Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

17 comentários sobre “Cagar regra ou tomar posição?

  1. Tem algumas coisas que chegam a dar preguiça, mesmo…
    Eu sigo te acompanhando aqui e amando o seu jeito de expor seus argumentos, suas idéias. Como vc disse, ninguém é unanimidade, mas como é bom debater com inteligência, com liberdade e respeito. Beijos!!!!

      1. Verdade, mas a preguiça a que me refiro é em relação ao povo que não sabe o que é um debate e leva td pro lado pessoal… Rss Nossa cultura de “evitar o conflito” as vezes emburrece! Bj

  2. Alê, às vezes eu achava que eu fazia “muito barulho por nada”, mas agora, vejo que não é por nada. è por mim, é pelos meus filhos, é por outras mães e por seus filhos, que de alguma forma, podem também enxergar e se informar.
    Ultimamente tenho dito em alguns grupos facebookianos de maternagem que o objetivo nem é tanto alcançar os 99% que são corrompido pelo meio bebezístico que vivemos, mas aquele 1%, que não teve acesso à informação, e depois que teve, acendeu uma lâmpada na cabeça, sabe?!

    Beijo

    1. Concordo, Caroline. a questão não é doutrinar ninguém, mas achar interlocutores e, principalmente, tentar cutucar e provocar mudanças ali onde elas precisam ser feitas: nas mentalidades, na cultura e na política que trata da gravidez, do parto, da amamentação, da saúde da mulher, dos direitos e cuidados com a infância. Ali é que precisa haver uma revolução. E ela se faz em muitas frentes, até por meio de blogs e redes sociais. Beijoca, Alessandra.

  3. Ótimo, Alê!!
    O mundo – e a “blogosfera” rs – seriam muito chatos se fossem unânimes!

    E confesso que não entender a diferença como ataque é um exercício pra mim, não em textos dos outros, claro, mas em conversas com meus pais! Vira e mexe me pego preocupada em não ofendê-los por estar fazendo diferente do que eles fizeram e/ou na defensiva quando eles vem dar opinião…
    Um exercício tão difícil quanto importante, né?!

    Beijos

    1. Nossa, Gabi, mas aí tem uma coisa muito séria, que é esse embate com os pais da gente quando nos tornamos pais, né? Porque eles, quando nos vêem fazendo diferente, entendem que é um julgamento direto daquilo que fizeram conosco, uma desaprovação, uma condenação. Pega na ferida. Não conheço pais que conseguem ver os filhos tomando outros rumos na maternidade e ficarem numa boa com isso, respeitando o fato de que, no mínimo, existem uns bons 20 anos de diferença e muita mudança que ocorreu no mundo nesse meio tempo. Enfim, essa é uma conversa dura, mas só não acontece se os pais forem muito bem resolvidos (hahaha) ou se a gente fizer tudo igual para não aborrecê-los. Preço meio caro para pagar, eu acho. Beijocas, Alê.

      1. Sim, sim!! Nesse caso o buraco é bem mais embaixo, né?!
        Mas eu acho, sim, que requer pais E filhos muito bem resolvidos (rs) ou, no mínimo, conscientes das feridas e não feridas, pra não transformar em problema o que não é e não ignorar o que pode doer, sabe?!

  4. Alê
    como vc sabe meus filhos estão grandes. Poderia até ser avó, mas adoro de vez em quando dá uma passada pelo seu blog e acompanhar o que escreve. Mesmo gostando muito, nem sempre registro a passagem, mas hj preciso dizer que amei o seu texto.
    bjs

  5. Concordo total! Prepotência define! Conheço gente que prefere mesmo é se abster de certas discussões pra não se cansar com esse tipo de “disputa”, onde um levanta uma bandeira e toma aquele entendimento como o certo, se ofendendo quando o outro defende o outro posicionamento. É uma pena, pois se perde a oportunidade de debates enriquecedores! A gente, que dá a cara pra bater, expondo nossas ideias na internet, precisa de vez em quando “fingir que não é comigo”, senão a gente pira!
    Bjs

  6. Não conhecia teu blog, e se tivesse conhecido antes não teria me sentido tão só durante a gravidez, e talvez me sinta menos só enquanto mãe, a ler teus posts! O que me deixa mais frustrada é que o discurso da onipotência materna é forte que beira um estado de loucura, o que deixa qualquer debate impossível de ser realizado. E frustra também você buscar informações para tentar se articular em discussões que tentem produzir algo para melhorar as condições das mães, e as pessoas recebem como alfinetada. Eu to doida pra juntar mães pra discutir sobre licença maternidade mais longa, e ninguém se habilita. Ate reunião com canditata à deputada eu arranjei pra debater essa pauta, e não consigo mais ninguém pra sustentar comigo. Osso. Amei seu blog, amei seus posts, e vou acompanhar agora. Um beijo!

    1. Raisa, que bom termos nos encontrado então. Bem vinda. Visitarei seu blog também. Certamente teremos muita figurinha para trocar. Quanto a esse seu engajamento, acho que é raro mesmo, pouca gente tem condições ou disponibilidade de partir para ações concretas. Mas pouco a pouco a gente acaba encontrando uma turma com quem contar. Não desista! Um abraço, Alessandra

  7. Isso tudo é muito estranho mesmo. Eu, que tenho o hábito (já tive mais, infelizmente. ou não) de falar o que eu penso e sem me preocupar muito com o que os outros vão achar (o que não quer dizer que eu não tome cuidado com a forma como eu falo), sou quase sempre taxada de grossa, intolerável, intragável, ruim de discutir e por aí vai… E eu não entendo. Ou entendo, mas não concordo com esse comportamento das pessoas. Agora, grávida, tenho optado, muitas vezes, pelo silêncio. Porque a discussão, agora, deixou de ser discussão. Deixou de ser “eu penso isso sobre tal assunto”, “eu penso outra coisa”. A conversa agora é impositiva. Da parte das outras pessoas, claro. Como minhas escolhas pessoais e sobre a criação da minha filha diferem das escolhas de uma boa parte das pessoas que convivem comigo, elas simplesmente não conseguem aceitar que eu faça diferente. Elas querem impor, a qualquer custo, aquilo que elas viveram. Chegou ao cúmulo de, no último fim de semana, uma pessoa da família do meu marido dizer que vai comprar um berço pra mim, de qualquer jeito, mesmo eu já tendo dito muitas vezes que minha filha vai dormir comigo, na minha cama. Quanto absurdo existe nisso? As pessoas não aceitam que eu seja diferente a ponto de quererem me invadir desse jeito. Eu acho um absurdo. Mas quando tento discutir o assunto, não existe discussão. E quando acabam os argumentos das outras pessoas, elas começam a contar histórias escabrosas de pessoas que deitaram em cima dos filhos, enquanto dormiam, e os mataram. Gente! Quanto absurdo! As pessoas, na maior parte das vezes, não estão interessadas em discutir, em entender os pontos de vista das outras pessoas. Elas estão preocupadas em impor suas próprias opiniões. E eu já entendi que quando eu coloco um limite no assunto, eu sou mal-educada, rude, não aceito opiniões alheias, não ouço as pessoas mais experientes. É muita loucura! E o pior: eu acho que a maior parte das pessoas sequer percebe o que faz…

    1. Juliana,

      Pois é, as pessoas falam e falam e falam e não escutam nada. Percebi em algumas situações que, na maioria das vezes, as pessoas não têm nenhum interesse em saber quem você é, o que você pensa, por que pensa assim. Não estão curiosas frente a um outro, mas ameaçadas. Querem apenas despejar suas verdades e que o outro engula sem dar muito trabalho. Por isso que a gente tem que cuidar com carinho de quem é capaz verdadeiramente de um diálogo. Para o resto, o silêncio é mesmo providencial. No mais, fica aqui a sugestão malandra: aceita o berço, pede de quebra o quarto inteiro, vende no eBay e usa a grana para comprar aquilo de que você realmente precisa 😉 Beijocas e força aí, Alessandra.

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