Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

7 comentários sobre “Para alguém que quer ter parto normal

  1. Meu filho nascerá em junho… Aqui em Pau, sudoeste da França. Estou bem confiante para o momento do parto! Desejo um parto possível e tranquilo. Romper com o pensamento de que agüentaria somente uma cesariana já foi uma vitória para mim! Tanto é que, há duas semanas atrás meu médico perguntou se eu desejava optar por uma cesariana (sou acompanhada em uma clínica privada) e eu disse que não! Fiquei feliz pq para mim isso seria impossível no Brasil, eu não me sentia encorajada e nem mesmo capaz de parir… Talvez pelas grandes dificuldades encontradas para engravidar e tbm por ouvir muitas histórias difíceis!
    Espero seu próximo post! Muito bom ler histórias como a sua! Elas me Encorajam! Beijo!

    1. Puxa, Kelly, te parabenizo pela decisão corajosa. Realmente é uma vitória para nós, vindas de uma cultura cesarista, tentar uma outra maneira de parir nossos filhos. E saber que você é capaz disso é uma conquista fruto de muito esforço. Ainda mais em outro país, longe de tudo e de todos. Parabéns novamente e torço de coração que seja um belíssimo momento para você e para o pequeno. Abraço, Alessandra (em tempo, somos quase vizinhas 😉

      1. Quase vizinhas, Alessandra? Que legal! Eu moro mais precisamente em Lescar, no ladinho de Pau, onde trabalhamos e estududamos 🙂 Uma região muito bonita, não é? Temos um bom clima, temos a Montanha e moramos pertinho das praias francesas e espanholas 🙂 Bjs!

  2. Tenho escutado horrores sobre o parto normal. Esta semana me falaram que as injecoes para sentir menos dor no parto normal, fazem mal ao bebe e que ter parto normal é ruim por causa que se nao fizer a forca na hora certa depois se comprimir e amassa a cabecinha do bebe, que o médico puxa a cabeca do bebe.. sei lá.. algo assim..e que o melhor é cesaria… Cada vez fico mais confusa e com mais dúvidas!!! Aqui na Argentina a maioria dos melhores hospitais os partos sao com cesaria, parece mais comercial que necessidade e por outro lado vejo que as própias maes preferem cesaria, sei lá…. Tenho plano com cobertura em bons hospitais.. O problema é que nao vejo muita gente ter parto normal. Todas pessoas que fizeram parto normal foram nos hospitaizinhos mais simples. Que preferir, um bom lugar ou um parto normal ? Minha amiga teve parto por cesaria na semana passada no brasil… Disse também que a cesaria é melhor porque se a mae sofrer com parto normal e nao nascer, depois tem que ter cesaria obrigatoriamente é como sofrer duas vezes. Tenho visto também que toda mulher que tem cesaria, sempre tem uma mesma historia pra contar. ” Se complicó no final do parto”, nao sei se sao historias dos médicos para receber mais por uma cirurgia. Otros dizem que ganham o mesmo com o parto normal e cesaria e que tudo é invencao do povo. Vejo que também deve ser dificil ter filho sem a sala preparada já que é o melhor momento para a mae, nao seria melhor ter tudo agendado, organizado já sabendo que o seu médico esta disponivel pra vc? Dúvidas e dúvidas… Cesaria o filho nao vai para os bracos da mae e parto normal vai para a mae… Td icco é verdade? Nao seria contra as duas formas mas as própias mulheres nao deixam realmente claro o que é realmente melhor… O que nao concordo é que na cesaria nem se quer os médicos ou a mulher esperam o momento para sentir as contracoes e buscam a cesaria, já agendan diretamente o dia com o médico. Por que as mulheres aceitam isso?. Enfim… Mil e uma dúvida!

    1. Carolina, puxa, quantas questões, né? Olha, eu penso da seguinte maneira: o parto quem faz é você e o bebê, não o médico. As complicações que levam a uma cesariana são raras e se apenas as verdadeiras complicações virassem uma cesariana no final, o número seria baixíssimo. Pelo visto esse não é o caso na Argentina, como também não é no Brasil, o que significa que você vai ter que correr mais atrás se quiser buscar algo mais humanizado. O que é o melhor? O melhor é parto normal fisiológico, isso eu posso te responder baseada em evidências científicas, sem precisar de achismo ou do que cada um diz. O parto normal com o mínimo de intervenções possível é o melhor para a mãe e para o bebê. Para o corpo da mãe, para o bebê, para seu desenvolvimento, para sua saúde, para a conexão entre ambos… E não sei se é questão de um bom lugar. Se por bom lugar você entende um hospital sofisticado, a pergunta que posso te fazer é: e para que você vai precisar disso tudo? Não se trata de uma doença, de uma emergência, é um parto. E parto, quanto mais simples, quanto menos intervenções, quanto menos gente aporrinhando, quanto menos barulho e distração, melhor ele anda. Por isso que tem tanta gente voltando a fazer parto em casa, porque a casa da gente é o lugar onde nos sentimos bem e quanto melhor a mulher se sente na hora do parto, mais fácil ele é. Parto não precisa de hospital cheio de recursos, sala preparada nem nada disso. Parto precisa de uma mulher tranquila e confiante, com gente em volta em quem ela confie e de um trabalho conjunto entre ela e o bebê. Seu corpo é capaz de parir um bebê, isso acontece desde que a espécie humana existe. Se existirem complicações, existe a tecnologia que pode dar conta disso. E para isso você não precisa estar num hospital, pode estar numa casa de parto e ser transferida. Mas saiba, essas complicações são realmente raras e quando a gravidez é bem acompanhada, já se sabe se a gravidez apresenta alguma complicação ou não e, com isso, a maioria dos problemas já são considerados. Confie em você e no seu bebê. Boa sorte. Um abraço, Alessandra.

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