Há seis meses atrás…

… eu não tinha como saber que a maternidade é assim: uma compilação de alegrias inomináveis e de medos aterradores. Seis meses de uma revolução permanente, em que cada dia traz o desafio de estar ali, presente, viva e capaz de viver, contigo, toda a surpresa que um mero dia pode conter. Seis meses de introspecção e de trabalho constante para estar disponível. Aquela força descomunal que fazemos para dilatar o colo do útero e para o bebê sair é mais ou menos a mesma força de abertura que temos que fazer todo dia, para deixá-lo existir, ser, descobrir, manifestar-se. E para ser companhia e porto seguro nesse cotidiano de descobertas.

Há seis meses atrás, eu não sabia o que poderia ser o amor, esse amor que transborda com um olhar, um sorriso banguela, um som perto de dizer mamãe, uma expressão de tranquilidade durante o sono… Esse amor que não é dado, nem óbvio, mas que se constrói nessa convivência tão íntima com tal força que não conseguimos mais lembrar de como era quando ele não existia.

Sua existência traçou uma linha divisória na minha vida, dando a tudo o que era antes o nome de passado e me mergulhando em um presente cheio de gestos, onde tudo ganhou ares de simplicidade. Como é difícil viver simples e verdadeiramente, encarnada no próprio corpo e nos acontecimentos de cada dia! Como é difícil apenas estar ali!

Seis meses de amamentação exclusiva, uma vitória para nós duas, uma vitória desse contato, dessa intimidade, desse olho no olho, desse conhecer-se mútuo que se fazem no silêncio pele-a-pele. Vitória desse tempo que corre pastoso como lava, do desconhecimento em que se tem que apostar. E confiar. Vitória de um saber visceral sobre os saberes e os poderes de outros, que nada tinham a ver com isso. Confiar em mim e em você.

Há seis meses atrás eu não sabia que a maternidade não é algo dado, nem evidente. Não sabia que podemos seguir os estereótipos e nos deixarmos levar ou tomar as rédeas da própria vida também nesse ponto e pensar com cuidado em cada decisão. Mas a sua existência me encheu de uma tal responsabilidade que não teria como seguir o vai-da-valsa como gado. E cada decisão cotidiana tornou-se uma reflexão, busca de informações e, principalmente, um combate contra os outros que prefeririam ter a facilidade de não ter que se colocar em questão. E contra eu mesma, minha preguiça, a vontade de deixar tudo quieto e não enfrentar nenhum demônio. Porque lutar, dá tanto trabalho… Mas te olhando todos os dias nos olhos e vendo o quanto você precisa e conta comigo, não pude me furtar a todas as questões, todas as tomadas de decisão, todas as apostas.

Quiseram te deixar em um berço no seu quarto desde o primeiro dia e eu tive que dizer não.

Quiseram te deixar chorar para você aprender a dormir sozinha e eu tive que dizer não.

Quiseram te dar mamadeira antes mesmo que tivéssemos a oportunidade de aprender a amamentar e a mamar. Eu tive que dizer não.

Quiseram que você vivesse em um ambiente cheio de gritos, desrespeito e hostilidade e eu tive que dizer não.

Quiseram que você não fosse prioridade. Eu disse não.

Com isso nos afastamos de muita gente. E eu enfrentei várias batalhas, muitas vezes sozinha, apoiada pelas informações que tinha, pelo meu julgamento, por minha aposta e por umas poucas pessoas, bem poucas, que estavam em sua maioria longe. Mas perto, ainda bem que elas estavam por aí, ligadas, capazes de ouvir e de falar, disponíveis. E isso trouxe muitas idas e vindas, muitas viagens, muitas decisões. E muitas mudanças. E, não, não foi um sacrifício que fiz por você, pois não acredito nisso, em carregar um fardo por você, minha pequena. Nem acredito em sacrifício. Acredito em lutar por si mesma e em lutar por alguém que precisa que lutemos por ela. Acredito ter descoberto que a maternidade também é isso, essa disposição em lutar, em virar bicho, em mostrar os dentes e em proteger a cria de tudo e de todos que representem uma ameaça. Até conseguir um lugar seguro e poder pousar. E jamais será sua a responsabilidade pelo que decidi e fiz. São minhas as decisões e minha a responsabilidade. Você terá as suas apenas no momento em que puder tê-las, nada vai te cair nos ombros antes disso. Maternidade também implica em não despejar em cima de um bebê as escolhas e os atos de uma mãe. O que eu faço por você, eu faço por mim também e por minha livre e espontânea vontade. Enquanto isso, sua responsabilidade é a de descobrir o mundo, olhar tudo com olhos curiosos, lamber o gosto do mundo e da existência. E tentar entender como seus pés e pernas funcionam para ver se consegue finalmente coordená-los com seus braços e seus quadris e, quem sabe, sair engatinhando por aí, em busca dessas coisas todas que te interessam tanto.

Há seis meses atrás eu não sabia de tantas escolhas, do medo de errar, da preocupação em fazer o melhor, dos temores que acompanham esse amor tão imenso: medo que você sofra, medo que adoeça, medo de te perder, medo que te façam mal… Medo dos perigos e das dores do mundo. Depois de mãe, pela primeira vez olhei para um garoto pedindo dinheiro no farol e chorei da dor de pensar em como seria se fosse minha filha ali e em como meu coração ficaria em pedaços se ela passasse por uma situação dessa. Não há como ser mãe e não se inquietar pela humanidade inteira, sabendo que seu filho vive nesse mundo e que, para que ele possa ser bem recebido, o mundo precisa estar tão bem cuidado quanto você cuida dele, do seu pequeno. Minha urgência por um mundo generoso e por pessoas mais éticas cresceu imensamente depois do seu nascimento.

Não sabia que ser mãe é uma das coisas mais democráticas que existe: ela te coloca, como mãe e mulher, em pé de igualdade com qualquer outra mãe. Vocês partilham uma experiência do parto, da amamentação, de cada gesto e de cada conquista do filho. Mesmo tendo vivido experiências diferentes quanto a cada uma dessas coisas. E mesmo que cada mãe tenha ideais e valores diferentes. Existe algo visceral que nos une e que permite uma conversa, uma proximidade, um encontro. Compaixão e cuidado com o outro: esses foram os gestos mais tocantes que descobri entre mães.

Não, nem tudo são flores. Tem cansaço, tem saco cheio, tem um sentimento de ser arrancada de si mesma e de perder as rédeas da própria vida, tem uma sensação de impotência, tem o desconhecimento do futuro, tem o não saber o que fazer, tem projetos que explodem, tem a vida fora do Brasil, tem solidão e incompreensão… Tem tudo isso. E tem muitas mudanças, muitas apostas e a construção de algo que nem sabemos ainda o que é. Mas, como poderia ser diferente? A vida mudou totalmente com a sua chegada e isso é bom. De verdade. E o que é bom não é viver em um comercial de margarina. O que é bom é justamente esse desconhecido diário que traz surpresas e obrigada a trabalhar, a pensar, a decidir. Ser mãe me obriga a estar viva e a viver. Bem.

Seis meses depois, minha filha, o que posso te dizer é que sinto um orgulho imenso em poder te acompanhar nessa vida e uma alegria igualmente imensa em que você exista. Você me colocou vários desafios e várias questões pelo simples fato de ter nascido. E isso me torna uma pessoa melhor. Não apenas para mim mesma mas, espero, para o mundo e, principalmente, para você. Onde vai dar nossa jornada eu não faço idéia. Mas tem sido um privilégio esses intensos seis meses juntas.

3 comentários sobre “Há seis meses atrás…

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