O estranho patriotismo dos expatriados

Em tempos de Copa do Mundo, a primeira morando longe de casa, tenho visto exacerbado algo que já me chamava a atenção em muitas situações cotidianas por aqui: o patriotismo exacerbado, quase fanático, de quem está longe de suas origens.

Há pessoas que saem de seus países por conta de guerras ou de conflitos violentos ou perseguições políticas. Há pessoas que saem em busca de melhores condições de vida ali onde acreditam que seja possível aquilo que não é no lugar onde nasceram. E há aquelas que saem por oportunidades de trabalho, de estudo, por um investimento profissional. Qualquer que seja o motivo que tenhamos para transitar, me parece evidente que a humanidade é essencialmente nômade. E que as fronteiras e os empecilhos a essa livre circulação não são apenas de uma violência contra esse ser do humano quanto, também, de uma ignorância descarada acerca daquilo que contribui para a riqueza de um país ou de uma região.

Enfim…

O negócio é que as pessoas partem e chegam. E, cheias de esperanças e de ideais, constatam no dia-a-dia dessa nova vida nesse novo lugar que as coisas não são assim tão simples. Sonhar com a vida em um outro país é bem mais divertido do que vivê-la. Porque no sonho não existe a burocracia, as papeladas, as dificuldades de comunicação, tudo aquilo que você não sabe como funciona, os desencontros culturais… No sonho não existe o racismo e o preconceito com o qual o estrangeiro é olhado em qualquer lugar do mundo, sempre o primeiro a ser apontado como causa de todos os problemas de qualquer ordem, em qualquer lugar.

Então, o que acontece? Acontece que, expatriados, vivemos cotidianamente esses pequenos preconceitos, essas pequenas discriminações. E, mais ainda do que isso, essas milhares de pequenas dificuldades que atribuímos ao preconceito e à discriminação e que muitas vezes não são. São apenas o modo como as coisas são. E que não entendemos. E nessa experiência dura e oprimente de tentar se integrar versus a oposição para que isso aconteça, o que vemos é muitas vezes uma reação de total inadaptação. Uma recusa mesmo em se inserir, em fazer parte.

Me explico. E juro que isso tem a ver com a maternidade, ou ao menos com a maternidade fora de seu país de origem, tá?

Quantas vezes nos deparamos no Brasil mesmo com imigrantes de primeira geração que não falam português? Não aqueles que falam com sotaque carregado, mas aqueles que simplesmente não falam uma palavra? E quantas vezes nos deparamos com comunidades inteiras que ocupam bairros inteiros que passam a ter letreiros inteiros em outra língua, produtos vendidos em supermercados totalmente estranhos, gente que não se mistura e que te olha com desconfiança se você insiste em passar por ali? Não sei vocês mas eu, vivendo em São Paulo, tive essa experiência várias vezes de me deparar com pessoas ou com comunidades tão fechadas que ficava claro que não havia brecha alguma para entrar.

Pois é, o mesmo acontece por aqui. E o mesmo acontece conosco, os brasileiros. Nós, que parecemos um povo tão aberto ao estrangeiro, que parecemos sempre tão dispostos a recebê-los bem em nossa casa, que parecemos até subservientes, encantados com a estrangeirice alheia e invejando tudo de todos como se quiséssemos ser tudo menos aquilo que somos… Bem, nós, os brasileiros, somos acometidos muitas vezes de um curioso fechamento quando vamos viver fora de nosso país.

Vejo por aqui, quase cotidianamente, situações em que brasileiros simplesmente não se misturam. Pude conviver com pessoas que vieram para a França para seus estudos e que passaram todo o período de sua estadia convivendo apenas com outros estudantes brasileiros, frequentando bares e restaurantes brasileiros, comendo comida brasileira e… reclamando de tudo o que é tão diferente do Brasil. O tempo todo. Gente que terminou a bolsa sanduíche ou o que quer que seja praguejando que os franceses são chatos, mal educados, fechados. Gente que voltou sem falar uma palavra de francês, sem nenhuma experiência de abertura, sem nenhum momento em que tenham sido tocados por essa diferença para guardar na lembrança. Nada. Foram e voltaram sem sair do lugar.

Mais do que isso, vejo outros brasileiros que estão aqui há anos, quase décadas e que não falam a língua, frequentam apenas médicos e outros tipos de prestadores de serviço que sejam brasileiros ou que falem português, saem para fazer programas brasileiros, entre brasileiros. Pedem para quem vem do Brasil trazer remédio brasileiro, comida brasileira. Esmalte brasileiro, tintura de cabelo. E só. Não. Ainda reclamam da França e dos franceses. O tempo todo.

Vocês podem me dizer: ah, mas é o “mal do país”. Ou é saudades. Sim, pode ser mesmo. Como pode ser a reação meio paranóica ao que vivemos e identificamos como uma perseguição. Nos maltratam, não nos querem aqui? Ok, então ficamos por aqui sem olhar para eles.

Tenho uma colega argentina com quem convivi por um bom tempo e que vivia falando mal do Brasil. Detalhe: ela vivia no Brasil desde bem jovem, era casada com um brasileiro, tinha filhos brasileiros, fez seus estudos ali, tinha seu trabalho, ganhava seu sustento, tudo no Brasil. Sempre achei o fim da picada, uma falta de educação, de respeito e de gratidão pelo país que a acolheu sempre e bem. Mas vendo como são as coisas por aqui, posso compreender como acontece esse inevitável desencontro em qualquer país, com qualquer estrangeiro que viva fora de casa. E como tomamos esse desencontro como algo contra nós. E como temos que viver em constante defesa contra esse país que nos acolhe e nos maltrata ao mesmo tempo. Como se não fosse assim também em nosso país de origem, que se transforma então no lugar ideal onde tudo seria mais acolhedor, simpático, saboroso e fácil. Continuo achando falta de educação, de respeito e de gratidão. Mas muitas vezes faço o mesmo.

Penso que uma das maiores dificuldades de viver em outro país é manter um espírito de abertura e conseguir distinguir entre aquilo que é preconceito, racismo e xenofobia – dos quais a França está infelizmente infestada – daquilo que é apenas a estupidez cotidiana de um país que funciona mal em muitas coisas. Mas não apenas com os estrangeiros, com todo mundo. Um bom exemplo disso por aqui: a burocracia. Tente conseguir renovar seu visto uma vez por ano e você terá a forte impressão de que fazem de tudo para que você desista. Sim, deve ser verdade. Mas pergunte para o seu marido, amigo, colega, conhecido francês como é que é cada vez que ele precisa ir resolver uma coisa na prefeitura, buscar um papel em algum lugar, resolver algo simples como mudar um endereço para a entrega de uma conta… Hahahahaha, meus caros, é uma novela. De mau gosto.

Mas, ao mesmo tempo, tem tudo aquilo que funciona e que te fez vir / ficar por aqui, não? Existem muitas situações e muitos lugares em que esse país te acolheu e cuida de você e de seus interesses, não? Pois é, prós e contras. A vida está cheia disso e não importa muito aonde você viva.

Talvez o que seja difícil de lidar mesmo seja justamente essa constatação de que “a França não quer você”. Essa descoberta de que você está ali não porque é desejado, mas porque deseja. E tem que sustentar sua estadia apenas no seu desejo. E fazer um baita esforço por ele. Sem a apaziguadora idéia de que o outro faz a maior questão da sua presença. Não suportamos muito bem essa situação de não poder dizer que é por causa do outro que fazemos isso ou aquilo, mas apenas e tão somente por nossa vontade. E viver em outro país, qualquer que seja ele, te joga na cara essa verdade inabalável: você está ali porque você quer. Então, o esforço vai ter que ser seu.

Putz.

Não estou defendendo que os países recebam mal seus imigrantes, até mesmo porque eles precisam tantos da gente quanto precisamos deles. Mas são poucos os países que lançam campanhas para você vir se instalar, a demanda é quase sempre de quem vem, não? Então, como não assumi-la e aceitar o esforço que ela implica?

Mas o que isso tem a ver com o patriotismo? E com a maternidade?

Muito, porque nesse embate entre o nosso desejo de estar em um lugar para o qual não fomos convidados e a constatação de que não somos desejados e de que temos que construir nosso lugar ali por nós mesmos, vejo acontecer muitas e muitas vezes esse fechamento, essa recusa, essa idealização do país de origem e esse ódio do lugar em que se vive, que é negado de todas as formas possíveis, a começar pela recusa da língua. “No Brasil é que é bom”. Mesmo? Tem certeza? Não vou fazer aqui o discurso inverso de que no Brasil tudo é uma porcaria, mas o Brasil também tem lá suas mazelas, não? Não é flor que se cheire, como aqui, como nenhum outro lugar. E quem disse que haveria o lugar perfeito? E por que acreditamos nisso?

O mais curioso, engraçado, paradoxal nisso, contudo, é que esse fechamento nesse patriotismo meio xiita que vejo por aqui ignora totalmente que nada disso faz sentido para os próprios filhos. E aí entra a questão da maternidade, com algo que constatei noutro dia e que me deixou perplexa: para nossos filhos, os filhos dos expatriados, quer sejam eles brasileiros ou estrangeiros ou ambos, esse patriotismo não significa nada. Por quê? Porque a pátria deles é outra.

Vocês já pararam para pensar nisso, que para nossos filhos, o lugar de origem deles é e sempre vai ser esse onde nasceram e onde vivem? Que eles terão como referência uma língua outra que será a língua deles, mesmo que falemos português em casa e que eles também falem? Que eles terão outros sabores na boca, outras paisagens na retina, outros sons, outras impressões na memória? Que nossos filhos são os estrangeiros que recusamos ao recusar o país no qual eles nasceram e vivem e com o qual possivelmente terão a mesma relação afetiva de amor e ódio que temos com o Brasil?

Pois é, me dei conta disso noutro dia. Minha filha é francesa e brasileira. Mas enquanto vivermos aqui e quanto mais vivermos aqui, mais ela será francesa, marcada pela cultura, pelos hábitos, pelos costumes, pela língua desse país em que vivemos. E, claro, ela terá traços de Brasil nela. Mas mesmo que eu me torne uma patriota xiita e que ela se vista de verde e amarelo em dia de Copa, isso corre o risco de soar nela mais como exotismo do que como a defesa de uma certa identidade. Porque não é o que ela é. Porque eu escolhi estar e ficar aqui. E isso tem como consequência que ela seja outra coisa do que eu fui nascendo e vivendo no Brasil por anos e décadas.

Então, minha gente, acho que esse patriotismo exacerbado é meio que um tiro no pé. No nosso e no de nossos filhos. É não assumir que eles são outros e não deixá-los serem quem são, mesmo que isso signifique, dolorosamente, não-brasileiros. Então é fazer o contrário, se integrar e recusar totalmente nossas origens, nossa língua, nossa cultura? Claro que não. Isso apenas refaz o problema pelo seu avesso. Mas talvez se pudermos considerar que aquilo que somos não é o que nossos filhos são também nesse ponto, o das origens ou o do sentimento de pertencer a uma ou outra pátria… talvez isso nos ajude a sermos mais abertos e tolerantes com esse estrangeiro que nos acolhe e que, em certo ponto, são nossos próprios filhos.

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