A ditadura da balança…

… também nos assombra ao longo da gravidez. Putz!

E, nesse assunto, as informações são tão desencontradas que não dá para saber em que se apoiar. Há livros e textos sobre gravidez que falam de um ganho de peso entre 12 e 15 quilos. Outros falam de um ganho de, no máximo, 12 quilos. Outros ainda, de 1 quilo por mês. Mas a coisa é tão contraditória que eu tive que escutar do meu obstetra – que felizmente não é quem vai fazer o parto – ao constatar que ganhei 10 quilos, que era muito. E a enfermeira obstétrica que me acompanha, e que também achou 10 quilos demais, ainda teve a delicadeza de me dar um folheto com informações sobre como me alimentar para não ganhar mais nenhuma grama daqui até o final da gravidez. Oi? Sim, essa mesma enfermeira que achou excelente uma outra grávida que havia ganho apenas 2 ou 3 quilos até os cinco meses.

Como assim?

Não estou discutindo aqui a postura de um médico ou de uma enfermeira obstétrica específicos, mas o que isso pode traduzir de uma certa posição frente à gravidez bastante presente nos nossos tempos e que parece ser aquela premissa de que nada deve mudar tanto assim, apoiada ainda mais, nesse caso, pela ditadura da balança. Que não dá folga nem quando engravidamos. Também não estou discutindo aqui os perigos do excesso de peso durante a gravidez, tanto para quem começou com sobrepeso, quanto para quem ganha peso demais, ou de maneira súbita. Perigos para a mãe e para o bebê, tanto ao longo da gestação quanto para o parto. Esses já estão enumerados e discutidos em muitos textos, livros e blogs bem mais aptos do que este a tecer considerações sobre o tema de maneira científica. Minha questão é: dados alguns parâmetros, que se pode discutir cientificamente ou acatar, o que acontece que, mesmo estando dentro deles, existem médicos e outros profissionais de saúde que insistem em te dizer que você está engordando muito?

Penso que temos uma relação com nossos corpos e com o nosso peso que é bastante complicada antes mesmo de engravidarmos. Governadas pela imposição de que um corpo belo e desejável é um corpo magro e esculpido, temos na experiência da gravidez um momento que vem desafiar essa imagem de maneira frontal. Temos que ser magras e passamos dias e noites entre a vigilância constante desse corpo, de suas calorias, dos cuidados com a alimentação que não são exatamente cuidados, mas uma tirania que retira qualquer prazer ligado ao comer e o substitui por culpa… Então, passamos a vida inteira em torno disso e, de uma hora para a outra, por conta da gravidez, devemos nos permitir engordar?

Vejo constantemente outras grávidas falando ou escrevendo sobre seu peso, sua dieta, os exercícios que faziam e que mantiveram após a constatação da gravidez, seus ataques culpados e esfomeados à geladeira… Falas cheias de ambiguidades, como não poderia deixar de ser, visto que saímos da imposição do “seja magra e tenha um corpo escultural” para “você vai ter que engordar porque tem um bebê aí e vai ter que ter uma barriga… mas não muito, hein?”. Como não se angustiar? Ou, ainda, passamos os nove meses num estado de exceção banhado pela preocupação em “voltar à velha forma” logo depois do parto, incentivada por infinitas reportagens sobre como perder peso rapidamente depois da gravidez, como reaver a barriga tanquinho de outrora e, crueldade das crueldades, matérias repletas de imagens mostrando beldades e celebridades com seus corpos esculturais logo após terem parido.

Certamente que isso, essa tirania do corpo magro e escultural, se reforça ainda mais em um momento em que o que devemos aprender vai justamente contra tudo o que havíamos escutado até então. Durante a gravidez, não pode fazer regime, não pode perder peso e a barriga redonda só faz aumentar, aumentar, aumentar… Quem, tendo sido bombardeada até então pelos ideais de beleza e de corpos desejáveis e saudáveis não enlouquece numa hora dessas? Não espanta a corrida para voltar à forma depois, a gravidez parece que se tornou um intervalo em que o mundo concede, cada vez menos e cada vez de maneira mais intolerante, restrita e culpabilizante, um pequeno espaço em que o corpo pode respirar e tomar as formas compatíveis com a sua condição. Aí cabe o incentivo às mães que ganham cada vez menos peso. Elas vão mais rapidamente voltar ao ponto de partida, ao que é considerado perfeito. E o discurso circundante parece reforçar: não pegue muito gosto, hein? Acabam-se os nove meses e você trate de voltar ao que era antes!

Voltar ao que era antes, voltar à velha forma, do que as pessoas estão falando exatamente? Não será daquele ideal mal-dissimulado que se instituiu em nossas subjetividades hoje em dia de que gravidez, parto e maternidade devem ser experiências que não afetam muita coisa em nossas vidas? Nossos corpos mudam, mas não muito. Nossas rotinas mudam, mas nem tanto. Tudo deve ser vivido com uma leveza que beira a superficialidade, sem deixar muitas marcas, sem mudar corpo, alma, rotina, objetivos, projetos.

Por que o corpo deve “voltar ao que era antes”? Isso não seria negar que esse corpo gerou, gestou, abrigou um outro ser, mudou, adaptou-se, deformou-se, adquiriu novas formas e novos contornos? Um corpo que foi marcado pela maternidade, como ele poderia ter a forma do “como se nunca tivesse acontecido”?

Não vou entrar no mérito de que possa ser melhor ou pior, mais belo ou mais feio, maior ou menor porque não é isso o que interessa. A questão é por que compramos o ideal de que esse corpo tem que voltar a uma condição que deixou de existir? E em que medida essa ditadura da magreza, do corpo escultural que não registra nem reconhece as marcas do tempo e das experiências, e que é tão melhor e mais valorizado quanto mais ele seja capaz desse apagamento, dessa uniformização, dessa despersonalização, não é um ideal que levamos também para a gravidez, inibindo ganho de peso, redondices e afins? Ou seja, inibindo algo que faz parte da gravidez e que é até necessário para que ela transcorra bem?

Não é fácil ganhar peso e experimentar todas as mudanças do corpo, mudanças de eixo, de equilíbrio, de posição. Não é fácil para pernas e costas sustentarem quilos a mais. Nem para barrigas redondas se acomodarem na cama, no sofá, nos espaços exíguos das passagens públicas. Mas é uma das mudanças que estar grávida implica.

Mesmo mantendo uma alimentação bastante equilibrada, fazendo exercícios e tendo bastante cuidado com esse fantasma do peso, ganhei 10 quilos. E sabe que acho isso um motivo de orgulho, mais do que de constrangimento? Significa que consegui, em meio a essa pressão exercida, desde o médico às matérias de revista, guardar alguma independência e alguma distância. O suficiente para deixar o corpo adaptar-se à mudança. O suficiente para não querer evitar isso a todo custo. O suficiente para deixar-me guiar pelo bom senso, mais do que pelas imposições que se preocupam menos com saúde do que com aparências. Ainda bem.

Menção mais do que honrosa a Kate Middleton e a Kim Kardashian que, contra as tendências, imposições e ideais pré-concebidos, mostraram orgulhosamente como é um corpo que pariu (no caso de Kate) e como pode ser um corpo de grávida que não se abala com muitas tiranias (no caso de Kim).

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