Maternidade é trabalho.

Desde que minha filha nasceu, desde o comecinho mesmo, as pessoas sempre achavam por bem perguntar: “e o trabalho?”. Não, não o trabalho que dá ter e criar um filho. O que elas queriam saber é se eu já estava trabalhando ou quando pretendia voltar. Como?

Eis aí mais um dos paradoxos enlouquecedores dos nossos tempos: você, mulher, tem que ser bem sucedida profissionalmente, independente financeiramente e dona do seu nariz. E tem que ser mãe, uma mãe presente, amorosa, cuidadosa e disponível. Só que o que ninguém te conta é que, nos nossos tempos, essas duas coisas estão postas de um modo que uma conciliação entre ambas revela-se quase impossível. E o resultado será, para onde quer que você penda, uma mãe culpada e em falta assim como uma profissional insatisfeita. Por quê?

Uma das conquistas do movimento feminista foi, certamente, a possibilidade de pensar e de ser mulher descolada da função de mãe. Poder trabalhar, ter autonomia e independência foram conquistas fundamentais. Antes disso, poder votar, poder estudar, aprender a ler e a escrever. Enfim, foi um longo caminho até chegar na minha geração, na qual a uma mulher não apenas é “permitido”, mas é até valorizado que ela estude, trabalhe, tenha uma carreira, ganhe seu dinheiro, pague suas contas e tudo o mais. Ou melhor, isso é valorizado em alguns cantos do mundo, em algumas classes sociais, porque existem lugares em que mulher ainda é um ser de segunda categoria mais de segunda categoria do que no Brasil e na França, onde toda essa pretensa igualdade ainda mascara inúmeras injustiças e violências cotidianas.

Infelizmente, esse esforço de igualdade de direitos entre homens e mulheres descambou, em alguns meios, para uma radicalização expressa no discurso que acredita que mulher emancipada, dona do seu nariz e consciente de seu lugar nesse mundo é mulher que trabalha. E apenas mulher que trabalha. Defender os direitos das mulheres tornou-se defender o direito ao trabalho das mulheres, aos salários das mulheres, à independência das mulheres. E esqueceu-se que defender os direitos das mulheres deveria ser, principalmente, a defesa e a proteção do direito de escolha delas.

Curioso como encontramos muito mais facilmente quem defenda o direito à mulher de abortar do que quem defenda aquelas que querem ter um filho dignamente. Como se uma coisa excluísse ou fosse o oposto da outra. Como se a mulher que quer ser mãe fosse, em sua própria existência e em seu projeto de vida, uma ofensa à luta pelos direitos e pela liberdade das mulheres. Como se fosse alienada. Querer ser mãe ou, mais absurdo ainda, ter um parto normal, humanizado, sem anestesia soa a essas pessoas ditas feministas como uma recusa de suas conquistas, uma antítese, a negação de tudo o que pregam. Se essa mulher ainda quiser amamentar então… nossa! Torna-se praticamente o anticristo a ser combatido com a cartilha dos direitos das mulheres em riste, que defende uma recusa da dor do parto tanto quanto a negação de emprestar os próprios peitos à sua função de alimentar a cria como posições que definiriam essa mulher como uma mulher livre e emancipada.

Na França, pelo menos, muitas mulheres falam sobre dar mamadeira ou sobre tomar anestesia como conquistas. Mas quase ninguém para ao menos um segundo para pensar que elas são sim conquistas quando vão de encontro com o que a mulher quer. Caso contrário, são apenas fruto de um discurso que busca tirar da mulher a decisão sobre o seu corpo e vender mamadeiras. Pois é, nenhum discurso é totalmente inocente de segundas intenções e o que se propaga como grande conquista nem sempre serve realmente às mulheres e à sua autonomia. E aqui, esse discurso do direito das mulheres à igualdade privilegia apenas certas escolhas de vida e descarta muitas outras como sua antítese.

O mesmo acontece quando o assunto é trabalho. Que as mulheres trabalhem e tirem disso prazer, satisfação, reconhecimento, sustento, eis um ganho inegável e algo que deve ser defendido de forma contundente por quem quer que se importe em garantir às mulheres uma existência mais plural e digna. Mas por que essa mesma defesa dos direitos não pode ser igual e generosamente direcionada às mulheres que decidem parar de trabalhar ou tirar uma licença prolongada após o nascimento de um filho? Por que cuidar e criar um filho não pode ser uma opção valorizada socialmente e, inclusive, incentivada com recursos e facilidades?

Acho um contra-senso que a licença maternidade no Brasil seja de 4 meses sendo que o indicado pela OMS em termos de amamentação é de 6 meses exclusivos. Ou seja, oferece-se um “benefício” às mulheres que, na verdade, é uma armadilha, pois não contempla nem o mínimo necessário. E ainda, como propor que se estabeleça um vínculo e se cuide de uma criança no início da sua vida sem dar às mulheres – e também aos homens, por que não? – a opção de ficar em casa e de acompanhar esse pequeno justamente no momento em que ele mais precisa e em que isso fará mais diferença? Sim, existem mulheres que querem mais é retomar o trabalho, existem mulheres que não podem viver sem trabalhar por qualquer que seja sua necessidade. Mas poderíamos parar de dizer que isso é sinônimo de libertação e de igualdade da mulher e quem sabe considerarmos que isso também pode ser uma opressão? Não ter escolha, ter que seguir apenas um caminho não é conquista de direitos, é farsa que serve como máscara para a exploração da mulher também no mercado de trabalho.

Aqui na França, a licença maternidade é ridiculamente curta. Mas a mulher – ou o homem – podem decidir parar de trabalhar por um ano para criar os filhos e continuar recebendo uma grana do governo exatamente para fazer isso. Porque criar filhos dá trabalho, é trabalho e não pode ser tratado como atividade de segunda categoria e de menor importância do que produzir lucro para os donos do poder e do capital. Ou pode?

Acaba de surgir o projeto de um documentário que discute essas contradições da licença maternidade no Brasil, o Com licença. Ele está para ser financiado na Benfeitoria e me parece um excelente meio de relançar essa discussão. Dê uma olhada, veja se te interessa participar.

Para que as mulheres sejam iguais em direitos e legitimadas em suas escolhas. Todas elas.

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6 comentários sobre “Maternidade é trabalho.

  1. Amei o post! Eu estou decidida e já estou fechada com meu esposo: meu trabalho por um bom tempo será o exercício da maternidade! Espero por isso há muito tempo e me sinto muito feliz e realizada com está decisão!
    Bj!

    1. Que bom, Kelly. Acho que é a melhor situação quando o casal pode discutir e decidir isso juntos. Ainda mais quando a gente fica bem com essa decisão. Abraço grande, Alessandra.

  2. Eu tirei a licença de um ano nas minhas duas filhas e acho pouco (a remuneração só existiu nos 3 primeiros meses, depois foi uma miséria do governo por 6 meses e depois nada, mas ainda assim valeu). Cuidar de criança é um trabalho do cão; quando fico com as minhas duas em casa, o dia inteiro, tenho taquicardia. Não conseguiria ficar o dia inteiro, todos os dias, com as duas não, mas seria perfeito deixá-la na escola/creche por algumas horas, enquanto cuido dos afazeres da casa e, por que não?, de mim e depois me dedico integralmente a elas. Infelizmente parar de trabalhar e pagar creche, mesmo que por poucas horas, não rola, aqui ainda é muito caro. Por outro lado, estou voltando a trabalhar quase que por capricho, porque childcare é tão caro aqui que vai sobrar uma merreca do meu salário. Dilema… vou testar por um ano, a creche foi ótima pra Laura, mas ando dividida agora com Beatrice. Sabe quando o coração não sabe o que quer? 😦

    1. Puxa, eu entendo muito bem esse dilema. Pensei se iria colocar a pequena na creche também ou não, até a época dela entrar na escola e a verdade é que não sei muito o que pensar. Acho importante ela ter contato com outras crianças, mas as creches por aqui, em sua maioria, estão longe de ser uma maravilha e não sei se ficaria tranquila de deixar minha filha num lugar onde ela não vai ser muito bem cuidada porque os cuidadores estão sobrecarregados. Enfim… por enquanto tenho preferido a maternidade tempo integral. Abraço grande, Alê.

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