As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Continuando esse papo aqui, que pelo visto vai durar muito tempo, já que ser mãe é um festival de novidades e ser mãe “na gringa” soma ainda mais novidades ao pacote.

Concordo com um post que li noutro dia que diz que você só começa a se enveredar mesmo pelos meandros do país em que vive quando se torna mãe em outro país. Claro, essa não é a única condição, mas se tem um acontecimento que te obriga a entrar em contato com esse mundo em que vive de uma outra maneira é o tornar-se mãe.

Primeiro, ao menos aqui na França, por conta da burocracia. Os franceses que conhecem o Brasil dizem que somos extremamente burocráticos e nós dizemos o mesmo deles, é o roto falando do esfarrapado. Mas, na verdade, acho que toda burocracia é particularmente difícil quando não é a do seu país, já que você vai ter sempre muito mais trabalho tanto para entender o que precisa fazer quanto para dar conta de todos os extras que te exigem justamente pelo fato de ser estrangeiro.

Antes de engravidar eu – por sorte – não tinha precisado nem ir ao médico. Então, fui descobrir todas as maravilhas e problemas do sistema de saúde francês estando grávida. E, em seguida, tendo que buscar o acompanhamento de rotina para um bebê recém-nascido. Modos de atendimento, modos de acompanhamento, seguridade-social, coberturas de planos de saúde, reembolsos… Até sobre calendário de vacinação, que é um pouco diferente do Brasil, tive que me informar (só para constar, a BCG não é obrigatória na França. Todas as outras vacinas são basicamente as mesmas, só que dadas em épocas diferentes).

O que acho interessante é que parece que os franceses buscaram criar um roteiro prevendo todos os casos possíveis. E para cada situação prevista tem algo que pode ser feito, um serviço que é oferecido e um modo de proceder. Quero dizer que, ao contrário do Brasil, aqui eles tentam cercar toda a primeira infância de uma série de cuidados e prescrições. Meio arbitrário às vezes, mas muito tranquilizador também. Me dá a impressão de que a mentalidade francesa é de que os filhos das pessoas são filhos da França e que eles levam muito à sério isso de cuidar dos filhos “da França”. A tal ponto que pode vir alguém bater na sua porta caso você não leve seu bebê nas consultas de rotina, ou se não o levar na escola.

Tenho gostado muito desse acompanhamento de maneira geral. Tudo o que os franceses são medicalizantes quando o assunto é gravidez, por exemplo, eles não são quando se trata de bebês ou crianças. Criança com nariz escorrendo, resfriada? Soro no nariz e só. Nada de antibiótico desnecessário, nada de mil remedinhos. Vejo muita mãe brasileira doida com isso, porque parece que temos mais arraigada em nós essa cultura da medicalização da infância e desde o começo já queremos medicar bebê que é “agitado”, bebê resfriado, bebê que não engorda bastante… Enfim, médicos generalistas, pediatras ou dos serviços de atendimento à infância, que são os que cuidam de bebês e crianças, medicam bem pouco essas bobeirinhas cotidianas. E não ficam pedindo mil exames invasivos para investigar suspeitas mirabolantes de diagnósticos complicados a não ser que tenham muitos motivos para tanto. E, a meu ver, isso é bem vindo.

Por outro lado, têm verdadeira fixação pela curva de crescimento e parecem obcecados com ela a tal ponto que só se preocupam se o bebê engordou e está na curva, especialmente nos primeiros meses. Não têm nenhum pudor em indicar complemento em leite em pó, sendo completamente equivocados quando o assunto é amamentação. Acreditem, a coisa aqui é grave, a França é um dos países com as taxas de amamentação mais baixas do mundo. E os profissionais de saúde são totalmente despreparados para lidar com o assunto seguindo, no mínimo, as diretrizes da OMS. Ou seja, se o assunto for amamentação, melhor procurar ajuda especializada. E especializada não é sinônimo de “o seu médico”, ok?

Contudo, amamentar em público é muito mais tranquilo por aqui do que parece ser em terras brasilis. Não sei se por pudor, por um certo respeito à liberdade do outro, ou simplesmente porque eles não estão mesmo nem aí, poucas vezes notei algum constrangimento da parte dos franceses com o fato de amamentar. E de amamentar em lugares públicos. Nunca ouvi nenhum comentário crítico ou desdenhoso e as únicas duas vezes que senti algum constrangimento foram em viagens de trens em que homens babacas ficaram olhando de um jeito nada terno enquanto eu amamentava minha filha. E só. Ninguém me falou para me retirar, como acontece com uma vergonhosa frequência no Brasil, ninguém sugeriu que eu fosse amamentar minha filha no banheiro, aquele lugar tão apetitoso, higiênico e estimulante para se fazer uma refeição, ninguém me acusou por atentado ao pudor, como os Facebooks da vida insistem em fazer cada vez que uma mulher posta uma foto amamentando, pornografia das pornografias em um mundo repleto de indecências… Já amamentei em parque, em museu, em restaurante, em trem, em ônibus, em metrô, em loja… enfim… toda hora é hora, todo lugar é lugar. E parece que está todo mundo de boa com isso.

E para quem acha que os franceses são frios, distantes ou pouco solidários, tenho a dizer que eles se mostram, sim, muito solícitos e atenciosos quando você chega com um bebê em qualquer lugar. Confesso que tinha uma péssima impressão e uma má expectativa, especialmente depois do perrengue que vi um casal de amigos passar quando vieram para cá de férias com a filha de dois anos. E do número de vezes em que fui a única a ajudar mulheres a descerem ou subirem as infernais e intermináveis escadarias do metrô com seus bebês em seus carrinhos. Paris é uma cidade hostil para grávidas e mães de crianças pequenas. Sim, é mesmo. Mas nunca deixaram de me oferecer lugar em nenhum transporte público quando estou com a bebê. E penso que o fato de eu não andar por aí com ela no carrinho e sim no sling ajuda muito, porque boa parte do mau humor dos franceses não é com a criança e sim com o espaço que aquele trambolho do carrinho de bebê ocupa no metrô, no ônibus, no elevador, no restaurante, em todo lugar de uma cidade em que espaço não existe tanto assim.

Fila preferencial aqui não existe. Quer dizer, não existe uma indicação de fila preferencial, a não ser nos supermercados e em alguns museus. Mas você pode chegar em qualquer lugar e perguntar onde é a entrada preferencial – tanto para gestante quanto para mãe com criança de colo – e o sujeito vai te passar na frente de todo mundo. E ninguém vai reclamar. A não ser no supermercado, onde as pessoas podem usar o caixa preferencial desde que não haja nenhuma preferência ali e, por isso, quando você chega com o seu bebê ou com a sua barrigona, muitos adoram fazer de conta que não te viram. Ah, a cara de pau… parece que é universal, não?

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