Ela e eu.

projeto-corac3a7c3a3o-materno

Ela chegou no horário combinado e me perguntou o que eu queria que fizesse. Não fazia idéia. Lavar as roupas da bebê? Passar? Dar banho? Continuei sem saber. Precisava de ajuda, isso era claro. Mas uma ajuda para o que precisamente?

Seria estranho e dolorido demais falar da solidão, das dificuldades em amamentar, da necessidade de apoio, do cansaço. Ainda mais com alguém que mal conhecia. Sabia que era brasileira e que estava ilegalmente no país. Sabia também que tinha dois filhos, um deles, um bebê de sete meses que ela mesma tinha que deixar com um outro alguém para poder trabalhar.

O primeiro dia foi complicado. Quando tentei deixar a bebê com ela para ir apenas até a padaria e a farmácia, coisa rápida de 20 minutinhos no máximo, a pequena chorou sentido. E quando voltei estava chorando ainda, sem entender quem era aquela estranha e por que eu desaparecera. Nesse dia, ela foi embora e eu fiquei me perguntando, o coração doído: como é que ela poderia me ajudar, se aparentemente não seria ficando com minha filha enquanto eu fizesse outras coisas, motivo pelo qual a havia chamado antes de tudo?

Dia seguinte ela retorna. Eu bem que tentei pensar em uma lista de tarefas, mas não sabia. Ela chegou tranquila, viu que tinha uma louça na cozinha e foi arrumar. Depois lavou umas roupinhas, passou outras, ajudou com o banho. Foi fazendo uma coisa ali, outra aqui, fazendo a casa andar. O tempo passou, ela foi e voltou no dia seguinte.

Dia após dia ela foi e voltou. Sempre tranquila, falante e cheia de histórias sobre seus filhos, cuidando de pequenas coisas. Pequenas coisas essenciais, que ficavam emperradas em um cotidiano de mãe recém parida tumultuada e atropelada por essa vida nova que mal sabia por onde começar. Provavelmente as mesmas pequenas coisas que fazia na casa dela, em sua rotina de mulher e mãe que trabalha. O mesmo cuidado. A mesma atenção. Para que tudo funcione. Para que a maternagem tenha sossego para acontecer.

Não, ela não estava ali para cuidar da bebê. Ela estava ali para me ajudar para que eu pudesse cuidar da minha filha. E isso ela compreendeu bem antes de mim. E muito delicadamente foi fazendo, sem que eu soubesse o que lhe dizer sobre o que fazer.

Mãe amorosa de dois, não amamentou o segundo. Logo passou para a mamadeira. Ela recontava essa história doída a cada vez que me via dando de mamar. Dizia do quanto lamentava ter parado e do quanto tinha sido maravilhosa sua primeira experiência. O que aconteceu? Como eu, ela havia sido mal orientada por pediatras e outros profissionais da saúde que, vendo o baixo ganho de peso de seu filho no primeiro mês, concluíram – erroneamente – que ele não se alimentava o suficiente porque ela não tinha leite o suficiente e indicaram o uso da mamadeira e do leite em pó. Ela, assustada que seu pequeno pudesse passar fome, cedeu. Eu insisti, brigando com médico, pediatra e meio mundo. Tanto o bebê dela quanto a minha ganharam peso, cresceram e estão muito bem de saúde. Mas ela perdeu a amamentação. Sim, uma perda, ainda mais por ela saber muito bem o que havia perdido, baseada em suas memórias recentes do longo contato com a primeira filha. E me ver amamentando tocava nessa ferida dela, fazendo-a falar e se perguntar. Respostas que eu também não tinha.

Qual a diferença entre nós? Por que, frente à mesma situação, duas reações tão distintas? Empoderamento? Falta dele? Confiança em si mesma? Falta dela? Crença cega no saber médico?

Um pouco disso tudo e, a meu ver mais ainda, a questão da imigração. Ela e suas histórias me fizeram perceber quanta diferença havia entre nós, duas brasileiras na França. E o quanto essas diferenças passavam por estarmos aqui legal ou ilegalmente. E o quanto essa busca por uma vida melhor, por uma perspectiva de vida, por uma vida, simplesmente, uma vida que possa ser vivida com o mínimo de decência e de dignidade coloca pessoas como ela, por vezes, em situações tão doloridas. Não foi apenas o saber e o poder médico e da indústria de alimentos e produtos infantis que inviabilizaram a experiência de amamentação dela. Foi tudo isso sendo jogado sobre uma pessoa fora da sua zona de conforto, fora do seu país, da sua cidade, da sua língua, da sua família onde ela poderia, facilmente, ter se baseado em sua experiência de já ter parido, já ter amamentado, já ter maternado para simplesmente dizer: “não, não vou fazer o que vocês me dizem. Eu sei mais, eu sei que meu filho está bem e eu sei do que ele precisa”. Ela teria tido toda a garra e toda a condição de bancar assim esse segundo filho. É raçuda essa moça. Mas viver em outro país faz isso com a gente, especialmente quando se vive com medo de ser passado para trás, explorado, trabalhar sem receber, ser preso, humilhado, deportado, perder tudo. Ameaças tão comuns a tantos “sem papéis” que, no entanto, vêm aqui não apenas cuidar de fazer uma vida melhor para si mas, também, fazer o mundo girar e dar condições para que a caduca Europa não envelheça e morra sem nem conseguir renovar sua gente para pagar por sua aposentadoria. Velha Europa cheia de contradições, que maltrata os que garantem sua sobrevivência… Em uma situação de tanta precariedade, que te digam ainda que você não dá conta de alimentar o seu filho suficientemente e que ele precisa de mamadeira… bom, como não acreditar? Como não se submeter? A imigração esmaga muita gente tanto quanto o saber médico e o poder da milionária indústria de produtos para a primeira infância. E se ela fez a escolha de dar mamadeira para seu filho, essa escolha me pareceu totalmente atravessada por tais circunstâncias.

Ela não era uma inimiga por ter tomado um caminho diferente do meu na sua experiência da maternidade na medida em que optou por dar mamadeira com leite em pó ao seu filho. Do mesmo modo que eu não era sua inimiga, jogando meu seio e a amamentação na sua cara para mostrar-lhe como é que se faz, lembrando a ela o quanto “menos mãe” que eu ela seria. Minha existência não era um julgamento das escolhas dela e nem a dela dizia nada sobre as minhas. Éramos apenas, ela, eu e tantas outras, mais duas mulheres bombardeadas por informações desencontradas, equivocadas, servindo a múltiplos interesses que não os nossos e os de nossas crias. E tendo que fazer frente a isso apenas com nossos próprios desejos, as informações de que dispomos, nossas experiências de vida. Sozinhas. E em outro país.

Ela foi e voltou muitos dias. E, pouco a pouco, me vi capaz de saber o que fazer. E o que lhe pedir. De seu lado, ela deixou de ser uma estranha para a bebê e pode ficar com ela nas vezes em que precisei. Me ajudou com muitas coisas banais com extrema doçura: como limpar atrás da orelha, como cortar unha, como ver se a bebê não está com cólica… Penso tê-la ajudado a saber mais sobre os seus direitos por aqui. E sobre como conseguir fazê-los valer sem ficar dando dinheiro a exploradores inescrupulosos da necessidade alheia. Trocamos experiências, histórias e informações.

Hoje o bebê dela faz um ano. Infelizmente, a pequena e eu não pudemos ir na festinha. Mas penso com enorme carinho nesse pequeno, o menino lindo que ela deixa em casa para vir ajudar com a minha. Esse menino simpático e sorridente que ela gerou e cria com tanto cuidado. E que a encheu de experiências que ela generosamente me ofereceu. Parabéns, menino bonito do cobertor amarelo. E obrigada a ela, por ter me ensinado que a maternidade é uma experiência tão poderosa a ponto de aproximar os diferentes através daquilo que realmente conta: a vivência do cuidado silencioso, da compreensão sutil e da compaixão amorosa que aprendemos a ter com nossos filhos e que, com sorte, poderemos dedicar aos outros. A outras mães, como ela tem feito por mim. A outras pessoas, como fazem aquelas que lutam cotidianamente para que esses saberes e poderes não esmaguem nossa capacidade de sermos mães.

******

Este post foi inspirado pelo belo Projeto Coração Materno: por uma maternidade em rede, criado pela Isa Kanupp, do blog Para Beatriz e pela Ananda Etges, do blog Projeto de mãe. A idéia consiste em ações para fortalecer a solidariedade entre mães, ao invés da perversa disputa entre grupos de mães que fizeram percursos diferentes na criação dos filhos. Se existe um inimigo nessa nossa atual situação frente à maternidade, ao parto, à amamentação, certamente não são as mães que fazem outras escolhas. São, a meu ver, as condições e os jogos de poderes que pressionam mães em todo canto do mundo a fazerem escolhas de posse de informações equivocadas. Ou baseadas na coação. No medo. Ou na submissão ao saber do outro.

Postagens amigas sobre o mesmo tema:

Empatia nas redes sociais, por Ananda Etges do blog Projeto de Mãe.

Vamos falar de escolha? por Isabela Kanupp do blog Para Beatriz.

Por uma maternidade sem rótulos, por Priscila Abreu do blog Ei, mamãe.

Sobre julgar x acolher: onde é que seu calo aperta? por Ana Carolina Ferreira do blog Um novo tempo.

A pior escolha que uma mãe pode fazer, por Ana Marusia Pinheiro Lima Meneguin do blog Mãe Perfeita.

Escolhas não nascem em repolhos, por Gabriela D’Andrea do blog Eu mamãe.

Blogagem coletiva: coração materno, por Carla Ferreira do blog Super Mãe de Primeira Viagem.

Blogagem coletiva projeto coração materno: por uma maternidade em rede, por Geisa Simonini do blog Na mira da mamãe.

Blogagem coletiva coração materno / escolhas, por Martha Albuquerque do blog Minha pequena e eu.

Conformação que gera letargia, por Myriam Scotti do blog Mãe no País das Maravilhas.

Pelo fim das guerras maternas, por Helena Sordili do blog Eu (Lele), ele e as crianças.

Pela liberdade e informação, por Luciana Primante do blog Meninas Plugadas.

E agora, Sofia? por Raquel Lima do blog Belly Mama.

Sobre verdades e máscaras, por Manu Mantovani do blog Feminices.

12 comentários sobre “Ela e eu.

  1. Oi, Alessandra,
    quando a gente se permite conhecer o outro, conviver com ele, fazer com que ele também nos conheça, descobre um universo inteiro. É na relação com o outro que a gente pode conhecer a si mesmo. É o que vc mostra em seu texto.
    Quando a intolerância nos impede de ter essa relação, a perda é incomensurável. Espero que esse novo movimento de aproximação das mães possa falar mais alto.
    Um grande beijo!

  2. O que mais me encantou no seu texto foi ver nas entrelinhas dele a troca de experiências, que duas mães, com escolhas e oportunidades tão diferentes, estão aprendendo uma com a outra, pois independente de como criam seus filhos as duas querem o melhor para eles e estão abertas à troca de experiências. Bonito!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s