Ela não entende

Esse blog já tem mais de cem posts. Uns que gosto mais, outros que gosto menos. Não tiro os que gosto menos do ar simplesmente porque penso que aquilo que agente escreve de bom é uma construção para a qual também conta aquilo que escrevemos de mediano. Qualquer um que já tenha escrito um texto com mais de vinte páginas sabe disso. Há momentos de inspiração e há tudo o que você teve que transpirar e arrastar para chegar até ali. Uma idéia brilhante não vem do nada e é interessante poder traçar o percurso dela, saber tudo o que ficou remoendo até ela aparecer. Enfim… essa digressão tem um sentido, prometo.

Dos posts que já escrevi, um que sempre tem muitas leituras, todos os dias, é este aqui, sobre o que os bebês sentem dentro da barriga. Buscas com várias palavras-chave e frases trazem as pessoas ao post. Não sei se eles o lêem ou não, ou o que pensam a respeito, mas o fato de tanta gente procurar saber sobre o tema me intriga.

É possível entender o grande número de mães aflitas que querem saber se o fato de estarem tristes, frustradas, aflitas com a experiência da gravidez causaria danos ao seu bebê. Pensamentos e sentimentos, a gente não tem como evitar e antes mesmo de nos darmos conta eis que eles aparecem, ali, tal qual fumacinha negra saindo da cabeça, obscurecendo tudo e maculando aquela que pensamos que teria que ser a maravilhosa vivência da gravidez, em que estaríamos sempre contentes, satisfeitas, tranquilas e em estado de graça. Mas na vida real é um pouco diferente e nos vemos preocupadas, com medo, sozinhas, aflitas, tristes, apreensivas… às vezes até mesmo em dúvida e arrependidas. E, logo em seguida, pensamos no bebezinho que está ali dentro, numa espécie de ligação misteriosa e permanente conosco. Será que ele ouviu o que pensamos? Será que pode ler através dos nossos sentimentos? Será que percebeu nossa hesitação, nosso medo, nossa tristeza? Será que o que estamos pensando ou sentindo não está prejudicando nosso bebê de alguma maneira?

Não sei se tem algo mais apavorante para uma mãe do que pensar que ela pode ser responsável por algo de ruim que aconteça ao seu filho, que ela pode, de alguma maneira, prejudicá-lo. E isso inclui até mesmo seus pensamentos e sentimentos, como se eles também pudessem destruir aquele que buscamos amorosamente preservar e proteger. Pois para a pergunta sobre se o bebê na barriga sente aquilo que a mãe sente, ou se ele sabe o que ela pensa, a resposta que eu teria para dar, agora que minha bebê está fora da barriga é: não tenho a menor idéia.

Me explico: não tenho idéia se o bebê percebe o que sentimos ou pensamos enquanto está na barriga. Mas tenho uma boa dose de convicção de que ele percebe e sente alguma coisa. Do mesmo jeito que percebe e sente muitas outras coisas que experimenta dentro do útero. E a questão é como ele decodifica isso, que cores, que nome, que contornos isso ganha para ele. E, novamente, quanto ao que diz respeito à dentro da barriga, não faço a menor idéia. E não vemos nenhum de nós da espécie humana contando histórias da vida intrauterina como se fossem suas lembranças. Ou seja, o jeito que o bebê vive tudo aquilo que a mãe sente ou pensa, não sabemos. E talvez nem ele saiba. Fica para sempre ali nos recônditos longínquos dessas marcas às quais não temos acesso.

Mas existe o fora da barriga. E aí penso que a coisa muda muito de figura.

Uma de minhas lembranças de infância era de minha avó falando coisas a nosso respeito – a respeito de nós, as crianças pequenas, seus netos – na nossa frente, sem preocupação alguma com que aquilo pudesse nos ofender ou nos magoar. E quando era censurada por alguma outra pessoa da família, sua resposta era: “imagina, ela não entende.” A coisa era tão arraigada que virou motivo de piada da família toda. Isso depois que as crianças da família crescemos e conseguimos achar isso engraçado, ao invés de ofensivo, agressivo e desrespeitoso.

É curioso que tão logo o cordão umbilical seja cortado, parece que perdemos essa conexão mágica com o bebê e ele, de um poderoso sabichão leitor de pensamentos e sentimentos, torna-se aquele serzinho ignorante que não entende nada. Lamento ser eu a dar a má notícia a quem partilha dessa crença mas: sim, o bebê entende sim.

Minha filha era bem novinha e em uma noite mal dormida, depois da milionésima mamada, enquanto eu trocava sua fralda, exausta, disse a ela num tom áspero que estava cansada, que precisava dormir, que não dava para passar a noite acordada amamentando e tentando fazê-la dormir. Não sei o que ela percebeu, se foi o tom ríspido, a raiva, o cansaço, mas o rostinho dela ficou sério, ela me olhando e foi fazendo um bico e chorou. Chorou sentido, chorou doído. Chorou de algo que eu poderia dizer que foi tristeza, frustração, medo… Claro que eu chorei também, claro que me sentida péssima, claro que tudo isso que a gente vive e sente em acréscimo ao fato de termos pensado, sentido ou dito algo que julgamos ruim aos nossos filhos. Claro que tudo isso. Mas não é o que importa aqui. O que importa é que, visivelmente, o que dizemos, fazemos, o clima que criamos, a carga emocional nas nossas ações, no nosso olhar, nas nossas palavras… tudo isso afeta o bebê.

Não temos como saber até que ponto, o que fica disso tudo, com que cara fica, se será lembrado e como será lembrado. Mas podemos considerar que afeta. O que fazemos e como fazemos afeta nossos filhos. E contar com o “ela não entende”, ou o “ela esquece”, ou o “ela nem percebeu” como aliados para apagar aquilo que fazemos é ignorar que ali, na nossa frente, existe uma pessoa, dotada de sentidos e de sensibilidade, além de inteligência o suficiente para perceber de algum modo aquilo que se passa ao seu redor. Ou seja, se você pensa que seu filho não sente ou não percebe, você está supondo que ele é um imbecil, um tolo, ou algo bem longe do ser humano que ele é.

Mas eu estou escrevendo isso para aumentar a culpa, para pesar sobre cada uma de nós mães em relação a tudo que dizemos, fazemos e sentimos e que, muitas vezes, não é o melhor, não é tão bom, nem tão cor-de-rosa assim? Não, a intenção não é a de jogar mais um caminhão de culpa sobre ombros pesados, mas a de chamar para uma certa responsabilidade.

Depois que o bebê nasce é que começa – ou se acentua ainda mais – a grande responsabilidade que temos em relação a esse novo ser que ali está. Pensamentos e sentimentos nos atravessam, nem sempre como gostaríamos, e por vezes ações disparam na frente da reflexão e vamos buscá-las lá longe, quando o leite já foi derramado. É verdade.

É uma verdade difícil sobre nós mesmos essa de que escapamos. Aos nossos propósitos, às nossas intenções, à nossa consciência. Mas que algo nos escape, como bem anuncia a boa a velha psicanálise, isso não nos torna menos responsáveis. Não sabermos o que fazermos, isso não retira de nós o nosso feito. E nem dos outros as marcas criadas pelos nossos atos. “Ela não percebe” não fala do bebê que gostaríamos que não se desse conta de nossas idiossincrasias mais subterrâneas. “Ela não percebe” fala da mãe que não se dá conta que o tempo todo está agindo aquela pessoa que é, aquilo que sente e o que pensa. E tentar disfarçar para si, para os outros e para a criança “é brincadeirinha o que a mamãe disse, não precisa chorar” não desfaz o feito.

Talvez uma boa maneira de nos ocuparmos daquilo que o bebê sente ou percebe de nós seria cuidarmos de saber o que nós mesmas pensamos ou sentimos. Para não nos pegarmos na curva de alguma atitude cruel ou violenta, dessas que marcam com sofrimento a vida de tantas crianças por aí.

4 comentários sobre “Ela não entende

  1. Pois é, Ale, tenho a sensação de que ao mesmo tempo que atualmente querer-se exigir (bons) comportamentos adultos tão cedo nas crianças, continua-se ignorando sentimentos e opiniões infantis, afinal, “são só crianças”…

    Sobre as cargas de cada, concordo: se cada um cuidasse da sua talvez os “espirros” pra cima dos outros (dos filhos, principalmente) fossem menos ‘daninhos’…

    1. Essa exigência de crianças e bebês adultos desde o começo também me choca. E é uma total contradição com acreditar que eles não entendem nada, né? Concordo contigo, falta um pouco mais de reflexão, análise, auto-crítica, consciência de si ou o que quer que seja. Beijocas, Alê.

  2. Muito legal esse post, dando o retorno de uma dúvida que existia quando vc tinha sua filha dentro da barriga e agora, com ela aqui fora, vc constatou! Foi um retorno que vc deu para nós, suas leitoras (assídua essa aqui!) e para vc mesma.
    Por aqui, também percebemos esse entendimento. Recentemente, inclusive. Há umas duas semanas, Elis tem insistido em acordar às 4h da manhã. E ficava acordada até chegar na casa de minha mãe, arrasada de sono, pra dormir depois das 8h, quando eu já estava no trabalho. Na semana passada eu conversei com ela. Disse “filha, mamãe precisa descansar mais um pouquinho porque tem que trabalhar. Senão à noite eu não tenho energia pra te balançar, como vc tanto gosta, pra dormir!”. Foi um tom de conversa, com súplica. Desde então, os dias em que ela reclama no berço cedo assim, trago pra minha cama e ela fica quietinha (mesmo que acordada), enquanto ainda cochilo mais um pouco. Antes, nem a nossa cama resolvia seus protestos! Ou então, acorda e fica brincando sozinha no berço dela até a hora que eu levanto realmente (e ela sabe que hora é essa!).
    Enfim, sempre fui instruída por minha mãe a conversar com minha filha. Que ela entende tudo. Aliás, desde dentro da barriga (olha aí a dúvida!). Mas o certo é que a energia que passamos pra eles, sendo boa ou ruim, é percebida e/ou sentida. Talvez dentro da barriga eles não tinham como se manifestar. Mas aqui e agora a conversa é bem diferente.
    Bjs

    1. Naty, que demais essa conversa que você teve com a Elis! Nessas horas que a gente percebe como aqueles olhos atentos e a carinha compenetrada significam que os miúdos estão ali registrando tudo, né? E realmente, fora da barriga podemos ver a reação deles e tentar entendê-los e respeitá-los em suas necessidades. Nada fácil, mas importante. Em tempo, gostei tanto do seu post sobre as mudanças na sua vida que recomendei na página do facebook, viu? Abraço, Alessandra.

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