Os três patetas vão ao restaurante

Sabe aquelas idéias que a gente tem de vez em quando e que a gente sabe que são péssimas mas, mesmo assim, a gente encasqueta que vai dar certo e coloca em prática? Pois é. Ontem foi o momento de uma dessas epifanias, em que essa que vos fala concluiu que seria uma idéia genial sair para jantar com o cara-metade e a pequerrucha.

Vocês podem perguntar: qual é o problema?

Tenho uma conhecida que me disse, logo que a bebê nasceu, para aproveitar e sair muito no começo, que eles só dormem mesmo, porque depois teria que esperar uns bons anos para botar a cara em um restaurante novamente. Sábias palavras.

Que escolhi ignorar.

E lá fui toda pimpona, de preto sobre preto sobre preto, no melhor estilo francesa esbelta (ah, o preto, como ele nos ajuda nesse efeito trompe l’oeil, seu lindo!), cabelos ao vento, tipo mãe celebridade, cara-metade do lado, bonitão, com a pequena no canguru, toda colorida, olhos bem abertos, apreciando o passeio. Maravilha de comercial de margarina.

Então entramos no restau, somos acomodados em uma mesa simpática, olhamos ao redor com gostinho de quem está adorando sair de casa, ele pede um apéro, eu fico na água mesmo. Pedimos os pratos que parecem deliciosos, o garçon simpático nos convence que é uma boa comer uma entrada antes. E lá vamos nós, família feliz, rumo a um jantar comme il faut, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.

L-E-D-O E-N-G-A-N-O.

Uma coisa que aprendi é que devemos respeitar os horários, ritmos e limites dos nossos bebês. A primeira infância passa muito rápido e ninguém morre de passar um tempo sem fazer baladas infinitas pelo mundo afora. Porque, simplesmente, bebês cansam, sentem sono, sentem fome, ficam inquietos e esgotados dos estímulos do dia. E isso tudo ocorre especialmente à noite. Saímos pouquíssimas vezes com a pequena de noite até agora e, quando isso ocorreu, por conta de pequenas viagens e coisa que o valha, tudo correu muito bem, ela dormindo no sling, tranquilona, como se não houvesse amanhã.

Isso até ontem à noite. Quando ela decidiu simular uma mistura explosiva entre “Alien, o oitavo passageiro” e “O Exorcista”.

Sério.

O caldo começou a entornar logo depois da entrada. Animadona com toda aquela gente, aquele burburinho, aquelas cores, aqueles cheiros, a pequena ficou dividida entre olhar para todos os lados, tentar chamar a atenção da mesa vizinha (putos, como é que nem deram atenção para uma fofura dessas?) e resmungar que estava cansada. Até que deu uma regurgitadinha. Coisa pouca, pegou num canto da sua blusa e a mãe francesa esbelta de pretinho básico posando de celebridade discretamente limpou tudo com a perícia de um escultor polindo sua criação. Partimos para a estratégia infalível: a mamada que alimenta, relaxa, faz feliz e faz dormir gostoso no restaurante, no carro, no museu, onde quer que seja. Ainda mais que já era hora do soninho. Pensei: moleza! A gatinha mama e dorme antes do prato principal chegar. SO DAMN WRONG…

Então a pequena descobre que a parede é avermelhada e rugosa e… Wow! Que demais! Yupiiiii! E dá-lhe peitola esguichando leite pelo mundo afora. Putz!

Pronto, calma, ninguém viu, vamos em frente, ela vai mamar. Só que não porque tem a parede, os vizinhos da mesa ao lado, a iluminação do bar… Eu coloco ela sentada e de repente estou com o alien nos meus braços se jogando para todo lado e por que diabos os malditos vizinhos não falam com ela e fazem careta e distraem ela um pouco, minha gente?! Então ela lembra dos meus cabelos ao vento (ela adora cabelos ao vento) e gruda neles com aquele amor que só ela tem, catando um chumaço de cada lado com vontade, que é para mostrar que está perita mesmo nesse negócio de agarrar e puxar. E puxa, puxa, puxa toda a juba para a frente do meu rosto e enfia todo o chumação dentro da boca toda, aquela boca linda sorridente desdentada que eu amo e que engole toda minha cabeleira de starlet francesa esbelta e blasé ali no restaurante. E com muito custo eu consigo negociar a liberação dos cabelos reféns e ela, de boca vazia, começa de novo a resmungar porque está cansada, com fome, cheia de interesses e tudo isso já é mega over quando chega o prato principal, o cara-metade todo lindo cortando o magret de canard para minha pessoa, que com uma mão como tentando equilibrar magret, molho, acompanhamento em uma garfada torta dessa já não tão elegante à la francesa de pretinho básico, descabelada com chumaços babados inclinada para um lado tentando achar o caminho do garfo à boca enquanto equilibra a pequena alien divertida e resmungona no outro braço com ela exercitando todos os seus movimentos recém aprendidos para tentar chamar a atenção dos malditos cretinos vizinhos de mesa que não param de conversar um segundo sequer seus desalmados que não devem ter filhos e nem devem saber como é importante sair para jantar uma vez depois de tanto tempo e nem se solidarizam com a causa, bof, bof, bof, odeio todo mundo, a humanidade é fria e egoísta quando… Gente, ela vomita. Mas não aquela regurgitadinha discreta, aquela regurgitadinha fina, tipo arrotinho que a rainha da Inglaterra deve dar nos jantares oficiais segurando o guardanapo no canto da boca. Não. Ela vira a menina do “Exorcista”. Não vira o olho, nem gira a cabeça 360°C, calma, minha gente. Mas manda aquela famosa “gorfada em jato” que…

O mundo para. Em câmera lenta essa que vos fala tenta descobrir na velocidade de um raio onde foi parar o jato de leite vencido. Antes que alguém descubra. Olho por todos os lados, não sem antes tentar alcançar o guardanapo que a pequena habilmente tinha jogado no chão e ali está… na minha calça. Sim, na minha calça preta modelito ótimo que faz de conta que estou esbelta e fina e elegante à perfeição. Ali, naquela calça jaz uma poça de leite. Poça, eu juro.

O cara-metade pega a pequena enquanto eu tento enxugar a poça antes que a calça absorva tudo, numa corrida para ver quem é mais rápido e mais esperto, ela ou eu. A bebezinha resmungona senta no colo do pai ainda resmungando, meio indignada com aquilo tudo e ele dá a ela uma folha de alface.

Hahaha, minha gente! Porque tinha esquecido de falar, têm os dentinhos nascendo agora e qualquer um vira o demônio da Tasmânia com dentes nascendo e coçando e toda essa irritação e resmungação devia-se em boa parte a isso também. Que, claro, a patetona aqui não achou que fosse influenciar tanto na hora em que decidiu fazer saída noturna com jantar descolado com direito à entrada, prato principal e sobremesa. E, sim, acabamos de começar a diversificação alimentar e fazemos tudo bonitinho, os legumes orgânicos cozidos no vapor, temperados com ervas e um pingo de azeite, aquela descoberta cotidiana, sabores, cores, texturas, tudo um sonho sem fim até que alguém teve a bendita idéia de ir jantar fora e, no meio do caos, ofereceu uma azeitona para ela roer (what? sim, azeitona) seguida de perto em sua insanidade pelo cara-metade que não contente em oferecer uma folha de alface que não obteve muito sucesso, saiu-se com um bem sucedido pedaço de pão. Sim, meus queridos, um pedaço de pão. Pão bom, que aqui na França tem pão ótimo mas… pão. Putz!

A pequena aquietou com o pão antes do cara-metade ter um momento de lucidez e concluir que era melhor irmos embora, pois não seria nada prudente mandar uma baguette na mão da menina e entregar para Deus enquanto pedíssemos a sobremesa. Conclusão: nada de provar o tal creme de chocolate branco com maracujá…

Voltamos andando para casa, a pequena sossegada no colo do pai, eu meditando sobre quem teve a idéia de Jerico de sair para jantar à noite fazendo a diva da nouvelle vague apenas para retornar com o rabinho entre as pernas, os cabelos em tufos babados e a calça vomitada, sem nem um consolo de açúcar para a situação. Chegando em casa, a pequena se agita. É hora de trocar de fralda, de roupa, mamar e dormir. Eu corro para trocar de calça. O cara-metade me pergunta se era tão urgente trocar de calça (vomitada… oi?) que eu não podia dar de mamar logo. Isso vindo de quem falava fazendo cócegas na barriga da pequena. Pois é, a maternidade e a paternidade tem seus momentos surrealistas.

Não sei se porque no meu prato tinha uma redução de cerveja ou se porque a noitada foi toda montada num cenário cômico delirante, aquela cena ali me deu um acesso de riso incontrolável. E lá fui trocar a pequena e amamentar sem conseguir parar de gargalhar. Somos absurdos. Somos ridículos. Isso tudo é divertido demais.

Claro que foi menos engraçado hoje pela manhã, quando tive que sair e constatei que minhas opções de vestimenta eram: uma calça molhada recém lavada, duas calças de antes da gravidez que haviam rasgado, uma calça de grávida gigante. Ou a calça vomitada. Putz!

9 comentários sobre “Os três patetas vão ao restaurante

  1. Alê, tô chorando de rir! haha eu tava escrevendo um post nesses moldes, de como é difícil fazer coisas simples com os pequenos! hahaha Outro dia, nos pegamos cantando Anitta no meio do mercado, pq o Thomas parava de chorar! ainda bem que aqui nos EUA ngm sabe o que é PRE-PA-RA…hahahha
    bjos

    1. hahahahaha, Carol, tô imaginando a cena… a gente paga muito mico, né? Mas, te juro, fazia tempo que não ria tanto eu também, é muita comédia tentar levar uma vida “normal” com esses pequenos a tiracolo. Beijocas e aguardo ansiosamente seu post das patetices do lado de lá do Atlântico.

  2. Oi Alessandra!
    Hahahaha, ri muito aqui também. Quem nunca passou por uma dessas, certamente, é porque não tem filhos. E não adianta, nessas horas, nada melhor que o bom-humor.
    Fico só imaginando comequeé isso tudo aí na França, onde parece que as pessoas não dão muita bola mesmo pros pequenos…
    Obrigada pelo comentário lá no blog. Deixe uma resposta lá pra você (meio imensa também – pra quem reclamou que não queria mais escrever ando bem prolixa).
    Beijos!

    1. Ilana, pois é, aqui na França é bem esquisito, isso dá pano para a manga, as diferenças culturais na hora de criar os filhos. Para te dar uma idéia, aqui é um dos países onde as mães menos amamentam no mundo, que tal? Quem sabe uma hora eu escrevo sobre isso? Enquanto isso, vou ali no seu blog responder porque adoro prolixidade… Beijocas.

  3. Olha sei que a situação não é nada agradável, mas eu ri, e muito kkkkkkk
    Por enquanto ainda estamos na fase “bebê pequeno dorme muito” e ainda dá pra sair, mas sinto que essa situação vai mudar logo logo rs
    Semana que vem tem BC ok?
    Bjos!

    1. Lalah, faço minhas as palavras da minha conhecida: “aproveite, aproveite, aproveite!” hehehehehe. Estou no aguardo para a BC, vou tentar novamente colocar o logo na minha página. Beijocas, Alessandra.

  4. Vixe, uma coisa que aprendi com a Bebe 1 é que depois das 18h, é a hora do capeta. Não aceitava nem visita depois desse horário. Então somos “descolados” com Bebe 2 e nunca nem cogitamos sair pra jantar ou noitadas. Minto: fizemos isso UMA vez nas férias no Brasil e me arrependi amargamente. Mas melhora, melhora sim. Depois dos 2-3 anos é uma nova fase (não necessariamente mais fácil/melhor em todos os aspectos) e a vida noturna passa a ser uma possibilidade. Aproveite as noites para fazer programinhas tranquilos em casa até a pequena crescer. 😉

    1. Pois é, Chris. Pior que eu já tinha entendido isso e tinha entrado no esquema vida diurna. Mas quis brincar com a sorte e olha só no que deu… hehehe. Me resta apenas esperar até os 2, ou 3, ou 6, ou 10, ou 15, ou 18… 😉 Beijocas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s