Lugar de bebê…

… é no colo! Pronto, falei. Ufa!

Existem duas idéias das quais não consigo deixar de desconfiar, nesse mundo novo da maternagem de uma bebê pequena: a famosa “isso é manha” e a sua nefasta consequência: “desse jeito, vai ficar mal acostumada”. Como assim?

Me espanto a cada vez que as escuto, pois para mim elas são o testemunho em alto e bom som de uma total falta de compreensão – e de compaixão – frente àquele pequeno ser que ali se encontra e que juramos querer bem.

Primeiro: não sei de onde veio essa certeza de que o bebê está fazendo manha. Não sei quanto a vocês mas eu, do alto da minha experiência de três meses, fico muitas vezes sem entender os choros e as reações da minha filha. Isso porque existe um descompasso gigantesco entre nós duas: eu sou uma mulher, adulta, falante e que aprendi ao longo dos anos mais ou menos aquilo de que necessito – e também o que desejo -, bem como os caminhos para comunicá-lo e consegui-lo. Ou, sendo psicanalítica, aprendi que pouco sei de mim para além do que julgo saber e que esse desconhecido também age, à minha revelia. Que o que comunico sempre rateia e que entre o desencontro e a falta existe, ainda assim, a alegria das parciais realizações. Pois bem, sabendo de mim mesma ou de minha ignorância, o fato é que sei muito mais do que minha filha falar das coisas desse mundo, mesmo das mais básicas. Ou, ainda que ela saiba – e eu acho que é esse o caso – de maneira um tanto precária e invadida por suas sensações e experiências, que algo vai bem ou que algo não vai nada bem, eis novamente o descompasso que faz com que ela tenha dificuldade em me comunicar o que acontece.

Ou não.

E pode ser que seja bem simples e ela simplesmente faça algo a respeito e comunique da primeira maneira que pode: chorando. Então, a pequena chora. E isso me toca, me perturba, me irrita, me entristece, me alerta e mais tantas outras coisas. E é fundamental que assim seja. E que eu me mexa e tente fazer algo a respeito. Foi assim que nossa espécie sobreviveu, não? Tendo bebês que choram e adultos que se incomodam com esse choro e tentam dar conta dele.

Onde é que entra a manha nisso tudo?

Tem gente que, novamente, numa total falta de compreensão e de compaixão pelo seu pequeno rebento, supõe que um bebê possua apenas 3 necessidades que possam inquietá-lo: fome, sono e fraldas molhadas e/ou cólicas. Vejam bem: supomos que um serzinho da nossa mesma espécie precise de apenas três coisas na vida enquanto nós, seres adultos falantes mal damos conta de enfiar nos armários tudo aquilo de que julgamos precisar quando nem sabemos do que precisamos.

Engraçado como essa sucinta lista não inclui coisas que nós, adultos, dizemos sempre necessitar e parecemos gostar tanto como, por exemplo, demonstrações de afeto, carinho, companhia, distração, entretenimento, calor humano, uma escuta atenta, cafuné… Como é que, sendo da mesma espécie que nossos bebês, acreditamos que eles precisam de tão pouco, enquanto nós precisamos de tanto? Quando é que todas essas coisas se acrescentam a comer, dormir e defecar?

Então, munidos de uma certeza questionável de que sabemos das 3 coisas que um bebê precisa e afrontados pelo seu choro tal qual língua estrangeira sentenciamos, sempre que dar comida, tentar fazer dormir e trocar fraldas não trazem o efeito desejado de que o bebê se acalme: “ah, é manha!”. Imagine se nos seus momentos de tristeza, de solidão, de carência ou de tédio as pessoas que te cercam e que dizem te amar, ao invés de te acolherem te dissessem: “deixa de manha!”.

Putz! Isso acontece! E na época de Freud chamava-se, entre outras, histeria. Que o bom e velho Sigmund reabilitou e legitimou como sofrimento real e verdadeiro, quando toda comunidade médica entendia como fingimento e manha. Curioso como as mulheres, tanto quanto as crianças, carregam desde há um bom tempo em suas ações o rótulo desqualificante da farsa, da manha, do teatro e da manipulação, não? Já pararam para pensar que, talvez, isso seja uma construção cultural e histórica que serve a alguma força que ganha em fazer pensar que mulher finge e manipula tanto quanto criança faz manha e manipula?

Enfim, voltemos aos bebês que descobrimos manhosos. E nossa reação, ao diagnosticar a manha, é ainda mais chocante do que supor que ela exista: nos permitimos, face a nossos filhos pequenos, que dependem de nós e que não podem se defender, as mais variadas indiferenças e violências. Se “não é nada”, é manha. Se é manha, deixa chorar, deixa ali, no berço, num lugar qualquer… deixa o bichinho ali até ele parar de fazer manha. Até aprender. E, sobretudo, nunca, jamais, em hipótese nenhuma fraqueje e lhe dê atenção, lhe console, lhe dê colo. Senão, ele “fica mal acostumado”.

Putz!

Sinceramente, o bebê demonstra, com os parcos recursos de que dispõe, que algo não está bem e, porque nós adultos somos limitados a ponto de supor que só pode ser fome, sono, cocô… e porque nós adultos não temos capacidade de nos colocarmos no lugar desse bebê e supor que pode ser alguma outra coisa… e porque nós adultos nos exasperamos quando nos sentimos impotentes… acusamos o bebê de “fazer manha” e deixamos ele se virar, sob pretexto de que isso vai educá-lo? Sou só eu ou tem mesmo alguma coisa muito errada aí?

Onde estão a empatia, o colocar-se no lugar do outro, a generosidade, a compaixão? A que tirania de uma educação opressiva devemos responder para deixarmos nossos filhos chorando porque é manha e porque qualquer coisa que se faça vai deixá-lo mal acostumado?

Escrevi aqui, há alguns posts atrás, que parece que as pessoas têm medo da dependência, vista como o perigo no vínculo estreito entre mãe e bebê, a ponto de quererem acabar com ela antes mesmo que ela se constitua e exerça seu papel fundamental. Penso que, nesse caso da manha e do ficar mal acostumado existe algo de análogo agindo. São frases que repetimos sem pensar, frases que ouvimos de nossos pais, de nossos avós, frases e crenças transmitidas de geração em geração sem que ninguém pare para pensar se elas fazem sentido. E que falam, em última instância, contra o fundamental papel que os adultos podem ter em confortar seus bebês. Ou seja, são falas contra o cuidado.

Pois se um bebê chora, ele deve ter um motivo. E se não entendemos, por que não procurar mais? Por que não consolá-lo, mesmo que não saibamos o que não está bem? Por que diabos não dar colo?

Meu coração fica apertado cada vez que escuto uma história de alguém que deixou, em nome de sei lá que modinha de adestramento, seu bebê chorando sem consolo. Me dói pelo bebê. E também pela pessoa que, para conseguir não responder da maneira mais espontânea que um humano responde desde que vê um outro em apuros, deve ter precisado desligar algum sinal de alarme dentro de si e entrar em um estado de indiferença frente ao sofrimento alheio que considero assustador.

Veja, não estou aqui dizendo que um bebê não pode chorar nem por um segundo, que não pode ficar contrariado, frustrado ou em estado de falta. Ele pode e ele fica, quer queiramos ou não porque essa incompletude é da condição humana. Sempre falta alguma coisa. Estou questionando o que faz com que adultos acreditem que precisam acrescentar a essa frustração que faz parte da vida um extra de sofrimento pela negativa sistemática em prestar socorro, acolher, acalentar e consolar um bebê. Acredite, ele não vai “ficar estragado” porque você o consolou e não vai ficar “fazendo manha” para te “manipular” e “conseguir tudo o que quer”. Já pensaram na força dessas palavras?

Quer dizer que um bebê tem o poder de ser esse tirano de seus pais? Tem certeza? É isso que é ficar mal acostumado e você tem que ser durão para mostrar quem manda?

Penso que estamos em uma época em que a dificuldade de impor limites tornou-se tão violenta que os adultos, desesperados, recorrem a um jogo de forças com seus filhos, os quais de modo algum estão em pé de igualdade com eles. Pais perdidos fazem pirraça para seus filhos bebês: “você pensa que vai me dominar? Pois eu te mostro quem é que manda aqui!”. Como se isso estabelecesse um limite. Como se fosse isso a tal função paterna. E como se fosse isso o educar.

Deixar bebês desamparados, já foi mostrado em diversas pesquisas, provoca desespero. Depois desistência. Depois apatia e fechamento em si mesmo. E falta de confiança no mundo e na capacidade de cuidado das pessoas. Não seria isso o verdadeiro ficar mal acostumado? Acostumar-se com o pior? Não poder esperar nada além do pior?

Eu não sei quanto a vocês, mas entre os educadores/adestradores que propagandeiam a manha, o mal costume e a distância violenta como resposta para criar um filho e as mães africanas, andinas, indígenas, asiáticas que fazem suas vidas com seus tranquilos bebês a tiracolo, eu escolho a sabedoria silenciosa das segundas.

8 comentários sobre “Lugar de bebê…

  1. Ai, esse é um assunto tão polêmico… Confesso que nunca engoli essa coisa de manha, nao, nem com “bebes mais velhos”. Minha mais velha tem 3 anos+ e ate hj a gente fica no quarto com ela até ela pegar no sono. Toda vez que ela acorda chorando, corremos paga acudi-la. tive muitos pesadelos quando criança, me lembro bem deles e só a cama da minha mãe me acalmava em noites assim. Então por que privar minhas filhas do conforto do meu colo? Minha mais nova, de quase 7 meses, passa bastante tempo no meu colo; um pouco menos agora porque ela quer explorar a casa, mas sim, ela adormece no meu colo (as vezes demora mais de 2 horas), ou no peito, ou do meu lado na cama. Nao tenho medo de que ela cresça mimada.

    Agora, o outro lado da moeda. Nao é de manha e manipulação que tenho medo. Nem das minhas filhas. Meu medo é de mim mesma. Estou TAO exausta que não me reconheço nos meus momentos de furia (porque nem raiva mais é). Nao consigo me controlar, grito, falo coisas horriveis (que me arrependo muito depois) e choro litros de lágrimas. Às vezes quero desistir de tudo. Penso que uma grande diferença entre o povo ocidental “moderno” e as tribos que voce cita é que eles vivem numa comunidade de verdade; as mulheres se ajudam, trabalham juntas, cuidam dos filhos juntas. Já nós vivemos isoladas, sem familia proxima, as vezes so tendo marido pra ajudar no dia a dia e mesmo assim à noite e nos finais de semana. Ou se pagarmos uma babá. Aquela idéia de comunidade, de não se sentir sozinha no mundo, de poder contar com o outro não existe muito na minha vida e acho que é um grande peso. Me sinto fracassada como mae (e esposa e amiga) toda vez que explodo, que nao sei como agir, que me sinto frustrada com minha vida. E nessas horas, tenho vontade de “ensinar” as meninas a se “virarem” sozinhas: aprenda a dormir aí, pode chorar que agora não dá, me dá um tempo! Não é fácil não e muitas vezes sinto que não existe um lado vitorioso nessa historia. 😦

    1. Nossa, eu concordo demais contigo. Escrevi sobre isso noutro dia, sobre como essa falta de apoio, de gente, de comunidade para nós, mulheres ocidentais ditas independentes e modernas é o que mais prejudica a maternagem, desde o parto, até amamentar ou, como você disse, na disponibilidade para cuidar de nossos filhos. Tanta solidão sobrecarrega e esgota, fisica e psiquicamente, e não tem como não acabar em explosões de raiva ou na vontade de que eles cresçam logo, se virem logo e nos dêem um tempo. Acho triste porque as pessoas não se dão conta do quanto nós, mães, precisamos de um real apoio. Acham que criticar ou dar pitaco é ajudar, mas são incapazes de carinho e de solidariedade. Para mim é essa a verdadeira solidão da maternidade. Por isso é que acho uma sorte que exista, ao menos, essa rede virtual entre mães que, de um jeito ou de outro, conversam e se solidarizam umas com as outras. Acho que é o mais próximo que conseguimos chegar dessa tal comunidade da qual precisamos tanto. Vivemos em tempos cruéis com as pessoas, é importante estarmos juntos. Beijoca e conte com as suas comadres virtuais!

  2. Ai, posso te aplaudir de pé? Copiar seu texto e entregar pras 4279 pessoas que dizem q o thomas dos altos dos seus 33 dias faz manha e ta mal acostumado?
    Nao ha limites pra falta de coraçao, eu nao consigo deixar o coitado chorando, se esgoelando “pra aprender”! Aprender que nem os pais estao ali para ele? No tks!
    Tb nao eh por qualuqer miadinho que saimos correndo. Eu vejo, analiso e penso: ta alimentado, limpo e quase dormindo. Se tá chorando, quer colo, segurança e AMOR. E pego. Ate ele ficar confiante i bastante pra adormecer e assim ficamos. (Alias isso foi o q aconteceu agorinha e cá esta ele, de sapinho, dormindo profundamente no meu colo)! Como explicar que qdo deitamoa colado e eu ou marido respiramos na cabeça dele, ele dorme?
    Adorei seu texto Ale! Perfect!

    Bjoks

    1. Hehehe, Carol, pode mandar para todo mundo. Se isso ajudar a te aporrinharem menos, está valendo. Porque ou esse povo é duro de entender, ou é questão de crueldade mesmo. Adorei a parte do: “tá alimentado, limpo e quase dormindo.” Pois é onde a massa concluiria: “então, é manha”. E você sai com a melhor resposta: “se tá chorando, quer colo, segurança e amor.” Perfeito. Beijokas e muita cafungada nas ventas do parasita. 😉

  3. “Penso que estamos em uma época em que a dificuldade de impor limites tornou-se tão violenta que os adultos, desesperados, recorrem a um jogo de forças com seus filhos, os quais de modo algum estão em pé de igualdade com eles. Pais perdidos fazem pirraça para seus filhos bebês: “você pensa que vai me dominar? Pois eu te mostro quem é que manda aqui!”. Como se isso estabelecesse um limite. Como se fosse isso a tal função paterna. E como se fosse isso o educar.”
    Este é o ponto!
    Como materna, Psicóloga e ser-humano te digo: Gratidão!!!!!!!
    Vc escreveu tudo o q eu ainda não tinha conseguido organizar dentro de mim! Minha angustia em relação a este assunto é tãããão grande, q não tinha conseguido organizar (e olha q sou mãe de 2 meninos pequenos!).
    Gratidão por sua sabedoria!

    1. Vânia, obrigada por seu comentário. Esse é mesmo um assunto angustiante, ainda mais para quem tenta privilegiar o contato e a ligação afetiva com seus pequenos. Muita pressão normalizadora e muita ênfase em botar limites, como se os bebês fossem feras indomadas que tivéssemos que domesticar ou eles nos destruiriam. Que dureza, né? Abraço grande.

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