Diversificação alimentar? Putz!

Então você, mãe de primeira viagem, pariu e acreditou que esse era o maior desafio da maternidade. Veio a amamentação. Então você bravamente mergulhou nesse universo de leite, mamadas, afeto e sono e acreditou que esse era o maior desafio em ser mãe. Veio o momento da diversificação alimentar…

Pô, qual é o maior desafio em ser mãe, então? Quando é que a gente pode sentar, relaxar, pedir um aperitivo, abrir um livro e se felicitar por ter dado conta de tantas coisas que não eram nada evidentes com garra e dedicação de leoas? Hahaha, pois é… nem preciso responder, né?

A história da diversificação alimentar começa parecida com a da amamentação no seguinte sentido: do mesmo modo que você é bombardeada de informações desencontradas logo que seu bebê nasce e que vocês dois começam essa descoberta que é o momento de cada mamada, acontece uma segunda enxurrada de orientações e palpites que têm por tema a alimentação do seu bebê assim que você diz que começou a dar “papinha” para ele. Foi dada a largada, todo mundo em volta querendo saber se o sujeitinho come bem (oi?), o que come, como come, quando come, quanto come… todo mundo tem uma receita, uma dica, um método infalível. E todo mundo tem também um comentário bem simpático a fazer, de preferência na frente do seu rebento que está ali tranquilamente descobrindo uma coisa nova: “ah, bem, come mesmo, come bem direitinho porque a sua mãe – ou o seu pai, ou o seu irmão, ou o seu primo, ou quem quer que seja o termo de comparação do comentário infeliz – não comia nada”. Se minha pequena pudesse responder nesse momento, acho que ela diria algo como: “puxa, valeu pelo incentivo, hein?”. No entanto, como ela é mais esperta e mais blasée do que isso, apenas olha com indiferença enquanto continua chupando seu pedaço de legume, fruta, carne ou o que for que ela esteja explorando naquela hora.

Acho curioso como as pessoas e suas receitas, palpites e opiniões se preocupam muito pouco em observar o que está acontecendo. Não parece estranho a vocês também que as pessoas cheguem com as respostas antes mesmo que alguém faça uma pergunta? Ou que cheguem com soluções, idéias preconcebidas e diretrizes a te fornecer antes mesmo de saberem quem você é ou o que está acontecendo ali? A mim sempre pareceu muito esquisito. Talvez por isso tenha me tornado psicanalista, já que a psicanálise considera que o mais importante é aquilo que o sujeito tem a dizer e, mais ainda, aquilo que ele pode ser se dermos espaço para que ele diga e seja sem ficarmos poluindo tudo com nossas falas e nossas conclusões desconectadas da pessoa que ali está. Enfim… nesse modo arbitrário com o qual as pessoas se aproximam para falar de diversificação alimentar e de como fazê-la, parece-me que escapam algumas observações que, ao menos para mim, têm sido bem úteis nessa nova etapa:

Sua filha já está comendo? Sim, evidentemente, ela come desde que nasceu senão não estaria aqui, né?

Pois é, acho que a primeira obviedade que escapa às pessoas, inclusive à nós, mães, na hora em que começamos a nos preocupar com essa história da alimentação é que nossos filhos já comem desde que nasceram. E perceber isso diminui muito a ansiedade e a expectativa. Quero dizer: eles comem, sabem comer, estão bem alimentados, saudáveis… o que muda, a partir dos seis meses, é que nós oferecemos a eles outros alimentos além do leite.

Tenho encarado a diversificação alimentar como algumas outras coisas desse mundo que estou apresentando à minha filha: gostos que ela conhecia sutilmente porque passavam pelo leite materno e que ela reencontra agora mais intensos, em novas cores, texturas, temperaturas. E acho que essa é a segunda obviedade que nos escapa: trata-se de uma descoberta, de apresentar algo do mundo, de uma brincadeira.

Sim, pois os pequenos botam os alimentos na boca como quem coloca qualquer coisa na boca, para conhecer e explorar e, de repente, aquilo tem um gosto, uma consistência, é interessante… Parece que é assim que começa, como uma brincadeira divertida que acaba virando alimento também. Mas não é isso o principal no começo. Até mesmo porque o leite é o principal alimento de um mamífero por um bom tempo e nós somos mamíferos, mesmo que nos esqueçamos disso com frequência. Os outros alimentos vêm como complemento, como uma apresentação, como uma brincadeira de explorar que pode ser divertida, surpreendente e prazerosa. Eis aí mais uma obviedade que nos escapa, ou que insistimos em ignorar: comer tem a ver com prazer.

Comer é um ato prazeroso, e isso é tão fácil de constatar observando um bebê que mama quanto uma criança ou um adulto que comem com gosto algum alimento de que gostem muito. Por que não poderia ser assim para uma criança? Por que, de repente, tudo tem que ficar sério, baseado em quantidades pré-estabelecidas que desconsideram ritmos e vontades daquele serzinho… por que tem que ficar chato, estressante, limpo, sem botar as mãos, sem babar nem nada disso? E como podemos esperar que nossos pequenos curtam a experiência a ponto de querer repeti-la várias vezes ao dia se logo somos tragados pelo mar de palpites e orientações estapafúrdios que tentamos seguir como se fossem garantir que o bebê coma e coma bem?

Aliás, o que é comer bem? Eu não sabia até pouco tempo, mas o estômago de um bebê de seis meses tem mais ou menos o tamanho de seu punho fechado. Ou seja, é minúsculo. Ou seja, aquela pratada que você come dizendo que comeu “super bem”, aquela feijoada, aquele dogão… nada disso vai caber. Fisicamente impossível. E lá vamos nós ajustar expectativas aos fatos e aos limites da realidade de um bebê.

Primeira conclusão desse início de diversificação alimentar: temos que reaprender a comer quando começamos a variar a alimentação de nossos filhos. Segunda conclusão: temos um mergulho garantido para dentro de nossas concepções e histórias com a comida tão logo começamos a precisar decidir sobre pratos, legumes, frutas, carne, onde, quando, como, quanto… Maternidade parece que é assim: quando você pensa que conseguiu entender alguma coisa e começa a relaxar, logo surge o momento seguinte, cheio de surpresas e de questões para pensar, estudar, informar-se, decidir…

E quanto aos palpiteiros de plantão… minha gente, vamos parar de despejar caminhões de expectativas nesses pequenos? Vamos deixar eles se divertirem um pouco com o que estão vivendo? Vamos deixar as nossas neuroses, ressentimentos, manias e afins guardados para nós mesmos, ao invés de sair vomitando palpites sobre alimentação por aí, por gentileza?

Obrigada. Quem sabe então possamos falar do que interessa realmente.

Alguns posts, links e idéias que têm me ajudado:

Meu filho não come 6/7 meses (introdução alimentar) do blog As delícias do Dudu.

O grupo Alimentação Consciente do facebook.

Nutrição infantil, o blog.

Diretrizes para o blw, post do blog Nosso primeiro bebê.

A saga da introdução alimentar, post do blog Potencial Gestante.

Nossos filhos são o que comem, post do blog Cientista que virou mãe.

Baby Led Weaning, o site.

3 comentários sobre “Diversificação alimentar? Putz!

  1. Ai, Alê….sou sua fã! hahaha Vc consegue pensar e escrever exatamente o que passa na minha cabeça! Eu, quando criança, era um terror pra comer. simplesmente não tinha fome e comia MUITO pouco. Até hoje me lembro de um episódio de um almoço na casa da minha avó, que eu não aguentava mais comer um pedacinho de bife. o último pedaço. Meu pai, sem entender como aquele pedaço minúsculo não cabia na minha pancinha, me forçou a ficar na mesa até comer aquele pedaço. Bom, eu não comi. Meus parentes foram embora porque eu fiquei quase umas 5hs na mesa e o terror que meu pai fez com que eu passasse, fez com que eu comesse menos ainda. Olha, até hj, aos 31 tem dias que não cabe o último ravioli, sabe? e sempre pensei isso: como podemos exigir de uma criança, de 6 meses que coma muito, sem se sujar e ache tudo uma delicia??? Não é por aí…. Ainda faltam 2 meses pra começar a introdução das comidas com o Thomas e eu estou curiosa. Mais curiosa porque já vejo que ele observa muito minha boca enquanto como e – confesso – já andei esfregando algumas coisas no lábio dele, visto que eu não amamento mais e ele só sabe o gosto do LA. Ele parece gostar, fica com cara de aflição, mas ulimamente tenho dado muita coisa para ele cheirar. Acho que começa assim, não sei…Como tudo que tenho feito até hoje, estou seguindo minha intuição e acho que é assim mesmo: tem que fazer meleca, tem que brincar. Comer é prazer, não pode ser diferente! 😀
    Mil beijos

    1. Querida, falou tudo. Eu também tenho uma cena traumática dessas, só que foi com sopa de espinafre. Passei décadas sem nem conseguir olhar para uma folha de espinafre… e, claro, decidi não fazer o mesmo com a minha filha. Ela também parecia curiosa desde os 5 meses, mais ou menos e nas primeiras vezes que ofereci algo, levou à boca como se fosse um brinquedo qualquer. Agora é que acho que ela está comendo mesmo, antes era quase um acidente, sabe? Mas é muito divertido, precisa ver as caras que ela faz com cada coisa. Acho que você vai se amarrar na hora em que o Thomas começar também. Beijocas e segue firme sua intuição que você é craque nisso.

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