas totalmente avessas à idéia da dor do parto. Os índices de anestesia são altíssimos por aqui em todas as instituições. Muita peridural com tudo aquilo que ela acarreta em termos de intervenções posteriores. E nos cursos de preparação ao nascimento, isso é sempre abordado como uma evidência, a de que você não vai querer sentir dor e vai tomar uma anestesia. Eu falei disso aqui e aqui. Não sei até que ponto essa posição é uma consequência desse feminismo que às vezes se excede ao confundir o direito da mulher a gerir seu corpo de modo a não sentir dor, não sofrer, evitar qualquer experiência que lhe seja violenta e até não conceber com uma idéia – que é bem machista, por sinal – de que parto é sofrimento e que esse sofrimento pode e deve ser evitado pela renúncia que a mulher faça de sua participação ativa nesse momento. Ou se é justamente uma apropriação perversa que esse poder médico de controle e gerenciamento dos corpos fez dessa reivindicação feminista para fazer valer sua própria agenda. Trocar o protagonismo da mulher pela supressão da dor. E a mulherada caiu nessa sem pensar muito a respeito, sem muito senso crítico, de um modo quase ingênuo. E as francesas estão bem convictas de que isso é uma boa troca e não se colocam muitas questões a respeito. Portanto, quando você fala de parto sem anestesia, as pessoas ficam tentando te convencer que você não precisa sofrer, que não precisa sentir dor e de que isso é bom. Sem nunca falar da quantidade de intervenções médicas que virão como consequência disso, como o uso da ocitocina, todo o tipo de aceleramento artificial do parto, as posições obrigatórias e até a episiotomia. Enfim, é uma escolha de cada mulher, mas aqui isso é pouco questionado.

Outro paradoxo curioso e que revela a influência dessa medicalização forte e dessa falta de questionamento frente às condutas generalizadas para gravidez e parto aqui na França é a questão da amamentação. A grande maioria das mulheres não amamenta por opção. E isso também lhes parece o exercício de um direito sobre seus corpos. E é colocado como um direito, como uma opção, como algo que elas podem e devem decidir, mas sem muita ênfase na importância ou na diferença que isso faz para o bebê. Existe uma insistência grande para que as maternidades, os cursos de preparação para o nascimento e todos os livros e cartilhas falem da amamentação. Uma insistência em mudar um pouco dessa mentalidade que parece tão arraigada. Nos grupos dos quais fiz parte, a grande maioria das mães queria saber sobre mamadeiras, leite em pó, horários das mamadas e afins. No curso de aleitamento materno havia apenas eu e mais uma outra mãe. Me deu uma tristeza enorme. E isso também ninguém questiona. Sob pretexto da volta ao trabalho ou de não se sentir confortável, sob a desculpa da carreira, da autonomia, da deformação dos seios (oi?) ou até sob o argumento de que é um ato egoísta, porque o pai, os avós, toda a família quer ter esse contato privilegiado com o bebê  e que é um absurdo a mãe querer manter essa exclusividade (oi?)… a grande maioria das mulheres aqui não amamenta, não quer amamentar ou concebe fazê-lo apenas por um período o mais breve possível e por desencargo de consciência.

Enfim, como vocês podem ver, estamos muito longe de uma situação confortável e cuidadosa no que diz respeito à maternidade na França. Mas, isso é inegável, estamos há anos luz do Brasil em alguns pontos desse percurso.

 

17 comentários sobre “As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil parte III

  1. Sou imigrante ilegal em luxembourg e estou sofrendo bastante em relação ao acompanhamento medico!Tenho pago tudo e não sou reembolsada de nada!O meu companheiro tem documentos eesta legal aqui, mas nao posso ir para a caisse de maladie dele porque ele esta em meio a um divórcio! Não sei como devo agir estou completamente perdida

    1. Nanda, lamento muito que esteja passando por isso. Infelizmente, não sei bem o que te dizer, pois não sei como são as leis em Luxembourg. Aqui na França, mesmo ilegal, você tem direito à assistência. Basta ir conversar com as assistentes sociais de um serviço chamado PMI ou de outro chamado CAF e elas te orientam quanto aos procedimentos. E o acompanhamento na gravidez é gratuito. Uma outra coisa importante é que aqui na França, você estar casado, separado, se separando ou solteiro não tem nada a ver com ter filhos (dentro ou fora do casamento). O sujeito precisa apenas fazer uma declaração de que você é dependente dele para você passar a ser incluída no seguro social dele e ser reembolsada. Além disso, ele pode ir à prefeitura e reconhecer antecipadamente a paternidade, o que garante todos os direitos de filiação e cidadania ao bebê, mesmo antes de nascer. Diga ao seu companheiro para pesquisar se por aí tem isso, principalmente o que diz respeito à sua inclusão na assistência médica dele como “ayant droit” (dependente), pois isso pode garantir seus atendimentos durante a gravidez. Boa sorte e um abraço.

  2. Muito interessante o texto!
    Bom, eu só não sou tão adepta à dor do parto, para mim essa noção de que a mulher tem que parir com muita dor vem da Bíblia, à qual a nossa sociedade brasileira, mesmo que se dica católica não-praticante, continua seguindo todos os preceitos. Aqui na França justamente o que se deseja é desfazer todo o amálgama entre parto-dor. Je suis plutôt pour 🙂

    1. Milena, obrigada pelo comentário. Pois é, eu já escrevi um tanto sobre essa idéia de que parto é dor e sofrimento por aqui, mesmo antes de parir. Concordo contigo que a Bíblia foi uma das responsáveis por juntar dor e parto, como se parir fosse ligado à culpa e ao sofrer. Só que, diferente de você, não penso que o que se fa na França seja desfazer esse amálgama. Pelo contrário. A solução da anestesia é apenas uma em que a mulher abre mão do poder de parir e do controle sobre o próprio corpo e delega esse protagonismo ao médico. Pois anestesiada da cintura para baixo, alguém vai ter que decidir quando você deve fazer força, quando deve empurrar, quando o bebê sai… E não será você, nem ele. Será um terceiro. Penso que essa mentalidade da dor no parto judaico cristã serve muito bem justamente para justificar todas essas intervenções médicas desnecessárias na maior parte dos casos: é por nos fazerem acreditar que dói muito e que vamos sofrer demais que estamos tão dispostas a entregar nossos corpos nas mãos de alguém que nos alivie de algo que nem sabemos se é bem assim. Antes da religião judaico cristã imperar no ocidente, as mulheres já pariam e a dor do parto não estava associada à culpa ou ao sofrimento. Portanto, se é para desfazer o amálgama, por que não olhar para uma possibilidade em que a mulher é mais dona de si do que para uma em que ela precisa se abandonar e se alienar ainda mais? Abraço grande, Alessandra.

  3. Olá, estou gravida de 15 semanas e em marco estarei fazendo uma viagem a Paris com meu esposo de férias, e gostaria de saber se tenho prioridades nas filas como aqui no Brasil.
    Desde ja agradeço.
    Danielle

  4. “É como se você estivesse frente a um desses livros mais clássicos sobre gravidez e parto: não vai ter nada que fuja muito ao padrão e as informações sempre vão tender para uma ênfase bastante médica.”

    Concordo. Mas tem um muito bom, que se chama “Attendre son enfant autrement”, da Catherine Dumonteil Kremer, ou então livros mais específicos (mas bem marginais, não se encontra em qualquer lugar) sobre parto a domicilio etc. Os livros sobre amamentação “grand-public” é a mesma coisa: a amamentação é vista mais como um modo de alimentação do que como vínculo.

    “Onde ter alternativas?”

    Raríssimo mesmo. Mas cada vez mais maternidades usinas de bebês propõem uma “salle nature”, UMA sala no meio de não sei quantas onde dá pra dar a luz no seu ritmo (quer dizer, se não tem muitos partos ao mesmo tempo), sem peridural.

    Sem dizer que as maternidades de nível 1 (normalmente menores e menos aparelhadas em caso de grande prematuridade, etc.) estão sendo fechadas umas após as outras em prol das “usinas de bebês”…

    Maternidade amiga dos bebês: raras e não é certeza de que o parto será humanizado.

    “encontrar as pessoas certas”:

    Eu não dei sorte, não encontrei ninguém…

    “estamos falando de estruturas grandes, que fazem 2000, 3000 partos por mês)”:

    Se não estou enganada não há maternidades tao grandes assim. Lá onde dei a luz, uma verdadeira usina de bebês, eles fazem 4000 por ano…

    “Para a episiotomia pode haver um pouco mais de resistência, mas os índices são baixos por aqui e você tem como decidir.”

    Eu considero 33% de episiotomia altíssimo (http://afar.info/2013/la-carte-episiotomie), principalmente porque a OMS considera esse corte como inútil, mas não sei qual é o indice no Brasil. E aliás ninguém me perguntou nada e fizeram assim mesmo (violência obstétrica, não é…).

    Dor no parto, peridural: “Enfim, é uma escolha de cada mulher, mas aqui isso é pouco questionado.”

    Concordo a 100%. Eu nem pestanejei na época (também nunca me questionaram a respeito), hoje seria muito diferente…

    ” a grande maioria das mulheres aqui não amamenta, não quer amamentar ou concebe fazê-lo apenas por um período o mais breve possível e por desencargo de consciência.”

    Ai ai ai, eu teria rios de coisas a dizer, mas vou procurar no teu blog se você fala mais a respeito da amamentação, temos muito o que conversar a respeito!

    Um grande abraço e obrigada por compartilhar esse texto claro e muito lúcido!

    Bruna

    1. Bruna, obrigada pelo seu comentário tão cheio de detalhes. Cometi um erro sim, são 2000 a 3000 partos por ano. Por mês, ficaria estranho e impossível, obrigada por atentar ao detalhe. Se não, as melhores informações que encontrei sobre maternidade foram em blogs e sites engajados em discussões como parto humanizado e afins, nunca em livros. Claro que existe toda uma bibliografia excelente sobre o assunto e que foge do senso comum, Michel Odent, Ina May Gaskin, Laura Gutman, para citar apenas alguns. Mas não é o que primeiro nos cai nas mãos. Sobre a taxa de episiotomia na França, não conhecia mas é alta sim. Menos do que no Brasil, mas alta. E eles não perguntam antes de fazer, o que é, a meu ver, o mais complicado e questionável. Há muito o que se questionar sobre gravidez, parto e puerpério por aqui, a França está muito longe de ser um exemplo e a violência obstétrica é grande. Uma pena, num país que se diz de primeiro mundo e que toma medidas totalmente contra a maré e contra todas as evidências nesses assuntos. Um abraço, Alessandra.

  5. Ola, encontrei o seu blog por acaso enquanto procurava a equivalência de tamanhos de roupas de bebe e estou amando o que estou lendo em cada post! Muito obrigada pelas informações!
    Estou com 28 semanas de gravidez aqui na França, em Valenciennes, no site da lista de maternidades amigas do bebe a maternidade daqui, minha unica opção, esta na lista. Mas o acesso assim que der entrada na maternidade e a peridural me foram apresentadas como procedimentos de rotina e eu estou bem aflita com isso. Até agora estava fazendo acompanhamento com uma ginecologista e começo no próximo mês o acompanhamento na maternidade onde vou tentar não ser obrigada a passar por essas intervenções… Episiotomia também é uma coisa que me assusta.
    Enfim… estou gostando muito do blog esta me ajudando muitíssimo nesse momento. Obrigada por compartilhar. Um abraço, Glaucia.

    1. Glaucia, obrigada pelo comentário e desculpe a demora em responder. O que posso te dizer sobre esses procedimentos de “rotina” é que mesmo que eles te apresentem isso como algo que faz parte do processo, você pode dizer não. O que acho que funciona melhor é, no dia do parto, na hora em que você chegar na maternidade, diga à sage-femme que te receber, que é quem provavelmente vai acompanhar todo o trabalho, o que você quer e o que não quer. Com isso, ela já informa ao resto da equipe e dificilmente não vai te respeitar. Especialmente nas maternidades que têm esse rótulo de amigas do bebê, eles costumam ser bem respeitosos com quem quer parto natural. Boa sorte e parabéns pela gravidez. Vamos conversando por aqui ou você pode me escrever no meu email, ok? Um abraço, Alessandra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s