O que aprendi sobre a amamentação…

… até agora. (ou: uma resposta a um certo post de uma certa blogueira em uma certa revista que, de tão medíocres, não merecem nem ser citados, a não ser como instigadores de respostas boas)

Digamos que ele é como um ser vivo, extremamente delicado e sensível ao entorno, o ato de amamentar. Quer dizer, é algo poroso, que se contagia de tudo que o cerca – e que nos cerca, mãe e bebê. Ambiente ruim, gente dizendo coisas desencontradas, falas sobre leite fraco, pouco leite, baixo ganho de peso… tudo isso pesa, influencia, mexe no tênue equilíbrio que exige o amamentar. Aprendi que, sem apoio e – pior ainda – com gente próxima ou distante falando contra, duvidando, criticando, persistir na amamentação é quase que um ato de heroísmo.

Antigamente, até bem poucas décadas atrás, contávamos com a sabedoria dos mais velhos. Mulheres pariam cercadas de mulheres, mulheres criavam seus filhos entre outras mulheres, mulheres amamentavam sob os olhos cuidadosos de outras mulheres. Mulheres mais experientes estavam sempre por perto, cuidando daquilo que elas sabiam muito bem por experiência própria: conceber, gestar, parir, amamentar, cuidar… Ninguém ficava sozinha, sem cuidado e sem orientação numa hora dessas. Em alguns cantos do nosso mundo, ainda existe essa rede de cuidados. Mas, infelizmente para nós, mulheres do mundo ocidental capitalista, o discurso da experiência e da rede de apoio foi desacreditado em nome de um saber médico / técnico e científico que saberia e poderia mais sobre a maternidade. E – coisa estranha – nós mesmas compramos esse discurso que, na medida em que tirava o saber da experiência de nossas avós, mães e tias, o tirava também de nós. E ficamos sozinhas e ignorantes, todo esse saber depositado nas mãos de um outro: a medicina, a ciência, a indústria. São essas as companhias que temos, hoje em dia, para gestar, parir e alimentar nossos filhos. Então, quando eles dizem que nosso corpo é falho e que não somos mais capazes de fazermos o que sempre fizemos, na falta de uma rede de apoio e de cuidado que nos ajude a contestar essa nossa pretensa incapacidade, capitulamos. Fragilizadas, aceitamos justificativas duvidosas para todo tipo de intervenção. E não parimos mais. E não amamentamos mais. E acreditamos que é assim mesmo, que é “normal”. E nos confortamos na idéia de que dar mamadeira não é tão mal assim. Não é tão mal assim quando realmente se necessita. Como uma cesariana pode ser uma benção quando realmente se necessita. Mas na medida em que ficamos sozinhas e destituídas de qualquer poder frente aos donos desse poder que servem, prioritariamente, a outros interesses opostos e conflitantes com o bem-estar da mãe e do bebê, como saber quando é que realmente se necessita? Aprendi que, hoje em dia, nosso esforço é muito maior em encontrar uma rede de apoio e de acolhimento que faça as vezes da “voz da experiência” de nossas mães, avós, bisavós e afins. Ela pode estar na internet, no encontro com outras mães, no trabalho das doulas e das enfermeiras obstetrizes, na existência de consultoras de lactação… há substitutos possíveis. Mas há que se buscar ativamente essas outras vozes discordantes que te ajudem realmente a poder amamentar.

Nada de natural existe nisso. Amamentar é natural. Tão natural como parir. Mas acontece que nós, humanos no século XXI, passamos por tantas mediações em nossa formação como humanos que estamos muito, mas muito distanciados de nossa natureza. Então, não adianta ouvir dizer que é algo instintivo e acreditar que isso significa que você vai chegar lá, na hora H, e vai conseguir fazer, tomada e possuída pela força das suas próprias entranhas. Até pode ser que seja assim. Mas pode ser também que as suas entranhas fiquem submetidas à sua razão, ao seu pensamento, ao seu medo e a tudo aquilo que acostumamos a priorizar em nossas existências mais cotidianas. Se baseamos toda a nossa vida em conhecimentos, informações, pensamentos lógicos e  afins – ou, ao menos, se acreditamos que é assim que vivemos e que fazemos escolhas – o que faria com que, na hora de parir e de amamentar pudéssemos conseguir reverter toda essa racionalidade que rege nossa experiência e nos abandonarmos ao desconhecido, confiando apenas em nossa intuição e em nossa sabedoria ancestral? Aprendi que para poder acessar essa sabedoria ancestral e poder se abandonar nessas horas em que o abandono é necessário – e quanta entrega é necessária para amamentar! – precisamos justamente jogar com todas as armas que temos a favor disso. Informação, pesquisa, conversas, preparo do corpo… tudo, todas as ferramentas podem e devem ser usadas. Ficar sentada no sofá esperando que algo em você faça todo o serviço é pedir para dar errado. Porque do mesmo modo que ali dentro das entranhas existe um instinto capaz de fazer parir, de fazer amamentar e tudo o mais, também existe o medo, as dúvidas… E quem vai ganhar nesse jogo de forças? Melhor botar todas as chances do lado que você deseja, não?

Até mesmo porque, vira e mexe precisamos discutir com os outros. Ou, ao menos, ter bons argumentos que nos fortaleçam na hora em que nos dizem para dar complemento por baixo ganho de peso ou coisas afins. Precisamos saber que bebês são diferentes, que muitos perdem peso ou ganham pouco no início e que cada qual encontra seu ritmo de mamar e de ganhar peso. E que não é apenas a curva de peso que conta na hora de avaliar o estado de saúde de um bebê. Muitos outros fatores contam. Aprendi que, se o bebê vai bem, o ritmo com o qual ele ganha peso é apenas mais um dado daquela singularidade que ele é.

Aliás, até mesmo quando a preguiça ou a ignorância falam mais alto e o médico decide avaliar seu filho apenas pelo ganho de peso – quando ele deveria é estar fazendo um belo de um exame clínico bem geral e abrangente que incluísse até mesmo informações sobre o estado da mãe e uma observação da mamada com vistas a orientar em caso de dificuldade – são poucos os que sabem interpretar que “normal” é todo o bebê que está dentro da curva, seguindo o seu desenho. Da parte mais baixa à mais alta, tudo é “normal”. Ou seja, mesmo que seu bebê não ganhe um quilo por mês e não fique explodindo de dobrinhas, está na curva, está “normal”. Aprendi a interpretar curvas de crescimento e mais um tanto de coisas que me fariam uma PhD no assunto. Como a maioria das mães que conheço que precisam brigar para poder amamentar.

Aqui na França, amamentação passou muitas décadas fora de moda. Condenada mesmo como um fardo para as mulheres. E só voltou a ser levada em consideração, segundo me explicaram, quando foi associada à diminuição do câncer de mama. Veja só: que seja o melhor e mais completo alimento para seu bebê, isso não foi argumento suficiente para as francesas, que só reabilitaram esse ato “primitivo” quando foi aventado algum benefício para elas. Digo isso apenas para dar uma idéia da mentalidade que circula por aqui. Assim, quando fui com uma amiga no simpático Le Poussette Café noutro dia, que estava lotado de pequenos e grandes rebentos, eu era a única mulher amamentando. Todas as outras pessoas sacavam suas mamadeiras de suas sacolas cedo ou tarde. Ou seja, essa história de que amamentar está na moda é um argumento bem perverso de quem prefere ignorar a realidade e se deixar levar por discursos pré-fabricados justamente para desviar daquilo que um simples olhar pode constatar no dia-a-dia: a maior parte das mulheres não amamenta. Não quer, não pode, não sei. Mas não amamenta. E causa surpresa que uma entre elas tire o peito para fora e dê de mamar à sua bebê. Surpresa discreta porque os franceses são educados demais em sua grande maioria para praguejar contra o “politicamente correto” em voz alta. Fora os caras de mente tortuosa que ficam te encarando com olhos nada generosos, num país onde o topless na praia é permitido, vai entender… Mas isso é outra conversa. A questão, aqui, é a predominância do leite artificial e da mamadeira em todos os lugares por onde circulam pimpolhos franceses e suas mães. Isso porque, nas maternidades francesas, há um incentivo quase excessivo por parte de enfermeiras, sage-femmes e auxiliares de puericultura para que as mães amamentem. Mas basta ter alta e sair para o mundo e você vai topar com muitos profissionais de saúde tentados a te indicar leite artificial na primeira consulta. Assim como seus amigos, sua família, e todas as francesas que vão sempre te dizer que você não é obrigada a amamentar. Aprendi que, para amamentar, você tem que ter uma firmeza de intenções e uma clareza a toda prova. Porque será posta à prova o tempo todo.

E leva tempo! Como leva tempo! Quando dizem que existe um tempo de adaptação entre você e o bebê para que a amamentação entre em um certo piloto automático em que ela funciona bem, você pensa que esse tempo é o tempo até sair da maternidade, ou o tempo de alguns dias. Mas podem ser semanas. Ou meses. Cada bebê é um e cada mãe é uma e o tempo que cada qual vai precisar varia muito. Mas é sempre um bom tempo. E aprendi que quanto menos pressa temos, melhor e mais rápido a coisa engrena. Porque basta ficar tomada por aquela urgência estalando no peito para o bebê se inquietar. E bebê inquieto não mama bem, não descansa enquanto mama, não se apazigua com uma mãe botando pilha ali do lado. Do mesmo jeito que menos é mais para muitas coisas na vida, acho que na amamentação mais lento vai mais rápido do que ter pressa.

Pega, posição correta, tantas posições para amamentar… livre demanda, uma atenção aos sinais do bebê, às suas necessidades. Aprendi que o bebê sabe mais sobre mamar do que nós. Não apenas porque tem um reflexo de sucção, já que isso sozinho não garante nada, uma vez que tem a mãe ali do outro lado e o pequeno vai ter que se entender com ela para poder sugar e garantir que o leite do qual precisa seja produzido. Então, a mãe tem que confiar que o pequeno sabe quando tem fome, sabe quando precisa mamar, sabe onde lhe aperta o calo e quando precisa de aconchego, de calor, de companhia, de abrigo… e de leite. Se nos disponibilizarmos a atender essas demandas de nossos bebês, a amamentação transcorre de um jeito bem mais sossegado para ambos.

Não é um jogo de forças, você irritada porque sabe como tem que ser (um peito, outro peito, tanto tempo, a cada tantas horas, uma determinada quantidade) versus um bebê irritado porque precisa se encaixar em um ritmo que não é o dele e que ele ignora totalmente. Se você se aborrece porque não está funcionando, imagina o que ele sente ao ser alimentado quando e como você quer e não como ele precisa? Aprendi que amamentar é encontro, um encontro de duas pessoas que mal se conhecem e que precisam uma da outra de um modo muito íntimo. E que precisam se entender falando línguas desconhecidas um para o outro. Ou seja, um encontro quase impossível, a não ser que cada qual confie no outro e na sua capacidade de estar ali e de dar conta. Sem essa disponibilidade, amamentar vira um martírio. O que é uma pena, pois pode ser tão prazeroso, tão bonito como são todos os encontros de alma, os encontros verdadeiros e profundos.

Fico de coração partido a cada vez que ouço alguma história de alguém que parou de amamentar e passou à mamadeira. Por má informação, por falta de informação, por pressão dos outros, por falta de apoio… ou seja, por todos os motivos “errados”. Tenho uma amiga cujos olhos se enchem de lágrimas a cada vez que ela conta como se sentiu aterrorizada com a perspectiva de que a filha estivesse passando fome e passou ao leite artificial. Conheço uma outra que, a cada vez que me vê amamentando conta com tristeza como, mesmo sendo seu segundo filho e tendo amamentado a primeira, acreditou nas palavras do pediatra sobre pouco leite e baixo peso e passou à mamadeira. E o quanto se arrepende de ter ouvido a ele e não a si mesma. Por que nos despossuímos assim?

Tem um texto lindo da Anne Rammi do Super Duper sobre amamentação em que ela começa escrevendo sobre o que nós mulheres perdemos quando renunciamos sem motivos realmente impeditivos a essa experiência. Ela posta uma foto e fala de um olhar, um olhar do bebê que mama e que é só para a mãe. É esse encontro de almas do qual escrevi há pouco. Um bebê te olha no fundo da alma e faz teu coração revirar do avesso, de tanto sentimento que pode carregar em um mero olhar. E isso não acontece no comecinho, também leva um tempo, é a recompensa a ambos pelo trabalho bem feito. E esse olhar vem um dia. Por um instante todo o cansaço, as dificuldades, os conflitos passam. Parece piegas e parece mágica e, no entanto, acontece. É o tal encontro. Será que não vale o esforço?

Leia mais a respeito da amamentação nesse blog clicando aqui.

5 comentários sobre “O que aprendi sobre a amamentação…

  1. Nem me flae, esse tem sido meu calcanhar de aquiles. A amamentação é tensa aqui: meu bico é curto, uso concha e todos os artifícios pra “aumentar” ele, mas não rola….sempre volta pro curtinho/planoi de sempre. o Thomas se irrita e eu uso o bico de silicone. Esse bico dá gases nele e ele chora horas a fio. Fora tudo isso, obviamente que meu peito, pouco estimulado, sai pouco leite. O que sai, eu extraio na bomba e dou na mamadeira para ele, para evitar os gases. Frustração a gente vê por aqui. amamentar é gostoso, eu curto, ele curte, mas tem sido beeem, tenso por aqui. Isso sem falar que minha produção é pouca, então sempre acabo dando complemento. Essa história da amamentação tem me frustrado demais. Estou beeem, chateada. Amanhã vamos no pediatra e vou ver o que posso fazer, pra ele não sofrer e eu poder amamentar do jeito que eu gostaria…

    1. Puxa, Carol, é dureza mesmo. Não sei se te consola mas, aqui, para a coisa engrenar mesmo, foram dois meses. Faz pouco tempo que achamos um modo que funciona, que eu fiquei confiante na minha capacidade de amamentar e que ela começou a mamar eficazmente. Foi muito duro antes disso. Então, o que posso te dizer é: força! Leva tempo, mas pode dar muito certo. E como sou hiper desconfiada dos pediatras, te digo que talvez valha à pena ir num banco de leite ser aconselhada pelos profissionais de lá, o que você acha? Os melhores conselhos que tive foi de quem trabalhava com lactação, nunca dos pediatras, que não ligavam muito para minha preocupação em amamentar e queriam apenas cevar minha filha como se ela fosse um porquinho na engorda. Abraço grande e estou aqui na torcida por vocês.

      1. Oi Alê, entao, a pediatra dele eh humanizada, super apoia a amamentaçao. Fomos nela no sabado e ela me passou uns remedinhos da weleda e o cha da mamae pra aumentar minha produçao… Por enqto ainda nao vi diferença, mas acho q demora!!!
        Bjooo e tks pelo apoio

  2. Adorei seu texto. É isso! Acho que você tocou em todos os principais pontos. Por que nos despossuímos tanto? Acho que porque nos oferecem distrações tentadoras. Mas, se a gente mantém olhar atento, logo percebemos o que realmente importa. Esse olhar vale tudo! Lindo! bjos

    1. Obrigada, Natalie. Concordo com as distrações tentadoras. Eu iria mais longe e diria soluções fáceis, porque com o trabalho que dá aprender a amamentar, qualquer coisa parece mais simples e menos angustiante, né? Tem mulheres batalhando, tentando, investindo tanto nisso e vem esse discurso incapacitante e te acusa de deixar seu filho passar fome ou coisa que o valha… me deixa furiosa, é muita crueldade. Um abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s