O que não me contaram sobre a gravidez

Uma comadre da blogosfera materna, a Carol do Meu Parasita Querido, postou sobre o tema ontem e eu gostei da idéia de fazer uma lista dessas. Aí vão as minhas 15 descobertas, com um toque de humor e outro de mau humor:

  1. Ninguém me disse que logo que você engravida você começa a sentir um cansaço monstruoso. De férias no Brasil, eu achava que tinha me desacostumado do calor, do verão, do feijão com arroz, de tanto que só conseguia pensar em dormir. E isso dura ao menos pelos três primeiros meses, quando você consegue dormir até em pé ao lado da caixa de som da boate com seu dj preferido tocando techno. Não que tenha acontecido comigo, mas… 
  2. Também não me falaram que enjôo de grávida não é como naqueles dias em que você come um pastel na feira e fica meio virada depois. Não, enjôo de grávida começa de manhã, vira azia depois que você toma o café da manhã, volta a virar enjôo depois que você consegue digerir tudo o que comeu, volta a virar azia depois do almoço, quando você comeu para tentar debelar o enjôo, e vira enjôo depois que o almoço arruma um lugar no seu corpinho combalido, e azia depois do jantar. E assim por diante. Incessantemente. Por ao menos três meses. Vai ver é por isso que se dorme tanto. Afinal, o que dá para fazer além de dormir estando tão enjoada assim?
  3. Ninguém me disse que desejo de grávida podia não fazer parte do programa. Passei todo esse tempo esperando ter alguma vontade enlouquecida de algo extremamente bizarro. Nada. Nadica de nada. Fora o dia em que devorei um pacote de Haribo (umas balas de criança que existem aqui na França e que foram o mais perto de bala de goma que consegui chegar). Mas não sei se isso conta, já que não envolveu misturas esdrúxulas, nem ninguém saindo de madrugada para tentar achar um mercado aberto. Putz, que frustrante!
  4. Ah, também não estava sabendo que gravidez dá tanto o que pensar. Antes do bebê nascer, você já deu a volta ao mundo mil vezes, tanto para o passado, revendo sua vida, suas escolhas, suas relações, sua família, quanto para o futuro, tentando imaginar o que e como fazer. Entender de onde veio, buscar projetar um futuro. Além de dormir – e mesmo dormindo e sonhando – acho que é esse o trabalho que mais nos ocupa cotidianamente.
  5. E, na categoria pensar, não imaginava que gravidez também desse tanto o que pensar sobre ela mesma. Não apenas passado e futuro, mas o presente vira questão. Tem gente que se deixa levar e vai vivendo, mas para mim tem sido a revolução cotidiana de pensar como viver essa gravidez, como cuidar dela, como ser ativa frente a essa experiência, tomando minhas decisões sobre a gestação e o parto da maneira mais consciente possível. Gravidez vivida, onde se batalha por um certo tipo de cuidado, por um certo tipo de acompanhamento e por um certo tipo de parto. Que trabalheira! E quanta responsabilidade ao perceber que é preciso tomar decisões e que não dá para se alienar e se abandonar nas mãos de ninguém quando o assunto é esse. Sob pena de acabar vivendo uma gestação e um parto que estejam muito distantes daquilo que você julgue humano. E como é trabalho com prazo limitado, a gente sai correndo atrás de informação, de alternativas, de lugares, referências e pessoas para tentar criar as melhores condições possíveis. Definitivamente, dá para entender por que é preciso dormir tanto e pensar tanto, né?
  6. Outra da categoria pensar é que ninguém te conta que, entre tantos pensamentos, revisões de vida, projetos de futuro e afins, há também um bocado de angústia, um monte de dúvidas, vários momentos de solidão e tristeza em que não se fala com ninguém. Todo mundo do lado de fora vivendo o clichê de que a gravidez é uma maravilha e te cobrando estar em estado de graça permamente. E você enjoada, com sono, pensativa, sem saber se é o melhor mesmo, com medo de que algo aconteça e você perca o bebê, com medo de ter o bebê, com medo de tanta coisa que parece que uma nuvem negra navega sobre a sua cabeça 24 horas por dia. E tendo pesadelos à noite, para completar. Tendo momentos em que lamenta estar grávida e pensa que vai perder muita coisa. E tendo momentos de culpa avassaladora por pensar nisso e não viver “como todo mundo”, achando tudo uma maravilha. Acho que uma grávida é uma pessoa dilacerada por dentro entre aquilo que dizem e cobram que ela viva – inclusive quem já passou por isso e até ela mesma – e aquilo que ela realmente vive e guarda lá dentro do coraçãozinho. Mesmo que não seja nada tão negro e obscuro assim, qualquer senão já é motivo para culpa, vergonha e autocrítica. Ah, vale dormir mais um pouco para tentar escapar dessa…
  7. Outra coisa que não sabia é que entre sono, pensamentos e ações cotidianas para dar conta de viver bem uma gravidez e o nascimento do bebê, o seu tempo fica totalmente tomado por isso. Você vira um monotema, sua cabeça vira um monotema e não é fácil desligar e fazer outras coisas. Trabalho, marido, amigos… onde? Como? Nossa, é um esforço hercúleo para se manter conectada e não se fechar totalmente. Mas você acaba se encasulando, ficando mais quietinha e na sua do que antes. A não ser quando encontra outras grávidas que querem falar das mesmas coisas que você. Daí é o paraíso e faltam horas no relógio para o tanto que se pode matraquear…
  8. Ninguém me preveniu, também, que quando a gente engravida fica meio burrinha. Não, meio desligada. Quer dizer, é tanta coisa passando na cabeça – como vocês podem constatar pelo começo dessa lista – e mais uma revolução de hormônios igualmente gigantesca, que o cérebro fica a ponto de dar bug. Não funciona direito. O meu, pelo menos, funciona bem mal e porcamente para tudo o que não seja relativo à gestação. Hehehe, é uma lerdeza seletiva, confesso. Mas o pior é que acontece. (Perguntem à minha manicure, ela certamente terá vários relatos de diálogos impossíveis para contar… putz). Esquecer coisas que acabaram de me falar é praxe. Esquecer, aliás, virou parte da vida. Confundir, então, nem se fala. Pessoas, horários, compromissos… Dar foras. Quem está ao redor já acostumou e espera pela próxima gafe ansiosamente. Eu espero apenas que meu sorriso amarelo e minha frase: “desculpe, sabe como grávida é distraída, né?” continue angariando a simpatia de todos com quem tenho tido que lidar ultimamente.
  9. Ah, e essa história de revolução hormonal, então? Por que é que ninguém diz que é mais ou menos como uma TPM que dura nove meses e que é elevada à milésima potência? Não, você não fica instável emocionalmente, você vira uma mistura de Darth Vader com Felícia (sim, gente, aquela do Pernalonga, que adora gatinhos). Você ama, você chora, você se emociona com tudo. Você quer engolir de tanto amor. Mas quando se irrita, não é uma irritaçãozinha não. Você tem vontade de matar alguém. Tirem as crianças da sala! Ai de quem for inconsequente o bastante para provocar uma grávida. Nós nos tornamos máquinas de respostas atravessadas (finalmente!) e de olhares fulminantes. Não, uma grávida furiosa é como o Godzilla, melhor ficar de sobreaviso e ser bem bonzinho por 9 meses, ouviu?
  10. Pior é que ninguém diz também que, mesmo uma grávida sendo esse ser em permanente estado de pré-explosão, isso não evita que a maior parte das pessoas encha o saco sempre que puderem. Os palpites… ai, os palpites. É tanta gente com tanto palpite e tanta vontade de botar a mão na sua barriga e te dizer o que fazer, que acabo acreditando que nós, grávidas, somos na verdade umas santas dignas de canonização imediata. A gente consegue gerenciar os pensamentos, as angústias, os cuidados com a gravidez, as decisões sobre a vida e a panela de pressão de hormônios sem estapear ninguém e ainda tem que aguentar os palpiteiros? Deve ser algum tipo de karma que cai automaticamente na conta de cada mulher assim que o teste de farmácia aparece positivo, não?
  11. Outra que não me disseram é que sentir o bebê mexer dentro da barriga é tão, mas tão emocionante. Já escrevi a esse respeito mil vezes e acho que nunca vou cansar de escrever. Porque, sim, todo mundo sabe que o bebê mexe, mas por que ninguém conta que é interativo? Bebê responde, chega perto da mão que acaricia a barriga, dá chute quando você vira do lado e aperta alguma parte da pança em que ele tinha se ajeitado, responde ao papai, responde à mamãe e, sapequice das sapequices, para tudo cada vez que você pega o telefone para tentar filmar as acrobacias. É ou não é incrível experimentar algo assim?
  12. Ah, ninguém te avisa também que verão e gravidez não combinam. Ainda mais se for o final da gravidez. Calor escaldante e mulher grávida, pesada, andando com dificuldade e tendo que dar conta de mil e uma tarefas antes do nascimento do bebê é pedir para o Godzilla dar as caras, minha gente. Não é humano isso não.
  13. Outra que ninguém diz: andar com uma melanciazinha na barriga é difícil. Cansa rápido se você fica em pé, e sentada ou deitada é quase milagre encontrar posição. Levantar é uma tarefa bem engraçada, que pode durar uns 10 minutos. E abaixar para pegar algo que caiu no chão… bem… para que, né? Nem está atrapalhando ou sujando tanto assim. A única hora em que você se encontra minimamente com alguma desenvoltura corporal é quando nada. Daí o peso some e você se sente novamente bailarina, podendo saltitar pela piscina como se pesasse poucos quilos… Maravilha!
  14. Essa ninguém diz mas todo mundo sabe. Acho que é um silêncio solidário, porque, convenhamos, roupa de grávida é muito feia, vai?! Eu uso bem contente de que existam calças e shorts com elástico que sirvam em mim. Mas, putz! Sair vestida de barril o tempo todo não ajuda muito na auto-estima não. Ou você consegue estar muito bem com as mudanças do seu corpo, se sentindo poderosa, bonita e orgulhosa da sua barriga, ou acaba passando ao menos a parte final da gravidez escondida dentro de casa, deixando o marido se aproximar apenas de noite, com a luz apagada. Bônus extra que descobri com essa crise fashion: vestidinhos. Vestidinhos de não grávida em corte envelope, por exemplo, são muito dignos e vestem super bem. Nessas horas, tive que agradecer o verão, estão vendo como a gente é paradoxal?
  15. E a última da minha lista de coisas que não me disseram sobre a gravidez é que, mesmo antes de acabar, dá aquela vontadezinha de começar tudo de novo. Putz!

 

11 comentários sobre “O que não me contaram sobre a gravidez

  1. É assim mesmo!!! 😀 Uma coisa que não me contaram é que a gente fica muito chorona. Chorava até com propaganda de sabonete. O mais interessante é que, depois que o neném nasce e à medida que cresce, esse chororô não passa… Hoje choro até com quadrilha de São João… na dos meus filhos e até na apresentação das outras turmas… (Doida, eu?….)

    1. Hehehe, que bonitinha… acho que deve ter uma emoção a cada dia, né? A solução é comprar ações da Kleenex e mandar ver no chororô. Um abraço.

  2. Achei muito legal seu texto. Ainda nao sou mae mas já chegou a hora de tentar e tenho mil e uma dúvidas. Moro na Argentina e nao tenho muita gente para me informar aqui e como voce falou que ninguém fala o que realmente passa, por isso busco informacoes na internet. Parabéns!

    1. Carolina, você tem toda razão, a internet e as redes sociais trazem boas informações. No mais, se você mora na Argentina, sugiro que procure algum grupo de doulas pois elas, além de acompanharem os partos normalmente conhecem bem os meandros do sistema de suas regiões e podem te orientar sobre médicos, serviços e etc. Boa sorte e um abraço, Alessandra.

  3. Nossa…que aliviooooooooooo!!! Pensei que eu estava ficando lêlê da cuca, vendoo o lado inverso da gravidez. Me emocionei com seu texto e fiquei mto feliz em encontrar uma mamãe que enfim revelou o que nós gravidas sentimos. Adoorei!!! O jeito é curtir infinitamente a nossa gravidez antes que a ” vontadizinha” venha á tona. Forte abraço ( Thaína)

    obs: Vou imprimir o seu texto e por o papai pra ler…vai que cola!

  4. Puxa, uma artista das palavras que descreveu com perfeição a paisagem em que nos vemos desde o primeiro dia da descoberta da gravidez! Parabéns, continuarei acompanhando!

  5. Nossa!! Eu me emocionei com seu texto… Eu estou no quarto mês e já senti muito desses sintomas e é muito bom saber q não estamos sozinha e nem estamos loucas… Eu me sinto em tom constante, me irrito fácil e não consigo segurar a língua, quando percebo já fui grossa … Até eubperceber a falta de trava já fiz muitas grosserias, já estou conseguindo me controlar… Kkkk… Ameeei seu post, sua siceridade.. Me emocionei!! Grande bjo!!

    1. Obrigada pelo comentário, Fernanda. Um abraço grande e não esquenta com as explosões não. Coloca a culpa nos hormônios e segue em frente. Já temos tanto com o que nos preocuparmos durante a gravidez. Força aí, Alessandra.

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