As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Depois da saga sobre a gravidez na França, que apresentei nesses posts aqui, começamos a descobrir como é ser mãe no país das luzes. E, como primeira impressão, poderia dizer que é fácil, só que não.

A facilidade está em que a maternidade é tão protegida quanto a gravidez, contando com assistência e serviços de qualidade. E a complicação está aí também, pois esse cuidado acolhedor chega a ser excessivamente intrusivo e contraproducente em certos momentos. Me explico.

Na França, você passa cerca de 4 ou 5 dias na maternidade, mesmo que tenha tido um parto normal e uma excelente recuperação. Eles costumam esperar que o bebê volte a ganhar peso para dar alta. E aí vem o meu primeiro senão: os franceses são obcecados com curvas de peso. Eles pesam o bebê todos os dias e, ao sair da maternidade, aconselham os pais a pesarem seus rebentos todas as semanas. Há pessoas que chegam a alugar ou comprar balanças apenas para pesar seus bebês, como se o peso fosse o único indício palpável de que vai tudo bem com o rebento. Tanto mais se você amamenta, porque daí não tem como saber mesmo o quanto o bebê mama, se é o suficiente, se ele está bem. Então alguém teve a grande idéia de tentar controlar isso por meio do ganho de peso e deu no que deu: mães enlouquecidas com bebês que ganham pouco, nenhum ou perdem peso no começo da vida e profissionais de saúde orientando precipitada e equivocadamente essas mães a darem mamadeira e leite artificial. Em um país em que a amamentação passou anos e anos em desuso, sendo até mal vista e condenada, essa pressão toda sobre mães e seus bebês acaba sendo um desserviço a ambos.

De todo modo, em termos de serviços prestados, é importante saber que:

  • ainda na maternidade, sage-femmes e enfermeiras especializadas em puericultura te acompanham e dão todas as orientações a respeito do bebê: banho, troca de fraldas, posição correta para amamentar e etc.
  • mesmo depois da alta, você pode retornar à maternidade para conversar com puericultrices e sage-femmes sobre dúvidas que tenha em relação ao cuidado com o bebê. Muitas maternidades oferecem, ainda, uma visita domiciliar de um desses profissionais, o que é bom nos primeiros dias, pois especialmente no que diz respeito à amamentação e à rotina dos cuidados, as dúvidas mesmo começam a surgir quando você chega em casa e tem que lidar com o pequeno por conta própria.
  • uma outra possibilidade é chamar uma sage-femme que trabalhe como como autônoma para esse acompanhamento domiciliar. A seguridade social cobre essas visitas e se você fez algum curso de preparação para o parto, possivelmente terá sido com uma sage-femme que atende como profissional liberal (nem todas as maternidades oferecem esses cursos in loco, elas indicam uma lista de pessoas as quais procurar). Pois então, se você fez algum acompanhamento ou curso durante a gravidez, possivelmente conhece já uma sage-femme e, se gostou do modo como ela trabalha, pode pedir que ela faça o acompanhamento domiciliar pós-parto também. Nessas visitas domiciliares, elas examinam o bebê, seus reflexos, seu estado geral, pesam e orientam quanto à amamentação e aos cuidados.
  • se as dificuldades e dúvidas foram a respeito da amamentação, além desses recursos, você pode ir às reuniões do La Leche League ou do IBCLC. Ambas as instituições têm consultoras que, além de grupos, fazem visitas domiciliares. Eu aconselho recorrer a elas caso esteja com alguma dificuldade que sage-femmes, puericultrices e pediatras não tenham conseguido sanar, o que não é difícil, visto que esses profissionais dão informações muito desencontradas e muito centradas sobre a curva de peso, o que não equivale necessariamente a um índice de saúde do bebê. No que me diz respeito, apenas as puericultrices foram atentas ao meu desejo de amamentar e me deram sugestões nesse sentido quando tivemos dificuldades.
  • você e o bebê saem da maternidade com as prescrições necessárias para cada um e a indicação de visita ao pediatra ou generalista para a consulta de um mês do bebê e a consulta de seis semanas sua ao ginecologista.
  • na França, o acompanhamento do bebê se faz uma vez por mês, com pediatra ou clínico geral especializado em atender crianças. A vantagem do segundo é que é totalmente coberto pela seguridade social, enquanto para os pediatras, apenas as consultas mensais são integralmente cobertas, todas as outras sendo apenas parcialmente reembolsadas. Na França, a cultura do médico generalista e de família é priorizada em relação à consulta com especialistas.
  • o bebê sai da maternidade com um “carnet de santé”, onde constam todos os dados dele, do parto, das consultas e intervenções que eventualmente tenha sofrido. Ali estão orientações para todos os meses e consultas, o carnê de vacinação, as curvas de crescimento onde vão anotar peso e medidas do bebê. Cada profissional com o qual seu filho consultar vai pedir esse carnê e fazer anotações nele. É o melhor jeito de centralizar informação.
  • por fim, existe um serviço na França que é a PMI – Protection Maternelle et Infantile – em que se agrupam serviços de saúde e serviços sociais. Eles dispõem de centros, divididos por região, onde você conta com atendimentos de assistentes sociais, médicos, sage-femmes e puericultrices. É um bom lugar para fazer o acompanhamento da sua gravidez, caso não tenha um médico particular no início e/ou não queira ou não possa fazer esse acompanhamento na maternidade onde pretende dar à luz. Mesmo que não tenha feito isso, ao longo da gravidez, estando inscrita na seguridade social, eles te enviarão uma carta convite para uma reunião, em que te explicam todos os procedimentos pós-nascimento, cuidados, dicas, inscrição em creche e por aí vai. Por fim, te indicam qual o centro mais próximo do seu endereço e quais os serviços e horários que oferecem para o pós-parto: consultas médicas, consultas com a sage-femme, plantão das puericultrices para tirar dúvidas… Tudo muito organizado e eficiente. O único senão é que a PMI é um dos lugares em que dirão para ir com o bebê pesá-lo uma vez por semana (!), caso você não tenha ido na onda de alugar uma balança. E, se você topa a loucura da pesagem semanal, eles vão te aporrinhar com hora marcada caso seu bebê destoe da famigerada curva de peso. Foi o que eu disse: excessos que, por vezes, estressam e oprimem ao invés de ajudar. Você iria?

Em tempo, se você está inscrita na seguridade social, desde que seu bebê é registrado (muitas maternidades têm esse serviço no próprio local, uma maravilha) você pode mandar uma cópia da certidão de nascimento e eles incluem o rebento na sua “carte vitale“. Com isso, consultas e medicamentos são custeados total ou parcialmente pelo estado, inclusive vacinas.

5 comentários sobre “As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

  1. Quatro dias na maternidade?! Nossa! Aqui sao 24 horas, mas como me disseram que se a gente “brigar” a gente consegue alta mais rápido, saimos da maternidade 6 horas depois que Beatrice nasceu. E só demorou tanto porque nunca tinha ninguem pra assinar a papelada. Se eu pudesse voltar no tempo, sabendo o que eu sei hoje do meu 2o parto, teria tido em casa.

    1. Pois é, menina. Eu ando convencida que os franceses têm muito o que aprender com os ingleses, porque a coisa por aí é muito mais humana que do lado de cá da Mancha. Eles são hipermedicalizadores e abusam das intervenções. E condenam parto domiciliar, pode? Eu, se tiver um segundo parto, vai ser em casa também. Abraço grande.

  2. Olá conheci o seu blog hoje, adorei!
    Muito bom!!!
    Estou morando na França a 2 meses e estou grávida de 3 meses, ando perdida… Não tenho papéis ainda, estou a espera dos documentos para o casamento, meu namorido é português, e tem residência suica, e também trabalha na Suíça (Genève).
    Eu adorei as informações que tem aqui no seu blog… Parabéns!!!
    Mais realmente estou muito confusa com as coisas aqui…
    Fui a maternidade do meu local de residência (Annemasse) e expliquei a situação que estou a viver aqui a pouco tempo e ainda Ñ tenho a carte vitali, eles logo marcaram uma consulta c o ginecologista e sage femme e falaram que meu dossier ficará em espera.
    pois ainda Ñ tenho direito a carta de saúde por Ñ residi aqui a + de 3 meses.
    É tudo mt estranho pra mim, mais a verdade que fui bem atendida, mais não sei o que me espera…

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