Todo mundo tem um pai…

 

… do mesmo jeito que tem uma mãe. Pai herói, pai presente, pai ausente, pai desconhecido, pai monstro, pai falecido, pai doador, dois pais, pai solteiro, pai tirano, pai avô… O pai, essa figura fundamental para que exista um filho, qualquer que seja a maneira como ele se encarne na experiência de cada um. Ele existe. E, a meu ver, não deveríamos ter tanta pressa assim em julgá-lo inepto e em destituí-lo de seu lugar.

Noutro dia li um belo texto da Dani Brito do Balzaca Materna a respeito da paternidade e do quanto, ainda hoje em dia, no Brasil, e no que diz respeito à grande maioria, essa função, quando bem exercida, parece algo extraordinário. Quase um milagre que hajam pais que sejam bons pais, tanto que vira até capa de revista. Machismo nosso de cada dia? Naturalização da mãe como sendo aquela que tem que dar conta de tudo no cuidado e na educação dos filhos, deixando ao pai um lugar de exceção? Pode ser. Pode ser que ainda estejamos marcados, em nossas mentalidades e em nossos imaginários, por aquela figura de pai provedor, que garante o sustento da casa e da família. E aí se finda sua contribuição. Criamos meninas para brincar de casinha e meninos que não podem nem lavar uma louça. Meninas precocemente hiper sexualizadas e meninos que entendem que meninas sexualizadas não merecem respeito. Sim, há algo bastante deturpado aí e a responsabilidade é nossa mesma. Ao criar crianças já tão enfiadas em certos padrões e clichês sociais altamente preconceituosos e fragmentários, estamos produzindo adultos plenos de preconceitos que ocuparão, por sua vez, posições bem estereotipadas em suas vidas e agirão segundo valores pré-concebidos e pobres de diversidade, inclusive ao se tornarem pais e mães.

Mas é só isso?

Penso que não e vou aproveitar do malfadado comércio chamado Dia dos Pais para compartilhar algumas reflexões. Vejamos.

Se deixarmos de lado, por um momento, essa massa de, digamos, “pais clichê” – se é que ela ainda existe de forma tão maciça assim – o que me parece é que tem muito homem bem perdido por aí. Os homens se confrontam com as novas exigências de seu papel de pai – que podem ser resumidas no bordão: “ser pai é participar” – e se mostram bem atrapalhados e sofridos. Vou direto ao ponto: reivindicamos pais presentes, ativos, participantes, afetivos, próximos, compartilhadores para nossos filhos. Mas será que deixamos realmente um espaço para que isso aconteça? Será que nós, mulheres, não mantemos também uma posição bastante ambígua de querer esses homens mais humanos e presentes ao nosso lado sem facilitar em nada para que isso aconteça?

Acredito que muitas de nós crescemos totalmente paramentadas de super heroínas e isso atinge seu clímax no momento da maternidade. Ser mãe é padecer no paraíso significando que ser mãe é se sacrificar, dar tudo, fazer tudo, ser tudo para um filho. Doação absoluta onde não cabe mais ninguém que queira ou possa doar-se também. Sim, somos nós que carregamos o bebê na barriga. Sim, somos nós que parimos. Sim, somos nós que amamentamos. E tudo isso é uma dádiva. Mas tudo isso também é poder. Talvez o único poder deixado às mulheres ao longo de tantos séculos de dominação masculina. E, mesmo assim, não foi fácil guardar esse para a gente, que vive tendo quem queira tirá-lo, sob pretextos médicos, comerciais ou de tantas outras fontes. Então, como é que a gente vai abrir mão disso, né? Dessa única função em que somos reconhecidas em um lugar valorizante para compartilhar algo desse valor com o “inimigo”?

Vejo muitas situações em que o pai é realmente o inimigo, declarado ou não. O “traste”, aquele que não serve para nada. E como isso se acentua até a crueldade nas situações em que os pais se divorciam. Todo o ódio de que uma mulher é capaz, toda a sede de vingança por responsabilidades que ela não quer assumir sobre as escolhas que fez na sua vida e que despeja nesse outro, confortavelmente banido da esfera familiar, como se apagar um pai resolvesse os problemas de uma mulher. Ou de seus filhos. Ou garantisse o ser feliz. Ou evitasse de envelhecer. Não estou dizendo que todas as separações partem ou desembocam nisso, mas muitas sim. Tão clichê como o lugar do pai é esse pai “inimigo” no momento em que o casal se separa. Uma pequena vingança, um acerto de contas jogado nas costas dos filhos que viram joguete nas mãos dos adultos, cada um mais preocupado em destruir a imagem do outro do que em se dar conta que, para os filhos, sempre haverão aquele pai e aquela mãe. E que quanto mais se destrói um ou outro, mais se destrói algo nos próprios filhos que estão ali. Mães podem ser muito cruéis às vezes, de uma crueldade destruidora.

Pais também podem ser cruéis. Pais que se ajustam à perfeição nesse lugar de tirano provedor e maltratam seus filhos desde sempre, agindo com violência ou com negligência extremas, apenas “porque podem”. Como se filho fosse direito adquirido e tivessem uso fruto daquele outro ser, podendo dispor de seus corpos, de suas mentes, de seus serviços. Filhos a serviço dos pais e da crueldade dos pais. Pais que quebram seus filhos de muitas maneiras que não apenas por meio da violência física. Por vezes, há uma mãe que defende. Noutras, bem piores, há uma mãe que goza da situação e que se sente também no direito de dispor desses filhos como se fossem objetos. De seus desejos, de seus caprichos, de sua violência. Pais e mães podem ser muito cruéis. Entre si e com os seus filhos.

Estou mencionando esses exemplos tão extremos para dizer que, a meu ver, é tão difícil ser pai quanto ser mãe e não há nada de natural tanto em um quanto em outro. Deixados à própria sorte e aos clichês que atravessam o ser pai e o ser mãe hoje em dia, acabam mais propensos às radicalidades da ausência, da negligência ou da violência tanto quanto as mães, se deixadas a si mesmas, acabam muitas vezes tomadas pela onipotência, pela violência e pela arbitrariedade. Para a psicanálise, a natureza (e o natural, se é que isso existe) é a violência. E tudo o que se faz para minimizá-la é fruto de um esforço de civilização. O contrário da idéia de que o homem é bom e a sociedade o corrompe. Se quisermos mais do que o clichê instituído, é preciso trabalhar bastante. Pessoal e socialmente.

Então, há homens que são tocados por essas questões e por essas demandas. E não querem ficar no clichê. E querem sinceramente inventar uma paternidade que faça sentido e que seja recheada de algo mais do que o estereótipo vazio do ser pai. E, então, vem a mulher e enche o sujeito de críticas, acaba com a criatividade e a espontaneidade dele, tudo castra. Não é assim que dá banho, comida… não é assim que cuida… não é assim que fala… Putz! E depois reclama de ter ali um homem acuado, distante, indiferente, pouco participativo. Bom, como faz? Afinal, o que realmente queremos? E estamos verdadeiramente dispostas a pagar o preço do que queremos que, nesse caso, é o preço de partilhar um poder? Cabe aqui a questão.

Tenho algumas sortes na vida. Uma delas é a de ter um excelente pai, amoroso como o quê. Mas que, por sua forma mais silenciosa de expressar esse amor do que minha mãe, me deu muito trabalho até que eu percebesse os gestos, as atitudes de carinho, as preocupações, os orgulhos, as partilhas. Foi meu pai quem me ensinou que, muitas vezes, a gente tem que aprender a decodificar os sinais do amor e do cuidado vindos do outro, pois eles não necessariamente aparecem do jeito que, para nós, seria o mais evidente. E esse pai se tornou um belo de um avô, de um coração transbordante, capaz de coisas inimagináveis para quem o conhece do lugar de filha e que, por sorte, minha pequena vai conhecer logo mais.

Tive também um avô maravilhoso, que parece ter sido um pai muito difícil, mas que soube tirar água de pedra de si mesmo e transformar toda sua dureza em um amor cálido, suave e generoso com os netos. De uma beleza ímpar e de gestos simples e grandiosos, ele nunca precisou dizer que amava o amor que era evidente que tinha por nós.

E, agora, tenho ao meu lado um homem incrível, que se engajou comigo em um projeto imenso de vida, que é esse de tornar-se pai e tornar-se mãe. De coração aberto, se jogou de cabeça, confiando que nós seríamos e seremos capazes de fazer três de dois e que isso seria uma experiência de felicidade. Não fosse por mais nada, o simples fato de fazer essa aposta junto comigo já mereceria todo o meu respeito e toda a minha gratidão. Gratidão não por se tratar de um favor ou de uma concessão que ele me tenha feito, mas porque penso que é questão de agradecer mesmo todas as escolhas não obrigatórias que fazemos ao dividir parte de nossa vida com um outro. No amor ou na amizade.

Mas ele é um desses “pais modernos”, desses que eu mencionei no começo e que parecem um milagre de capa de revista, lindos e bem resolvidos com essa vontade de ser pai. Mas um pouco perdido nessa posição. Como um homem curioso, ele se apaixona pela barriga que mexe e deve ficar imaginando quem é que vai sair dali. Discreto, ele tenta respeitar e apoiar as vivências intensas que a “dona da barriga” tem tido, nesses nove meses de quase possessão. Os gestos, os cuidados, as tentativas de partilha estão todos ali, para quem quiser e puder perceber. Acho que um homem como esse merece toda a generosidade de uma mulher para ele poder ser o pai que ele quer ser, não?

Cuidemos bem dos pais dos nossos filhos. Vários deles estão dispostos a se reinventarem de maneiras incríveis para ocupar esse lugar.

Um comentário sobre “Todo mundo tem um pai…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s