Para os amigos sem filhos

Eu já fui a amiga sem filhos por muito e muito tempo. E hoje, olhando para trás, vejo como eu era sem noção no tipo de exigência e de expectativa que tinha em relação aos amigos com filhos (desculpa aí, galera). A verdade é que dificilmente a gente faz idéia de como é algo que nunca viveu e costumamos julgar as situações a partir da nossa perspectiva, que é a única da qual dispomos. Colocar-se no lugar do outro não é tarefa simples e nunca é possível de se fazer totalmente. Assim, foi apenas quando minha filha nasceu que comecei a experimentar, do lado de cá, uma série de atitudes de alguns amigos que são tão ou mais sem noção do que eu. Felizmente, não são a maioria, que mesmo sem filhos possui uma tolerância e uma sensibilidade que eu, infelizmente, não tinha. Mas sempre tem aquele mais auto-centrado que não se dá conta de muita coisa ao redor de si, né? Ou aquele amigo querido do peito que está num péssimo dia e mete os pés pelas mãos contigo ou com o seu rebento. Mas que a gente ama mesmo assim. Então, eis aqui minha modesta contribuição para tentar traduzir para os “sem filhos” uma série de atitudes dos “com filhos” a fim de que vocês não sejam tão severos, mau humorados ou estabanados com a gente, tá?

  • quando vocês nos convidam para alguma coisa e nós aceitamos, isso quer dizer que queremos muito, muito, muito mesmo fazer aquele programa junto com vocês. E vamos tentar de verdade. Mas pode ser que a gente não consiga. E as chances são grandes. Por quê? Porque com bebês e crianças pequenas a verdade é que nunca dá para saber realmente como as coisas vão acontecer. Isso é algo que a gente descobre apenas na hora de fazer cada coisa. Vai dar? Não vai dar? Suspense até o último minuto. Pode ser que o bebê tenha cólica, ou esteja num péssimo dia, ou esteja com febre porque os dentes estão nascendo, ou tenha dormido pouco à noite e decida dormir bem naquela hora, ou tenha tido um dia atípico e tumultuado que nos deixou esgotadas e não temos mais forças para botar o pé para fora de casa. Pode ser por muitos motivos mas, te juro, todos são verdadeiros. E ficamos realmente chateadas quando temos que cancelar alguma coisa no último minuto. Mas acontece. Muitas vezes. E é tão frustrante para nós quanto para vocês. Então, não deixe de nos convidar por isso. Uma hora vai.
  • até por conta do que acabei de dizer, aquilo para o que se convida faz uma enorme diferença nas chances do programa acontecer. Sair para a balada à noite? Ir para um bar tomar alguma coisa? Restaurante descolado na hora do jantar com direito a duas horas de espera? Ou qualquer tipo de programa super cool que envolva noite, muita gente, bastante barulho, fumaça de cigarro e lugares cheios? Bom, lamento te dizer mas isso é um no – no sem escalas. Não sei se têm pais que aceitam um convite desses e vão com bebê a tiracolo. Acho que sim, me lembro de amigos que faziam isso. E entendo, porque tem horas em que a gente precisa muito tomar um ar e quer muito estar com os amigos e poder falar de outros assuntos que não fraldas, mamadas e cocô. Mas cada coisa a seu tempo. Eu já digo não logo de cara. Mesmo que seja o tipo de programa que eu adore. Mesmo que seja uma festa na sua casa. Mesmo que eu queira muito ir e que sempre tenha ido. Com um bebê, é pedir para se colocar numa situação onde as chances do sujeitinho se estressar, não dormir, chorar, se irritar são imensas. Uma situação em que muitos adultos ficarão em torno de uma criança, que vai passar de braço em braço e acabará ficando tão alucinada com tanto estímulo que depois vai te dar três vezes mais trabalho para acalmá-la. E, não, amigos queridos sem filhos, um bebê super ligadão, animado e hiper eufórico não é um bebê que está se divertindo pra caramba. As maiores chances são de que ele esteja em um nível de excitação do qual ele não é capaz de dar conta e que vai fazê-lo sofrer e chorar um bocado, porque é muito desagradável. Então, se o convite for para uma balada noturna, saiba de antemão que é extremamente simpático e que a gente se dói por dentro de não poder sair, beber e voltar com o dia nascendo e a cara amassada. Mas realmente não dá. E se a festa for na sua casa e a gente cair na asneira de acreditar que é uma boa idéia, por favor, arrume um lugar quietinho e sossegado para nos trancarmos com o rebentinho na hora em que a coisa ficar feia, tá? Ou deixe-nos irmos embora sem insistir muito para ficarmos e sem ficar chateado. Nós tentamos e, provavelmente, ultrapassamos uns bons limites para estar ali.
  • mas por que não vem sem a criança, então? Pois é, meu caro, essa é a pergunta que não quer calar, tão evidente, tão banal, como é que os pais não se tocam dessa obviedade? Bom, como explicar? Nem sempre temos com quem deixar o bebê ou a criança, nem sempre existem avós por perto, por exemplo. E nem sempre a criança está em um momento em que pode ser deixada, ou os pais – e especialmente a mãe – nem sempre estão em condição de deixar. Pode ser que o bebê seja amamentado, pode ser que os pais ainda não tenham encontrado uma pessoa de confiança, ou que o bebê ainda não tenha se acostumado com a babá a ponto de ficar muitas horas sem se estressar… pode ser muita coisa. Pode ser, inclusive, que para os pais a prioridade seja a de estar com o filho enquanto ele ainda é tão pequeno e precisa de tantos cuidados e que eles não queiram delegar esses cuidados nem para ir na sua festa. Entenda, novamente, não é por mal. É apenas uma questão de prioridades e do modo como aquela família está organizando sua rotina com o bebê. Assim, será o caso de decidir simplesmente não ir para não se colocar numa situação de caos total, com um bebê estressado. Ou de ir porque a festa é de casamento, aniversário, nós te amamos e estamos topando passar perrengue para estar ali. Então, quando a gente chegar com o rebentinho chorão, meio desarrumadas e ansiosas e tensas e aflitas com a coisa toda, dêem um desconto. Estamos realmente fazendo um baita de um esforço e inventando uma puta solução de compromisso entre cuidar do nosso filho e estar contigo, do mesmo jeito que sabemos que vocês estão fazendo um baita esforço em receber criança em festa de adulto, ter que fumar na janela, guardar o beque para mais tarde, tentar ajudar, puxar papo e nos deixar o mais confortável possível, correndo o risco de ter bebida espirrada na roupa descolada, junto com o patê dos canapés, bolo esfregado nas almofadas do sofá, vômito na camisa do peguete da amiga e gritaria que impede todo mundo de terminar uma conversa inteira em uma tacada só. De fato, estaremos em dois universos que destoam por um tempo e isso é doloroso. Mas acho que o mais importante é que, dos dois lados, cada qual faça um esforço para ir na direção do outro, né?
  • mas não pode dar uma mamadeira? Deixar com a babá? Botar na creche? Deixar dormindo ali no carrinho? Don’t. De verdade, não vá por esse caminho. Quanto mais próximo você for, mais vezes já terá ouvido seus amigos pais reclamarem da quantidade de sugestões que recebem todos os dias, vindas de todos os lados e sem jamais considerar o que eles pensam, suas dificuldades e o modo como acreditam que seja importante cuidar de seus filhos. Então, a menos que a gente esteja desabafando, pedindo ajuda, pedindo opinião ou algo do tipo, você não vai querer fazer parte das estatísticas, né? Pode acreditar, nós também já pensamos em todas essas opções que você está mencionando para irmos na maldita festa, já estamos frustrados o bastante porque não poderemos ir e elaborando o fato de que a vida mudou e as prioridades são outras. Pode ser uma fase, pode ser que logo ali adiante mude a nossa maneira de organizar e lidar com a rotina, pode ser que com os filhos crescendo a gente adquira mais mobilidade. Pode ser um monte de coisas, mas nesse exato momento é assim que as coisas são. E não sabemos quanto tempo esse exato momento vai durar. Então, por favor, leve na esportiva tanto quanto possível o fato de que pensamos em tudo e concluímos que não vai dar.
  • e… putz! A gente pode atrasar! Ou ligar no último segundo dizendo que não vai. Ou mais um monte de atitudes irritantes que te deixam com a impressão de que estamos zoando com a sua cara. Não costuma ser o caso. Nem é o bebê que está zoando com a nossa, embora às vezes pareça. Mas o negócio é que um bebê é um sujeitinho mais governado que a gente por suas próprias necessidades. Ele precisa e precisa imediatamente: mamar, matar a sede, fazer xixi, cocô, ficar limpo, dormir… Ele precisa e a gente precisa atender porque essa é justamente a época em que precisamos atender muitas demandas. Não é manha de bebê mimado, não é excesso de zelo. Bebê é um serzinho desamparado que precisa de cuidados e apenas o passar do tempo e os cuidados oferecidos podem fazer com que ele precise menos e menos imediatamente e desesperadamente das coisas. Então, bom, quando ele precisa mamar na hora em que estamos prontas, com sacola, tralha toda, bebê vestido, limpo, no sling, a gente na porta de casa precisando apenas trancar a dita cuja… bom… ele está com fome e precisa mamar. E a gente volta pra dentro, tira o bebê do embrulho, tira o sling, senta no sofá e deixa ele mamar sossegado até acabar. E daí tenta de novo. Vamos te mandar um SMS e, infelizmente, não teremos como dizer exatamente quanto tempo vamos atrasar. Pode ser 15 minutos, pode ser duas horas. É foda, eu sei. Eu também detesto atraso. Mas o que você prefere? Que a gente chegue duas horas depois, bebê sorridente, mamãe descabelada porém sossegada ou que a gente chegue na hora, bebê berrando, mamãe desesperada, desgrenhada, cogitando virar dois shots de tequila?
  • por essas e outras penso que o melhor lugar para um encontro garantido é em casa. Fazer uma visita é garantia de uma maior chance de que a gente realmente se veja e realmente consiga conversar. Sim, boa parte da conversa vai girar em torno do bebê e pode ser que você se interesse tanto por bebês quanto pela geopolítica do Timbuktu. E pode ser que você sinta saudades daqueles papos interessantíssimos sobre artes, viagens e tantas outras coisas exóticas e excitantes das quais costumávamos falar. Uma notícia: provavelmente nós também sentimos falta de outros assuntos. Mas a verdade é que nosso interesse está ultra focalizado e, especialmente no começo, as chances são grandes de que passemos o tempo quase todo por conta do rebento. O jornal? Não lemos. Conflitos no oriente médio? Não sabemos. Copa do Mundo? Hein? Por vezes é falta de tempo, noutras é falta de interesse e noutras ainda é porque estamos realmente interessadas no que estamos vivendo. O que, por sinal, é o mais usual sempre, não? Que estejamos focalizados naquilo que vivemos e querendo falar disso? Então, se você tem paciência e um tanto de tolerância, dê um desconto para nossos papos sobre fraldas, leite e cocôs. Sim, é escatológico. Sim, deve ser um tédio para quem escuta. Mas pense que daqui a alguns anos poderemos rir juntos desses papos estranhos e insanos. E, pode até ser que, depois de você nos escutar um bom tanto, fiquemos muito felizes de te escutar a respeito do filme do momento, da festa divertida ou do jogo do Uruguai.

4 comentários sobre “Para os amigos sem filhos

  1. Adorei! Eu sou daquelas mães que carregam as filhas para tudo que é canto, são poucos os passeios que costumo recusar. Maaaaasssss me identifiquei (e ri muito) na parte dos atrasos e dos papos monotemáticos. Os detalhes podem mudar mas, no fundo, somos todas iguais. Fazer o que, né? Rssss

    1. Jura, Paula? Que coragem! Olha, a gente faz muita coisa mesmo com a pequena, mas tive que aprender a dizer muito não também. Felizmente, a maior parte dos amigos levou numa boa. Abraço.

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