Aquelas perguntinhas infames…

… e as respostas que passam pela minha cabeça. Especialmente em dia de mau humor e língua solta.

  • Posso pegar no colo? Ou: quer vir com a titia? Ou qualquer uma das muitas variações que envolvem sempre um estranho sorrindo na cara do seu bebê, abrindo os braços e batendo palminhas como se isso fosse argumento. Por que diabos as pessoas têm essa necessidade incontrolável de carregar o bebê? Mesmo que seja a primeira vez que o vêem na vida? Mesmo que seja o primeiro segundo em que se vêem? Você acharia razoável que um estranho que você encontra pela primeira vez chegasse todo empolgado e te pedisse para lhe dar um beijo, um abraço ou sentar no seu colo? Então se manca e espera o tempo do bebê, né? Se ela quiser, ela vai no seu colo. Mas o mais provável é que não. Deal with it.
  • Dá um sorrisinho… Outra variante dessas anteriores, mas com um agravante: você quer que o bebê sorria para você a qualquer preço, como se sua vida dependesse disso. Parece que os adultos têm uma estranha urgência de se verem confirmados no sorriso das crianças. Porque criança sorri e olha nos olhos e é um amor doce, cálido e alentador. Um bálsamo para almas torturadas e carentes de todo tipo. Então todo mundo se sente no direito de sugar sorrisos do seu filho para aplacar as carências e necessidades dele, o adulto. Colega, vai vampirizar alguém do seu tamanho!
  • Quer uma balinha? Docinho? Bombom? Chocolate? Isso, muitas vezes, já botando a tralha na mão da criança. Não. Faça. Isso. Ou você gostaria que alguém chegasse botando um cigarrinho de maconha na mão de quem você ama? Ou uma carreira de cocaína? Cruzes, que radical, né? Nada a ver! Em termos, porque açúcar faz tão mal à saúde quanto algumas dessas drogas e, se você não sabe disso, é porque não anda lendo muito ultimamente. Então, pare de tentar comprar a atenção da criança com estimulantes de todo tipo e aguente o fato de que ela pode não estar interessada em você. Ponto.
  • O que, não vai dar açúcar? Salgadinho? Danoninho? Suco de caixinha? Refrigerante? Mac Lixo? Mas que bobagem, que xiita! Depois ela vai comer mesmo na escola, nas festas dos coleguinhas, em todo lugar… Essa é a variante piorada das anteriores, pois supõe que é você quem tem um problema em querer cuidar para que sua filha tenha uma alimentação saudável. Sob o argumento de que ela vai eventualmente comer porcarias em outros lugares e em outras circunstâncias, você é quem parece imbecil de querer oferecer algo melhor dentro de casa. Cuidado, colega, pois seguindo essa sua lógica podemos dizer que é melhor bater em um filho já que o mundo vai acabar batendo nele. Ou que é melhor mentir, enganar, trapacear e zoar com a cara dele porque ele certamente passará por isso ao longo da vida. Já que a vida é cruel eu preparo meu rebento desde o berço, né? Sei, sei, por essas e outras que tem pai que mata a pancadas filho porque julga que ele é afeminado demais ou coisas do tipo, viu? Segue a sua lógica de impor o pior para os seus filhos porque o mundo não tem jeito, é uma porcaria de uma selva e é melhor ele estar preparado que eu sigo na minha aposta de que cuidar bem e fazer o melhor por alguém é dar a chance de que, um a um, o mundo possa mudar para melhor.
  • Mas é grudada com a mãe, né? Pois é, queria que fosse grudada com quem? Contigo? Quem cuida, passa o tempo todo junto, protege, alimenta, acompanha desde o útero? A pessoa quer que a criança fique tão fascinada por ela que isso a torne a pessoa mais importante na vida do filho dos outros. Eita narcisismo, minha gente. Olha, não sei se te disseram, mas o mundo não gira em torno de você. E, sim, para um bebê a mãe dele é beeeeeem mais interessante que a sua pessoa. E a menos que você seja o pai ou alguém extremamente próximo dessa criança, ela vai preferir ficar grudada na mamãe do que perder o tempo precioso de suas descobertas para encher a sua bola e te reassegurar de que você é o máximo. A não ser quando for adolescente, quando vai achar que qualquer um é bem mais interessante que sua mamãe e seu papai, que seja você ou qualquer outro, apenas para descobrir, mais adiante, que os pais nem eram tão ruins assim e que você, sujeitinho que adora competir com os outros pela atenção e posição de centro da vida alheia, sempre foi mesmo um belo de um mané.
  • Mas ainda mama? Chupa o dedo? Usa fraldas? Acorda de noite? Chora? Sim, meu caro, isso se chama primeira infância, sabe? Faz um certo tempinho – tempo histórico, quero dizer – que crianças não são consideradas como mini-adultos e têm reservada para elas uma fase e uns modos de ser todos seus. Que são apenas normais para o momento que vivem e aquilo que podem fazer de seus corpos e mentes tão precários. Tudo bem que hoje queremos que isso passe o mais rápido possível. E que o rebento cresça, não dê trabalho, não peça nada e fique quieto ali no canto, entretido com o joguinho do iPad. E tudo bem que queremos que o rebento seja alfabetizado com seis meses, bilíngue, gênio, aceito em Harvard, de preferência antes mesmo de aprender a falar, de parar de babar e de ter todos os dentes na boca mas… tsc, tsc, tsc… quem está sendo ridículo em suas expectativas mesmo?
  • Que língua será que ela vai falar primeiro, hein? Português ou francês? Acho que vai falar português como a mamãe, né? Vai falar francês como o papai, que lindinha, já pensou, fazendo biquinho e tudo? Essa é um plus para quem faz parte de um casal bilíngue. Ou para quem mora fora do país. Colega, a menos que você seja um linguista ou algum outro especialista em linguagem, aquisição da linguagem e problemas de linguagem, o seu palpite é tão relevante para nós quanto a previsão do tempo em Timbuktu para o dia de amanhã. Agora, se mesmo assim você não resistir em guardar sua saliva para assuntos mais interessantes e tiver que falar disso, por favor, por favor, por favor mesmo, poupe-nos das explicações do porquê você acha que vai ser assim ou assado. Eu não sou francesa e minha pequena é meio brasileira. Mas nós duas sabemos bufar.

3 comentários sobre “Aquelas perguntinhas infames…

  1. Será que se a gente compartilhar, e compartilhar, e compartilhar, vai chegar o dia em que as pessoas vão melhorar nesses pitacos? Digo melhorar, pois deixar de fazer mesmo será jamais!

    Bjs

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