O tempo da paciência e a paciência do tempo.

Eu havia escrito, aqui mesmo nesse blog, como a experiência do tempo fica diferente quando nos descobrimos grávidas. Ele começa a passar rápido e devagar ao mesmo tempo, o fato de saber que existe um prazo de validade para o que se está vivendo contribuindo para sua rapidez (9 meses passam voando) e o chocar, gestar, gerar e toda a introspecção que isso implica contribuindo para sua lentidão. Mas esse tempo se torna ainda mais paradoxal depois que nasce o bebê.

O próprio ritmo que se instaura, desde o primeiro dia, cuida de te deixar um pouco fora do tempo. Os ponteiros do relógio viram intervalos entre mamadas, trocas de fraldas, banhos, canções de ninar. E, no início, esse é um ritmo que os dois desconhecem: a bebê não sabe ainda como faz para mamar, dormir, se acalmar, ter suas necessidades atendidas. E a mamãe não faz idéia de por que chora a sua bebê. Tempo… tempo para se conhecerem, ou para se reconhecerem, aquele ritmo dentro da barriga que se tornara tão familiar é similar a esse que se instaura agora, com a diferença de que agora a bebê precisa e a mamãe tem que dar conta. Antes, os corpos se encarregavam de tudo e bastava apenas confiar nessa homeostase. Agora, existe um pas de deux a ser inventado.

O tempo de seguir esse tempo, de se abandonar ao tempo que não se compreende, ao ritmo que se desconhece, àquilo tudo que ainda não existe a não ser em projeção: seguir o ritmo do bebê, atender suas demandas e esperar… Esperar poder identificar o ritmo nisso tudo e, com mais um pouco de tempo, reorganizar seu próprio ritmo em torno dessa dança que se faz entre mãe e bebê. Porque é de uma reorganização que se trata, de uma reinvenção do tempo e do tempo próprio que leve em consideração que a vida mudou totalmente. E que surgiu uma nova pessoa e, com ela, novas necessidades, novos ritmos, novas prioridades.

Tem gente que não tem tempo a perder com nada disso e quer mais é que tudo volte rapidamente a ser como antes. Gente que se impacienta com esse tempo frouxo, mole, meio enevoado de sono, de sonhos, de noites e dias sem dormir ou sem dormir do jeito como se dormia, de sons de choro e de silêncios nos quais se buscam respirações. Um tempo que parece devaneio, em que não é possível estar muito aqui, pois a novidade desse contato e dessa nova existência mexe com tudo no tempo e no espaço. Um tempo que incomoda justamente por ser assim tão silencioso, profundo, obrigando a olhar, a escutar, a falar. Todo o contrário do tempo dos nossos dias, em que passamos muito tempo justamente perdendo-o, enchendo-o de coisas que o façam passar depressa, sem nos atingir muito com suas mazelas. Queremos um tempo que não nos toque.

Encontrei pessoas que dizem que procuram desde o início impor um ritmo, o seu ritmo, o seu ideal de bom ritmo para aquele serzinho que mal chegou, sem nem lhe oferecer a oportunidade de se manifestar e de dizer a que veio. Nem esperam para ver como o bebê age e para tentar responder a ele e já vão enfiando o seu modo goela abaixo. Afinal, eles sabem o que é bom. Eles sabem do que o bebê precisa. Não o conhecem, não o escutam, não o compreendem, mas sabem. Sabem antes mesmo dele dizer qualquer coisa. Coisa de psicótico que sabe?

Pessoas que suportam uma noite mal dormida e acreditam que na segunda noite já é hora do bebê fazer intervalos mais longos. Que intervalos? Por que um bebê deveria aprender, de uma noite para outra, a dormir mais em determinados horários? Ele que estava na barriga onde não havia dia e noite precisa agora entender isso a toque de caixa e dormir à noite? Nessas horas penso em todos os meus conhecidos que têm insônia ou que trabalham de noite e dormem de dia e acho muita graça dessa idéia de que um bebê precise se conformar àquilo que tantos adultos nunca se conformaram… Contraditório, não?

Pessoas que sustentam que alguns dias depois de nascido o bebê deve poder se acalmar sozinho, no berço, mesmo quando estiver chorando. E que isso lhe fará bem. E lhe ensinará a ter autonomia e autocontrole. A despeito de todas as pesquisas e relatos que provam justamente o contrário, que um bebê que precisa “se virar sozinho” aprende apenas a respeito do desamparo e não das condições para fazer face às dificuldades da vida. Ou seja, ele aprende a desistir de acreditar que poderá ser cuidado. Ele não aprende como se cuidar porque, simplesmente, ele não tem condições para isso. Se tivesse, ele seria como um cavalinho, que nasce em pé e sai galopando, não um bebê humano que nasce precário e precisa de ainda muito tempo até ter recursos próprios para cuidar de si.

Pessoas perdem a noção de tempo frente a um bebê. E começam a despejar todas as ansiedades de todos os limites que se imporão, certamente, algum dia. Mas que, na cabeça e na atitude delas, devem começar agora. Agora significando um momento em que um bebê precisa apenas de tempo e de cuidado, não de imposições e limitações arbitrárias que, assim tão cedo, vão funcionar apenas como violência e abandono. Acho que não dá para se enganar e nem se iludir: um bebê “bem adaptado” não é um bebê que obrigatoriamente está bem. Por vezes, é justamente o contrário. Talvez você se sinta bem e bem sucedido enquanto mãe ou pai por vê-lo conforme às regras. E, nossa!, quantos livros e vídeos e toda sorte de parafernália pseudo-informativa são produzidos justamente para você “adestrar” bem o seu rebento e torná-lo conforme a esse mundo. De preferência, em tempo recorde. E talvez isso te convenha mais do que a ele. Mas o preço que essa normatização forçada cobra vem na conta mais tarde. Sempre. Posso dizer isso de camarote, meu consultório e o de muitos colegas, não apenas psicanalistas, é muito bem frequentado por uma quantidade considerável de pessoas que não tiveram tempo para existir e que nunca tiveram respeitado o seu tempo e a sua voz. Não puderam se inventar, nem serem conhecidas ou reconhecidas, pois a elas foi imposta de cara a tal da adaptação. Isso não é assunto novo, basta retomar O normal e o patológico, do Georges Canguilhem ou boa parte da obra do bom e velho Foucault que falam sobre a norma e a normalização das subjetividades para perceber que isso que eles discutem para a questão da loucura, por exemplo, vem exatamente da mesma ideologia daquilo que levamos para casa como solução mágica e bem vinda para “enquadrar” nossos bebês. Putz! Que tal?

Vejo pessoas incapazes de se darem um tempo e, consequentemente, de terem a mesma generosidade com um bebê recém-nascido. As palavras de ordem são justamente ordem, regra, disciplina… a intolerância aflora com o primeiro choro, com a primeira dificuldade, com a primeira incompreensão. Ao invés do tempo, essas pessoas aflitas optam por sair correndo em direção ao futuro, ao dia em que os bebês dormirão noites inteiras e dirão o que precisam. Com precisão. E querem impor esse futuro agora, deixando bebês chorarem, deixando bebês sozinhos, decidindo o horário das mamadas, decidindo qual choro é fome ou não a partir do horário da última mamada… decidindo se aquilo que o bebê comunica é válido ou não. Os bebês se manifestam, os adultos se desesperam e, para seu conforto próprio, para evitarem a sua angústia frente a esse pequeno desconhecido, optam por impor suas regras, escolhidas com base em não sei o que. Certamente, não com base na experiência com aquele sujeitinho singular ali, o único que pode dizer, com certeza, o que precisa, e como, e quando.

O que se ganha com isso? Noites de sono melhor dormidas? Não sei não. Não sei a quem é possível dormir escutando um bebê chorando ali do lado. Ou a quem é possível não oferecer comida ao menos para testar se o incômodo manifesto em choro é fome. Quem é que consegue se entregar tão pouco assim e confiar tão pouco no tempo?

Esse tempo desse bebezinho caótico e desamparado, o tempo dos dias enevoados e dos ritmos fluidos vai passar, como todos os outros tempos. E se você perder a oportunidade de vivê-lo e preferir saltar imediatamente para o momento em que tudo se arranja de uma maneira mais ordenada, para sua comodidade e para seu alívio de ter reassegurada sua condição de boa mãe ou bom pai, tudo o que posso pensar, desse meu lugar de habitante temporária desse paradoxo do tempo, é: que pena! Que pena perder uma descoberta e uma construção conjunta que tem momentos tão bons. Como a madrugada, quando o silêncio se instala na casa e na cidade e apenas vocês estão ali, meio sonolentas, meio dormindo, meio acordadas, a bebê nos braços da mamãe, cada uma abre um canto de olho e se olham e a pequena faz mil caretinhas à meia luz, e mil outros barulhinhos, e mil gestos entre desengonçados e harmoniosos. É tempo de aproveitar cada minuto desse tempo.

Aprendi recentemente (e rapidamente) que os primeiros tempos de um bebê são tempos de construir paciência. Uma infinita paciência e uma confiança inabalável no tempo.

3 comentários sobre “O tempo da paciência e a paciência do tempo.

  1. Eu tenho que me controlar para nao ser uma dessas maes ansiosas achando que eh possivel colocar tudo dentro de uma rotina (ate porque, nao sou organizada o suficiente para estabelecer uma rotina para mim mesma). Mae da 2a, ja aprendi que eh assim mesmo, as coisas vao se encaixando com o tempo e que esse tempo que estou de licenca maternidade nao eh pra ficar postando fotos no blog pra familia poder acompanhar, nem pra colocar a roupa suja na maquina, nem pra me inscrever em todos os curtos de mamae-bebe que existem por aih: eh para eu e bebe, bebe e eu nos conhecermos, nos amarmos; eh curtir essa criaturinha que vai crescer e me deixar morta de saudade de segurar um tiquinho de gente no colo por varias horas seguidas.

    1. ah, você tem toda razão, é mesmo um tempo para se conhecer e para curtir e é difícil conseguir não tentar botar ordem em tudo, né? porque é uma tentação querer controlar, organizar, encaixar já logo os pequenos em uma rotina. mas, eu penso como você, depois esse tempo passa e vai dar uma baita saudades, melhor aproveitar agora.

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