Desmitificando…

… alguns mitos sobre gravidez, parto e maternidade. Porque as pessoas têm algumas crenças bem estranhas, que tomam como verdades, sem nem ao menos se dar ao trabalho de colocar certezas em questão.

Por exemplo, o mito de que o corpo fica deformado, despencado, feio depois de gravidez, parto e amamentação. Que é largamente reforçado pela mídia caça-celebridades que sempre estampa em suas manchetes mulheres que acabam de parir já com barriga tanquinho, peso de antes da gravidez, tintura do cabelo feita, unhas impecáveis e por aí vai. Tivemos recentemente um novo capítulo dessa discussão quando a princesa Kate Middleton decidiu sair da maternidade um dia após dar à luz de vestido azul e barriguinha pós-parto à mostra, o que muita gente achou criticável. Ainda bem que muitas outras acharam lindo, uma bela homenagem ao parto e à mulher “normal”. Me incluo entre essas.

Mas, será assim mesmo tão deteriorante para o corpo a experiência da gravidez e da maternidade a ponto de justificar que mulheres optem por uma cesariana para não tê-lo “danificado”?

A meu ver, isso se discute. E muito. Minha hipótese, baseada apenas na minha experiência e no que ouvi como relato de algumas outras mães, é que parir de um parto respeitoso e humanizado te devolve a seu corpo e te ajuda a fazer as pazes com ele, escapando dessa ditadura das aparências, das formas, das gorduras. Ou seja, eis mais uma vantagem do parto humanizado que periga desgostar o mercado que lucra em cima de nossa insegurança e de nosso desconforto em nossa própria pele: para que cirurgias estéticas, dietas absurdas, ditadura da magreza, obsessão com a boa forma se, através de uma experiência como parir você se der conta que tem um corpo – e não um vazio desagradável que tem que preencher e controlar – e que esse corpo é bom, bonito, potente e cheio de saúde? Putz! Guarda esse segredo aí, minha gente.

Eu fiz ballett clássico por toda a minha infância e adolescência e, em seguida, vários tipos de dança até a época em que comecei a trabalhar. Sempre fiz o estilo “tábua” antes de ser fashion. E nunca fui alta o bastante para ser modelo. E isso me incomodava sobremaneira, essa ausência de curvas. Porque, ao menos no Brasil e naquela época, desejável era ser mulher violão, né? Naquela época não, até hoje. Podemos pensar que eu destoava mas, na verdade, não fossem as curvas, seria outra coisa, os cabelos castanhos, ondulados, os olhos castanhos… vai saber. O que sei é que sempre haveria algo porque não existe uma mulher nesse mundo de hoje a quem não seja atribuído um defeito em relação à sua aparência. Ou seja, nenhuma mulher escapa de ter alguma de suas características que a tornam singular e contribuem para que ela seja quem é tachada de “defeito”, de feiúra, de inadequação a um dito padrão de beleza e desejabilidade. Padrão esse que nunca é posto em questão, como se fosse natural, evidente, obrigatório e estivesse estado aí desde a aurora dos tempos. Mas é gosto. E gosto se discute. Ou, ao menos deveria-se discutir porque, aqui em nosso mundo e em nosso tempo, ao invés de problematizar essas verdades do que se diz ser a beleza, joga-se o peso delas sobre cada indivíduo que, obviamente, não tem como fazer frente a um ideal. Já dizia o bom e velho Freud: o ideal é algo inalcançável que criamos apenas para nos atormentarmos eternamente em relação a ele.

Toda essa insanidade que recai sobre cada um e faz sofrer a todos só faz a alegria do mercado: em cima desse vazio criado pelo abismo entre seu ideal e você muita gente lucra, criando a ilusão de que um produto qualquer vai te ajudar a chegar lá onde você falhou. Dietas, cirurgias plásticas que deixam todo mundo com a mesma cara, produtos de beleza, roupas, sapatos, ginástica… uma corrida contra o tempo, as marcas da vida, o envelhecimento, as formas únicas de cada um. Como se ficar com a cara do Coringa (sim, aquele, o arqui-inimigo do Batman) e o corpo de uma anoréxica fosse te apaziguar das tuas aflições em não ser aquele ideal, aquele padrão, aquilo que não existe.

Pois é… o que tem o parto, a amamentação e afins a ver com essa história?

Gravidez, parto, amamentação incidem diretamente sobre o corpo. Eles acontecem no corpo e, me parece, quando não se passam de forma violenta, têm o poder de te devolver a quem você é. Na mesma medida em que escuto relato de cesarianas e partos normais repletos de violência, que alienam mais as mulheres de seus corpos, trazendo dor, sofrimento e trauma, tenho escutado também muitas histórias de partos em que as mulheres saem transformadas. Foi o que aconteceu comigo.

Engravidar, parir e amamentar trouxeram para mim – que sempre fui tão atenta ao corpo, meu e dos outros – uma percepção totalmente nova. No dia seguinte ao parto, me olhando no espelho, descobri um corpo do qual eu gostava. E muito. Um corpo que me deu orgulho, em que cada marca, curva, gordurinha ou o que seja contavam e contam a história dessa experiência tão importante. Um corpo que, pela primeira vez, não foi um corpo insuficiente e em dívida constante com esse fantasma do “deveria ser”. Um corpo bem legal. Um corpo capaz, potente o bastante para abrigar uma vida, para dar à luz, para alimentar um bebê. Fala sério, isso não deveria ser incluído naquelas listas que fazem sobre as vantagens de um parto normal humanizado? Algo do tipo: isso muda a percepção, a experiência e a imagem que você tem do seu corpo.

Então, não é certo que quem engravida, dá à luz e amamenta fica com um corpo pior do que era antes. Fica melhor. E penso que não sou a única a sentir-me assim. Sou?

2 comentários sobre “Desmitificando…

  1. Durante os anos da minha adolescência, eu fui muito insegura em relação a mim mesma, mas nunca a ponto de isso virar uma fixação ou um problema. Eu faço parte dos padrões sociais, no que diz respeito à beleza: sou loira, tenho os olhos claros, sempre fui magra. Mas nunca me senti encaixada nesse molde. E, de uns anos pra cá, engordei um pouco (que, na verdade é nada. Eu meço 1,63 cm e pesava, antes de engravidar, 65 kg). E ouvi, E MUITO, que eu estava ficando gordinha, que depois não ia conseguir emagrecer (minha mãe, então, é mestre em dizer isso. Até hoje). E eu nunca entendi essa ditadura. Eu me sentia, e me sinto bem com meu corpo, nunca senti vontade ou necessidade de apagar as luzes do quarto, quando com um companheiro, por conta do meu corpo, me achava (e me acho) bonita ao meu modo, com as minhas imperfeições, minhas tatuagens, minhas pintas, minhas cicatrizes, minhas marcas. Com a gestação, meu corpo tem mudado ainda mais. E eu me olho no espelho e, cada dia mais, me sinto mais bonita. E tenho a sorte de ter um companheiro que, quase que diariamente, me diz isso: que a cada dia eu estou mais bonita, que minha barriga está linda. E eu me pergunto: não é isso que importa? A nossa visão sobre nós mesmos? Eu fico pensando nessas pessoas que querem ter o corpo de antes, depois do parto, e eu sinto um misto de pena e compaixão. Como é possível pensar que algo que muda tão profundamente tudo o que nos diz respeito – muito mais do que o físico – vai voltar a ser como era antes? Nada vai ser como era antes. E é exatamente isso que é maravilhoso: a possibilidade de sermos diferentes (e, tomara, melhores) do que éramos antes disso tudo. Inclusive no que diz respeito ao nosso corpo. =)

    1. Verdade, Juliana. A gravidez pode nos dar justamente a oportunidade de nos descobrirmos bonitas, lindas, poderosas, atraentes e mais uma porção de coisas que não víamos em nós mesmas por estarmos muito assombradas pelos padrões, pressões e discursos de fora. E com sorte isso perdura até depois do parto e segue conosco pela vida, essa convicção de que somos um corpo que pode e que é muito valioso. E, convenhamos, tem mulher mais poderosa do que uma grávida se achando linda ou do que uma mãe toda emaranhada no bebê que está no seu colo? Beijocas, Alê.

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