Amamentar é…

… mais difícil que parir.

Quem diria!?

Talvez pelo fato de ser algo estendido no tempo – ao contrário do parto que, mesmo longo, é pontual – parece que amamentar é um desafio renovado a cada mamada, durante todo o tempo que dure essa experiência. Nem sempre a conquista de uma mamada se transfere para as seguintes, nem sempre o ritmo conquistado em um dia vale para o próximo. Se o parto é um sprint para o qual você se prepara como um Usain Bolt das contrações eficazes, a amamentação é uma maratona: não adianta correr feito louca para acertar tudo de cara porque isso apenas vai esgotar as suas forças. Ninguém ganha uma maratona no grito. É preciso ritmo, persistência e uma imensa dose de paciência e de… humildade.

Porque, sim, amamentar é algo que fazemos desde a aurora dos tempos, como parir. E possivelmente muitas e muitas mulheres passam por isso com tranquilidade e sem muitas questões. Mas quantas de nós enfrentam um sem número de dificuldades que acabam inviabilizando o aleitamento? Perdemos nossa capacidade de alimentar nossas crias?

Aqui na França, existem basicamente duas vertentes: uma que entende que amamentar é escolha da mãe e que tudo bem que ela possa escolher não fazê-lo e dar mamadeira para o seu bebê desde o nascimento (como se leite em pó fosse equivalente ao leite materno e não trouxesse vários prejuízos, como o aumento das alergias e a falta de anticorpos contra uma série de doenças, que são passados apenas pelo leite da mãe, para citar apenas dois exemplos…) e uma outra vertente que valoriza o aleitamento materno, que caiu em desuso por aqui, munindo-se de várias estratégias para tentar convencer as mulheres que amamentar é bom (você emagrece, previne câncer de mama – porque os argumentos em prol da saúde do bebê não parecem suficientes em nossa cultura tão hedonista). Como eu já escrevi anteriormente, busca-se incentivar a amamentação por aqui. E isso é feito nos grupos de preparação para o parto, em cursos específicos sobre amamentação, na maternidade, logo que o bebê nasce, quando se incentiva que ele mame na primeira hora de vida… E também ao longo da sua estada por lá, quando sage-femmes e auxiliares de puericultura podem ser chamadas para te ajudar, te dar sugestões sobre posições, pega do seio e etc… Mesmo depois que você recebe alta, pode solicitar uma sage-femme em visita domiciliar, que avalia como está sendo o processo de amamentar em casa. Ou você pode retornar à maternidade para discutir a respeito com a equipe. Ou pedir a ajuda de uma especialista no assunto, de uma das várias associações que trabalham com isso e que oferecem esse tipo de assistência… Enfim, a oferta de informações e de auxílio é vasta e diversificada. E isso, se por um lado ajuda, por outro é capaz de te enlouquecer.

Tenho descoberto que existem tantas posições e orientações com respeito à amamentação quanto existem mulheres no mundo que amamentaram. Em pouco mais de um mês de experiência, já recebi uma infinidade de conselhos díspares, contraditórios e excludentes capazes de confundir até mesmo a pessoa mais sã, zen e decidida desse planeta. Não é fácil. Eis aí mais uma das situações ligadas à maternidade em que as informações são úteis desde que você consiga, em um dado momento, tomar uma posição baseada naquilo que você acredita que seja importante.

O que é importante para você? O que você julga importante para seu filho? Que ele mame no peito? Que ele ganhe peso? Que ele siga o padrão médio da curva de crescimento? Que ele tenha a oportunidade de ter todos os benefícios alimentares e afetivos que apenas o leite materno e a amamentação podem oferecer? Que ele e você possam descobrir como funciona essa história de maneira singular? Ou que vocês se adequem ao que é dito como “o esperado”?

Espanto-me com a quantidade de mulheres às voltas com o mesmo problema: primeiro mês de vida do rebento e o pequeno cisma em perder peso, ou em não ganhar peso depois da saída da maternidade, ou até em ganhar, mas menos do que o que seria o “normal”… E lá vamos novamente para o maravilhoso mundo das regras e das considerações sobre o que é normal e sobre o que é esperado. E a partir dessas generalizações, cada um tira suas conclusões sobre o que deve ser feito em cada um desses casos. E, espantosamente, a orientação de pediatras e afins é quase sempre a mesma: complementar. Nome bonitinho para dar leite em pó em uma mamadeira para seu bebê. Que ele esteja muito bem de saúde segundo todos os outros critérios, que ele tenha ganho pouco peso, nenhum ou perdido, nada disso parece fazer muita diferença: saiu da curva, indica-se o complemento. E nos desesperamos com a perspectiva de nosso bebê estar passando fome. E essa insegurança nos leva, muitas vezes, a acatar as orientações sem nem mesmo parar um segundo para pensar.

Quando foi que as generalizações tomaram o lugar do famoso exame clínico e se tornaram mais importantes do que ele? Desde quando exames, curvas, medidas e afins indicam uma conduta e uma orientação médica de tamanha importância como essa de botar em risco o aleitamento materno pela introdução da mamadeira? Ao invés do exame de cada caso particular e uma orientação condizente e coerente com o que se passa com cada bebê em cada momento, por que a solução homogeneizante? Médicos e profissionais de saúde parecem não quererem mais, na sua maioria, se comprometer em tomar uma posição frente a um conjunto de dados que recebem e inferem no contato com seus pacientes. Delegam essa responsabilidade para as medidas, as normas gerais, as condutas instituídas, as médias nos resultados dos exames. Pensar com a própria cabeça fica para os pais que, se não forem totalmente aterrorizados pelo discurso circundante, talvez possam descobrir que seu filho vai, sim, muito bem, obrigada. E que existem umas tantas coisas que podem ser feitas antes de apelar para a mamadeira.

Porque mamadeira com leite artificial vai, sim, favorecer o desmame precoce. E, se você se importa com isso, melhor saber onde poderá encontrar ajuda. Aí vai uma pequena lista não exaustiva de lugares onde obter informações que te tragam alternativas ao combo gentilmente prescrito por quase todos os profissionais de saúde em todos os casos acima mencionados, sem distinção entre Brasil e França, nem entre as diferentes situações vividas por mães e bebês que enfrentaram esses problemas:

Na França:

No Brasil:

Tenho amigas paras as quais o radicalismo da amamentação à qualquer preço estragou a experiência ao torná-la obrigatória e precipitou o uso da mamadeira. Ou seja, existe rigidez de todos os lados e isso não faz bem a ninguém, especialmente às mães que estão às voltas com o delicado processo de alimentar seus filhos a partir do próprio corpo, o que é um acontecimento estranho para nós ocidentais classe média intelectual com pouco ou nenhum contato com o mais primitivo de nossos próprios corpos. Mas vejo ainda mais radicalidade do lado daqueles que rapidamente oferecem a solução da mamadeira, mesmo ali onde ela não é necessária, nos privando justamente dessa experiência tão inquietante e mobilizadora.

Amamentar é bom, é prazeroso, é um contato de uma profundidade e de uma ternura inacreditáveis entre uma mãe e um bebê. Um amor em forma líquida, um olhar, uma troca. Mas é também inquietante, na medida em que você não controla a maneira como aquilo acontece. É ser alimento e isso incomoda muita gente. É ser solicitado em permanência e isso incomoda ainda mais. É ter que assumir e sustentar que a prioridade é esse ato e não as mil outras coisas que você poderia e/ou gostaria de estar fazendo naquele momento. Então, é fundamental que ali haja realmente desejo, desejo de amamentar. Senão, a coisa não tem onde se sustentar.

Como o parto, mas estendido no tempo, cada dia é um dia. E você depende tanto do seu bebê quanto ele de você para que dê certo. Ambos dependem de um encontro delicado, em que vão tendo que descobrir como funcionam para que haja leite para saciar a fome do pequeno ser. Dependem de uma entrega mútua, de uma confiança que se faz apenas na medida em que a mãe consegue ter calma e segurança o suficiente para saber que pode dar certo. A opção da mamadeira mina essa confiança. As falas de pediatras e outros profissionais de saúde que advogam que nenhum bebê pode ser ele mesmo e que nenhuma dupla mãe-bebê pode tentar encontrar seu caminho, mas devem seguir as regras também minam essa confiança. Os comentários de maridos, avós, familiares e amigos que não cessam de se espantar que o bebê queira mamar toda hora, que perguntam se tem leite ali, que indagam quando o sujeitinho vai dormir mais, que anseiam pelo peso como pelo troféu no final do campeonato, que insistem que uma mamadeirinha de noite não vai mudar nada e ainda vai fazer com que o pequeno durma a noite toda e te deixe descansar… tudo isso mina essa confiança tão fundamental para que uma mãe possa amamentar seu bebê. Com tanto “apoio”, não é de se espantar que tantas mães relatem dificuldades de amamentação ligadas ao mito do “pouco leite”, também conhecido como “meu bebê não ganha peso porque eu não tenho leite suficiente”. Será que é mesmo assim?

Tenho pensado que do mesmo modo que necessitamos de um renascimento do parto para recolocar as coisas em perspectiva e levantar algumas questões acerca de como concebemos o nascer hoje em dia, precisaríamos também de um renascimento da amamentação que pudesse perguntar para esse status quo qual o sentido de todo esse discurso jogado aos sete ventos sobre os modos de alimentar um bebê. Imagino que a indústria de alimentos, assim como a das mamadeiras e de todas as tranqueiras necessárias que a acompanham teriam muito a dizer a seu favor. E em prol desse discurso que desestabiliza mães e bebês em um momento de fragilidade em que tudo o que eles precisam é de apoio, compreensão e tempo. E os médicos? Por que apoiariam os interesses da indústria ao invés de priorizar o bem estar dos bebês? E as pessoas em geral, por que insistiriam nesse discurso desencorajador?

Amamentar é uma batalha cotidiana contra os outros, como o parto. E é mais difícil, pois o bombardeio é incessante. Cansa mais do que o cansaço desse ritmo inicial de convivência entre mãe e bebê. Cansa mais do que acordar durante a noite para as mamadas. Na obscuridade dos seios que não trazem um marcador de medida e nem um indício de quanto um bebê mamou e na obscuridade dos choros, cocôs, xixis e outros sinais de um bebê que não pode dizer com todas as palavras que tudo vai bem para ele estão depositadas todas as chances de uma amamentação. Da cabeça e do coração de uma mulher dependem os dois para que isso funcione. Tudo tão delicado. É um aprendizado cotidiano de humildade o ato de amamentar… As pessoas ao redor dessa dupla mãe-bebê poderiam se engajar também em uma posição de mais delicadeza e humildade, não?

5 comentários sobre “Amamentar é…

  1. Esse é um quesito que morro de medo! Medo de não acertar, medo da bebê não ganhar peso, medo de sucumbir às especulações “seu leite é fraco”, etc. Por enquanto, vivo apenas as experiências das primas e amigas que já passaram por esse momento. Algumas relatam MUITO sofrimento: privação de sono, feridas nos seios, bebês emagrecendo. Já outras dão destaque ao sucesso, dizendo que apenas a fase de adaptação é difícil, que na medida em que vc começa conhecer seu bebê, tudo é sublime! Prefiro me agarrar a esses últimos depoimentos e fazer acontecer pra que comigo dê muito certo!
    Já leu Laura Gutman? “A maternidade e o encontro com a própria sombra”? Tem um capítulo sobre amamentação que protesta bem sobre a falta de apoio à mamãe-bebê nesse período – muito bom!
    Sucesso!
    bjs

    1. Natália, pois é, não li ainda, mas tenho ouvido falar tanto que vou ter que ler esse livro. Agora, sobre a amamentação, acho que não precisa ter medo. Verdade que têm muitas histórias d dificuldades, mas muitas delas são superadas. Acho que é um desafio maior que o parto porque dura mais tempo e se renova a cada dia. Mas nada nos impede de dar conta dele, basta ter paciência, cuidado, respeito consigo e com o bebê… Um abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s