A mãe triste e o menino

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados.

O menino nasceu pendurado por um tênue fio a ela. No começo, entre mamadas e cuidados diários, parecia que o fio sustentava. Ela dava conta de estar ali para ele, empenhando nisso todos os seus esforços. Ele se empenhava em sua sede de vida e de conhecer o mundo.

Com o passar dos meses, os primeiros sinais de independência, os primeiros olhares para fora daquele dueto. Ela, exausta, viu nesses pequenos movimentos de vai-e-vem a oportunidade de ir-se. Se um bebê pequeno era possível e a ajudava mesmo a sentir-se inteira e viva, um bebê menino pequeno era demais. Demanda demais, esforço demais, decisões demais, atitudes demais, acontecimentos demais. Cada novidade exigia dela uma posição e cada posição um pensamento e um trabalho. Teve um momento em que deixou de suportar remar contra a maré e deixou-se simplesmente tragar e tragar e tragar. E deixou-o ser tragado também pelo que viesse.

O menino, confuso, não sei se entendeu muito bem porque sua mãe desistiu desse embate diário que lhe dava um contorno em forma de comida, de cocô, de fraldas, de falas, de brincadeiras, de roupas, de sono e de tudo o mais que ele necessitava. Ele não entendeu suas ausências em presença, não entendeu como é que ela poderia estar ali sem estar. Apavorou-se em vê-la desaparecer sob seus olhos, detrás do computador, de livros, de escritos… Ela se afastou mais, pois até mesmo esse olhar suplicante lhe demandava além da conta e quanto mais ele pedia, mais ela se refugiava em suas tarefas que eram tudo menos ele. Precisava dormir, precisava descansar, precisava arejar as idéias, precisava trabalhar.

O trabalho voltou e ele ficou cuidado por outros. A escola chegou para ele e esse cuidado se espalhou e se terceirizou ainda mais. Ela decidiu cada vez menos e isso parecia confortar-lhe. Não podia suportar que alguém precisasse dela tanto assim, era peso demais para ela. Melhor que outros decidissem em seu lugar, já que faziam tanta questão. Baixou os braços, entristeceu-se e apequenou-se no lugar de mãe.

O menino desorientou-se um tanto em meio a esses cuidados. Cada um faz de um jeito e pensa uma coisa diferente. Como lidar com seus pedidos? Seus momentos de cólera? Suas teimosias? Suas dificuldades? Cada um age de um jeito e isso fez o menino crescer confuso, sem saber direito até onde pode ir. Qual é o limite da sua própria pele? E, pergunta ainda mais vital para ele do que essa sobre os limites: como ter o que precisa?

As faltas que impomos aos nossos filhos, muitas vezes as compensamos com consumo. Toda aquela demanda de afeto, de presença, aquela voracidade, aquela intensidade da necessidade do menino bebê foi desviando para os lugares e os modos em que ele podia receber algo: comida, atenção, objetos, presentes, doces. Ali onde ele podia ganhar, instalou-se e tornou-se um colecionador de coisas, coisas que ingere e coisas que acumula, tampando os buracos das suas carências com aquilo tudo. Não pode se desfazer, não pode emprestar, não pode deixar nada dessas coisas circularem livremente porque isso seria perder alguma coisa. E perder alguma coisa, para ele, seria perder tudo. Do cocô ao brinquedo, nada sai.

O menino foi crescendo carente, tristonho no fundo do seu coração, sob uma máscara de risonho encanto. Agressivo nas suas exigências, nas suas reivindicações que sempre pressionam o outro para que ceda, para que lhe dê aquilo que quer, para que se submeta ao seu desejo e à sua necessidade. Estar com o outro tornou-se uma espécie de “só pode haver um”. Um desejo, um que vence e impõe ao outro o que quer. Trata-se de um braço de ferro em que ele se especializou desde menino, em que vence quem gritar mais alto, pois essa é a única forma de conseguir algo. Gritar, gritar, gritar na esperança de que ela escute, de que ela venha, de que ela se mexa. Será que um dia ela vem?

Não, ele não se tornou um delinquente, nem nenhum desses clichês que poderíamos associar como consequências óbvias de seu lugar de origem. Tornou-se um sujeito correto, bem sucedido, que trilhou um caminho bastante comum, sem dar muito trabalho nem se colocar muitas questões. Estudou, escolheu uma profissão, casou-se com a namoradinha da faculdade, teve filhos, comprou uma casa, um carro e um cachorro. Mas tudo isso foi se colando em torno de um vazio, uma casca oca encobrindo esse lugar primeiro em que algo faltou. E como ele não se deu conta de que as bases eram tão frágeis, uma hora tudo explodiu. A vida explodiu, a história explodiu, a família explodiu e ele se viu afogado novamente por aquele lodo negro, aquela dor que ele conheceu lá no começo e da qual ele tentou se afastar sem levá-la em consideração. Ele se tornou alguém muito parecido com aquela mãe triste, o olhar vazio e distante que não responde, não olha, não pode, pois tudo é pesado demais.

E ela?

Como eu disse, toda história tem ao menos dois lados. E o lado dela foi igualmente árido. Essa tristeza que a tragou não vem sem culpa, a não ser na medida em que ela se acentua e se acentua e se acentua até estar tão sufocante que não há ar para respirar ou para se sentir culpada. Eis uma espécie de libertação pelo pior, uma saída para não precisar olhar, não precisar se responsabilizar, não precisar sangrar e doer por pura impossibilidade. Ás vezes o estado de espírito é tão frágil que não há forças nem para sentir culpa.

Freud (sim, o bom e velho) escreveu em um de meus textos favoritos, o maravilhoso Luto e melancolia, lá pelos idos de 1917, que sempre que perdemos algo muito importante, somos arremessados em um processo de luto que é necessário, fundamental. Serve para ficarmos lambendo nossa ferida o tempo que dure para que ela cicatrize. Pegamos cada coisa, cada lembrança, cada memória, cada cheiro, cada lugar, cada momento associado com aquilo ou aquele que perdemos e lembramos, lambemos, choramos, doemos e… deixamos ir. Um processo de luto é um processo de renúncia ao que não podemos mais ter, visto que está perdido.

Quando não conseguimos perder, quando não aceitamos, não queremos, lutamos contra e nos rebelamos, eis aí o que ele chama de melancolia. Melancolia é tentar apegar-se com tanta força àquilo que se perdeu que o único jeito possível é engolindo aquilo. Engolindo, incorporando, tatuando na pele e nas entranhas cada pedaço de cada detalhe de cada coisa, lembrança ou situação que se relacione com o que foi perdido. Assim, por meio dessa incrustração, dessa incorporação, guardamos o que perdemos no mais fundo do nosso ser e, desse modo, vivemos como se não fosse perdido.

Só que a melancolia cobra um preço cruel por seus serviços. Você não perde nada, você não deixa partir, você não renuncia mas… passa a vida inteira impregnada de um cadáver. Sim, um cadáver morto e putrefato que você engoliu na esperança desesperada de que, com isso, ele viva e você não tenha que abdicar dele. Até o ponto que você vira esse cadáver. E cadáveres, como todos sabemos, não se movem. Eis uma vida morta e imobilizada pelo esforço em não perder.

O que será que ela não pode perder com tanta força a ponto de ter se aceitado se encarcerar nesse lugar negro e lodoso do qual não pode mais se mover, ficando prisioneira de sua própria impossibilidade de renunciar, ficando imóvel? Pelo que ela pagou o preço de sua imobilidade? O que valeu sua paralisia e de todos a seu redor, sempre pisando em ovos com medo de dizer algo que faça com que ela se feche e desapareça ainda mais? Pelo que ela entregou sua vida e aceitou renunciar a quem ela é pelos que a amam? O que fez com que amor se tornasse exigência pesada demais? Por que sua única opção é abandonar e ficar abandonada? A que serve esse estado tenebroso de imobilidade que faz de todos além dela mesma reféns? Será ela também fruto de uma história de abandono e negligência? Que é fruto de outra história de abandono e negligência e de outra e de outra, por várias gerações?

Quando ficamos grávidas, a maior parte das pessoas insiste em um discurso esquizofrênico que oscila entre as maravilhas insuperáveis da maternidade e os horrores de tudo aquilo que você vai perder e/ou do que vai ter que abdicar. Eu mesma escrevi sobre isso aqui, em uma época em que começava a estranhar essas contradições dos discursos sobre a gravidez e o ser mãe e aqui, no começo dessa vida pós-parto. Mas aquilo que quase ninguém fala é que a maternidade faz com que você se perca de você mesma. Aquela pessoa que você era, foi, construiu com mais ou menos cuidado, com mais ou menos investimento, prazer e alegria é varrida do mapa para aquele lugar chamado passado. Que você queira ou não, que saiba ou não, que lute contra ou não, está feito e qualquer que seja a relação que você construa ou não com o seu filho, o fato irremediável é que você passou por essa experiência que rasga a vida em antes e depois: ficou grávida, pariu, virou mãe. E essa onda que te arrasta e sobre a qual você não tinha pensado é inclemente e o único modo de sobreviver é fazendo o luto de quem você foi. Perdeu. Você perde você. E vai ter que construir, inventar, criar uma você outra, que pode ser mais ou menos próxima daquela que foi, mas que nunca será a mesma porque a ela foram somadas as marcas mãe e filho.

Tem gente que construiu toda uma vida antes de tornar-se mãe e que viveu anos e décadas apoiada em uma imagem de si totalmente calcada no trabalho, nas conquistas pessoais, nos feitos individuais, nas histórias amorosas ou no que quer que tenha sido central para essa pessoa até ali. E quanto mais esse percurso foi longo, forte e pontuado de grandes acontecimentos, maior é o impacto desse acontecimento maternidade. E então tem quem se desespere nesse estado primeiro de perda de si e se agarre com todas as forças ao que foi. Precisa voltar ao trabalho, precisa seguir com a carreira, precisa recuperar o corpo de antes, o sucesso de antes, o poder de antes, precisa, precisa, precisa. Precisa congelar-se no momento imediatamente anterior àquele em que tudo mudou e a vida basculou definitivamente. Congelar-se no que era e no que foi e ficar ali, quietinha, tentando levar adiante como se nada tivesse mudado. Como se mãe e filho não existissem. Ignorando solenemente tudo o que se relaciona à maternidade e suas imperiosas reivindicações.

Tem gente que precisa se congelar e se amarrar por um fio ao cadáver de si mesma. Para não mudar, para não andar sem rumo com um filho nos braços procurando um caminho, uma saída, um jeito, um lar. Ainda mais que aquele pequeno ser depende totalmente dessa que nem é ainda. E sua fragilidade e sua dependência extrema chocam tanto mais a cada vez que cutucam a ferida dessa perda. Como é que um bebê poderia cuidar de outro?

Essa é uma história que é uma colagem de muitas histórias de muitas mães e muitos meninos e meninas que conheço e de outras das quais ouvi falar também. Uma história que pode ter várias caras e vários nomes. E que, como toda boa história, tem ao menos dois lados. Dois lados sensíveis, dois lados tristes, dois lados profundamente desamparados. Mas, não se iludam, não são dois lados iguais. Não estão em pé de igualdade a mãe e o menino em relação a seus desamparos. Um já cresceu, mesmo a contragosto. O outro ainda está ali, em profunda dependência. E, a meu ver, o único modo de cuidar desse bebê que sangra em você é deixando-o ir para cuidar do outro.

4 comentários sobre “A mãe triste e o menino

  1. Caraca Ale!! Sensacional! Muitas vezes eu vi no trabalho mulheres dizendo – se felizes por terem voltado ao trabalho até com um “chega né, já foram 6 meses”, e eu aqui pensando muito em ficar com o Thomas e mandar empresa e metas à favas, pq nada é mais importante que ele. Acho que muita gente engravida e não tem a ideia do que isso acarreta, esquecem que da gravidez resultará um bebê 101% dependente e você tem que se doar. Tem que esquecer mesmo o você antes. Lutar com isso só trará frustraçao!
    Como sempre, texto excelente!
    Mil beijos

    1. Carol querida, essa é uma decisão tão difícil, né? Um conflito mesmo, não sei se para todo mundo, mas para um monte de gente que conheço (eu inclusive). Vontade de largar mão e de maternar. Mas acho que do mesmo jeito que tem gente que percebe essa dependência e quer se dedicar, tem outras pessoas que se assustam com isso e daí qualquer coisa vira pretexto para a distância: trabalho, compromissos, agenda lotada… enfim, tudo o que pode ser uma real necessidade, ou uma ajudinha para não ficar engolida pelas demandas do bebê. Já que não estamos com toda essa pressa de “voltar à vida de antes”, vamos levando essa vida nova que nem sabemos bem como é, né? Beijocas grandes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s