Parto da barriga

Ela foi dormir, ela e a barriga sapeca, que insistia em se alongar em formatos estranhos, dando ainda bundadas e chutinhos, mesmo estando há alguns dias mais baixa. As contrações desde a sexta-feira eram mais dolorosas, mas irregulares e esporádicas. Ela foi dormir com a barriga grande, pesada, aquela que aprendeu a amar e acariciar durante nove meses, a barriga com a qual conversou ao longo de muitos dias e noites, algumas tantas insones. A barriga que se transformou pouco a pouco até parecer que sempre esteve ali, como se nunca houvesse sido diferente. A gente se acostuma com os saltos, com os sobressaltos, com essa presença de um outro tão perto, com esse conhecer intimamente sem ver…

Uma noite como qualquer outra das mais recentes.

Às seis horas da manhã ela acorda de um susto e de uma sensação, como quem perde o ar. Ela sabe, mas mesmo assim levanta da cama e confirma: a água escorre com ela até o banheiro, trilhando um caminho que a faz sorrir. E, então, ela fica extremamente calma. Sente uma alegria profunda e silenciosa. Acorda ele que, também calmo e um pouco atordoado, tenta secar o rastro às custas de todos os Kleenex da casa. Surpresas esperadas tornam as pessoas engraçadas em suas ações.

Eles avisam a mãe dela, que chegou de longa viagem na véspera. E que se alarma no fuso horário confuso, enquanto eles tranquilamente comem algo e se preparam, jogando as últimas coisas na mala. As pessoas dizem e repetem: rompeu a bolsa, saia correndo para o hospital. Correr para que? Não se trata de uma maratona, nem de se jogar às pressas nas mãos dos experts para que eles cuidem de tudo… Não, ela e a barriga têm outros planos: nascer e fazer nascer uma bebê e sua mamãe.

Da porta ao carro, do carro à maternidade, é a última vez que fazem aquele caminho daquela maneira. Aquele caminho que não mais a reconhece e para o qual ela olha com olhos inéditos, olhos de desconhecido, de silêncio e de calma.

Na maternidade, um primeiro exame: contrações ainda fracas, subir para o quarto e aguardar um novo exame no final da manhã. Sobem ela, a barriga, ele e a mãe dela. Ele sai para voltar dali a uma hora, ela se instala aguardando um longo dia de trabalho de parto.

Uma hora depois, as contrações aumentaram muito em intensidade. Aquelas que começaram pela manhã com a ruptura da bolsa não eram tão doloridas. Ou talvez seja o intervalo entre elas que diminuiu para cerca de dois minutos o que as torna mais intensas. Ela não sabe ao certo, apenas busca respirar profundamente, mudar de posição, bascular a bacia… Pensa no curso de sofrologia que fez ao longo dos últimos meses e que a ajuda agora com isso. Pensa que o objetivo dessas contrações é preparar o útero para ajudar a pequena a sair. Pensa que cada contração aproxima mais o encontro entre elas, entre eles todos. Pensar como uma forma de se reassegurar que esse é o bom caminho. Ela luta um pouco contra si mesma, insiste em que é pensando que vai gerenciar o seu corpo que agora corre solto à sua revelia, ela que sempre dançou a vida inteira e que orgulhosamente sempre soube o alcance de cada gesto seu… Nessa uma hora depois ela percebe que seu corpo age e que ela pode brigar para manter as rédeas ou pode confiar e se deixar levar. No final das contas, essa é uma falsa questão de escolha, porque quem vai levar o jogo é ele, isso é certo. Naquilo que é vital, apenas o nosso corpo sabe o que fazer. Só ele tem a resposta, só ele sabe para onde ir, então é melhor confiar e se abandonar. Constatações desse corpo que rege a cada dois minutos…

A enfermeira aparece para levá-la novamente à sala de parto. Seu útero já se modificou muito, 1 cm de dilatação, ela vai para a banheira de água quentinha que sua mãe prepara, todos ainda aguardando muitas e boas horas de trabalho pela frente. 1 cm por hora, é o que dizem. Ainda mais para um primeiro.

Ele chega. Ela, na banheira, aliviada pelo calor da água, respira em silêncio. Não quer falar, os olho semi-abertos, apenas sensações. Sensações que escapam, que restam, que invadem… Sem pensamentos, apenas estar presente ali e viver tudo aquilo.

Outra hora e meia e aquilo que eram contrações vira outra coisa. Não se trata mais de dor, não é dor que ela sente, apenas uma força descomunal que começa a tomar conta do corpo dela a cada contração. Ela decide que tem que sair dali e se alongar em algum lugar. Ele a ajuda, olhando bonito aquilo que ela vive. Ora segura sua mão, ora lhe massageia as costas, ora partilha seu silêncio… ele espera o tempo passar lentamente. Um tempo em suspenso.

Apenas alongada e a enfermeira obstétrica constata com espanto a dilatação completa. Sai para chamar a equipe e se preparar, mas ela e a barriga já encontram-se em outro plano. Aquela força muscular sobrenatural faz tremer as pernas, faz gritar de dentro da alma… Duas… ela sente a pequena que se aproxima e a faz queimar… Três… Quatro… Ele diz: “estou vendo muitos cabelos pretos”.

A equipe mal tem tempo de entrar na sala e pegar desajeitadamente a bebê que sai por sua própria vontade, no seu tempo. Sai um ombro, sai outro, alguém dia a ela que pegue sua bebê. Ela a pega pelos ombros e traz para a barriga. O lado de fora da barriga de onde ela acaba de sair. Os olhos semi-fechados, ela não consegue acreditar na pequena ali, na sua frente. Ela olha para a bebê, ela olha para ele, ele olha para a bebê, eles se amam, eles a amam… assim… sem dor e com tanta força.

Ele corta o cordão. A pequena acaba de partir da barriga para o mundo. E o melhor é cuidá-la e amá-la para que ela tenha o melhor possível em seu mundo. Ela é cuidada e examinada ali mesmo e volta para os braços dela.

A pequena fica aninhada nos seus braços. Ela mama, ela olha para a mamãe e para o papai. Ela vai para os braços do papai. Ele a veste. Ela olha tudo em sua volta… então é isso? Então são vocês? Então, eis você! Talvez ela estivesse tão curiosa quanto eles por esse encontro, encontro de quem já se conhecia há tantos meses, encontro de quem, desde que chegou, pareceu ter estado sempre ali. Uma evidência.

5 horas e 22 minutos de um trabalho conjunto para vir ao mundo. 5 horas e 22 minutos de uma experiência inatingível para as palavras. 5 horas e 22 minutos para mudar uma barriga em mãe. Uma barriga em bebê. Um homem em pai. 5 horas e 22 minutos de respeito, de escuta, de amor e de coerência com a vida. Com o melhor da vida.

Bem vinda, pequena. Estamos aqui, presentes e em festa para você.

14 comentários sobre “Parto da barriga

    1. Obrigada, Carol! Olha, agora posso falar de boca cheia para você: defenda mesmo com unhas e dentes o seu parto humanizado. Vale cada segundo de briga. Força para você aí na sua reta final. Beijo.

  1. Lindo!!! Parabéns, felicidades ! Seu blog é inteligente, sensível e me tornou uma grávida melhor!rsrs Não planejei quando queria ficar grávida, casada há 3 anos nunca tomei anticoncepcional e usei métodos contraceptivos só no primeiro ano. Quando soube da minha gestação semanas atrás fui invadida por medos e até certa tristeza simplesmente pq estou sem convênio médico,em Maio pedi as contas na empresa onde trabalhei por 3 anos,e não dei continuidade no plano médico agora tem a tal da carência pra parto, me senti culpada e com medo de tudo, pois pagar o parto por fora nem sempre é a melhor opção no Brasil já que se tiver qualquer intercorrencia fora do pacote pago a mãe e o bebe não recebem nenhum auxilio a mais do que o combinado…Meu esposo é italiano e optamos morar no Brasil devido crise na Europa, achei seu blog pois procurava informações de Brasileiras que tiveram filhos em maternidades estrangeiras, confesso que ir até a Itália para ganhar o bebe por lá foi uma das minhas opções tamanho o medo que sentia dos hospitais públicos brasileiros.Meu esposo é massoterapeuta e totalmente a favor do parto humanizado, pesquisando muito e lendo seu blog, conversando com mulheres que tiveram seus bebes pelos SUS,lendo depoimentos de outras que pariram em suas proprias casas com ajuda de doulas e enfermeiras obstetras, fui me acalmando e agora ter o parto em casa pode ser uma das minhas opções,não sei tudo pode mudar… Mil beijos,e que Deus abençõe sua familia !

    1. Obrigada pelo seu comentário, Danielle. Compartilho totalmente das suas preocupações, no Brasil é mesmo muito difícil e demanda uma verdadeira batalha ter um parto humanizado. Uma das razões pelas quais eu não voltei para ter a bebê aí exatamente essa, ter que brigar demais. Mas acho que o caminho que você achou é um dos bons caminhos. Parto em casa garante mesmo um respeito às suas escolhas e aos seus ritmos e, se tudo correr bem na sua gravidez, penso que é a melhor maneira de você trazer o bebê ao mundo em toda calma e serenidade. Não sei se você viu os links de outros blogs e sites na barra lateral do blog, mas ali tem muita gente com boas informações. Em que cidade você está? Tem um pessoal que trabalha muito bem em São Paulo com parto domiciliar, a equipe Hanami, você conhece? Bom, vamos trocando figurinhas. Boa sorte e que tudo corra bem ao longo da sua gravidez. Um abraço.

  2. Nossa! Relatos de parto são sempre emocionantes! Mas quando descrevem uma situação que almejamos, nos toca ainda mais! Estou grávida de 30 semanas e desde o início, sempre busquei gente que apoiasse o parto humanizado – apesar de toda a força contra que vivemos aqui no Brasil (em Salvador, Bahia, então, nem se fala!). Agradeço por dividir com a gente tão lindamente sua experiência. E o agradecimento também é por dar fôlego e força pra continuar nessa busca e ver que realmente vai valer a pena!
    Bjs

    1. Puxa, Natália, obrigada. Eu concordo contigo que é muito complicado mesmo no Brasil para quem quer um parto humanizado. Tem que brigar muito, em um momento em que deveríamos ter sossego para gestar em paz. Isso é duro. E os relatos de parto ajudam mesmo a gente a manter-se brigando. Ao menos, para mim foi assim, eu lia e pensava: bom, isso é possível, não é um capricho da minha parte, outras pessoas passam por isso, é legítimo querer isso para mim e para a minha filha também. Não sei se serve de consolo, mas aqui também foi preciso muita briga e muita procura para achar um jeito e um lugar para dar à luz com o mínimo de dignidade. E olha que estamos falando de França, né? São raros os países onde isso é garantido, mas realmente no Brasil a situação é aberrante. Parabéns por correr atrás de algo que é mais do que um direito. E, sim, continue se cercando de gente, de informações, de apoio por todos os lados, pois isso pode fazer muita diferença na hora H. Um abraço e boa sorte.

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