Cada fase, uma dificuldade

Nas raras vezes em que as pessoas decidem abrir o jogo a respeito da maternidade e admitir que não é nada fácil, uma das poucas coisas que costumam admitir é que o começo é muito duro, mas que depois melhora. Eis aí uma meia verdade, como todas as meias verdades que tentam transformar experiências complexas em argumentos simples e definitivos como: é bom, é ruim.

O começo é difícil. Com um recém nascido nos braços, uma queda hormonal mais radical do que saltar de páraquedas e nenhuma experiência com aquele serzinho ali na sua frente que você acaba de conhecer fora de você, os desafios são muitos. Aprender sobre quem é essa pessoa, aprender a cuidar dela, a atender suas necessidades que são muitas, intensas e frequentes… Passar boa parte do seu tempo em torno disso, em torno desse alguém que precisa tanto, quando você mesma se sente também em um estado de grande carência e necessidade… Lidar com uma mudança de ritmo violenta, uma reorganização do tempo que não respeita relógio biológico, horas de sono, descanso e cansaço… Fora tudo o que passa pela cabeça, do estado de êxtase ao desespero, da felicidade e do sentimento de plenitude ao esgotamento… As próprias lembranças de infância, o modo como foi filha, a relação com os próprios pais, com a própria mãe… tudo volta em avalanche. Os pitacos, as informações desencontradas, as pessoas que passam, fazem tumulto e em nada ajudam… Enfim, é difícil, é duro, é delicado, é em carne viva.

Mas daí você olha aquele bebezinho pequeno mamando, olha as mãozinhas, olha o olhar dele, o modo como ele se aconchega em você, o sono tranquilo, a sensação de felicidade tranquila, respira fundo e segue em frente. O começo passa.

Uma das curiosas descobertas sobre a maternidade, para mim, foi justamente isso: que quando você começa a se acostumar ou a se encontrar em alguma rotina daquilo que se tornou sua vida depois da chegada do bebê, ele muda, as demandas mudam, as necessidades mudam e você precisa mudar novamente. Eis aí um intensivão sobre a vida: não dá para ficar parado congelado em uma posição, porque a vida é movimento.

Então o começo passa e você imagina que “o pior” já passou. Mas não é bem assim. Pois aquele bebezinho pequeno do começo cresce e vai despertando. Fica mais acordado e, com isso, quer saber mais das coisas que o cercam. Começa a enxergar melhor e quer olhar. Começa a pegar e quer tocar. Começa a se mover e quer deslocar-se. Cada conquista espantosa e maravilhosa desses primeiros tempos é, também, uma nova necessidade de que você o acompanhe, de que ofereça aquilo que ele precisa: coisas para ver, sentir, viver. Experiências. Já não dá mais para contar com as milhares de sonecas cotidianas para fazer alguma coisa, pois o bebê está ali, acordado e existe um mundo inteiro a ser apresentado para ele.

Tenho a impressão que é aí que “a porca torce o rabo”. Pois ninguém havia dito que haveriam dificuldades depois do começo difícil e, talvez, muitas mulheres tenham acreditado que era só aguentar os primeiros meses que o restante seria um navegar por águas calmas e aprazíveis. Não.

Um bebê demanda de nós presença. Que estejamos presentes, atentos e capazes de responder de algum modo. E essa resposta varia com cada mudança na demanda. Então, você que achou que o pior era ter que acordar mil vezes para amamentar vai se dar conta que agora precisa brincar com o seu bebê. Ou sair para passear com ele. Ou fazer comida e dar comida a ele. Ou ficar por perto enquanto ele tenta rolar ou sentar. Ou estar atenta quando ele começa a engatinhar e andar e chegar naquela tomada, naquela quina, naquela porta, naquele cesto de lixo. Você percebe que existem muitas coisas novas das quais ele precisa e que não vai dar para ficar sentada lendo um livro enquanto ele se vira sozinho. Bebês solicitam. Crianças solicitam. Filhos solicitam. Pode mudar o conteúdo dessas solicitações, mas elas estão ali, bem presentes. E você vai ter que fazer algo a respeito. Mesmo que seja tentar ignorar e deixar uma criança que quer se mexer amarrada numa cadeirinha ou colada em uma tela de TV, iPad e afins. Ou seja, mesmo que você escolha a opção que pareça a menos trabalhosa possível, terá que fazer uma escolha. E agir.

Quer dizer que ninguém havia dito que daria tanto trabalho, que seria tão difícil? Ninguém havia dito que seria assim sempre? Pois é, se tivessem dito, você faria diferente?

Penso que aquilo que a gente tenta jogar para debaixo do tapete é justamente que a maternidade, como tudo nessa vida, é uma experiência repleta de paradoxos. Não é difícil. Nem é um mar de rosas e uma benção sem fim. É as duas coisas, ao mesmo tempo, nos mesmos acontecimentos, todos os dias. E é essa ambiguidade que deixa muita gente perplexa consigo mesmo, como se irritar-se, cansar-se ou ter raiva de tanta demanda significasse que você é uma péssima mãe. Não é. É apenas uma mãe como outra qualquer que, quem sabe, tenha um mínimo de coragem para assumir que é ruim. Tanto quanto é bom. E que ser mãe é ambos. O que faz de nós boas ou más mães, a meu ver, não é sentirmos tantos sentimentos contraditórios, mas a culpa que temos pelo que sentimos e nossa ignorância da diferença entre sentir e agir. A ignorância de que podemos sentir tantas coisas, pois isso é do humano e é dessa experiência de ser mãe, a tentativa de dividir em bom e mau o que vivemos e de jogar o mau ali num canto em que não nos perturbe, a crença tola de que as outras mães são apenas boas e que temos um problema quando não atingimos esse nível de excelência… tudo isso que destrói as mães em seu respeito e em sua tolerância com elas mesmas. O que acaba fazendo com que sejamos igualmente exigentes com nossos filhos, igualmente intolerantes. Se nós devemos ser as mães maravilhosas em constante estado de realização com a maternidade, nada mais justo que eles sejam os filhos perfeitos, desenvolvidos, adaptados, bem comportados, limpinhos e felizes aos quais temos direito, não?

Não.

 

4 comentários sobre “Cada fase, uma dificuldade

  1. O post me fez lembrar da minha mãe me perguntando “se vc soubesse que ia ser assim difícil, vc desistiria de ter uma filha?” e a resposta imediata é NÃO! Mas depois, esse questionamento me remete à reflexão. Apesar de conviver com tantas mães (a minha própria, tias, primas, sogras, cunhadas, etc.) eu não tinha ideia de quanto a minha vida mudaria por causa de uma filha. E de todas as dificuldades que, superadas em um momento, se renovam das mais diversas formas em outros. Somos vencedoras!
    Bjs

    1. Pois é, Naty. Tenho a impressão de que mesmo que dissessem como é, a verdade nua a crua, isso não mudaria muita coisa, né? Pois teriam que falar dessa parte maravilhosa e inacreditável que é tão ou mais intensa que os perrengues. Beijocas, Alessandra.

  2. Esse caiu como uma luva, Alessandra!
    (tô, aliás, meio que escrevendo sobre isso)

    Eu tô achando essa fase tão cheia de demanda de atenção e atividade muito mais difícil do que o começo! O começo eu tirei quase que “de letra”… nesse último mês é que chegou essa contradição toda…e tô me preparando porque sei que vai ficar ainda mais intenso, né?! rs

    Bjs

    1. Gabi, quero ler o que você está escrevendo porque estou achando muito mais difícil quanto mais ela interage, quero dizer, muito mais cheio de demandas variadas e muito mais exigente. Beijocas, Alessandra.

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