O que é ajudar?

Quando você está grávida, a família e os amigos se prontificam a ajudar no que for preciso, oferta que aumenta depois que o bebê nasce. Mas entre aquilo que as pessoas oferecem como ajuda e aquilo de que você realmente precisa pode haver uma longa distância. Não que as pessoas não tenham boa vontade ou real intenção de serem solidárias mas, me parece, o que elas entendem como sendo difícil ou algo de que poderiam te poupar está bem longe de ser aquilo que, para você, pesa mais.

Por exemplo, o bebê. Não entendo muito bem por que cargas d’água as pessoas persistem em acreditar no chavão de que maternidade é um fardo e um sacrifício. Ou melhor, até tenho minhas hipóteses, mas deixo isso para um outro post. Então, veja bem: em pleno século XXI, depois da pílula e dos mais variados métodos contraceptivos e do direito ao aborto em vários países, podemos afirmar que, ao menos nesses lugares, na grande maioria dos casos só é mãe quem quer. Então, que sentido faz continuar relacionando maternidade a fardo e sacrifício, coisas tão cristãs e tão distantes do que pode ser atualmente a experiência da maternidade?

Pois bem, as pessoas entendem que é um calvário ser mãe e que ajudar significa te liberar ou minimizar o teu calvário. O que quer dizer: ocuparem-se do bebê. Ok, ok, todo mundo gosta de cuidar do bebê por algumas horas, brincar de casinha, fazer dormir, às vezes até dar um banho ou trocar fraldas. Mas, sinceramente? Isso não é um problema. Não é um sacrifício e nem é o que nos deixa exaustas. Eu, particularmente, adoro dar banho e trocar as fraldas da minha filha porque são momentos divertidos, em que ela interage, reage, faz bagunça, se movimenta… Quer dizer, não é exatamente aí que preciso de ajuda.

Outro mito: você está cansada e as pessoas vão se ocupar do bebê para que você descanse. Não sei quanto a vocês mas, a menos que essa generosa oferta ocorra durante a noite, quando, na verdade, ela é impossível porque visitas não passam a madrugada aqui e, principalmente, porque quando há choro, de noite, é fome e fome é peito e peito é mãe… Bom, durante o dia, se alguém for se ocupar de cuidar da bebê para mim, eu não vou descansar. Eu vou me cansar com outras coisas. Pois tem uma porção de coisas que nós, mães, deixamos ali de lado para a hora em que der e essa hora pode ser a hora da soneca do bebê ou a hora em que alguém fica um pouco com ele ou sei lá eu quando.

Ah, mas então isso ajuda! Sim, quando as outras coisas que você vai fazer são coisas pessoais, tipo escrever texto, ir na manicure, tomar um banho com calma, colocar os emails em dia, dar um telefonema de trabalho… Aí, é claro que ajuda. Mas quando a ajuda vem para que você vá para a cozinha fazer almoço, ou lavar a louça, ou a roupa, ou limpar a casa… Ou seja, quando a ajuda vem para que você possa ir se cansar fazendo coisas que qualquer outra pessoa poderia estar fazendo, se quisesse realmente ajudar… bem, que ajuda é essa?

As ajudas mais verdadeiras e sensíveis que recebi até hoje foram de pessoas que:

  • vieram à minha casa para cuidar de tudo aquilo que é chato, exaustivo e demandante, justamente para que eu possa cuidar da minha filha com tranquilidade, sem pensar em almoço, roupa suja, bagunça e afins.
  • vieram à minha casa e, tendo garantido isso que qualquer um pode fazer, ainda passaram um tempo com a minha filha para que eu pudesse cuidar de coisas pessoais, por meia hora que seja.
  • vieram à minha casa apenas para estar conosco, bater um papo, passar um tempo juntos, fazer a boa e velha companhia.

Acho que as pessoas não entendem – justamente por pensarem que a maternidade é sacrifício que eu – e talvez muitas outras mães – não queremos nos livrar do bebê e que ele fique passando de braço em braço para a gente “ter sossego”. O que queremos é ter sossego para curtir nosso bebê. Ainda mais no começo, quando tudo é novo e meio atrapalhado. Ainda mais quando precisamos nos conhecer, aprender um com o outro. Isso não é sacrifício, é prazer. E é muito benvinda a ajuda que respeita e considera isso e que, ao invés de privilegiar suas vontades de brincar de casinha com o bebê dos outros sob pretexto de estar ajudando, ajuda realmente a que tenhamos paz e tranquilidade para maternar.

Assim como é muito benvinda aquela que, de quebra, ainda te deixa com um tempinho para fazer algo para você mesma para que, além de poder maternar com tranquilidade, você ainda possa fazê-lo menos perdida de si, tendo alguns momentos só seus que ajudem a te lembrar de quem você é. E, nessa hora, qualquer bobagem vale. Do cabeleireiro ao artigo de pós-doutorado. E, não, isso não valida a idéia da maternidade como sacrifício, porque deixar algo em segundo plano não é sacrifício, é opção. E, mesmo sendo opção, pode ser perturbador, como vi acontecer com muita gente. O que faz com que seja bom, vez ou outra, poder fazer uma coisa ou outra, até para reforçar e garantir a opção que você fez de priorizar essa experiência de estar com seu filho e de maternar.

Abre parênteses:

(É por essas e outras que digo: mãe, te amo infinitamente. Você entendeu tudo e cuidou demais de tudo o que pode para que eu e a pequena pudéssemos estar bem e em paz… Obrigada, mãe. E Táta. E Jurema.)

Fecha parênteses. Voltando à ajuda.

Outra coisa que parece que as pessoas não entendem é que, muitas vezes – e eu arriscaria dizer, na maior parte delas – toda ajuda de que você precisa é apenas companhia. Meus amigos mais queridos vivem me dizendo que eu posso ligar quando precisar de ajuda para um mercado, uma compra, uma tarefa qualquer. E eu sei que é de coração e que posso contar com eles. Mas isso, retomando a história das tarefas, é algo que fica ali e qualquer hora eu faço. E eu sei que poucos deles, por mais que me adorem, virão aqui em casa fazer faxina. O que eles não percebem é que essa oferta é vazia, porque eu nunca vou pedir o que posso fazer e menos ainda o que sei que eles não poderão fazer por mim. Funciona mais como um alívio na consciência de saber que ofereceu algo, um pouco como aquela nossa mania de brasileiro de dizer “passa lá em casa mais tarde”. Querem apenas dizer: eu gosto de você, quero participar e ser solidário, mas não tanto assim. E o curioso é que, se eles pudessem apenas fazer uma visita, bater papo, fazer companhia, trazer uns biscoitos e tomar chá… isso seria de grande ajuda. E talvez seja bem mais simples do que eles imaginam que nós mães poderíamos pedir.

Penso que uma boa ajuda começa com uma boa escuta, pois se trata do que o outro precisa, não do que você acha que seria importante dar.

2 comentários sobre “O que é ajudar?

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