Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.

8 comentários sobre “Mesversário

  1. Lindo!!! Imagino uma bebê toda graciosa cantarolando no terraço 🙂
    Quanto à celeridade do tempo, sempre é muito rápido aos de fora. Mas para quem vive o dia a dia, intensamente, essa evolução, acaba passando (muito) mais devagar. Parabéns à princesa e à mamãe também (e principalmente!), pelo “trabalho bem feito”! Saúde e felicidades! Bjs

    1. Obrigada, Gabi. Estou num misto de deslumbramento e medo. Um ano? Já? Como assim? Alguém segura o tempo aí pra eu me acostumar com a idéia. 😉

  2. Descobri hoje o seu blog e me emocionei com esse texto. Também tenho uma filha, que pelo visto tem quase a mesma idade da sua. Nos vi nesse texto. Que escrita bonita! Parabéns!

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