A primeira vez.

Quando minha irmã deu à luz ao meu sobrinho, me fascinava olhar para aquele pequeno tão novinho e imaginar que, cada uma das milhares de coisas que fazemos cotidianamente, ele experimentaria pela primeira vez. Respirar, enxergar, as cores, a brisa no rosto, os cheiros, as texturas, os sons. Imagina poder testemunhar tantas das coisas desse mundo sendo vividas pela primeira vez por uma pessoa e suas reações à cada descoberta? Imagina poder apresentar tantas dessas coisas à alguém? Que responsabilidade e que encanto, poder oferecer a um ente querido as nossas melhores primeiras vezes e poder redescobri-las com ele, com esse olhar novo e arregalado que têm os bebês pequenos a cada vez que descobrem.

Eis-me agora às voltas novamente com as primeiras vezes, dessa vez da minha filha. E o encanto, a responsabilidade, a emoção e a redescoberta do mundo e da vida se revelam ainda mais intensos a cada dia, a cada nova experiência para ela que eu posso testemunhar ou da qual posso participar. Um privilégio poder apresentar o mundo a alguém. Um privilégio poder participar dessas primeiras vezes.

Assim, algumas das primeiras vezes tão tocantes desses poucos meses de vida da minha pequena, revistas pelo olhar de uma mãe que não sabe exatamente o que ela sentiu ou viveu, mas que estava presente e viu em seus olhos aquele encanto de uma descoberta:

  • a primeira mamada em que desceu leite ao invés de colostro, ainda na maternidade, e seus olhos arregalados de “ops… uau!”
  • a primeira vez em que a vovó te deu a mão no carro enquanto você chorava e você descobriu uma mão e a segurança que dá segurar a mão de alguém…
  • a primeira vez em que você ganhou um beijinho em cada pé e seus olhos espantados por ter pés, de sentir pés e de sentir beijinhos nos pés…
  • a primeira vez do gosto esquisito da vitamina e sua careta com a língua tocando a colher…
  • a primeira vez no jardim, com o vento batendo no rosto e um cheiro de jasmim chegando no seu nariz…
  • a primeira vez em que a vovó te cantou uma música inventada e você silenciou, cheia de atenção, e dormiu…
  • a primeira viagem de trem em que você ficou um tempo olhando pela janela, abismada com as paisagens que passam, os campos, os verdes, o céu, as nuvens, as luzes, tudo passando lá fora tão rápido e desfilando refletido em seus olhos abertos, tão abertos…
  • a primeira vez que cada pessoa de nossas famílias te pegou no colo e sua curiosidade com cheiros, vozes e sorrisos…
  • a primeira vez que você sorriu quando eu trocava sua fralda… e vai saber do que você achou tanta graça…
  • a primeira vez que você descobriu a mão na boca que o papai te ensinou a encontrar…
  • a primeira vez do cheiro de creme na minha pele e seu estranhamento com essa que nem parecia mais a mamãe…
  • tantas primeiras vezes no banho, cada encontro com a água quentinha, um reencontro, um prazer de perninhas esticadas, cabeça solta, corpo relaxado em movimento…
  • a primeira vez das luzes de Paris amareladas de noite, deslizando vistas de dentro de um carro…
  • a primeira vez em que descobriu um brinquedo em seu berço, uma abelhinha colorida e tremeliquenta que te fez sorrir e soltar gritinhos…
  • o primeiro vermelho… a explosão do primeiro vermelho…
  • o primeiro susto apavorado de quando enfiaram uma agulha no seu bracinho para um exame de sangue… porque nem todas as primeiras vezes são felizes…

Mas muitas são.

Não sei que memória um bebê pode ter dessas vivências. Talvez o mais correto seria falar em marcas, marcas inconscientes, traços…

O que quer que reste, resta em mim a lembrança dessas primeiras vezes para eu te contar. E a vontade de ter filmado, fotografado, registrado, aprisionado em algum lugar para que nunca se perca. Ou não. Tem coisas tão bonitas que é melhor viver do que registrar. E botar em palavras, essas que sempre são tão insuficientes…

A primeira vez que nos vimos e nos encontramos, na sala de parto…

5 comentários sobre “A primeira vez.

  1. Alessandra, se as primeiras vezes dentro da barriga já são emocionantes, imagino fora dela! A primeira ultrassom, a primeira mexida, a primeira vez que ouvimos aquele tum tum alto do coraçãozinho… Muita gente exalta a estafa que nos dá um bebê recém nascido. Adoro seus textos por nos fazer ansiar viver essas delícias das descobertas!
    Bjs

    1. Natália, obrigada! Você lembrou bem das primeiras vezes na barriga, é bem verdade. Uma emoção inacreditável ao ouvir o coração, na primeira mexida… São tantas primeiras vezes nessa época… que revolução! Abraço grande.

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