Deixem o gesto livre!

Noutro dia, na PMI, minha pequena decide se aproximar de um outro bebê dois meses mais velho do que ela. Eles se olham interessados, ele tenta tocar no rosto dela. O pai do menino diz a ele que não pode. Ele insiste, o pai insiste. Ele insiste, o pai bate na mão dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e diz que vai cortar os dedos dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e dá um tranco no menino, que chora.

Ah, mas é um pai. Os pais, esses eternos vilões…

Outra cena, mesmo dia, mesmo local. Minha filha vê um bebê da mesma idade que ela brincando com um brinquedo todo cheio de luzes, sons e movimentos. Ela chega perto dele. A mãe já fica em estado de alerta. Ela descobre que o cabelo dele é muito mais interessante do que o brinquedo e decide passar a mão nos cabelos do menino. A mãe tira a mão dela dizendo: assim não, machuca, meninas são terríveis! Minha filha fica perplexa e tenta outras vezes. Mesma reação da mãe, cujo filho estava todo interessado nesse contato. A pequena acaba desistindo e vai brincar de outra coisa.

Qual o problema nessas cenas?

Crianças pequenas conhecem o mundo experimentando o mundo. E quando encontram um igual – outro bebê – querem entender como é que é. Chegam sorrindo, estendendo o braço e querendo fazer um carinho, toque, puxão de cabelo, tapa que são as formas desajeitadas de um gesto que ainda não está tão apurado a ponto de acariciar quando quer e bater quando deseja. Então, evidentemente, os movimentos saem meio desajeitados. Mas nunca vi nenhum bebê sair gravemente ferido por conta disso.

Corta para outra cena, dessa vez no Brasil.

Nos dois encontros com bebês de amigas queridas que tivemos, minha filha ficou ali do lado do rebento de cada uma e eles se entenderam e se descobriram como quiseram. Lógico, nada de dedada no olho nem mordida. Mas teve carinho no rosto, troca de brinquedo, puxar brinquedo, lambida no braço, chegar perto, se afastar, reclamar, rir, chorar. Lembro da alegria da pequena com esses encontros.

Podemos pensar que é diferente quando você conhece a mãe do coleguinha e quando se trata de um completo estranho. Você não sabe a medida de tolerância daquela pessoa e não sabe até onde pode ir ou deixar seu bebê ir, para não causar desconforto. Mas daí vem minha perplexidade: quando foi que as experiências de descobertas de nossos bebês passaram a ser reguladas por nossa vontade, enquanto adultos, de não incomodar ninguém?

Não sei se é coincidência ou se é realmente uma diferença, mas aqui temos tido esse mesmo tipo de experiência nos mais diversos contextos. Até com conhecidos que têm filhos pequenos. Basta um bebê chegar perto de outro e lá vem os adultos ficar em cima, marcação cerrada, segurando mãos e dizendo com voz suave: “doucement”, “com cuidado”. Resultado disso? Na maior parte das vezes, os bebês e crianças acabam desistindo e tenho visto muitos deles brincando sozinhos com seus brinquedos. Ou com os adultos. Em um lugar repleto de crianças, muitas delas brincam sozinhas e não umas com as outras. E basta se aproximarem para que um adulto chegue para mediar o “conflito”.

De onde foi que tiramos a idéia de que crianças quando se encontram vão acabar invariavelmente ferindo umas às outras? Que coisa estranha é essa de esperar violência e agressividade de crianças que não possuem nem ainda coordenação motora para isso? Ou de decodificar todo e qualquer gesto delas como agressão?

Claro, crianças maiores. Claro, crianças menores com maiores. Pode ser que seja. Mas também pode ser que não. E o que acontece numa situação dessas? Acontece que boa parte dos bebês ficam no colo das suas mães, brincando com elas e com seus brinquedinhos. Que desperdício em um lugar cuja riqueza seria justamente a de poderem se encontrar com outros bebês, não?

Outra cena, agora em um parque para crianças. Uma menina que deve ter uns 2 ou 3 anos tenta puxar a bicicleta da outra, que chora. A mãe da primeira vem gritando de longe, com um bebê no braço. Berra com a filha, consola a outra garota. A mãe dessa chega, elas conversam, ela oferece algo para a menina, cheia de sorrisos e mimos. Enquanto isso sua filha fica ali, esquecida. A mãe está visivelmente mais preocupada em agradar a filha da outra e, por tabela, essa outra mãe do que dizer algo para sua filha, que continua por ali distribuindo pancada para todo lado.

Corta para daqui três ou quatro anos, quando essas crianças vão para a escola.

Já escutei mais de uma pessoa contando histórias de como as crianças são agressivas na escola. Só brincam de tapas, meninos e meninas. Se estapeiam, voltam arrebentados para casa, mães reclamam, professores e diretores não sabem o que fazer com tanta violência entre pares, desde o começo de sua escolarização. Tenho uma amiga que contou que quando mudaram para a Austrália, sua filha continuava no registro francês de brincar de bater em todo mundo, o que causou muitos problemas na escola até ela descobrir que poderia brincar de outra coisa.

O que eu quero dizer com tudo isso?

Quero dizer que não me parece um mero acaso que as crianças maiores sejam tão agressivas com seus pares, uma vez que elas parecem estar sendo ensinadas desde bebês que todos os seus gestos devem ser contidos pois eles são sinônimos de agressão. Tolhidas em seus movimentos, muitas delas nem olham mais para as outras, contentando-se com objetos que não respondem da maneira que um outro humano é capaz de responder: surpreendentemente, tal qual um outro. E daí, essas crianças que já começam tolhidas, contidas e isoladas vão vendo os adultos em torno delas traduzirem o que elas fazem como agressão. E vão vendo esses mesmos adultos reagirem a essas pretensas agressões tomando sempre o partido do outro, enquanto elas ficam desamparadas com aquilo que sentiram e que fizeram, sem ninguém que as ajude a entender ou nomear. Então vão para a escola e explodem em pancadarias mútuas todos aqueles gestos que não podem ser diferentes, que não podem ter outros nomes, que não podem acontecer em outros lugares, que não podem ser acolhidos como bons, interessantes, belos ou curiosos.

Não quero, com isso,estabelecer uma relação rasa de causa e efeito entre os bebês que não podem tocar e a agressividade das crianças maiores. Mas estou dizendo que uma coisa me parece ter muito a ver com a outra.

Não sei exatamente porque adquirimos a convicção de que um bebê é uma “besta fera” que tem que ser educada. E educada aqui funciona como sinônimo de domesticada. Um bebê tem que ser adestrado em seus atos, gestos, movimentos, comportamentos, reações para se comportar tal qual se espera dele. Brincamos com nossos filhos querendo mostrar o que eles devem fazer com as coisas, qual o jeito certo de jogar, como é que se deve comer ou o que quer que seja. Somos normatizadores e temos pouca ou nenhuma tolerância para qualquer ato que fuja do esperado. Queremos gestos precisos, específicos. Queremos comportamentos “adaptados”. Queremos filhos “educados”, limpos, amáveis, sorridentes, bons alunos e que não nos causem problemas com os outros adultos pais. Não queremos constrangimentos. Nem queremos incomodar.

Queremos que nossos filhos sejam tão discretos que eles nem existam.

Cada vez sinto mais admiração por algumas mães que remam contra a corrente e permitem que seus filhos existam. Que inventem mil e uma coisas para se fazer com um pedaço de papel, que possam passar muitos minutos olhando uma simples folha seca, ou que consigam descobrir a infinidade em cada um de seus gestos. É algo bonito de acompanhar e sinto uma profunda tristeza de ver bebês e crianças tão tolhidos e de constatar que eles são a maioria desinteressante e deprimente com a qual minha filha terá contato. O que isso vai significar para ela? Será que ela também passará a acreditar que seus gestos são maus e perigosos? Será que ela vai acabar desistindo? Será que eu ficarei com medo de desagradar as pessoas e vou acabar pressionando-a para que ela se “comporte”?

Nossos filhos vão para o mundo. Começam cedo a mostrar uma necessidade de fazê-lo. E a gente começa a olhar esse mundo e a se inquietar muito com as experiências que estão ali para eles. E com o que elas possam significar em suas vidas.

 

 

4 comentários sobre “Deixem o gesto livre!

  1. Tá ficando chato já eu vir comentar que todo texto seu é lindo! hahaha

    Pode parecer muito bobo, mas eu vivi isso com a minha cachorra…saía pra passear e se via outro cachorro vindo de longe já ficava tensa, queria evitar o contato – pra “protegê-la” e pra não incomodar o outro dono…acho que demorei por volta de 1 ano pra me soltar (ou “soltar” a Maní..rs) e logo me arrependi “do tempo perdido”.
    Não tenho dúvidas que com crianças é ainda mais grave – especialmente quando a coisa é assim, meio “epidêmica”, como vc conta…
    Mas acho que mesmo com o ambiente assim, vc consegue passar outra referência pra sua filha! Tomara que sim!

    Bjs

    1. Hahaha, Gabi. Putz, eu acho que vou levar mais tempo que você então porque, mesmo sabendo que a gente pode passar muita coisa para nossos filhos, não duvido do poder que o mundo tem de lhes dar mil outras experiências. O que é bom, pois eles precisam dessa diversidade. Mas também me preocupa demais, vendo que mundo é esse que está por aí… Ai, ai, ai… Beijocas, Alessandra

      1. 1 ano com a cachorra! Não quer dizer que sou “super sussa” com a filha! Hahaha
        E sim, a mim tb preocupa o quanto vem do entorno (que nos desagrada) e fica nas crianças…
        Mas o único que a gente pode fazer é oferecer nosso lado e nosso jeito, né?!
        Bjs

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