Comendo e aprendendo

Já escrevi uma ou outra vezes sobre diversificação alimentar por aqui. Momento esquisito, pois é mais um passo do seu bebê em direção ao mundo, que se diversifica, se amplia, aumenta. Nada fácil encontrar um modo de apresentar esse mundo dos sabores para uma criança sem impor, sem forçar a barra e querer enfiar a colher goela abaixo, sem medo da quantia consumida, sem se preocupar se o sujeitinho está bem alimentado ou não… Enfim, um mundo que se abre para o bebê e também para nós, mães, que saímos do conforto do peito ou da mamadeira para um sem número de decisões cotidianas sobre o quê, como, quando….

Tenho percebido que a diversificação alimentar não segue uma linha reta e ascendente. Ela parece cheia de altos e baixos, idas e vindas. No começo, por aqui, era uma grande brincadeira. Brincar com o brócoli era a mesma coisa que brincar com o mordedor ou com o bichinho de pelúcia. Com a diferença de que, no caso do brócoli, a mamãe deixava engolir, enquanto que os papéis e os pedaços de livro sempre tinham que sair da boca.

Depois veio um momento em que comida virou comida. Algo que aparecia nos momentos de fome. Mas, como entender quando o chororô e o pedido de mamar era fome, sede, sono, chamego? Pois é, a mamada que era fome foi sendo substituída pela comida, por vezes em um timing perfeito, noutras de maneira totalmente equivocada. Mas, de algum modo funcionou para a pequena perceber que haviam outras coisas que também enchiam a pancinha com sabores e cores.

Mas aí a porca torceu o rabo e entramos nesse momento ambíguo. Comer é bom, mas também é não mamar. E não mamar é ficar longe da mamãe. E isso não é fácil pra ninguém, né? Assim, somamos essa angústia existencial a uma bela virose e dois resfriados e entramos no período dos testes. Papinha, que nunca foi muito o forte do cardápio aqui em casa foi totalmente banida e a pequena decidiu que só iria comer se ela mesma pudesse controlar a coisa toda. Um baby led weaning meio tortuoso foi o que deu para fazer: comida em pedaços virou regra, comer com as mãos, escolher o que comeria daquilo que estava sendo oferecido, comer no seu ritmo, na sua quantidade. Angustiante, pois às vezes era apenas arroz, noutros dias só feijão, noutros apenas carne e noutros ainda apenas uma fruta ou outra. E quando eu vinha com o feijão que ela tinha gostado no dia anterior era dia de comer só pão. E quando eu fazia brócoli era dia de comer porpeta… putz!

Eventualmente fomos nos entendendo melhor – o que quer dizer que eu fui aprendendo melhor a decifrar suas comunicações e seus sinais em relação à comida. Agora, vivemos o momento em que por vezes é necessário mamar antes de comer. E por vezes é necessário apenas mamar ao invés de comer outras coisas. O que deixa a mamãe maluca achando que voltamos para a estaca zero. Isso até a pequena comer uma pratada de arroz com feijão descomunal. Sem passar mal depois. Tem dias em que ela come com as mãos, noutros quer ajuda para comer com o garfo ou com a colher, noutros eu mesma posso dar a comida na colher, desde que seja ela a me mostrar o que é para colocar ali dentro. E têm momentos em que é hora de jogar tudo no chão. Ou cuspir. Porque ainda não existem outros meios de dizer que não quer. Ou que chega.

Quando eu era pequena, iam enfiando comida na minha boca até eu vomitar. Isso porque era obrigatório dar uma quantidade específica, de uma comida específica. Tudo indicado pela autoridade no assunto, claro. Que nunca era eu, nem minha mãe. Para nós sobrava o assujeitamento a quem sabia o que e como eu deveria comer. O resultado foi que eu me tornei uma péssima “comedora” durante anos a fio. Anos em que eu não comi manga, nem figo e nem mais uma série de frutas que hoje acho deliciosas. E nem peixe cru. Ou frutos do mar. Ou espinafre. Ou seja, quanto tempo perdido por pressa de fazer comer muito e de tudo, não?

Tenho achado que essa diversificação alimentar é mais um teste de tolerância para os pais, um teste da nossa capacidade de respeitar nossos filhos e o ritmo deles para embarcar nesse mundo novo. Enquanto eles descobrem sabores, nós precisamos descobrir como aguentar nossas ansiedades com tudo aquilo que comida e comer significa para a gente. Para não pesarmos com todas essas expectativas sobre os nossos filhos.

Uma coisa me parece óbvia: toda criança vai comer. Porque criança é curiosa. E criança vê os adultos comendo, vê os pais em torno da mesa colocando coisas em suas bocas, conversando, rindo… As crianças testemunham esses momentos e querem participar. Muito antes dos seis meses, têm muita criança querendo roubar pedaços de comida dos pratos dos pais. Porque parece tão divertido. E é aí que a porca torce o rabo: para que a criança coma “saudável”, não existe jeito mais eficaz do que os pais terem uma dieta equilibrada e variada. Minha filha me vê comendo frutas o dia inteiro. E ela sempre quer experimentar. Claro, quando ela me vê comendo chocolate ela quer também. E como é que fica para explicar que algumas coisas podem e outras não? Uma boa alimentação é aquela em que toda família se alimenta bem. Não funciona você passar o dia comendo chocolate, bolacha recheada e refrigerante e querer que seu filho coma verduras porque ele basicamente vai fazer o que você fizer. Comida não é bom senso, nem é racional e sensata. Ela é aquilo que vivemos, os cheiros e gostos que nos marcam, os encontros com as pessoas. E se a hora das refeições for estressada, na frente da TV ou com gente discutindo, fica difícil querer que os pequenos tenham prazer nisso. Ou que eles comam de maneira diferente.

5 comentários sobre “Comendo e aprendendo

  1. Aqui entrei agora nesse movimento. As papinhas são mais práticas, não vou mentir, mas me esforço muito para diversificar e entregar os alimentos para que ele possa escolher o que comer também. Tem dias que dou frutas cozinhas e amassadas, tem dias que dou elas em pedaços, tem dia que dou uma misturinha de verduras, legumes, e tal amassadinhos, tem dias que dou em pedaços. E ele aceita numa boa, deixo ele meter a mão na papinha, e agora a nova mania dele, é dar pra cachorra comer, o que me faz só deixar ele meter a mão no prato depois que ele come, né. Eu to adorando essa fase, mas quem sente falta de amamentar, eu acho que sou eu hahaha.. porque ele nem pede mais, só à noite, e eu gosto tanto de dar de mamar… tem dias que sinto uma falta danada, mas esse é o movimento da vida.

    1. Jura, Raisa? Nossa, aqui a pequena parece que quer abraçar o mundo, porque quer comer E mamar. Não sei onde cabe tudo isso. Mas também acho lindo e lúdico esse modo deles comerem, essa experimentação. A gente é que tem que lidar com nossos nojinhos e com nossas inquietudes, né? Um abraço, Alessandra.

  2. Uma palavra define: difícil! Do mesmo jeito em que durante semanas eles são “bons de boca”, na outra eles não aceitam nada – a não ser leite artificial ou peito. Por aqui, eu incentivei, estimulei o BLW. Mas eu acho que a minha pequena é tão gulosa (quando está boa de boca), que ela enfia todos os pedacinhos de vez dentro da boca e acaba engasgando. Ou eu coloco um pedaço de cada vez, espero ela mastigar e engolir, ou então ofereço na colher mesmo (que ela gosta também).
    Eu acho que o sucesso vem mesmo do respeito. Aceitar quando não quiser comer, oferecer variedade e dar o exemplo!
    Bjs

    1. Verdade, Naty. O difícil é a gente aguentar esses ritmos de alimentação, né? Porque dá uma preocupação de que elas estejam comendo o suficiente… Agora, fiquei imaginando a Elis toda pimpona comendo tudo de uma vez, deve ser uma fofa… hehehe. Beijocas, Alê.

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