Aqueles que você não vai conhecer…

Já disse aqui e aqui que amor materno não é obrigação. Então não deve causar muito espanto que eu diga também que família é uma construção. E que nem sempre ela corresponde aos laços de sangue ou à herança genética. Conheço umas tantas boas histórias sobre isso, sobre pessoas que constituíram família entre amigos, com seus companheiros, em comunidade sem, necessariamente, terem tido essa experiência de família com aqueles com os quais diz o clichê que deveríamos nos sentir familiares. Pois é, nem sempre acontece. Como não escolhemos o contexto no qual nascemos, nem sempre nasce ali uma família e nem sempre experimentamos com essas pessoas uma troca de afeto, um amor incondicional, um poder contar, um sentimento de proteção. Por incompatibilidade, por violência, por negligência, por distância… Enfim, muitas razões que a razão desconhece.

Tenho a sorte de ter uma dessas famílias mistas. Mistura de laços de sangue que construíram belas histórias com outros laços que se embrenharam em nossa vida e se tornaram família no melhor sentido da palavra. Tenho gente que é minha família desde que me entendo por gente.

Isso já foi fonte de conflitos e risadas. Um grande problema de infância: eu tinha três avós. A avó materna, a avó paterna e a avó mãe de uma amiga da vida toda da minha mãe que, por sua vez, era minha tia, o que fazia da sua mãe… bem… minha avó. Uma avó deliciosa, a única ainda viva e serelepe, aos 99 anos. Presente na minha vida, afetuosa, carinhosa, excelente fazedora de doces. Então, quando me perguntavam na escola os nomes das minhas avós, eu respondia três. E as pessoas cismavam que eu não podia ter três avós, que isso não existia. Mas eu tinha três avós, o que eles queriam que eu fizesse? Que escolhesse uma delas e a destituísse do posto? Como eu poderia destituir uma avó, se as três eram avós de verdade? Pois bem, no fim quem saiu ganhando fui eu, que bati o pé com coleguinhas e professores de que tinha três avós.

E fiquei com elas mesmo. E segui com a minha vida de três avós, uma tia super amiga dos meus pais da faculdade, a filha dela, a tia Mac… Outra tia tão amiga deles quanto, com um tio e um primo de quebra para dar ainda mais graça à nossa convivência… Virava e mexia tinha alguém que dizia: “mas eles não são seus tios, sua avó, seu primo de verdade”. Acho que não entenderam: eles sim eram de verdade. De mentirinha eram muitos com os quais apenas partilhava o sobrenome. Mas que em nada faziam parte de nossa vida. E muitas vezes eu achava graça em buscar sobrenomes comuns a todos nós, que juntaríamos todos eles e ficaríamos com um nome tão comprido de fazer inveja à nobreza de outras épocas. Com todos os sobrenomes enfim reunidos, teríamos oficializada a família que éramos. E ninguém mais encheria o nosso saco com detalhes banais.

Com esses tios passamos boa parte das férias de verão de todos os anos de minha infância e adolescência. Passamos, eu e minha irmã, que crescemos com eles. Estavam todos os finais de semana na nossa casa. Por vezes até no Natal e no Ano Novo, essas coisas que se comemora em família. Soltavam rojão no 31, junto com meu pai e meu avô. Faziam pizza e macarronada. Churrasco. Botavam fogo na casa tentando acender a lareira. Jogavam buraco à noite, entre adultos, enquanto a gente olhava e aprendia. Corriam dos morcegos, uns para se esconder, outros para ajudar a tirar de dentro da casa, hora de terror, risos e pancadaria. Foi esse meu tio que, junto com o meu pai, me ensinou a dirigir. Foi minha tia, sua mulher, que passou uma noite em claro ouvindo minhas histórias de amor adolescente. Foi esse meu primo que eu levei no cinema um monte de vezes, quando orgulhosa tirei carta de motorista e podia ir sozinha com ele e com minha irmã, toda pimpona, adulta e responsável, passear no shopping no sábado. Estão nas fotos de todos os aniversários desde que me entendo por gente. E, na festa do meu primeiro casamento, sentaram todos na mesa da família. A minha família.

Minha tia Mac nos visitou a cada final de semana. De lá de cima, eu ouvia a voz dela e sentia o cheiro do perfume que ela usava e eu adorava. Logo em seguida, a voz da minha mãe que chamava para descermos e dizermos oi. Não era sábado sem essa visita.

Mesmo quando ela não visitou mais, porque mudamos, ela mudou, todo mundo envelheceu e a rotina ficou diferente, ela sempre ligava. Não sei se minha mãe passou uma semana sem ter notícias dela. E sem lhe dar notícias. A vó vinha sempre, trazia um sorvete que só ela fazia, toda elegante e sorridente, um ar de sapeca moleca como poucas vezes eu conheci. Poucas pessoas são tão delicadas nessa vida.

Tia Mac viajou conosco. Temos cenas de pés sujos que foram limpados com toalhas de linho em banheiro de restaurante chique. Temos frases em espanhol de quem não lembrava como se dizia “toalha”. Temos conversas e mais conversas por telefone. Temos um monte de livros lidos e histórias contadas. Ela sempre gostou de presentear e sempre deu presentes para lá de generosos. E quando agradecíamos, ela sempre ficava sem graça. Era como a mãe dela nisso: sapeca, senso de humor fino, mordaz, divertida, buscando ver tudo pelo melhor lado. Ou, ao menos, buscando sempre mostrar o melhor lado para a gente.

Minha tia Mac morreu ontem. Morreu em São Paulo, onde viveu a vida inteira. Viajou o mundo inteiro, teve uma vida toda diferente e rebelde, nunca se curvou a nenhum clichê e sempre se manteve leal a seus verdadeiros e poucos amigos. Foi amorosa além da conta e mais importante para mim do que jamais poderá saber.

Há pouco mais de um ano foi meu tio, marido dessa outra amiga de toda vida de meus pais. Ontem foi minha tia Mac. Em 2012 foi um dos meus melhores amigos, um amigo irmão, tão querido que minha família toda – sim, essa família – o incluíu desde sempre, junto com o seu marido, na nossa família. E eles passaram a fazer parte de aniversários, festas, finais de ano, jantares e visitas de final de semana, com direito a todo barulho, a toda maluquice, a toda risada e a todo choro que sempre permeiam os encontros de gente que se ama. Quando me tornei adulta, pude finalmente contribuir com meus amigos para nossa família, como meus pais fizeram há tanto tempo, formando uma gente engraçada, de tantos sobrenomes, mas que têm uns aos outros em comum.

Ontem, perdi minha tia Mac. Como meu tio Beto, o meu irmão Edson, meus avós maternos… toda essa gente que você não vai conhecer, minha filha. Gente que não está mais aqui para te dar o acalanto das experiências doces de um sábado à tarde, de um almoço de domingo, de umas férias de verão… Um sentimento de abrigo e de estar em casa, uma certeza de cuidado e de proteção. Umas experiências do que é realmente o amor…

Lamento demais que você não possa conhecê-los e ter o privilégio que eu tive de ter essa gente por perto, de ter essa família querida ligando e querendo notícias, de ter essa lista de nomes e sobrenomes para juntar em uma festa de aniversário, em uma mesa de casamento, em um sábado à tarde de sol que passa arrastado. Teremos as memórias, as minha memórias, para te contar em tom de história de fazer rir e esquentar o coração. Daquelas histórias que a gente sempre pede para ouvir de novo. E que a gente repete e repete, logo que aprende a falar. E entre amigos e parentes, você também terá sua família. Sua família construída com todos aqueles que valem à pena.

Um beijo, tia Mac. Obrigada pelo privilégio que fez seu caminho cruzar com o dos meus pais e você tornar-se minha tia.

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