Papo de mãe: qual foi a sua maior dificuldade com a maternidade até hoje?

Eu responderia sem muito pestanejar: a solidão.

É verdade que a maternidade tem muitas dificuldades. Ou melhor, prefiro dizer, pois me parece mais condizente com o que tenho vivido, que a maternidade tem muitos desafios. Uma experiência nova na vida de alguém que já viveu tantas coisas, já tem seus gostos, seus modos, suas idéias, suas manias, suas histórias, sua bagagem, suas desilusões e suas verdades é sempre algo revolucionário, que chega para bagunçar a cabeça, a rotina, o conhecido, tudo o que foi estabelecido. Maternidade tem dessas coisas, a cada dia um acontecimento novo e, com ele, a necessidade de se perguntar: como é que queremos viver isso? Como pensamos em cuidar, criar, amamentar, alimentar, ensinar, educar? Como pensamos em amar esse serzinho que chegou agora aqui?

São tantas dúvidas e tanto desconhecimento que a sensação é de vertigem. E, claro, surgem dilemas, tensões, frustrações o tempo todo. A amamentação que deveria ser evidente, por ser natural, demanda uma batalha cotidiana. A falta de sono que deveria ser minimizada pela mudança de ritmo e por seguir os tempos do bebê fica aumentada pelo fato de, no final do dia, você precisar de um tempo para você e decidir aproveitar enquanto o rebento dorme para ter esse momento pessoal. As vacinas, as consultas médicas, as curvas de peso… tudo vira motivo para pensar, para buscar compreender. E para tomar posição.

E a disponibilidade? Ou a obrigação de estar disponível, afetivo, cheio de amor para dar, cheio de tolerância e compreensão quando o bebê precisa de você, ou seja, sempre? E as cólicas, os choros, os dentes?

Sim, são mesmo muitos desafios, coisas pequenas e banais que você não imagina que poderiam dar tanto trabalho, suscitar tantas questões sobre modos de proceder ou, até, tantas discussões com quem está em volta. É trabalho, minha gente. Trabalho e mais trabalho. Daqueles grandes, daqueles sérios. Daqueles que a gente só faz quando tem muito desejo envolvido.

Mas, novamente, a meu ver esses são desafios. São as perguntas, os dilemas e as decisões que vêm junto com o bebê. E que, pelo que dizem, nos acompanham por toda a vida. Porque sempre vai haver algo em que se pensar, algo a fazer, uma decisão a tomar. Maravilhoso e turbulento mundo em que o outro nos provoca em tudo acerca de nós mesmos. Filhos são belas provocações.

O que me pareceu realmente difícil, até agora, foi a solidão dessa experiência. Foi passar por todas essas novidades cotidianas e tomadas de decisão praticamente sozinha.

OK, eu vivo em uma situação sui generis, pois vivo fora do país. Então, não tem mãe, pai, irmã, tia, amigos próximos desses amigos-irmãos por perto para dar aquela força, um abraço amigo, ou para segurar a pequena na hora em que preciso fazer pipi. Nem tenho marido que pode estar o tempo todo por perto. Mas não penso que essa solidão seja por conta dessa circunstância apenas. Penso que é uma solidão com que toda mãe se depara por mais acompanhada que ela esteja.

É uma solidão que a gente descobre logo que o bebê nasce e, quando ele chora, não tem ninguém mais capacitado que você para acudir, sabe? É quando você descobre que virou o adulto da situação e está na linha de frente e que, agora, tem que cuidar de um outro que precisa ser cuidado. É quando deixa de ser filha para ser mãe e o centro de sua vida muda de lugar. É quando tem que tomar as decisões mais banais e cotidianas pesando as informações que tem, os prós e contras e torcendo para ser realmente o melhor. É quando você sabe que, se der merda, a responsabilidade é sua e tudo o que você mais deseja é que não dê merda. É quando você sente que tornou-se um ser à flor da pele que pode se desfazer se o outro sofrer e você não puder evitar. É quando os outros não podem te aliviar dessa responsabilidade porque você sente o quanto é sério ter posto alguém nesse mundo e que, agora, tem a obrigação de oferecer a ele o melhor mundo possível. É essa consciência da dependência e da extrema fragilidade daquele bebê que te torna, você também, tão dependente, tão frágil, tão pequena. É quase desmoronar e não poder, pois sabe que alguém conta profundamente contigo.

Essa solidão que a maternidade traz e instaura na nossa vida, isso me parece o mais difícil, o mais desconcertante. Por sorte existem outras mães em suas solidões e isso nos permite partilhar. Solidão compartilhada não dói e, ainda, nos torna mais humanas. Mas isso já é outra história, talvez para outra postagem, ou talvez seja exatamente sobre o que eu falava na postagem anterior. Mas, de todo modo, já entramos noutra conversa.

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Este texto faz parte de um outro projeto de blogagem coletiva que acho muito simpático, o “Papo de mãe” proposto pela Lalah do blog Agora eu sou mãe.

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6 comentários sobre “Papo de mãe: qual foi a sua maior dificuldade com a maternidade até hoje?

  1. Nossa Alê!!! VERDADE! Nos dois primeiros meses (críticos) do Thomas, eu estava em casa, com todo mundo. Agora aqui nos EUA, sozinha e no frio, a solidão pega. Pega demais, ver as conquistas diárias dele e não ter como dividir rápido com alguém! A solidão é osso!
    além do fato da distância, foi como vc falou: ser mãe é ser meio solitário, pois aparentemente só a gente sabe o que fazer e como fazer e nem sempre temos a certeza de estarmos certas! DEve ser o tal encontro com a própria sombra da Laura Gutman (ainda não li). Mas é isso aí, a disponibilidade, a devoção…. Msa mesmo assim, é tudo muito gratificante!
    Bjoks pra vcs! 🙂

    1. Pois é, Carol, é gratificante sim. Também não li ainda o livro dela, mas está na lista. Agora, solidão e frio é muito f$%&, né? Como se não bastasse estar sozinha, ainda ter que encarar dias cinzentos sem fim, ninguém merece. Força pra gente! Beijocas.

  2. Seus textos são incríveis… Tenho medo desta solidão, pois minha mãe mora em outro estado e não tenho ninguém por perto… Penso muito nisso, e tento me preparar da melhor maneira…. Continue escrevendo, sem dúvida ajuda muitas mães….

    1. Aline, obrigada pelo seu comentário. A solidão é mesmo muito difícil e na gravidez ela aumenta um bocado. O negócio é se cercar de amigos ou família, na medida do possível. Por vezes, buscar lugares e contato com outras mães, pois elas passam pelo mesmo que a gente e é mais fácil de criar empatia e de partilhar dificuldades em comum. Um abraço, Alessandra.

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