Os pais

Verdade seja dita, a imensa maioria da blogosfera materna é, como o nome mesmo diz, feminina. Assim como a imensa maioria das pessoas que encontro no parquinho, na praia, na praça cuidando dos filhos em um dia qualquer. Vemos menos pais por aqui nas consultas médicas ou na saída dos filhos da escola. Estranho arranjo que perdura e insiste em parecer normal.

Eles são mais comuns nas situações de lazer, nos finais de semana, junto com as mães ou, cada vez mais, sozinhos. Pais divorciados talvez, que encaram a tarefa de se ocupar dos pequenos por um período de tempo por conta própria e risco. Já vi pais trocando fraldas de forma estranha e desajeitada, já os vi brincando com os filhos enquanto falam no celular e toda sorte de esquisitice de um olhar desacostumado. E de pais também desacostumados de terem que se haver com as crias. Mas também já vi cenas bonitas de brincadeiras, de risos, de carinho e de proteção.

Hoje em dia exigimos um pai novo, um homem que participe ativamente da criação dos filhos desde o início, que troque fraldas, dê banho, alimente, entretenha, faça dormir, cuide, se ocupe, se preocupe… E que faça tudo isso como quem não faz mais do que a obrigação, como nós mães fazemos, sem esperar uma medalha no fim do dia ou um destaque na capa do jornal. Pai participativo é notícia, mãe que cuida dos filhos é lugar comum. Estranha divisão de tarefas.

Verdade seja dita, hoje em dia temos cada vez menos pessoas em torno de cada criança que nasce. E todas as exigência recaem sobre uma família cada vez menos e mais pressionada: uma mulher que se dedique, um homem que se envolva. O pai vira o único depositário de todas as exigências de ajuda da mãe que, por sua vez, fica totalmente isolada nos cuidados com seu bebê. A ela se demanda muita coisa, e ela despenca uma parte sobre esse homem. Pouca gente em volta, poucas redes de solidariedade, apenas duas pessoas para lidar com a chegada de um bebê e tudo de revolução que isso provoca. Não é justo para ninguém. E tem muito homem que enlouquece nesse ponto e cai fora, literalmente ou de maneiras mais subterrâneas e perversas, se enfiando no trabalho, se enchendo de compromissos e de indisponibilidade.

Ajudar já não é mais benvindo, é apenas obrigação. E o que bomba na blogosfera são aqueles pais inéditos, super engajados, por vezes tão participativos que chegam ao cúmulo de tirarem foto de gestante no lugar da mulher, tornando-se caricatura. Ou então aqueles pais tão incapazes que não sabem que ações geram consequências e que deixam o filho enfiar o braço na jaula de um tigre, sem considerar que isso pode causar um dano real. Vivemos em uma época em que muitas pessoas perderam a noção do peso de suas ações e de suas escolhas. E as crianças pagam no corpo esse desconhecimento perverso. Enquanto uns se divertem com filhos brincando com animais selvagens, outros brincam de serem pais magníficos na blogosfera, não pelo real e profundo questionamento do seu lugar e função mas pela mímica infantil daquilo que pensam que as mulheres querem, almejando o lugar de queridinhos da classe. Pouca gente com coragem e empenho para atuar fora do mundo da imagem, onde tudo marca e têm consequências. Triste.

Tenho gostado mais desses pais mais ou menos, esses cotidianos, que se surpreendem sendo pais e se descobrem amando seus filhos. Esses pais que se emocionam com os feitos do rebento e que não sabem o que fazer quando choram, que perdem noites de sono pensando em como educar as crianças e em como lhes garantir alguma proteção que os poupe do sofrimento e da precariedade no futuro.

Hoje é dia dos pais no Brasil, essa data tão besta quanto o dia das mães e que a gente insiste em lembrar. Uma data vazia de sentido em uma época em que os pais são tão diversos que talvez nem pudessem ser agrupados sob a mesma categoria. Data tola de celebração em um mundo em que o que se faz necessário é ainda demarcar o lugar das mulheres. E onde esse lugar muitas vezes é de oposição e de inimizade aos homens, pois parece não poder ser diferente. Um mundo em que os homens, quando não são omissos ou caricatos, se revelam machistas, violentos, desumanos. Um mundo em que homens matam mulheres e crianças. Ainda. Como se fosse possível.

Não há nada para ser comemorado na generalidade dessa categoria dos pais a não ser algo tão pequeno e singular quanto alguns poucos homens específicos, gente de carne osso, que são pais de carne e osso, de crianças de carne e osso. E que fazem no pequeno, no dia-a-dia, gesto contínuos e cotidianos de cuidado, de respeito e de amor.

 

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